Como Marx afirma, a dupla liberdade da força de trabalho não é um fato “natural”, ao contrário, “a natureza não produz possuidores de dinheiro e de mercadorias, de um lado, e simples possuidores de suas próprias forças de trabalho, de outro (MARX, 2013, p.
244). Essa condição só foi possível graças a um processo histórico que literalmente produziu trabalhadores livres de um lado e proprietários de dinheiro de outro, um processo que se utilizou dos mais diversos métodos, inclusive – e talvez principalmente – da violência. A dupla liberdade, portanto, não só depende de uma “violência subjetiva” que a assegure em seu duplo aspecto, um tipo de coerção extraeconômica que garanta tanto a despossessão como a autonomia, a liberdade e a igualdade, mas de uma violência que a ponha de pé originalmente e permita que, então, as relações capitalistas funcionem sobre suas próprias bases (MARX, 2013, p. 786). Nesse sentido é preciso portanto analisar como se dá a “fundação” dessa relação contraditória no próprio processo de fundação do capitalismo, uma análise do período de transição que revela uma espécie de “violência primitiva” do Estado.
Marx mostra como para que a acumulação capitalista “pacífica” possa ter um funcionamento “normal” foi antes preciso fundar os seus pressupostos e isso muitas vezes teve um caráter violento e “excepcional”8
Não é claro, no entanto, que para Marx essa “acumulação primitiva” tenha se encerrado em um processo histórico pontual. Na verdade, como ele afirma sobre a teoria de Wakefield, o processo de colonização revela não algo novo sobre as colônias, ele revela nas colônias “a verdade sobre as relações capitalistas da metrópole” (MARX, 2013, p. 836). Se Schmitt propôs que “a exceção revela o mais claramente possível a essência da autoridade estatal” (2006, p. 14), o mesmo parece ser confirmado por Marx a respeito do capitalismo: o processo violento, excepcional, “antiliberal” que produziu as condições de funcionamento normal revelam a sua verdade brutal. Apesar de ambos pressuporem um pano de fundo “normal”, “regular”, “pacífico”, são nesses momentos críticos que é possível vislumbrar sua dimensão mais fundamental. Desse modo, se a acumulação primitiva revela a “verdade” do capitalismo, como disse Marx, não é razoável, afirmar que ela desaparece quando a acumulação regular se torna a “regra”.
. Ele vai apresentar dois casos exemplares: a formação do capitalismo inglês (que por meio da legislação e da ação estatal alterou drasticamente as relações de propriedade produzindo uma massa de camponeses disponíveis para o trabalho) e a teoria da colonização de Wakefield (que constatou a necessidade de haver uma classe trabalhadora nas colônias para expandir o capitalismo). Em ambos os casos ele apresenta que se os pressupostos da acumulação capitalista não surgem naturalmente, eles precisam ser criados. Um desses pressupostos é a separação do trabalhador dos meios de produção, das condições do seu próprio trabalho, estabelecendo o pressuposto material para que a acumulação capitalista se sustentasse posteriormente sob suas próprias bases, ou seja, para que o trabalhador fosse
“pacificamente” compelido a vender sua força de trabalho (MARX, 2013, p. 786;
JAMESON, 2011, p. 75).
“como um pássaro”, é usado por Marx no sentido de livre mas “fora” da comunidade humana e, portanto, inteiramente desprotegido e sem direitos legais. Como Arne de Boever descobriu, “vogelfrei”
significava, no tempo em que Marx escreveu, “livre da servidão feudal” e “sem direitos, sem proteção legal, fora da lei”. A escolha de Marx portanto contém em si a “dupla liberdade” que caracteriza, de acordo com ele, a situação do trabalhador no capitalismo. Boever ainda liga essa ideia ao conceito de bando de Giorgio Agamben. De acordo com ele, “parece que, para Marx, o proletariado é uma figura de abandono legal e político” (BOEVER, 2009, p. 264).
8 Como lembra Paulo Arantes, “a reinvenção liberal do estado de sítio como figura constitucional da irrupção do poder soberano de exceção é rigorosamente contemporânea do processo não menos coercitivo da conversão da força de trabalho em mercadoria” (2014b, p. 318).
A esse respeito, é famosa a proposta teórica de Rosa Luxemburg. Para ela, a acumulação primitiva e a acumulação não deveriam ser entendidas como duas etapas da acumulação, mas como duas formas complementares e mutuamente dependentes de acumulação9
Na perspectiva de Luxemburg, contudo, as duas formas apesar de complementares seriam de algum modo excludentes, ainda que a acumulação
“primitiva” seja a contraface necessária da acumulação propriamente capitalista ao manter a divisão entre proprietários de dinheiro e populações despossuídas – condição absoluta para a relação de capital que precisa ser constantemente atualizada. Aqui reside uma contradição fundamental, no entanto. É preciso reconhecer a diferença entre a violência extraeconômica exercida no processo fundacional das relações capitalistas e a violência que persiste existindo em sua dinâmica, isto é, a relação entre a violência objetiva do capital, a “coerção muda exercida pelas relações econômicas” que “sela o domínio do capitalista sobre o trabalhador” (MARX, 2013, p. 808), e a violência subjetiva do Estado, a “violência extraeconômica, direta”, que ainda se faz necessária ainda que “apenas excepcionalmente” (MARX, 2013, p. 808-809). A compreensão dessa passagem da violência de Estado pré-capitalista para a violência de Estado
“propriamente” capitalista, a permanência distorcida de uma na outra, é chave para entender seu papel na dinâmica atual. Só isso permitirá compreender o ambíguo papel de fundador e garantidor da forma jurídica realizado pela violência estatal.
: a primeira é um “processo puramente econômico” que envolve produção de valor e a relação trabalho-capital; na segunda, “força, fraude, opressão, saques são abertamente utilizados sem nenhuma tentativa de conciliação” (LUXEMBURG, 2013, p. 432). A primeira se dá dentro do capitalismo, a segunda caracteriza os meios pelos quais se dá a relação entre capitalismo e modos de produção não capitalistas. A violência e outros meios extraeconômicos de acumulação, portanto, se revelariam necessários tanto para lidar com as formas não capitalistas de sociedade que persistem de formas contraditória no capitalismo, como para reproduzir a relação entre proprietários e não-proprietários dos meios de subsistência em situações típicas do capitalismo avançado.
Marx deixa claro que a acumulação primitiva dependeu da violência ilegal do Estado para vir a existir: “[todos os métodos de acumulação capitalista] lançaram mão
9 David Harvey argumenta na mesma linha quando diz que é preciso compreender a continuidade da acumulação capitalista no que ele chama de “acumulação por despossessão”, que envolveria formas contemporâneas de produção de despossuídos como as privatizações, a propriedade intelectual, o endividamento privado, etc. (HARVEY, 2004)
do poder do Estado, da violência concentrada e organizada da sociedade, para impulsionar artificialmente o processo de transformação do modo de produção feudal em capitalista” (2013, p. 821). Mas mais do que isso, Marx apresenta como de algum modo essa violência foi aos poucos se “legalizando”. A assim chamada acumulação primitiva aconteceu, primeiramente, escreveu ele, “sem formalidades legais”, “sem a mínima observância da etiqueta legal” (MARX, 2013, p. 795), mas depois se deu de forma oposta: o direito ele mesmo se tornou “o veículo do roubo das terras do povo”
(MARX, 2013, p. 796; BOEVER, 2009, p. 265). É como se a violência assumisse sua forma legal no capitalismo – o que dá outro tom interpretativo à ideia de que “o direito do mais forte subsiste sob outra forma em seu ‘Estado de direito’” (MARX, 2011b, p.
43). A passagem da violência “fundadora” do capitalismo à violência necessária para mantê-lo permite compreender esse processo de regularização da violência, de institucionalização de um processo que inicialmente é principal e aos poucos passa a se tornar subsidiário.