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A Catequese

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA (páginas 37-41)

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CAPÍTULO III

38 batizados, nem receberam a primeira eucaristia na idade recomendada pela igreja e tampouco fizeram crisma.

A respeito da educação de crianças e jovens na igreja católica, Lúcia, coordenadora da catequese da igreja Bom Jesus dos milagres, explicou que o serviço na igreja católica é importante para manter a adesão no cristianismo, na juventude e durante a toda vida. A educadora explicou que na fase adulta a pessoa pode se vincular a ações com as quais tenha maior inclinação dentro da igreja, tais como grupos de oração, missão evangelizadora, liturgia durante a missa e celebrações, pastoral familiar, dentre outras.

O que eu busco é que eles sempre estejam sempre engajados dentro da igreja com algum papel, com algum serviço. Por que se nós deixarmos nossos jovens soltos, tipo assim fez a primeira eucaristia e depois não faz mais nada, esse jovem não vai retornar, essa criança que tá saindo agora não vai retornar, então a gente precisa cativar com que ele continue, porque na caminhada dele ele vai lá na frente ele vai encontrar, se identificar com o grupo de jovens, com a pastoral familiar, alguma pastoral ele vai se identificar e vai continuar na igreja.

Em visita realizada à igreja Bom Jesus dos Milagres, cheguei à tarde, por volta das 14:15.

Tanto a igreja quanto a escola aonde as crianças vão para a catequese estavam fechadas.

Perguntei a uma senhora se ela tinha visto Lúcia e ela disse que a catequista tinha vindo pela manhã, não estava mais na igreja. Resolvi entrar na secretaria e aguardei o responsável atender uma idosa, logo em seguida perguntei sobre as atividades na catequese, ele pediu que eu esperasse, pois logo começaria.

Uma das catequistas apareceu com algumas crianças e abriu o portão da escola, me aproximei e disse meu objetivo ali. Enquanto isso chegavam algumas mulheres maduras, aparentando ter entre trinta e quarenta anos, a maioria negra. Elas deixavam suas crianças com a catequista, chamada Fernanda. Pergunto se posso assistir à catequese na sala com as crianças e ela concorda prontamente.

A sala era clara, bem ventilada, com carteiras de madeira em bom estado, exceto por alguns rabiscos. A aula deveria ter começado às 15 horas, mas ficamos esperando mais alunos chegarem, enquanto isso as crianças conversavam entre si, contavam suas idades umas para as outras. Eram ao todo nove crianças, cinco meninas e quatro meninos, dois dos quais são autistas e sobrinhos de uma das professoras, um deles era muito agitado, o outro mais

39 quieto, observava tudo ao seu redor e às vezes levantava da cadeira onde estava para olhar além da janela (atrás da igreja tem outras casas e um pouco de mato). Os alunos aparentam ter entre 7 e 10 anos de idade

Antes do início da aula a professora fez uma oração junto com as crianças, pedindo orientação ao menino Jesus, paz. Fizemos o Pai Nosso, a Ave Maria e a oração do Santo Anjo do Senhor. No chão perto das carteiras das crianças, repousava uma imagem esculpida do Menino Deus deitado num tecido amarelo.

Quatro Evangelhos foram trabalhados nas aulas anteriores, então Fernanda utilizou o Evangelho de São Mateus, por considerá-lo um apóstolo prático na escrita e de fácil compreensão para as crianças. A professora pediu às crianças para pegarem a Bíblia, lê-la e contemplar, refletir sobre a Anunciação do Anjo Gabriel à Maria e sobre o Natal.

Solicitou, então, que uma das crianças lesse o trecho do evangelho sobre a Anunciação.

A catequista falou sobre o contexto social do período de Jesus - explicou para as crianças que uma mulher jovem como Maria, ao engravidar antes do casamento, seria muito malvista pelas pessoas. São José então a protegeu e ela recebeu a visita de um anjo do Senhor para ajudá-los. Fernanda destacou a importância de Cristo ao dizer que os estudiosos destacaram o seu nascimento e a morte ao longo da história. Contou para as crianças que o Natal é uma época de esperança e perdão. A igreja deve preparar este momento pois o Senhor nos reserva oportunidades boas.

Professora Fernanda mostrou cartões de presente para cada criança escrever uma mensagem e dar ao seu amigo. As crianças se entretiveram por vinte minutos escrevendo no cartão, enquanto a professora preparava bilhetinhos com os nomes dos alunos para o amigo secreto. As crianças cochichavam, as meninas mais velhas davam sinais de impaciência mexendo nos cabelos, provocam umas às outras.

A brincadeira de amigo secreto começou e algumas crianças ficaram tímidas com a minha presença na sala, outras pareceram gostar da oportunidade de se expressar e se mostraram mais alegres, animadas. A professora Fernanda explicou que essa dinâmica de conhecimento era melhor do que WhatsApp e e-mail, para desejar uma mensagem de paz.

Entendi que seu objetivo era mostrar que a experiência lúdica do amigo secreto, com a presença física de pessoas olhando umas para outras trazia mais proximidade e carinho do que as interações e desejo de felicitações on-line, modernas e banalizadas atualmente.

Ao final da aula a educadora convidou a todos para sentarem em círculo ao redor do menino Jesus, olhar para o menino Deus e lembrar algum colega que pareceu triste ou precisando

40 de paz. Com a aproximação dos festejos natalinos (estávamos em novembro) a professora optou por falar não só da natividade de Cristo, mas lembrou brevemente de sua morte na Cruz, para recordar o sacrifício máximo feito pela salvação da humanidade.

A imagem do menino Deus traz paz, porque o bom Jesus fez muitas coisas boas às pessoas. Ele ser levado e crucificado foi a melhor coisa que ele fez por nós!

As crianças, então, falaram um pouco sobre suas famílias, compartilharam situações em que se machucaram ou caíram. A catequista contou das brincadeiras que aprendeu durante a infância, gude, bola, por causa da convivência com os meninos e conta que depois aprendeu a brincar de boneca. Falou sobre o menino Jesus, que mesmo brincando e se ferindo, não deixou de ser santo e quando cresceu cumpriu sua missão porque amava as pessoas. Dessa forma, ela lembrou às crianças que, assim como o menino Jesus, elas podiam brincar, ser crianças, mas que deviam ser boas, tendo Cristo como referência.

Fernanda, ao final, disse que as crianças poderiam ter faltado à aula, pois era um dia de sol, ou porque estavam cansadas, mas tinham vindo para a aula. Os que faltaram hoje perderam uma oportunidade de aprender. Ao final da aula todos se reuniram em oração pedindo a Jesus que olhasse por aqueles que precisavam de misericórdia e por aqueles que não tinham amor no coração. Pediram também que Jesus os iluminassem para fazer as provas finais.

A professora então liberou os alunos, que alegres, saíram da sala conversando entre si se juntando às outras crianças no corredor.

No dia 13 de julho de 2019 fui assistir a uma aula da catequese à tarde com o grupo

“Perseverança”, ministrada por professora Lúcia. A turma tinha onze crianças, meninos, meninas que aparentavam ter entre seis e 13 anos. Logo quando cheguei, as crianças reagiram, principalmente as meninas. Sentei no fundo da sala para observar as reações das crianças às falas de Lúcia. As garotas estavam dispersas e conversavam entre si, olhavam para minha direção, mexendo no cabelo. Logo começaram a pentear os cabelos umas das outras com as mãos, até que a professora chamou atenção. Devido ao ruído das crianças nas outras salas e corredores, Lúcia decidiu mudar de sala.

Para captar atenção dos alunos, Lúcia colocou uma pequena caixa de som acoplada a um smartphone com acesso ao Youtube na mesa e uma música sobre o Espírito de Deus começou a tocar. À medida que a melodia se espalhava pela sala, as crianças se calavam e ficavam mais concentradas no que ouviam. O som falava acerca da orientação de Deus, consolação, libertação na vida humana. Ao final da música, Lúcia explicou que Deus criou

41 o planeta e tudo o que é belo e só depois fez a oração inicial: Todos rezaram um Pai Nosso e uma Ave Maria, em seguida a professora destacou a promessa de Jesus na morte – Ele enviará o Espírito Santo às pessoas para ajudá-las.

Mais uma música, dessa vez sobre Deus e seu amor. As crianças prestaram mais atenção, algumas até fazendo gestos, imitando os instrumentos musicais. Com o término da música, Lúcia explicou que Deus olha para os nossos corações e não os nossos pecados. Um dos garotos, ao ouvir isto afirmou que quando pecamos Deus chora e isso é que provoca as chuvas.

Espalhando vários papéis recortados no chão, Lúcia organizou as crianças em círculo e pediu que olhassem as palavras nos papéis: Povo de Deus, Pecado, Oração e então iniciou uma atividade na qual os alunos formaram duplas ou trios. Se puseram a ler um versículo do livro Gênesis e relacionar o que leram com uma das palavras espalhadas no chão. As crianças realizaram a atividade, quietas e depois escutavam a catequista dar as explicações sobre as passagens que falavam sobre a importância da oração, do pecado de Eva e do povo de Deus.

A turma tinha alguns alunos já no início da adolescência, os quais, próximo ao encerramento da aula pareciam extremamente tímidos ao levantar e fazer as orações finais.

Os mais novos estavam divididos entre a introspecção e o desejo de chamar um pouco de atenção para si, lembro que Lúcia precisou de chamar atenção de um menino bastante risonho e expressivo que não prestava atenção nas atividades e desviava o foco dos demais alunos. A expressão normalmente tranquila da catequista assim como sua voz soou mais rigorosa e após a reprimenda, o garoto se calou, ainda com um sorriso no rosto.

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA (páginas 37-41)