Uma mercadoria possui valor porque nela está objetivado trabalho abstrato. Mas como medir a grandeza de seu valor, sua quantidade? Marx responde que é por meio da quantidade da “substância formadora de valor”, isto é, pela quantidade de trabalho (abstrato) nele contida. A única forma de medir o trabalho é pelo seu tempo de duração (MARX, 2013, p. 116). Como visto, o trabalho cujo tempo de duração se mede é o trabalho abstrato, isto é, o trabalho abstraído da sua particularidade em virtude da relação social de valor. Esse tempo de duração não se identifica ao tempo efetivamente despendido para a produção de determinada mercadoria, mas com o tempo “social”. É o
“tempo de trabalho socialmente necessário”, isto é, aquele “requerido para produzir um valor de uso qualquer sob as condições normais para uma dada sociedade e com o grau social médio de destreza e intensidade do trabalho” (MARX, 2013, p. 117). O tempo de trabalho válido para a geração de valor depende diretamente, portanto, do grau de produtividade, tecnologia, habilidade médios de dada sociedade ou ramo de produção, e não do tempo de trabalho efetivamente realizado. Trata-se de um tempo de trabalho
“indiferente”, genérico, que pode ser somado, subtraído, substituído, equiparado. É possível comparar tempos de trabalhos concretos como se compara quantidades de produtos de trabalho, como quando se diz que se tem mais maçãs do que pêras, mas uma maçã não é substituível por uma pêra, elas são qualitativamente distintas, bem como os trabalhos necessários para produzi-las (ELSON, 1979, p. 138).
Somente no sistema capitalista baseado na produção mercantil que a simples duração temporal pode se tornar critério para avaliação e comparação de atividades qualitativamente incomparáveis. Mas se o tempo de trabalho socialmente necessário não é o tempo efetivamente gasto para produzir determinada mercadoria, surge então o problema de sua medição, já que um relógio não seria suficiente por se tratar de um tempo que não é contável em um processo isolado. A resposta deve começar pelo caminho inverso: se o trabalho abstrato constitui o valor das mercadorias, então o quantum de valor das mercadorias revela o quantum de trabalho abstrato realizado
naquela mercadoria. Quando duas mercadorias (fruto de trabalhos concretos qualitativamente distintos dentro de uma divisão social do trabalho) são trocadas, isso significa que há uma equiparação entre os trabalhos concretos despendidos em ambas as mercadorias. A troca valida socialmente o tempo de trabalho executado tornando-o trabalho social. Da mesma forma, nessa troca são equivalidas suas grandezas de valor, suas quantidades mensuráveis de “trabalho abstrato”.
O trabalho abstrato (a dimensão abstrata do trabalho concreto que se revela no processo em que este se torna trabalho socialmente útil) demanda que a mercadoria se efetive como valor de uso, que o seu trabalho concreto seja confirmado como parte da divisão social do trabalho. Essa é uma contradição característica da sociedade capitalista, em que o trabalho não é imediatamente e conscientemente social na própria produção: ele precisa passar pela mediação da troca, pela validação social do mercado, para ser reconhecido como trabalho social. No entanto, uma descoberta fundamental de Marx é que essa validação social do trabalho privado só pode acontecer “pela metamorfose com uma mercadoria em que o trabalho despendido na produção conta como imediatamente social” (BELLOFIORE; RIVA, 2015, p. 30-31). Essa mercadoria é o equivalente universal: o dinheiro. Somente a projeção do valor no dinheiro como valor de troca universalizável e sua efetiva realização na compra e na venda estabelece quantitativamente a necessidade social do trabalho realizado em determinada mercadoria (BELLOFIORE; RIVA, 2015, p. 30-31). A teoria do valor de Marx, portanto, deve ser compreendida como uma teoria monetária do valor: “sem a forma valor, mercadorias não podem se relacionar entre si como valores, e somente com a forma-dinheiro pode existir uma forma de valor adequada” (HEINRICH, 2012, p. 63- 64).
Como afirmou Marx, “as mercadorias possuem uma forma de valor em comum que contrasta do modo mais evidente com as variegadas formas naturais que apresentam seus valores de uso: a forma-dinheiro” (MARX, 2013, p. 125). A forma-dinheiro para Marx é a forma que uma mercadoria assume quando ela se torna o equivalente geral socialmente reconhecido, quando todas os valores de uso produzidos projetam nela seu valor de troca e, por essa razão, se relacionam como valores. A forma de equivalente que o equivalente geral assume é a forma de permutabilidade direta de uma mercadoria por outra (MARX, 2013, p. 132). Se você possui em mãos o equivalente geral, você pode trocar essa quantidade por qualquer mercadoria que contenha em si a mesma quantidade de valor, a mesma quantidade de trabalho abstrato, a mesma proporção de
trabalho social representada no dinheiro que se tem em mãos. Uma mercadoria só ganha essa expressão universal porque todas as outras expressam seu valor nela como equivalente universal e cada novo tipo de mercadoria que surge tem de fazer o mesmo.
O dinheiro, portanto, possui uma validação social que independe dos indivíduos isolados. Eu não posso individualmente proclamar a minha mercadoria como equivalente geral. Como afirma Chris Arthur, “alguém pode tomar o ferro como o equivalente universal, e todas as equações estão formalmente corretas, mas as trocas correspondentes a elas não vão ocorrer a não ser que o ferro seja realmente o equivalente universal, isto é, a mercadoria dinheiro” (1979, p. 79). A forma-dinheiro precisa ser uma “forma socialmente válida” (MARX, 2013, p. 142), precisa ser socialmente estabelecida enquanto tal.
A forma-dinheiro “é apenas o reflexo, concentrado numa única mercadoria, das relações de todas as outras mercadorias” (MARX, 2013, p. 164) e é graças a ela que todas as mercadorias podem aparecer como qualitativamente iguais, como valores em geral, e como quantitativamente comparáveis, por suas grandezas de valor (MARX, 2013, p. 142). A expressão do valor de uma mercadoria na mercadoria que assume a forma-dinheiro é o que Marx apresenta como sendo a forma-preço (MARX, 2013, p.
145). O preço de uma mercadoria, quando ele se realiza em uma venda, atesta de modo universal o tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-la, relaciona o trabalho concreto despendido nessa mercadoria com o trabalho abstrato da sociedade, valida a concretude material da mercadoria em termos sociais abstratos. É somente por conta da forma-dinheiro que a equivalência das mercadorias deixa de ser um acordo mútuo entre dois portadores de mercadorias que atestam uma equivalência precária particular para se tornar uma forma social generalizada. Se duas coisas são vendidas no mercado pelo mesmo preço, ambas já são equivalentes, pois ambas representam o mesmo valor. Não é a troca, como ato individual, que torna duas coisas equivalentes, mas a permutabilidade do dinheiro que permite dizer que com uma determinada quantia monetária é possível comprar tanto uma quantidade tal de uma mercadoria como da outra, mesmo que uma não tenha sido efetivamente trocada com a outra (ARTHUR, 1979, p. 71).
O preço (como representação do valor), no entanto, precisa ser realizado enquanto tal para que exerça esse papel de validação social. Quando uma mercadoria é produzida, seu produtor estipula um preço para ela, mas esse preço, estimado, ideal, ainda não cumpre esse papel de mediação social, afinal, “a estimativa do valor de modo
algum é a mesma coisa que a existência do valor” (HEINRICH, 2012, p. 55). Não é à toa que Marx descreve a passagem desse nível ideal do preço ao mercado como o “salto mortale da mercadoria” – com o detalhe de que, quando dá errado, “não é a mercadoria que se esborracha, mas seu possuidor” (2013, p. 180). A venda é o momento da “prova”
do valor idealmente estipulado. Da mesma forma, não basta questionar individualmente o preço de determinada mercadoria com base em um suposto cálculo lógico de valor baseado em um “tempo de trabalho socialmente necessário” racionalmente construído: o preço precisa ser pago para adquirir a mercadoria. A relação entre preço e valor nunca é de representação exata, mas é justamente essa não identidade que permite a variação de preços necessária ao funcionamento do mercado.
Com o dinheiro, a contradição interna entre valor de uso e valor, mediada pela forma mercadoria, é representada por meio de uma contradição externa, pela relação entre as mercadorias (cujo valor deve ser expressado) e o dinheiro (no qual o valor é expressado), uma coisa que corporifica o próprio valor de troca de todas as mercadorias (MARX, 2013, p. 137). O valor é algo “puramente social” (HEINRICH, 2012, p. 59), uma relação social específica, mas no capitalismo ele assume a enigmática forma de uma coisa, de algo tangível, tocável, acumulável: o dinheiro. Essa “objetividade do valor” não é uma propriedade inerente de nenhuma mercadoria individual, mas uma característica social das relações entre as mercadorias (e seus respectivos trabalhos concretos) que assume uma forma objetiva, “coisal”, na forma do equivalente geral (HEINRICH, 2012, p. 60). Dessa forma, o caráter social do valor se expressa em uma forma social específica assumida por uma coisa: “o valor e a grandeza do valor – que não são realmente propriedades de uma mercadoria individual – podem, agora, com a ajuda do equivalente geral, serem expressos de forma que pareçam ser simples propriedades de mercadorias individuais” (HEINRICH, 2012, p. 61). O dinheiro é uma
“coisa abstrata” por mais paradoxal que isso possa parecer, uma “abstração existente”, que possui efeitos nada abstratos na sociedade, afinal, por mais delirante que seja, é preciso desse pedaço de papel timbrado para que se possa ter acesso a bens de consumo, mesmo os mais elementares à sobrevivência (SOHN-RETHEL, 1978, p. 19;
BACKHAUS, 1992, p. 83).