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A COMPLEXIDADE DO UNIVERSO

O PENSAMENTO COMPLEXO-TRANSDISCIPLINAR

1.2 A MUDANÇA DE PARADIGMAS

1.3.1 A COMPLEXIDADE DO UNIVERSO

47 1.3O PENSAMENTO COMPLEXO

No racionalismo moderno, com René Descartes, os grandes sistemas filosóficos e com as ideias mecanicistas de Isaac Newton, a ciência pensou que detinha a verdade absoluta, mas, de meados do século XX em diante, passou a ser mais modesta. A postura moderada da ciência é devida ao fato de ter, hoje, uma nova compreensão do universo como composto por sistemas interativos e interligados. A própria palavra “uni-verso” sugere uma unidade a partir do diverso, não em um mecanismo rigidamente determinado, desencantado e sem vida, mas algo cheio de criatividade e de virtualidades. O universo não é fabricação de coisas prontas.

Antes, é um campo aberto com dinamismo interno e com potencialidades imanentes de criatividade.

O “princípio de indeterminação”, descoberto pelo físico alemão Werner Heisenberg, revolucionou nossa percepção do universo: “O universo não é feito por coisas, mas por redes de energia vibracional, emergindo de algo ainda mais profundo e sutil”.70 Com o surgimento do universo, irrompeu simultaneamente o espaço-tempo como movimento da flutuação das energias e da expansão da matéria dentro de um processo continuamente aberto que permite a manifestação das redes de energia e dos seres.71 O estado natural do universo não é a estabilidade, mas a mudança:

[...] Um universo que se expande, ao expandir-se se complexifica, ao complexificar-se se interioriza e ao interiorizar-se mais e mais adquire subjetividade e consciência. Portanto, um universo que começa, que muda e que evolui, possui consequentemente uma história. Essa história pode ser contada em suas várias fases de desenvolvimento. É o que fazem hoje a Cosmologia, a Astrofísica, a Física Quântica e a Biologia Evolutiva.72

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que marcam o “princípio cosmogênico”73 do universo. Sem complexidade, interiorização e inter-relacionalidade, o universo não teria o dinamismo das singularidades, como afirma o cosmólogo Brian Swimme:

Se não houvesse a complexidade (diferenciação), o universo se fundiria numa massa homogênea; se não houvesse a interiorização (subjetividade) o universo se tornaria uma extensão inerte e morta; se não houvesse a inter- relacionalidade (comunhão), o universo se transformaria num número de singularidades isoladas.74

Assim, a evolução é marcada por forças primordiais, criando complexidades, ordens estruturadas e conexões ilimitadas. Diferente da concepção originária a partir de mutações acidentais, o universo se mantém pelo poder do princípio cosmogênico em que o que sobrevive é o que cria mais conexões, e não o mais forte.

Para o pensamento complexo, as relações são fundamentais. O universo é visto como uma teia dinâmica de eventos inter-relacionados com uma rede de relações entre as várias partes de um todo unificado. O universo aparece como um “complicado tecido de eventos, no qual conexões de diferentes tipos se alternam, se sobrepõem ou se combinam e, por meio disso, determinam a textura do todo”.75 Frijof Capra mostra como esse pensamento representou uma profunda revolução na compreensão do pensamento científico ocidental em oposição ao pensamento analítico cartesiano:

O grande impacto que adveio com a ciência do século XX foi a percepção de que os sistemas não podem ser entendidos pela análise. As propriedades das partes não são propriedades intrínsecas, mas só podem ser entendidas dentro do contexto do todo mais amplo. Desse modo, a relação entre as partes e o todo foi revertida. Na abordagem sistêmica, as propriedades das partes podem ser entendidas apenas a partir da organização do todo. Em consequência disso, o pensamento sistêmico concentra-se não entre blocos de construção básicos, mas em princípios de organização básicos. O pensamento sistêmico é “conceitual”, o que é oposto do pensamento analítico. A análise significa isolar alguma coisa a fim de entendê-la; o

73 Para Leonardo Boff, inspirado em Teilhard de Chardin, não se deveria falar em cosmologia, mas em cosmogênese. Isto é, a gênese permanente do universo. A cosmogênese possui três características que expressam a sua dinâmica interna: 1. Complexificação. Também conhecida como “diferenciação”, trata do processo complexo e crescente de todos os seres. 2. Interiorização ou subjetividade. À medida que os seres se complexificam criam interiorização capaz de se relacionarem entre si. 3. Inter- relacionalidade ou conectividade. O universo é feito do conjunto das redes de relação entre todos, fazendo com que todos sejam interdependentes. Cf. BOFF, Leonardo. Op.cit. p.182.

74 SWIMM, Brian; BERRY, Thomas. The Universe Story:From the Primordial Flaring Forth to the Ecozoic Era. A Celebration of the Unfolding of the Cosmos. São Francisco: San Francisco Harper, 1992. p.387.

75 HEISENBERG, Werner apud CAPRA, Frijof. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix, 2006. p.42.

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pensamento sistêmico significa colocá-la no contexto de um todo mais amplo.76

No pensamento complexo, ou sistêmico, o todo não é a soma das partes. É diferente.

As propriedades de um sistema vivo são propriedades do todo, que nenhuma das partes possui. Elas surgem quando há interações e relações entre as partes. Dissecar tal sistema é provocar o isolamento de todo o sistema gerando a sua destruição e consequentemente a sua morte.

A compreensão de que os sistemas são totalidades integradas em constante conexão provocou mudanças não só na física e na biologia, mas em todas as áreas do saber, inclusive, na teologia. A composição entre os campos do saber e a integração entre o conjuntos de seus próprios sistemas permitem uma visão, não totalizante, mas mais apurada da realidade. Não podemos decompor o mundo em unidades elementares a fim de compreender um todo unificado que é fruto de relações complexas entre as partes.

Heinseberg nos faz ver que, no universo, a incerteza quântica não se faz presente apenas nas partículas subatômicas, mas nos seres humanos também. Astrofísicos da atualidade dizem que somos “pó de estrelas”. A matéria, energia condensada, segundo a física quântica, que compõe nossos corpos foi formada por processos ocorridos em estrelas distantes, já desaparecidas. Somos seres formados de pó de estrelas, planetas, plantas, animais, seres humanos, rochas, solo, mar e atmosfera inter-relacionados.

O segundo axioma da termodinâmica afirma que no universo não é possível a destruição de energia. O que acontece é a sua transformação, nunca a sua destruição. Essa lei da natureza vale também para o ser humano. A antropologia contemporânea diz que o ser humano é um ser multidimensional, e tudo o que acontece a este ser acontece a ele em todas as suas dimensões. O paradigma da modernidade racionalista não foi capaz de perceber a dimensão mais profunda do ser humano: a afetividade. Centrada no logos, o saber racionalista não viu no pathos uma dimensão fundamental do ser humano; repreendeu a inteligência afetiva. Leonardo Boff enfatiza o quanto o enlouquecimento da razão negligenciou o lado afetivo do ser humano:

A causa principal do enlouquecimento da razão se deve à sua absolutização e à repressão sistemática da inteligência emocional, afetiva e cordial. Alegava- se que esta obscurecia a objetividade do conhecimento. Ocorre que a própria ciência recente, a partir da Física Quântica e da nova Cosmologia, deu-se conta de que todo conhecimento vem impregnado de sentimentos e de elementos da subjetividade pessoal e social [...] Nós, humanos, somos

76 CAPRA, Frijof. Op. cit. p.41.

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mamíferos afetivos. O mais profundo em nós é a capacidade de sentir, de cuidar e de amar. Aqui se encontra o lastro que sustenta os valores e todo o edifício ético [...].77

Não se deve negar a razão em nome da afetividade. Não há aqui uma relação de ou isso ou aquilo. Não se trata de disjunção, mas de conjunção. Graças à razão, podemos organizar o nosso mundo. Mas a razão pode e deve ser enriquecida com a razão cordial e afetiva. É por causa da afetividade que nos sensibilizamos à gravidade das crises atuais.

Frei Betto assinala para os efeitos negativos do racionalismo iluminista quando, na compreensão do mundo e do humano, as universidades baniram do seu meio a subjetividade por ser considerada irracional e intolerante. Em nome da objetividade científica, inúmeros cientistas foram taxados de hereges e tiveram o seu pensamento tolhido em nome da hegemonia do saber.78

Ainda hoje vivemos as contradições de uma ciência que se diz aberta, pluridisciplinar, mas que não vê com simpatia o conhecimento oriundo de experiências de vivência simbólica:

No Ocidente, as universidades continuam fechadas a métodos de conhecimento e vivência simbólica como a intuição, a premonição, a astrologia, o tarô, o I Ching e, no caso da América Latina, às religiões e aos ritos e mitos de origem indígena e africana. Tais “superstições” são ignoradas pelos currículos acadêmicos, embora haja professores e alunos que frequentam terreiros e mães-de-santo e consultam as cartas do Zodíaco e os búzios. [...] A pluridisciplinaridade, rumo à epistemologia holística, permanece como desafio e meta.79

Na área teológica, a história testemunha o quanto foi danoso para a teologia a separação entre o lado afetivo da fé e o conhecimento conceitual. Desde Alta Idade Média, no Ocidente, passando pelas suposições intelectuais nascidas do Iluminismo e que ainda permeiam alguns círculos teológicos, a separação da teologia da experiência humana empobrece o labor teológico e o afasta do mundo e do humano. As tentativas de falar sobre nosso entendimento de Deus (teologia) e o esforço para viver à luz desse entendimento (espiritualidade) não podem ser apartados. Isso seria uma simplificação da teologia. Uma teologia a partir da complexidade está fundamentada na vivência espiritual. É teologia viva que precisa ser vivida exatamente tanto quanto precisa ser estudada e aplicada. Voltaremos melhor a este assunto no terceiro capítulo.

Se o universo é, assim, interligado, se o ser humano é um ser multidimensional, como podemos pensar em explicar o universo, o ser humano, o real, de forma isolada, com um

77 BOFF, Leonardo. Espírito Santo: fogo interior, doador da vida e Pai dos pobres. Petrópolis: Vozes, p.38.

78 BETTO, Frei. A obra do artista: uma visão holística do universo. 7.ed. São Paulo: Ática, 2008. p.96.

79 Idem, p.97.

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único método de uma única ciência? Após séculos de hegemonia racionalista, como pensar o mundo e o humano numa intricada rede de relações que faz com que todos sejam interdependentes? O paradigma fixista da modernidade dá conta da complexidade e dinamismo dos tempos atuais?