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A construção do Encontro

No documento Márcia Mara Ramos (páginas 196-200)

A decisão política em realizar o 1° Encontro Nacional das Crianças Sem Terrinha tem na sua grandiosidade a construção de um processo, em meio a muitos acontecimentos, numa

148 Canção “Eu vivo num tempo de guerra”. Composição: Edú Lobo / Gianfrancesco Guarnieri. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=_1S_7wKdCV0

149 Disponível em: https://www.letras.mus.br/mario-lago/cancao-do-nao-tempo-de-lua/

conjuntura de golpe, de conflitos que ocorreram no processo de sua preparação, como acampamentos e escolas queimados pelo latifúndio no Pará, assentamentos que sofreram pulverização aérea de agrotóxicos pelo agronegócio, dos assassinatos de lideranças Sem Terra e o próprio adiamento do Encontro, devido à greve dos caminhoneiros no mês de maio de 2018, é, de certa forma, difícil de descrever.

Dos ataques públicos, através das redes sociais da mídia burguesa e do atual presidente incentivando a violência em sua campanha eleitoral, considerando o encontro Sem Terrinha uma espécie de “doutrinação para guerrilha” e acusando o MST de usar as crianças e doutrinando-as com ideias do socialismo/comunismo, de “Paulo Freire” e do “marxismo”. A declarada criminalização ao MST, denominando-o como movimento terrorista, tem relação com o cenário de complexidade e avanço do movimento ultraconservador no Brasil e na América Latina.

O contexto de criminalização no campo não se restringe às crianças do MST, mas também às crianças indígenas, quilombolas, posseiras, atingidas por barragens, entre outras que são violentadas pelo latifúndio e agro-minero-negócio na disputa por territórios. Da imposição de uma agricultura e minerais como commodities, da não demarcação das terras indígenas e quilombolas e não desapropriação de áreas para fins de reforma agrária, as crianças do campo vivem em um território de conflitualidade, assim como as crianças da cidade que vivenciam a violência de Estado, principalmente as crianças de favelas e periferias.

Em minhas memórias, lembro como hoje o primeiro momento em que começamos a falar do Encontro Nacional das Crianças Sem Terrinha. Foi no final do II ENERA, em setembro de 2015, com o grupo que ficou no espaço, numa confraternização animada, cheia de mística e com o sentimento de tarefa cumprida.

Numa conversa informal, surge uma primeira provocação ao grupo de coordenação do Setor de Educação, na proposição de organizar uma minuta para discutir o assunto com o conjunto do MST. No grupo que estava presente na confraternização, contávamos com representantes dos estados do Pará, Maranhão, Pernambuco, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Rio Grande do Norte, e informalmente, inicia-se um processo de consulta provocado por Maria Raimunda, do estado do Pará, e por mim. Dessa provocação, na semana seguinte, precisamente no dia 28 de setembro de 2015, uma mensagem com um pequeno texto, tímido, foi enviada, por e-mail, para o grupo de coordenação do Setor de Educação, mas não teve resposta. Em princípio, acreditava-se que não seria possível. O fato era que o coletivo não respondeu no momento, mas estavam matutando, pensando caminhos… E nesse caminhar, o assunto foi ganhando uma dimensão ampla, chegando aos ouvidos das crianças,

dos educadores, gerando tristeza para algumas crianças que já estavam entrando na adolescência, portanto, não poderiam participar, e felicidades para outras crianças que já sonhavam com a viagem para-Brasília.

Em maio de 2016, com a realização da reunião da Executiva do Setor de Educação, no debate sobre o Encontro Nacional das Crianças, ficou indicado a elaboração de uma minuta introdutória. A proposta inicial tinha como pretensão ser pautada nesse mesmo mês, na reunião da Direção Nacional – DN. Mas como, ainda não tinha um desenho mais organizado da proposta do Encontro, se fez o debate inicial na Executiva do setor para ser pautada na reunião seguinte da DN.

O ano de 2016 foi de intensas articulações e motivações para projeção do Encontro Nacional. Além das motivações internas, à convite do presidente, o educador ativista Fábio Paes, do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA, naquele período, as crianças Sem Terrinha participaram da plenária da Xª Conferência do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. Foram mais de sete mil pessoas participando das Conferências Conjuntas de Direitos Humanos, por políticas públicas150, sendo elas: LGBT, dos idosos, das pessoas com deficiência, da criança e do adolescente e a conferência de direitos humanos.

A Conferência ocorreu em Brasília, no Centro Internacional de Convenções do Brasil, nos dias 24 a 27 de abril de 2016, sendo um espaço importante para as crianças Sem Terrinha entenderem um pouco de como se configurava a conjuntura do país. A mesa de abertura contou com Guilherme Boulos (candidato à presidência da República em 2018 pelo Partido Socialismo e Liberdade – PSOL), que trouxe questões sociais e agravantes do contexto conjuntural, o que permitiu observar as divergências de classe começando a ressoar na plenária, quando se ouvia comentários de alguns no sentido de desqualificar a fala de militante político de esquerda. Desta forma, todos os dias foi preciso reafirmar o lugar do popular e da participação de crianças e adolescentes na X Conferência do CONANDA.

As conferências ocorreram ao meio de tensão, conspirações conservadoras, tentando, de todas as formas, desmobilizar e boicotar as mesmas, causando caos… Desde os hotéis, que não comportavam os/as participantes; ônibus superlotados; sem comida suficiente para todas as pessoas no primeiro dia; e sem uma programação de atividades noturnas para as crianças e adolescentes. As crianças, ressignificar a programação, elas mesmas criaram suas atividades, brincando pelos corredores e elevadores do hotel, o que certamente para a maioria, os

150 Disponível em: http://flacso.org.br/files/2016/08/revista_conferindo-min.pdf. Acesso em: dezembro de 2020.

elevadores eram novidades e que gerou desaprovação dos “defensores” da criança e do adolescente. Cenário difícil, mas real.

Quatro meses depois, em 31 de agosto de 2016, foi declarado pela ordem hegemônica do capital, o impeachment da primeira mulher Presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, assumindo a presidência o interino Michel Temer. Período em que se amplia o debate sobre o a realização do 1° Encontro Nacional das Crianças Sem Terrinha no MST, gestando uma proposta metodológica para a realização da atividade.

Foram muitos os debates para finalizar a primeira proposta. Várias questões foram levantadas sobre realização do encontro nas reuniões da Executiva e do Coletivo Nacional de Educação, problematizando e pensando nas condições objetivas da realização de um encontro dessa natureza. Afinal, o quadro conjuntural na América Latina, com a particularidade do Brasil, era de avanço constante das forças ultraconservadoras.

As questões levantadas exigiam argumentos no campo político pedagógico, por se tratar de um encontro nacional com crianças. Perguntas que surgiam desde as práticas concretas da organização dos estados, como exemplo: por que realizar um encontro nacional se nos estados a prática das mobilizações infantis é permanente, desde os encontros Sem Terrinha, a luta por escolas? Muitos argumentavam sobre a dificuldade das famílias permitirem o deslocamento das crianças para Brasília. Havia dúvidas se um encontro com essa natureza seria um marco histórico no processo de organização das crianças Sem Terra, pois se não fosse para organizar as crianças, não tinha sentido realizá-lo. Foi com esse debate que iniciamos a construção da proposta de organização do 1° Encontro Nacional.

Os questionamentos foram sendo respondidos na medida em que os argumentos traziam elementos que confrontavam as perguntas. Pois, considerando os exemplos dos trabalhos realizados com as crianças nos estados e em nível nacional, se via uma capacidade organizativa para a realização desse encontro, com referência nas duas últimas Cirandas Infantis Paulo Freire, no V e VI Congresso do MST, em que estiveram presentes entre 700 a 1000 crianças; as Cirandas das Marchas Nacionais e Estaduais; as Jornadas Sem Terrinha nos estados, onde Pernambuco e Paraná já mobilizaram nas mesmas cerca de 1000 a 2500 crianças. Ou seja, elementos para afirmar a capacidade de realizar um encontro dessa natureza existiam e muito. Mas como seria um encontro nacional? Teria as mesmas características das atividades dos estados? Quais possibilidades de financiamento? Que entraves apareceria no contexto de organização? Estas foram algumas das questões necessárias para pensar e dar prosseguimento à ação.

4.1.1 A metodologia de trabalho adotada com as crianças

No documento Márcia Mara Ramos (páginas 196-200)