2.1 As crianças nas definições políticas do MST
2.1.5 A Ciranda Infantil no IV Congresso do MST no ano de 2000
luta pela terra no MST, proporciona espaço importante de debate, estudo a partir das e experiências educativas que dá significação na formação das crianças do campo.
Para a professora e educadora Edna Rossetto80, coordenadora da Ciranda nesse período,
a partir do IV Congresso, já se previa a Ciranda, pois já se sabia que teria participação das mães e iriam trazer os filhos. As mães começaram a criar confiança em deixar as crianças na Ciranda, confiar que o Movimento estava se preocupando com os filhos delas, criou confiança na mãe militante, dirigente, mas também na mãe que está lá no assentamento que participa do seu cotidiano. É a partir do IV Congresso que a gente vê que a Ciranda entra na agenda do Movimento como um todo. A partir do IV Congresso que a gente faz aquele debate do que significa essa infância para o Movimento. [...] A Ciranda teve momentos bem significativos. Essa Ciranda começou a mostrar para o Movimento a possibilidade de organizar as cirandas nos assentamentos e acampamentos. Mesmo com infraestrutura precária que tinha no IV Congresso, a gente conseguiu fazer um trabalho muito bonito com essa Ciranda. A entrada das crianças na plenária foi uma coisa muito linda. As crianças presentearam com os seus desenhos a direção nacional que estava tomando posse naquele período e foi muito bonito, muito significativo. Cada pai, cada mãe ficaram muito orgulhosos de ver suas crianças entregando a sua produção para os dirigentes, se comprometendo junto com os dirigentes. A partir daí, a gente conseguiu colocar realmente as Cirandas Infantis no debate do Movimento Sem Terra.
Como descreve Rossetto (2020) sobre a Ciranda Infantil no IV Congresso, as crianças ganham presença no debate político e organizativo do conjunto do MST, dá segurança para as mães, se fazendo presente nas diversas atividades do Movimento.
Em 2005, o MST realizou a Marcha Nacional pela Reforma Agrária com o objetivo de debater a reforma agrária com a sociedade e pautá-la no governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010). Nessa marcha, em que participaram 12 mil pessoas, dentre estas, 140 crianças Sem Terrinha, a infância teve como marco principal a reflexão sobre o seu lugar na organização Sem Terra. Num percurso de 200 km, de Goiânia a Brasília, em duas semanas de caminhada, a Ciranda Infantil e Escola Itinerante “Pé no chão”, foi o lugar de atuação e participação das crianças do MST. A primeira voltada às crianças para educação infantil e a Itinerante para as crianças em idade escolar.
Nesse contexto de luta afloraram-se as contradições e as questões sobre o trato com as crianças do campo. Mesmo o MST defendendo uma educação libertadora, não significa que sua base social tenha consciência desse projeto, pois a formação e conscientização exigem um processo permanente de politização, reflexão e avaliação nas comunidades.
A marcha permite que o conjunto do MST constate – provocados pela realidade das condições visíveis de desestruturação das famílias, em particular as crianças, e nos espaços voltados a ela – a situação de vulnerabilidade que muitas delas enfrentam, mesmo estando ela e sua família no Movimento. Nos documentos internos de avaliação do MST, encontramos alguns relatos sobre as crianças na Marcha Nacional:
80 Depoimento cedido em 8 de setembro de 2020, via WhatsApp.
Algumas crianças não tinham, sequer, um chinelo para pôr em seus pés.
Vamos culpar os pais por isso? Não. Mas nosso Movimento não pode deixar de perceber algo tão triste. Quando nos agrupávamos durante a madrugada à espera da marcha sair para entrarmos nos ônibus, não era fácil perceber na grama fria e molhada, os pesinhos de criança com apenas três anos de idade “enrrugadinhos” de frio, sem calçado. Fizemos o possível para resolver alguns desses problemas. Mas a reflexão é: se cada estado tem sua organicidade, temos que perceber essas coisas nos pequenos grupos não de uma forma assistencialista, mas de uma forma reflexiva, algo que nos faça crescer juntos para humanização de nossos companheiros e companheiras.
O dia a dia da Ciranda e da Escola mostrou que “apesar da dura vida”, a criança brinca, chora, briga, grita, abraça, beija… são essas as manifestações que nos enchem de esperança, pois são expressões que mostram a criança em processo de resistência e de luta. (MST, 2005, documento Interno, s/n).
A partir das reflexões da Marcha Nacional, ocasionada pelas contradições do trato do adulto (pai e mãe) com a criança, questões são colocadas no debate nacional e aprofundadas nas seguintes instâncias: Coletivo Nacional de Educação e Coordenação Nacional do Movimento, ambos coletivos que dirigem o MST a nível nacional.
Esse processo coloca as crianças da/na luta pela terra, ocupando o debate e reflexão nacional, resultando entre outras ações, na realização do I Seminário Nacional: O Lugar da Infância Sem Terra no MST. Desta maneira, as contradições vividas na marcha sobre a infância provocaram a organização a colocar como questões centrais os cuidados e a educação das crianças nos assentamentos e acampamentos, aprofundando o debate coletivo do projeto educativo para a infância no MST, além de discutir as contradições de classe, o caminho para a conscientização e mudanças na construção do lugar da infância no MST.
O Seminário aconteceu entre os dias 9 e 11 de maio de 2007, na Escola Nacional Florestan Fernandes – ENFF e teve a presença de todos os setores do Movimento, com 79 participantes dos estados brasileiros onde o MST está organizado (MST. 2017. p. 123).
Esse encontro retoma e reflete sobre a presença permanente das crianças na luta pela terra e no MST. Nas ocupações, as situações enfrentadas pelas crianças e seus familiares revelam que as condições objetivas não as permitem acessarem os direitos básicos da chamada “cidadania”. Para o MST (2017, p. 123), “as crianças emergem como problemática quando os corpos das mulheres começam a ocupar os espaços institucionais (cursos, reuniões e mobilizações) do Movimento”. Existe uma materialidade concreta das crianças nos espaços do MST, seja nas escolas, nas cirandas, nos estudos sobre a infância, nos setores do MST, no acampamento e assentamento, nos parques infantis entre outros espaços. No Seminário se reafirma que as crianças Sem Terrinha estão em todos os espaços do MST, são sujeitos históricos, participativos e de direitos e, portanto, devem estar em todos os espaços políticos do Movimento.
O Seminário coloca como desafios os estudos: da criança como sujeito participativo;
de gênero, rediscutindo os papéis sócio-histórico de homens e mulheres; da família, no sentido da superação da família burguesa; do trabalho como princípio educativo e da produção da vida; dos direitos da infância. (Idem, p. 125).
Na sequência desse seminário, começa a Oficina de preparação das coordenadoras/es da Ciranda Infantil e Escola Itinerante Paulo Freire para o V Congresso do MST. Foram cinco dias de estudo e planejamento com 50 coordenadoras/es, para pensar e organizar o espaço em preparação a Ciranda que receberia mais de 1000 crianças em Brasília.
As preparações para os congressos do MST são de intensas mobilizações, desde a base social, com a sociedade, as articulações e relações políticas e com as organizações populares.
A Ciranda Infantil demarca a gestação de um instrumento político, uma novidade no cenário nacional e internacional, marcando a presença de forma organizada das crianças e ampliando a participação das mulheres Sem Terra no MST.
O Movimento Sem Terra, atua como educador do sujeito coletivo e que nos limites da sociedade de classe, enfretam as contradições presente nas práticas das famílias acampadas e assentadas, fazendo o debate e reconhecendo que na luta de classes, estas contradições devem ser tratadas de forma crítica e com ações concretas para as mudanças e transformações sociais.