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A cosmogonia e teodiceia valentinianas

B. A “escola valentiniana”

3.2 A cosmogonia e teodiceia valentinianas

Ireneu relata que há várias versões do mito cosmogônico valentiniano4, dentre os quais os dois mais conhecidos são denominados Sistema A e Sistema B5.

O mito na versão A começa com uma descrição do Pleroma, a Totalidade, ou “plenitude do mundo divino transcendente”. No pré-princípio de tudo (Proto-Arché) está um Deus totalmente transcendente e incognoscível, a unidade Primordial, o Inefável, a Transcendência Absoluta, que é, ao mesmo tempo, Não-Ser e Ser não sendo, denominado Proto-Pai (Propator ou Archéton)6. Dele, pensamento voltado para si mesmo, em profundidade abissal são

3 Marcelo de Ancira (ca 285-374), em sua obra Sobre a Santa Igreja, 9, cita uma suposta obra de Valentino, denominada Perí ton trión physeón (Sobre as três naturezas), afirmando que ele foi o primeiro a “imaginar a noção de três entidades subsistentes (hipóstases). [...] Pois ele inventou a noção de três entidades subsistentes e três pessoas – pai, filho e espírito santo”. À exceção do título, não se tem mais notícia dessa obra, a qual deveria tratar da estrutura do universo espiritual, de forma tripartida. Tal concepção era comum entre os gnósticos e os platônicos de seu tempo (a especulação filosófica platônica, já desde o século II da EC, postulava um trio de hipóstases). Não se pode comprovar se os termos “entidade subsistente (hipóstase)”, “pessoa” e “pai, filho, espírito santo”, tenham sido, de fato, usados por Valentino (LAYTON, 2002, p. 275-276).

4 AH I, 11-21. Uma versão paralela desse mito encontra-se nos trechos atribuídos a Teódoto: Trechos de Teódoto.

Outra versão, semelhante em muitos pontos, mas muito danificada, devido ao estado do manuscrito, é oferecida pela Exposição Valentiniana (NHC XI,2).

5 HOLZHAUSEN, 2006, p. 1148-1150.

6 Piñero e Montserrat explicitam, como já referido anteriormente, que os três princípios valentinianos, genericamente chamados de “pai” (princípio e origem de tudo), “filho” (todo o Pleroma) e “espírito santo”

(divindade extrapleromática e princípio do universo) são concebidos como “verdadeiros sujeitos substanciais ou hipóstases” (PIÑERO; MONTSERRAT, 2018, p. 55-56). O primeiro princípio, totalmente transcendente, inclusive no seio do pleroma, é chamado de Deus e Pai. Neste primeiro princípio se encontra uma “disposição comunicativa” em virtude da qual se origina o segundo princípio, por geração ou emanação: “O Pai é uma

emanadas trinta Eternidades (Aeons) que se articulam em sizígias7: Oito (Ogdôade), Dez (Década) e Doze (Dodécada) Éons. Na origem de tudo está o Proto-Pai, em total concentração sobre si mesmo, e, diferentemente do Deus do Antigo Testamento, que cria pela Palavra (Logos), no Silêncio absoluto (Syghé) ele emite a Proto-Sizígia Abismo (Bytos) e Pensamento (Ennóia), da qual se originam Mente (Nous) e Verdade (Aletheia), que constituem a tétrada original, a partir da qual surgem, por sua vez, as Sizígias Superiores: a Palavra (Logos) e a Vida (Zoé), o Homem (Anthropos) e a Igreja (Ekklesia), que constituem a Ogdôada8. Aqui está o arquétipo do Cosmos e da Humanidade, com o Homem arquetípico, um ser andrógino Ele-Ela, ao mesmo tempo masculino e feminino, a mais elevada emanação de Deus que a Ele se assemelha. Em algumas escolas gnósticas, aparecem como o arquétipo da humanidade: Adão e Eva celestiais.

Num primeiro momento, Mente-Verdade emana a sizígia Palavra-Vida e, num segundo momento, emana também outra sizígia, Cristo (Christos) e Espírito Santo (Pneuma Hágion).

Esta sizígia está intimamente unida à Ogdôade Suprema, que representa em sua multiplicidade o conjunto do mundo divino, o Uno, o Alpha, o Alef, na plenitude da Suprema Década9. Assim, a Forma do Pleroma é o Anthropos primordial, como Homem Celeste e a sua consorte é a Ekklesía, Igreja Celeste, cuja Luz e Espírito é o Cristo, a sua Vida é o Logos, o seu centro é o Pensamento, a sua Lei é o Amor e tudo isso é, em sua insondável realidade, Deus.

unidade. Mas não é um indivíduo solitário. De outra maneira, como poderia ser pai?” (Tratado Tripartido 51,9- 14); “Quando quis, o Primeiro Pai se revelou nele” (Exposição Valentiniana 24,26-27). Os escritos valentinianos de Nag Hammadi apresentam o modelo generativo, persistindo nas metáforas sexuais clássicas tal como as transmitem os heresiólogos. Raramente aparecem evocações de uma “mãe” transcendente: “Ele habita na Díada e na Sizígia, e sua companheira é o Silêncio” (Exposição Valentiniana 22,25-27).

7 Sizígia: do grego clássico σύζυγος (syzygos: “ligados pelo mesmo jugo”) é o termo utilizado em astronomia para designar o alinhamento de três corpos celestes pertencentes a um mesmo sistema gravitacional formando uma configuração retilínea. No gnosticismo tem uma função importantíssima no seio do pleroma e na antropologia, a ponto de se poder falar de uma “lei da sizígia” ou “princípio da androginia”. Na psicologia de C. G. Jung refere- se à conciliação dos opostos, conciliatio oppositorum em sua complexa teoria do processo de individuação, o mysterium coniunctionis; ver: JUNG, C. G. Mysterium coniunctionis. Os componentes da coniunctio; Paradoxa;

As personificações dos opostos. Petrópolis: Vozes, 2015. (Obras Completas, 14/1).

8 Ireneu atribui essa sequência de Éons a Valentino (AH I,11,1), que estão na base da Exposição Valentiniana (NHC XI,2), na qual se narra que dos 30 Éons do Pleroma procedem outros 100 e 360 Éons. No mundo material, essa profusão de Éons de luz, que podem ser identificados com as miríades angélicas, terá sua contrapartida nos Arcontes das trevas, os demônios.

9 Percebem-se aqui ressonâncias da especulação numérica pitagórica. O Dez significa a unidade no seu perfeito desenvolvimento, pois representa ao mesmo tempo o Um e o Dez. No próprio mundo intradivino reside o protótipo da unidade e multiplicidade perfeita. Se ao 10 somarmos o 1 considerado em si mesmo o Ser e Fonte dos Éons, temos o 11, que indica a oposição da Unidade à Unidade, ou seja, o número 2 que, no alfabeto hebraico, corresponde à letra Beth – casa – entendida nesse sentido como Casa de Deus. Às 11 Hipóstases ou Éons maiores se juntam os 22 Éons menores, resultado da soma da Década com a Dodécada (10+12), formando assim o 33, símbolo da Perfeitíssima Harmonia, o Perfeitíssimo Equilíbrio, a Perfeitíssima Plenitude Divina, o Santíssimo Pleroma, que terá no Jesus terreno sua equivalência transitória (FIORINI, 2018, p. 33-35).

Os 22 Éons restantes se organizam aos pares, em sizígias inferiores, com nomes emprestados de conceitos filosóficos e virtudes cristãs. Assim, a Década secundária, originada de Palavra e Vida constitui-se de Abismo (Bytos) e Relação (Mixis), Invelhecível (Aghératos) e União (Énosis), Auto-Produto (Autopyes) e Satisfação (Hedoné), Imóvel (Akinetos) e Mistura (Synkrasis), Unigênito (Monoguenés) e Felicidade (Makaría). A Dodécada, é, por sua vez, emanada de Homem e Igreja, com os pares Intercessor (Parakletós) e Fé (Pistis), Paterno (Patrikós) e Esperança (Elpís), Prudência (Aeinous) e Inteligência (Synesis), Orador (Ekklesiástikos) e Bem-Aventurança (Mekaridés) e, por fim, Desejado (Théletos) e Sabedoria (Sophia)10.

Só a Mente (Nous) conhece o Pró-Pater, que a impede de compartilhar seu conhecimento com todos os outros Éons. Está em jogo a misteriosa dinâmica da vida intradivina pela qual o conhecimento só será adquirido através do desejo que leva a buscá-lo11. Os Éons, também, antes de conhecerem o Pai, experimentam uma fase de ignorância, ou melhor, de conhecimento não realizado, que devem reconhecer como tal, porque só assim surgirá o desejo de buscar o desconhecido12.

O mundo divino passa, então, por uma espécie de crise: para que o conhecimento se manifeste, ele deve primeiro experimentar a ausência de conhecimento. Essa ausência explica o surgimento do mal e do mundo, pois a falta de conhecimento leva a movimentos desordenados, que, em seu desenvolvimento posterior, produzirão o substrato material do mundo. Aqui se insinua o caráter tenebroso do cosmos, fruto da falta de conhecimento (ignorância) e, portanto, como um lugar estranho e ameaçador: no mundo material o homem jamais encontrará a Deus, pelo contrário, ele o aprisiona e o impede sequer de desejar conhecer, vivendo numa situação de torpor, inconsciência, estranhamento. A restauração do mundo divino levará à dissolução do cosmos, como veremos mais adiante. O que é notável sobre essa

10 Há um estudo de Carl Jung que estuda o Aion Cristo como símbolo da totalidade universal, que reúne em si todas as características arquetípicas do mundo divino, concentradas no movimento psíquico da coletividade cristã, que representa, de certa forma, a própria humanidade: JUNG, C. G. Aion: estudos sobre o simbolismo do si mesmo. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2015. (Obras Completas, 9/2).

11 Subjaz aqui o princípio platônico de que o ato de conhecimento deve surgir da consciência da ignorância anterior e do desejo de superá-la (os conceitos de “desejo” e “busca” são encontrados, por exemplo, em Platão, Mênon 84c). Quem já acredita que sabe não buscará e, portanto, nunca chegará ao conhecimento. Esta abordagem epistemológica é usada nesse mito para descrever a dinâmica intradivina no Pleroma.

12 “Eram uma coisa extraordinária: estavam no Pai e não o conheciam, pois não podiam compreender nem conhecer aquele dentro do qual se encontravam” (Evangelho da Verdade 22,27-33). Os dois sujeitos de atribuições são a Mente (conhecedor do primeiro Princípio) e a Palavra (desprovido deste conhecimento). Mas o desejo positivo de conhecer é atribuído ao Pleroma em todo seu conjunto: “O inteiro sistema dos Éons experimenta um amor e um desejo pelo perfeito e completo descobrimento do Pai, e nisto consiste sua união indissolúvel” (Tratado Tripartido 71,8-12).

solução da questão de por que existe o mal no mundo (teodicéia) está no fato de que a ignorância tem sua origem no plano divino e é expressamente desejada pelo Deus incognoscível. A partir daqui se entende, pois, o significado profundo da gnose, enquanto conhecimento salvífico da verdadeira realidade espiritual e, portanto, do próprio ser humano.

Há um momento em que essa crise se agudiza e se torna um ponto de inflexão dentro do Pleroma: Sophia (Sabedoria) se separa de seu companheiro Théletos (Desejado) e busca com desenfreada paixão (tolma) conhecer o Pai das profundezas13. A sua busca assume uma forma não desejada por Deus, pois, junto com a ignorância provocada pelo Pai, havia o perigo de uma falsa busca14. Então Sophia é detida por uma barreira, o Limite (Hóros) emanado no seio do Pleroma, que protege o acesso ao Pai. Sua Intenção (Enthymesis) e sua Paixão (Pathos) são expulsas do Pleroma. Enthymesis banida torna-se, como Sophia extrapleromática, exterior, ou Mãe, a atriz decisiva dos eventos subsequentes. Desdobra-se o drama de Sophia, um dos temas mais característicos e originais da gnose valentiniana15.

Hóros é identificado com a Cruz celestial e sua ação é entendida como uma crucificação.

Dessa forma, o evento da redenção cristã já ocorre arquetipicamente no Pleroma: é, ao mesmo tempo, um ato de conhecimento e uma separação de tudo aquilo que não pertence ao mundo divino. No mesmo instante entram em ação o Cristo e o Espírito Santo, responsáveis por conduzir os outros Éons ao conhecimento de acordo com a ordem pleromática16.

13 “Aconteceu a um dos Éons tentar abarcar a incompreensibilidade... uma vez que é um Logos da unidade, é um, ainda que não proceda do consentimento das Totalidades” (Tratado Tripartido 75,17-24). Com as progressivas emanações, ocorre um distanciamento dos Éons em relação à sua fonte originária. Há uma tensão no mundo divino Emanação-Reintegração: a força emanativa que produz novos Éons e o desejo dos Éons de se unirem mais intimamente à sua origem. Esse desejo espiritual, tensão criativa em perfeito equilíbrio atinge o clímax em Sophia, e explode numa força descontrolada: o desejo de unir-se ao Archéton foi mais forte que a lei da emanação na harmonia da sizígia Théletos-Sophia (FIORINI, 2018, p. 36). Tal decisão é um ato livre e, mesmo que correspondesse à vontade do Pai, supunha uma degradação e, por isso, o Pai e as Totalidades se separaram dele.

14 A partir deste momento, o Tratado Tripartido utiliza expressões pejorativas contidas no Evangelho da Verdade:

esquecimento, ignorância, deficiência. Sophia representa a forma “científica” da busca de Deus, que tenta apreendê-lo objetivamente, racionalmente, sem perceber que o Pai é incompreensível. Na figura de Sophia, o mito se distancia das escolas filosóficas que, na visão de Valentino, trilhavam um caminho equivocado, pois ignoravam a divindade transcendente do Pai.

15 Segundo G. C. Stead, no valentinianismo estão presentes ao menos cinco concepções diversas de Sophia: 1.

Sophia como partner perfeita de Deus; 2. Sophia como fonte essencial da matéria, do mal e da morte; 3. Sophia que cai e deixa o mundo celeste, mas que depois é perdoada e de novo é nele readmitida; 4. Sophia que peca e que depois é perdoada, sem jamais deixar o pleroma; 5. Sophia inferior, que permanece fora do pleroma, mesmo perdoada e espera de lá ser readmitida (STEAD, G. C. The Valentinian Myth of Sophia. The Journal of Theological Studies. New Series, Oxford, v. 20, n. 1, p. 75-104, apr. 1969 apud COULIANO, I. P. I miti dei dualismi occidentali. Dai sistemi gnostici al mondo moderno. 2a ed. Milano: Jaca Book, 2018. p. 111).

16 O Salvador, segundo o Tratado Tripartido, é um produto dos Éons. No Evangelho da Verdade, a figura do Salvador transparece como a figura de Jesus. De acordo com a explicação de Piñero e Montserrat, o terceiro princípio encontra-se fora do Pleroma e recebe o nome de Achamot (Evangelho de Filipe 60,10-15) e os nomes próprios de Logos (Tratado Tripartido), Sabedoria (Exposição Valentiniana e Evangelho de Filipe) e Espírito Santo (Evangelho de Filipe). A função específica do terceiro princípio é a criação do universo, incluídos os seres racionais. Não se trata já de uma geração, mas de um ato que relaciona uma causa com um efeito: “O Logos

No seio do Pleroma ocorre uma recomposição, uma espécie de “história da salvação divina” que corrige, através de um julgamento e ação justificadora, o “pecado” de Sophia. No entanto, as consequências dessa desgraça são avassaladoras, pois as emoções desequilibradas de Sophia têm algo de divino, e sua força criadora não ficará inativa. Essa “história salvífica intradivina” é, por sua vez, uma espécie de arquétipo da salvação que ocorrerá no mundo material. Tal relato fantástico é uma marca própria do mito valentiniano, que é narrado de maneira sempre renovada e criativa, como veremos agora no outro Sistema, como acenado anteriormente, e que fornece mais detalhes na articulação da cosmogonia com a antropologia e a soteriologia.

Na versão B, o Deus abscôndito existe sozinho, sem um parceiro feminino17. O Pai, que está sozinho em si mesmo, emana primeiro a “Díade”, a primeira dualidade de um par de Éons (Nous e Alétheia), da qual procedem 13 pares de Éons, dos quais Sophia, o 28º Éon, tomada de uma paixão exagerada, quer dar à luz como o Pai, sem o concurso de seu companheiro, Théletos.

No entanto, o resultado é uma criação amorfa, uma espécie de aborto18. Em sua profunda solidão, Sophia passa por um estado de Temor, Remorso, Dúvida e Súplica, que compromete todo o Pleroma. O Temor produziu a essência psíquica, o Remorso a essência material ou hílica, a Dúvida a essência elementar ou demoníaca, e a Súplica a brecha do caminho ascendente, ou de direita, que conduz ao Arrependimento e à Redenção.

Os Éons então se voltam suplicantes para o Pai, que emana de suas entranhas, por meio da Díade suprema, outros dois Éons, Cristo e o Espírito Santo (Christos e Pneuma Hághion), os quais completam o número 30 e removem o aborto de Sophia (Achamot) 19. Esse ser gerado por Sophia, sem o concurso do Éon masculino, não fica, de toda forma, completamente abandonado, e precisa, de alguma forma, ser completado pelo Redentor, assim como tudo o que é terrestre e cósmico é considerado disforme e deve ser formado novamente pelo conhecimento de Cristo. Subjaz a essa elaboração uma doutrina platônica em que a substância tem um caráter feminino e a forma um caráter masculino. Sophia-Achamot, purificada de suas paixões, se

(inferior) se estabeleceu... como princípio fundamental, causa e governante das coisas do devir” (Tratado Tripartido 96,17-19). A Exposição Valentiniana atribui a criação a Jesus enquanto cônjuge da Sabedoria (Exposição Valentiniana 35,28ss).

17 AH I,2,3-6; Os valentinianos, segundo Hipólito, estavam divididos sobre a questão de se o Deus supremo deve ou não ser pensado com um elemento feminino ao lado dele (Refutação VI, 29, 3; Exposição Valentiniana, NHC XI, 2,22,23-37).

18 Exposição Valentiniana, NHC XI,2.

19 A exegese valentiniana dá uma interpretação bíblica dos éons pleromáticos, parafraseando os Evangelhos canônicos: os 30 Éons representam os 30 anos da vida de Jesus terreno.

transforma em Sophia exterior, unindo-se ao seu Éon Jesus, constituindo-se assim tal sizígia, na perfeição do mundo exterior, a segunda Ogdôade20.

A “história da salvação” no reino superior se repete em um nível médio no destino da Sophia exterior. No Sistema A ela se encontrava fora do Pleroma e foi formada quanto à sua existência, mas não quanto ao conhecimento. No Sistema B, ela também percebeu sua condição de exílio do Pleroma e sentiu saudade do divino, e voltando-se suplicante ao Pleroma, conseguiu, por assim dizer, o apoio dos outros Éons, dentre os quais veio lhe dar o conhecimento o Cristo, e o desapego de suas emoções, consolando-a com seu consorte, Jesus21. No entanto, a força desordenada de suas emoções, Temor, Remorso, Dúvida e Súplica constituíram o Isterema, ou Deficiência, Grande Ilusão, e daí surgiu a Matéria, Hylé, do mundo sensível, cuja dimensão inferior é o Mundo da Psykhé ou Alma, também denominado Hebdômada, composto de sete esferas opacas, os sete Planetas Psíquicos22, identificados com os sete Arcontes, sob a autoridade do Grande Arconte ou Demiurgo, o criador do mundo material. Ele é filho da Sophia exterior, nascido da primeira de suas paixões, o Temor23. Por desconhecer a sua verdadeira origem, ele se considera o único Deus, “fora do qual não existe outro”, também denominado o Grande Arrogante e sua arrogância se reflete nos Arcontes por ele criados, cada qual querendo criar seu mundo particular, gerando a grande confusão e ilusão que é o mundo material, com uma ordem aparente24. A força divina de Sophia continua nele e,

20 O sistema valentiniano desenvolve numa narrativa mitológica os títulos cristológicos cristãos em várias entidades, como se estivessem separadas no tempo e no espaço. Isso se observa na decomposição da figura de Jesus Cristo, em quatro instâncias: em primeiro lugar, diretamente do Pai e de seu pensamento, descende o

“Primogênito” que leva o título particularmente elevado de Logos (Jo 1,14.18); em segundo lugar, depois da queda de Sophia, a “Plenitude” das “eternidades divinas” é completada por uma eternidade divina chamada

“Cristo”, originada do “Primogênito”. Em terceiro lugar, das eternidades divinas “Cristo” e “Sabedoria” (títulos tradicionais de Cristo na primeira teologia cristã) deriva o criador do mundo, o Demiurgo; por fim, em quarto lugar, tão somente de Cristo é enviada no nível da matéria uma quarta figura, o “Paráclito” (“Consolador”) ou

“Redentor” (Jo 14,26 e 4,42). Aquilo que os adversários de Valentino interpretavam como um crasso politeísmo, os valentinianos explicavam como aspectos de uma única e mesma entidade divina. No final das contas, tais diferenciações tinham a finalidade de explicar em qual medida o único Deus estivesse ligado ao homem Jesus de Nazaré e pudesse ser qualificado como redentor do gênero humano (MARKSCHIES, 2019, p. 110-111).

21 As vicissitudes pleromáticas da Sophia valentiniana constituem, portanto, o modelo exemplar da própria vicissitude do gnóstico: nele, ele encontra miticamente fundados e dramaticamente representados os processos interiores de conversão que tornaram disponíveis o anúncio da revelação e a comunicação da gnose. (PIÑERO;

MONTSERRAT, 2018, p. 116).

22 Os planetas psíquicos não devem ser confundidos com os clássicos planetas físicos (Saturno, Júpiter, Vênus, Mercúrio, Lua e Sol), os quais constituem o Mundo da Matéria ou Hílico, reflexo do Mundo Psíquico.

23 Em algumas obras gnósticas, o Demiurgo é também chamado Artífice, Operário, Construtor. Na antiga Grécia, o termo demiurgo era utilizado para indicar os empreiteiros de construções e das obras públicas; vemos aqui um claro reflexo do mito platônico do Demiurgo, que transformou o caos primigênio em cosmos. O Demiurgo é identificado também com o Anjo decaído, uma espécie de Lúcifer.

24 Em outros textos gnósticos o Demiurgo é identificado claramente com Yahweh ou chamado de Yaldabaoth ou Yaltabaoth (Senhor da Desordem), Kosmokrátor (Príncipe deste Mundo), emparentado com Shat-An (Satã, o Adversário).

por isso, em sua criação imperfeita, ele emite sementes pneumáticas, que são semeadas em certos homens como o elemento divino.

Assim, a “história da salvação” dos Éons e de Achamot se repete em um terceiro nível na humanidade. A similaridade de eventos se reflete na linha vertical de descida (Sophia superior - Sophia inferior - sementes pneumáticas). O pneuma humano também deve ser formado, ou seja, deve atingir o conhecimento. Esta formação, alcançada pelo Cristo que desce das alturas e se “encarna” no Jesus terreno, é o objetivo real de todo o acontecimento mítico. Como acontece com os Éons no Pleroma e com a Sophia inferior, o homem que possui um núcleo pneumático se encontra em um estado de ignorância e ele deve tomar consciência dessa falta e se dedicar à busca do divino, para encontrar sua realização.

Segundo Piñero e Montserrat, desta cosmogonia, se deduzem algumas consequências importantes para a antropologia, a ética e a soteriologia25:

a) Existe uma radical separação entre o mundo superior/espiritual (o Pleroma) e o mundo inferior/material (o Kénoma, ou “vazio”).

b) A matéria é degradação, o último degrau do ser, mesmo que proceda de Deus, em última análise, a matéria primigênia e incorpórea é fruto de um “pecado”, “deficiência” ou

“falta” de um ser divino.

c) O mal está incluído ineditamente dentro da deficiência que foi a “paixão” da Sabedoria.

O universo que vemos, material, criado pelo Demiurgo, é fundamentalmente perverso.

O corpo do homem, material, é a prisão do espírito.

d) Existe um espaço intermediário, a “Ogdôada” inferior ou mundo das estrelas fixas, mais os círculos planetários (sete = Hebdômada, que pode considerar-se como um apêndice do anterior), ou lugar do Demiurgo, de seus anjos/arcontes (e das almas justas) que participa em certo modo do mundo superior e do inferior. Este espaço desempenha um papel secundário na soteriologia.

De acordo com Piñero e Montserrat, com a criação já concluída pelo Demiurgo, temos em jogo a existência de três substâncias que logo desempenharão um papel muito importante na soteriologia: a substância “pneumática” (espiritual), a “psíquica” (anímica) e a “hílica”

(material). A substância pneumática ou divina se encontra propriamente apenas dentro do Pleroma, e fora dele, na Sabedoria que, no final das contas, é um ente divino, e, posteriormente,

25 PIÑERO; MONTSERRAT, 2018, p. 71.