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A assim chamada população excedente

O uso de tecnologia autonomiza cada vez mais a produção capitalista, tornando o trabalhador humano um mero “apêndice vivo” da máquina. Como ele afirma, “na manufatura e no artesanato, o trabalhador se serve da ferramenta; na fábrica, ele serve à máquina. Lá, o movimento do meio de trabalho parte dele; aqui, ao contrário, é ele quem tem de acompanhar o movimento” (MARX, 2013, p. 494). A máquina se torna um “perpetuum mobile industrial” que produz ininterruptamente até se chocar com

“limites naturais inerentes a seus auxiliares humanos” (MARX, 2013, p. 476). A tecnologia dá, dessa forma, possibilidades inauditas de controle da força de trabalho pois ela permite uniformizar ao máximo a produção e evitar desperdícios de tempo, bem

como se torna progressivamente indiferente à massa humana que ela emprega, fazendo com que o capital se revele uma espécie de Leviatã, “simultaneamente autômato e autocrata” (BALIBAR, 2015, p. 84), mas igualmente dependente dos corpos amontoados dos seus “súditos”, já que o trabalho humano ainda é sua única fonte do valor.

É essa lógica que simultaneamente torna o trabalho humano redundante e a qualidade de vida dos “apêndices” humanos cada vez mais desimportante que caracteriza a conversão da violência objetiva em seu “excesso”. É na forma pela qual o capital lida com a população trabalhadora, seja se impondo a venda da força de trabalho como condição de sobrevivência, seja produzindo uma massa humana que só deve existir para o trabalho, que se revela o “despotismo do capital” (MARX, 2013, p. 715).

Não é como se fosse possível preservar uma dominação “regular”, uma exploração aceitável, sem que ela necessariamente se converta em uma obrigação despótica de trabalhar que atinja aqueles que não trabalham porque são redundantes aos olhos do capital. O “excesso” de dominação capitalista é menos um exagero evitável que uma exceção constitutiva de sua lógica.

Essa relação entre norma e excesso da dominação do capital pode ser identificado naquilo que Marx chamou de “lei da população” capitalista. O objetivo de Marx ao propor uma “lei da população” é demonstrar que o “excesso” populacional está diretamente ligado à demanda do capital de uma população trabalhadora que lhe seja correspondente. Não seria possível estabelecer rigidamente um “limite populacional”, como fez Malthus, pois ele estaria ligado diretamente ao nível de produtividade do capital. A variação da demanda do capital é absoluta, segue uma lógica própria, mas a demanda de força de trabalho é relativa, cresce ou diminui a partir daquela. Não é, portanto, a “diminuição no crescimento absoluto ou proporcional da força de trabalho ou da população operária que torna excessivo o capital”, mas o aumento do capital que torna insuficiente a força de trabalho explorável. Da mesma forma, “não é o aumento no crescimento absoluto ou proporcional da força de trabalho ou da população trabalhadora que torna insuficiente o capital, mas, ao contrário, é a diminuição do capital que torna excessiva a força de trabalho explorável” (MARX, 2013, p. 696). A relação entre população e produção, desse modo, deve ser compreendida a partir da relatividade da população em relação ao capital e não como se ambas fossem grandezas absolutas a se incompatibilizar no futuro.

É possível perceber duas tendências em relação à dinâmica populacional que são de certo modo antagônicas na teorização de Marx. De um lado, a lei da população possui uma tendência de integração: um crescimento da população trabalhadora em relação à população total que acontece quando o capital demanda mais trabalhadores para se expandir – comum nos processos de industrialização. De outro, pode-se igualmente perceber uma tendência de desintegração: o crescimento da população trabalhadora “reserva” (desempregada) em relação ao total da população trabalhadora – comum nos processos de automação e desindustrialização. O resultado da soma de ambas as tendências seria a criação de uma “superpopulação relativa”, uma massa de trabalhadores – o assim chamado “exército industrial de reserva” – que apesar de inicialmente integrados no capitalismo (serem força de trabalho potencial), não estão efetivamente empregados, mas à disposição das demandas do capital (MARX, 2013, 704-707).

O exército industrial de reserva é parte necessária da acumulação capitalista.

Como Marx afirma, produzir uma “população excedente relativa, isto é, excedente em relação à necessidade média de valorização do capital, é uma condição vital da indústria moderna” (MARX, 2013, p. 709). Nos períodos de estagnação ou de crise econômica “o exército industrial de reserva pressiona o exército ativo de trabalhadores” (MARX, 2013, p. 714), enquanto que nos períodos de prosperidade e produtividade o mesmo exército de reserva pode ser empregado – até se tornar novamente “excedente”. Assim sendo, a taxa de emprego da população trabalhadora está submetida a violentas flutuações, mas, mais do que isso, está fadada a sempre existir. Eis aí o que pode-se perceber como as “causas estruturais da pobreza” no capitalismo, a produção

“necessária” de um grupo crescente de indivíduos excessivos em relação às demandas do capital. É apenas em um sentido cínico, aliás, que é possível falar em uma população

“supérflua” ou “excedente”: no sentido de uma estrutura social que precisa reproduzir a si mesma por meio da exclusão de parte da população – uma parte que graças a essa

“exclusão relativa” sofre uma exclusão social absoluta (SIBERTIN-BLANC, 2009, p.

85) –, tornando-a uma “população inexplorável” (SIBERTIN-BLANC, 2015, p. 235, grifos no original).

Marx (2013, p. 716-717) apresenta três formas dessa superpopulação relativa:

flutuante, latente e estagnada. A superpopulação flutuante consiste nos trabalhadores desocupados, mas já inseridos nas relações capitalistas. São os trabalhadores que são ora repelidos, ora atraídos pelo capital e que constituem o “mercado de trabalho”. A

superpopulação latente consiste nos trabalhadores que não estão inseridos nas relações capitalistas de trabalho, mas que são potencialmente inseríveis e que, quando inseridos, geralmente o são em condições precárias (MARX, 2013, p. 717-718). Marx dá o exemplo dos trabalhadores rurais que, graças ao êxodo rural resultante do avanço da produção capitalista sobre o campo, engrossaram as fileiras do proletariado, mas o modelo de superpopulação “latente” envolve todos os setores populacionais que não estão diretamente inseridos no processo de produção de valor e que podem vir a ser, a exemplo das mulheres (quando entraram efetivamente no mercado de trabalho), dos povos indígenas (que no processo de colonização passaram a ser obrigados a entrar nas relações capitalistas), dos escravos alforriados (que já “trabalhavam”, mas que agora passam a entrar nas relações mercantis do trabalho abstrato e do valor), etc. Ao entrarem nas relações de trabalho capitalistas, no entanto, estes trabalhadores passam a fazer parte da dança de atração e repulsão da oferta e demanda de trabalho. Por fim, ele apresenta a superpopulação estagnada, que é “parte do exército ativo de trabalhadores, mas com ocupação totalmente irregular” (MARX, 2013, p. 718), que pode ser entendida como o conjunto de trabalhadores precarizados, muitas vezes em uma relação ambígua com a

“forma jurídica” (trabalhadores informais, trabalhadores de ramos ilícitos, trabalhadores domésticos não regulamentados, trabalhadores em situações análogas à escravidão, etc.).

Mas há, ainda, uma “meta-tendência” que permeia essa dialética entre integração e desintegração: a tendência de a tendência desintegradora se sobrepor à tendência integradora em virtude das mudanças na produtividade (MARX, 2013, p. 705-708;

SIBERTIN-BLANC, 2009, p. 7; HEINRICH, 2012, p. 125). Isso se explica porque não há um movimento fluido de um tipo de superpopulação para outro. Nos surtos produtivos ou nas altas demandas de força de trabalho (como a que aconteceu na revolução industrial, ou nos países centrais no pós-guerra), há uma grande passagem da população “latente” à “flutuante” (inserção de populações no mercado de trabalho e expansão da forma mercadoria para diversos espaços da sociedade). Por outro lado, com a progressiva automação e a redução de demanda de força de trabalho, esses trabalhadores não podem simplesmente “retornar” massivamente ao seu estado de latência. As antigas relações sociais em que eles estavam inseridos (relações tradicionais, escravistas, patriarcais, etc.) foram mercantilizadas e agora estão sob o domínio impessoal (mas impiedoso) do capital. Se não tiverem a “sorte” de passarem a ter seus trabalhos legalmente explorados precisarão, para sobreviver, ou passar a

compor a superopopulação estagnada com toda a sua precariedade, ou a engrossar as fileiras das outras “saídas” que o humanismo capitalista encontrou, como o encarceramento e a morte “acidental” em operações securitárias.

É preciso ter em mente que o capital não se preocupa com o bem-estar dos trabalhadores. Ele visa a valorização do valor e impõe essa necessidade como uma lógica social a ser seguida. Mas em sua tendência “antediluviana”, o capital mina as próprias bases de sua valorização, evidenciando que seu funcionamento livre é um projeto suicida. Não é à toa, portanto, que um dos períodos mais prósperos da economia capitalista tenha sido um período com alta regulação econômica, mecanismos de negociação entre capitalistas e classe trabalhadora organizada, salários razoáveis associados a um estímulo de consumo, etc. No período caracterizado como fordismo, os padrões de vida se elevaram, as tendências de crise foram contidas e havia uma razoável garantia de direitos sociais associada a uma democracia de massas (HARVEY, 1992, p.

125) – ainda que seja preciso lembrar que essa “era dourada” do capitalismo industrial tenha dependido de um “lado oculto” do fordismo marcado por ditaduras brutais no

“Sul” do mundo, isso sem mencionar os trabalhadores precarizados que não tiveram acesso pleno às benesses do Estado social, como os trabalhadores negros dos EUA e imigrantes das ex-colônias europeias.

Para que o capitalismo se mantenha, o Estado precisa intervir na dinâmica

“livre” do capital entre integração e desintegração da classe trabalhadora. Para prosperar, o capital depende da “regulação” estatal da “população supranumerária”

(SIBERTIN-BLANC, 2015, p. 236). É por essa razão que Gavin Walker propõe que o

“Estado de bem-estar” não deve ser visto como uma forma específica assumida pelo Estado capitalista no pós-guerra, mas como uma estrutura necessária para suprir essa insuficiência constitutiva do capital: produzir e garantir uma corporeidade viva, dócil e apta ao trabalho. Como ele diz, bem-estar não se refere somente “a ‘cuidar’ ou ‘fazer viver’ – ele concerne sequências inteiras de questões que estão relacionadas à corporeidade e ao estado físico dos trabalhadores. Bem-estar é simplesmente o nome do controle, manutenção e disciplina do corpo” (WALKER, 2016, p. 449). O bem-estar também é necessário ao lidar com os indivíduos que não estão integrados na força de trabalho: como ele afirma, o “segundo braço” do bem-estar é manter os “grupos de não- trabalhadores na sociedade” (WALKER, 2016, p. 440), seja pela seguridade social, seja pelas políticas de segurança penal. Essa tarefa de “bem-estar” do Estado é a forma pela qual ele lida com a dialética de integração e desintegração da população trabalhadora,

seja garantindo um mínimo de condições de subsistência, regulando a exploração capitalista, estimulando o consumo, seja simplesmente se desfazendo dos seus elementos “desviantes”.