Quisemos nos estender mais detidamente sobre esse aspecto do conhecimento, com sua gama variada de significações, como a marca característica do gnosticismo, porque tal ponto nos ajudará a impostar em que sentido falaremos da “sobrevivência do gnosticismo na contemporaneidade”. Se o gnosticismo como tal é um fenômeno da antiguidade, que sentido tem falar em sua sobrevivência? Será fundamental entender, pois, em que consiste o “princípio gnóstico”, a “atitude gnóstica fundamental”, como discorreremos no capítulo 5.
Mas antes é necessário abordar, ainda que brevemente, a questão das origens do gnosticismo e sua relação com o cristianismo nascente, após o quê discorreremos sobre os sistemas gnósticos em geral, para então abordarmos o sistema valentiniano e sua antropologia.
Jonas afirma ser difícil identificar cristalinamente as origens do gnosticismo48. Há várias teorias: os primeiros Padres da Igreja e, de forma independente, Plotino, puseram especial ênfase na influência de Platão e da mal-entendida filosofia helênica em um pensamento cristão que ainda não estava consolidado. Alguns eruditos modernos falaram de uma origem helênica, babilônica, egípcia ou iraniana, assim como de todas as combinações possíveis destes entre si e com elementos judeus e cristãos.
Deve-se levar em conta que, em sua forma de representação, o gnosticismo aparece como produto do sincretismo, naquele ambiente plural retratado no primeiro capítulo. Dessa forma, cada uma dessas teorias encontra certo apoio. No entanto, elas não conseguem explicar aquela autonomia que o caracterizou e que demonstra ao mesmo tempo sua originalidade e vitalidade.
47 JONAS, 2003, p. 115.
48 JONAS, 2003, p. 67-69.
A particular “gnose” que identifica “o gnosticismo” tem influências sim de aspectos da filosofia greco-romana, insere-se no contexto das religiões mistéricas, compartilha com elas e com as “religiões filosóficas” o aspecto esotérico, serve-se de esquemas mitológicos, mas não se prende a esses padrões. O gnosticismo, mesmo sendo um fenômeno tipicamente ocidental, reflete melhor as raízes orientais, daquela “fase religiosa” do helenismo orientalizado que se fez sentir também na Palestina e moldou o judaísmo heterodoxo e ocultista. Até mesmo os inícios da cabala são conectados ao gnosticismo e mesmo a “inclinação violentamente antijudaica dos sistemas gnósticos mais importantes em si não é incompatível com a origem herética judaica”49.
Um pouco antes ressaltamos que, apesar das muitas pesquisas em torno do tema do gnosticismo, não há consenso entre os pesquisadores acerca de sua origem, mas esse termo, apesar disso, é útil para descrever esse complicado fenômeno. Vale aqui a advertência de Brakke: “O problema reside, certamente, em que, inclusive quando delineamos e descrevemos grupos antigos, estamos imaginando e criando nossas próprias categorias”50. Há, no entanto, grupos bem identificáveis no seu nascedouro, como é o caso dos valentinianos, objeto de nossa especial consideração neste trabalho. Van den Broek defende que os textos gnósticos de Nag Hammadi permitem identificar que importantes noções derivadas do judaísmo, da filosofia grega e do cristianismo tiveram uma considerável influência em várias formulações gnósticas da ideia central de salvação por meio do conhecimento51.
O Colóquio de Messina se pronunciou acerca de uma discussão em voga na época, ou seja, se este gnosticismo “clássico” fora precedido por um proto-gnosticismo ou somente de um pré-gnosticismo52. A esse respeito, o documento apontou alguns dados da discussão. Havia estudiosos que faziam uma distinção: o pré-gnosticismo suporia a preexistência de temas e motivos diversos que representariam um “pré”, que não era ainda o gnosticismo. O proto- gnosticismo implicaria encontrar os elementos essenciais do gnosticismo em época anterior ao século II, assim como também fora do gnosticismo cristão desse século.
Para os defensores do pré-gnosticismo, os elementos que o caracterizariam seriam: a apocalíptica judaica, Qumran, o farisaísmo, a atmosfera virulenta da crise do judaísmo depois de 70, certas correntes de pensamento cristão ou o influxo duradouro do Egito e da
49 JONAS, 2003, p. 68.
50 “The problem is, of course, that even when we are delineating and discribing ancient groups, we are also imagining and elaborating our own categories.” (BRAKKE, D. The Gnostics. Myth, Ritual, and Diversity in Early Christianity. Harvard: Harvard University Press, 2012. p. 5).
51 VAN DEN BROEK, 2006, p. 412.
52 BIANCHI, 1970, p. XXI-XXII.
Mesopotâmia. Por sua vez, na linha dos defensores do proto-gnosticismo, seus elementos caracterizantes seriam o influxo do Irã, do mundo indo-iraniano, a Índia das Upanishads, e mesmo a Grécia platônica e órfico-pitagórica. No bojo da discussão estava também a questão do lugar ocupado pelo cristianismo em um ou outro. Para os relatores do Colóquio, se o gnosticismo supõe a degradação do divino, seria impossível situá-lo no caudal histórico- religioso do judaísmo ou do cristianismo do Novo Testamento e da grande Igreja.
Após o Colóquio de Messina, o debate cresceu e envolveu muitos ambientes acadêmicos, principalmente na Europa e América do Norte. Já no início da década de 1970, um dos temas mais candentes em torno ao gnosticismo era sua relação com o Novo Testamento, no contexto do cristianismo nascente. Com a publicação de toda a Biblioteca de Nag Hammadi, em 1977, a questão tornou-se mais aguda e frequentes eram essas questões: Houve um gnosticismo pré- cristão? O gnosticismo influenciou direta ou indiretamente o cristianismo nascente?
Muitos estudiosos sustentavam que o gnosticismo precedeu o surgimento do cristianismo estampado no Novo Testamento e constituiu a matéria-prima da qual os apóstolos cunharam a mensagem sobre Jesus. Yamauchi em várias ocasiões analisou as evidências aludidas para sustentar essa tese; ele observou uma série de falácias metodológicas no uso dessas evidências e concluiu que os materiais claramente gnósticos eram posteriores e os materiais pré-cristãos não eram claramente gnósticos53.
A tese tradicional formulada pelos Padres da Igreja defendia que o gnosticismo era uma heresia cristã. No Colóquio de Messina, Simone Pétrement representava um grupo minoritário que ainda sustentava a tese bimilenar. Nas duas décadas que seguiram o Colóquio, as pesquisas demonstraram a existência de um gnosticismo não-cristão, mas não se conseguiu demonstrar convincentemente que houvesse um gnosticismo pré-cristão no primeiro século e mesmo antes, ou seja um sistema gnóstico totalmente desenvolvido, de forma que pudesse ter influenciado os escritores do Novo Testamento.
Uma teologia, cosmologia, antropologia e soteriologia gnóstica totalmente articuladas só se pode encontrar a partir da era cristã; era a tese sustentada por Jonas, corroborada por outros pesquisadores posteriores: o gnosticismo aparece como um movimento espiritual no final do primeiro século e só se desenvolveu plenamente no segundo século. Vários autores, como
53 YAMAUCHI, E. M. Pre-Christian Gnosticism: A Survey of the Proposed Evidences. 2nd ed. Grand Rapids:
Baker Book House, 1983. Houve uma reimpressão por Wipf & Stock Publishers, 2003, numa edição de bolso.
Um resumo dessas análises se encontra em: YAMAUCHI, E. M. Pre-Christian Gnosticism, the New Testament and Nag Hammadi in Recent Debate. Themelios, [S. l], v. 10, n. 1, p. 22-27, sep. 1984. Disponível em:
https://earlychurch.org.uk/article_gnosticism_yamauchi.html. Acesso em: 03 jun. 2018.
Bárbara Aland, Tröger e Ugo Bianchi sustentaram que o gnosticismo desenvolvido em vários sistemas só se compreende no contexto do cristianismo, principalmente a “escola valentiniana”.
Yamauchi é contundente:
De fato, é difícil imaginar que, em um ambiente puramente judeu, embora penetrado pelo pensamento grego, alguém pudesse chegar até o extremo da demonização do Deus de Israel [...] Somente a perspectiva de um messias concebido como manifestação divina, como pessoa divina encarnada, já presente na fé do Novo Testamento e da Igreja, mas interpretada pelos gnósticos com base em pressupostos ontológicos da doutrina misteriosófica grega do soma-sema (“corpo” – “tumba”) e da divisão no divino, poderiam permitir o desenvolvimento de uma nova teologia gnóstica, na qual o Deus da Bíblia, o criador, se tornou o demiurgo54.
Segundo Van den Broek, a relação entre o movimento gnóstico e o cristianismo primitivo pode ser melhor explicada pelo fato de que ambos se desenvolveram no mesmo “clima espiritual”, o qual foi fortemente influenciado por ideias judaicas expressas em formas míticas, mas nem todas elas procederiam do judaísmo, mesmo o heterodoxo. Perduram ainda os debates acerca de possíveis influências gnósticas na formação do Novo Testamento, como é o caso da discussão sobre o parentesco do Prólogo do Evangelho de João (Jo 1, 1-18) e a Protenoia Trimórfica (NHC XIII,1)55.
A respeito dessa discussão, Schmithals tece algumas ponderações56. A propósito da relação “Novo Testamento e Gnose”, podem ser formuladas várias hipóteses. Uma primeira hipótese seria considerar o nascimento da gnose a partir de raízes cristãs. Nesse sentido, não haveria sentido em falar de pré-gnose ou proto-gnose, uma vez que a gnose seria um fenômeno tipicamente cristão. Outra hipótese seria falar em gnose in statu nascendi observável no Novo Testamento, como fenômeno exterior ao cristianismo, a partir do terreno fértil de um gnosticismo hebraico ou pagão. Tampouco esta tese se sustenta, pois, segundo ele, o
“gnosticismo” como um sistema ainda não existia. Nesse caso, então, os termos pré-gnose e proto-gnose pretendem tão somente contestar que, em época neotestamentária (ou ao menos em alguns escritos dessa época), já houvesse uma “gnose cristã desenvolvida”. As descobertas de
54 “In effect it is difficult to imagine in a purely Jewish environment, although penetrated by Greek thought, one would have been able to arrive at that extreme which is the demonization of the God of Israel... Only the perspective of a messiah conceived as a divine manifestation, as a divine incarnate person, already present in the faith of the New Testament and of the Church, but interpreted by the Gnostics on the basis of ontological presuppositions of the Greek mysteriosophic doctrine of soma-sema ('body'-'tomb') and of the split in the divine, could allow the development of a new Gnostic theology where the God of the Bible, the creator, became the demiurge...”. (YAMAUCHI, 1984, p. 25).
55 VAN DEN BROEK, 2006, p. 414.
56 SCHMITHALS, W. Nuovo Testamento e gnosi. Brescia: Queriniana, 2008. (Giornale di Teologia, 335). p. 24.
Nag Hammadi e de textos do “gnosticismo hebraico” demonstraram que tais hipóteses já não poderiam ser sustentadas.
Nesse sentido, as raízes do gnosticismo, como movimento claramente identificável, é um fenômeno do século II. No século I, observa-se, naquele ambiente religioso plurifacético, o vicejar de várias “gnoses” que se cruzam na bacia mediterrânea: uma “gnose pagã”, uma “gnose judaica” e uma “gnose cristã”, mas que não constituem ainda um “sistema gnóstico”. Trata-se, na verdade, de aspectos particulares daquele anseio por um conhecimento salvífico, no sentido anteriormente explanado, quase como uma espécie de miscigenar de tendências ecléticas de uma impostação comum, semelhante ao que que hoje se designa como “teosofias”57.
Markschies aponta, a partir de uma construção tipológica que elucidaremos no tópico seguinte, três fases para o surgimento da gnose: uma primeira fase em que as ideias, tendências e correntes, filosóficas e religiosas, se entrecruzam e intercambiam elementos; uma segunda fase em que se detectam sistemas gnósticos elaborados, com grande pluralidade de expressões e uma terceira fase, conclusiva, em que se fecha o ciclo do “movimento gnóstico” histórico, representada pela religião maniqueia58.
Na primeira fase é praticamente impossível estabelecer uma cronologia segura, pela falta de fontes e tampouco fontes para atestar a existência de um “movimento gnóstico”. Portanto, não se consegue detectar um movimento de “gnose” nos fins do primeiro século e inícios do segundo e muito menos antes da era cristã. Um ponto de partida simbólico pode ser a primeira carta de Timóteo (proveniente do círculo paulino, datada de fins do século I e inícios do século II), que chama a atenção para aqueles membros da comunidade que “falsamente pretendem ser possuidores do conhecimento” (1 Tm 6,20). Como já afirmado, sua “doutrina” consistia em ampliações mitológicas dos relatos da criação do mundo. Não se encontram no teor da carta elementos caracterizantes da gnose, como estamos considerando neste tópico, tais como: a maldade da criação, do mundo e da matéria; um Deus criador ou assistente; mito da queda de seres celestes.
Questionável é também a tese de Moritz Friedländer (1844-1919) que no final do século XIX postulou que desde o fim do século I a.EC existia uma “gnose hebraica pré-cristã”. Tese que avançou até mesmo depois da descoberta dos códices de Nag Hammadi, onde se buscavam elementos gnósticos hebraicos e se sustentava que uma gnose hebraica fosse pressuposto da
57 GRECH, P. What Was from the Beginning. The Emergence of Orthodoxy in Early Christianity. Leominster, Herefordshire: Gracewing, 2016. p. xii.
58 MARKSCHIES, 2019, p. 83.
gnose cristã. Estavam em discussão alguns textos que entraram no cânon neotestamentário como testemunho de uma “gnose” nas origens do próprio cristianismo. Havia sim elementos intercambiáveis que circulavam em várias correntes, sendo tomados de empréstimo ou assimilados aqui e ali, particularmente na literatura intertestamentária no ambiente helenizado.
De toda forma, na literatura hebraica antiga não existem elementos suficientes caracterizantes de uma “gnose”. Quando muito pode-se falar de raízes “hebraicas da gnose”, mas não de uma
“gnose hebraica”59.
No início do século XX se falava da “cristianização de uma gnose pagã”, presente principalmente no evangelho de João. Rudolf Bultmann (1884-1976) argumentava que as ideias centrais desse evangelho eram “parte de uma doutrina gnóstica da redenção”, cujo autor era um
“gnóstico cristianizado”. Mesmo que o comentarista mais antigo do evangelho de João tenha sido um gnóstico, Heracleon, e que a literatura gnóstica posterior tenha usado expressões oriundas desse texto, a tese bultmanniana não se sustenta. Um dos argumentos fundamentais é que Jesus, a Palavra de Deus, se encarnou, assumiu um corpo humano, morreu na cruz e há uma clara identidade entre o corpo de Jesus terreno e sua realidade de redentor celeste60.
Na mesma direção se deve rebater a tese de que as cartas aos Coríntios, Efésios, Colossenses tivessem influência gnóstica ou que polemizassem com uma tendência gnóstica cristã. Não há elementos que demonstrem que Paulo ou os escritores do círculo paulino estivessem diante de um sistema gnóstico elaborado. O que se pode afirmar é que também as comunidades cristãs retratadas nos textos do Novo Testamento estavam imersas no ambiente filosófico e religioso circunstante: interessavam-se pela “gnose”, queriam entender e apresentar o cristianismo no contexto de sentido das ofertas religiosas e filosóficas da época, estavam abertos às práticas e especulações religiosas do entorno61.
Nesse aspecto, tem sentido usar certos “modelos tipológicos”62, como abordagem geral do “movimento gnóstico”, para dar uma certa sistematicidade ao “sistema gnóstico”, ao mesmo tempo em que se estabelecem alguns critérios até mesmo para identificar traços da sobrevivência do “gnosticismo” nos séculos posteriores e, particularmente, dentro de nosso interesse, na contemporaneidade.
59 MARKSCHIES, 2019, p. 87.
60 MARKSCHIES, 2019, p. 88.
61 MARKSCHIES, 2019, p. 89-90.
62 MARKSCHIES, 2019, p. 28.141-145.
Schmithals explana a questão da seguinte maneira63. Segundo seus estudos, detecta-se a presença de falsos mestres que turvam a paz das comunidades cristãs tanto na área do Egeu como no ambiente sírio-palestinense. Pode-se atestá-lo nas epístolas paulinas principais; nas epístolas aos Efésios, Colossenses, e nas cartas Pastorais; no Apocalipse; em Judas e 2 Pedro.
Estes penetram nas comunidades vindos de fora (Ap 20,29; 2 Cor 3,1; 11,4; Fl 4,17; 5,7ss; 1 Tm 4,1s; 6,20s). Logo constituem um fenômeno no interior ou à margem das próprias comunidades (At 20,30; 1 Tm 1,19s; 4,1; 2 Tm 2,16ss; 4,4; Col 2,18; 2 Pd 2,1ss; 1 Jo 2,19).
Schmithals daí deduz que se possa falar de uma “missão gnóstica concorrente ou paralela já em época apostólica”.
Em maior ou menor escala há estratos da teologia paulina e joanina onde aparecem elementos da linguagem ou do imaginário gnóstico. Ambas as teologias têm em comum o “mito do redentor” (cristologia da preexistência, fórmulas do envio) e a terminologia do dualismo antropológico. Em Paulo é peculiar a “mística de Cristo” e em João o “dualismo cósmico”.
Exclui-se uma mútua dependência entre ambos ou mesmo uma dependência de uma fonte comum. Por outro lado, ele observa que há escritos do Novo Testamento nos quais não se percebe o influxo nem o uso de termos gnósticos, como é o caso da tradição sinótica.
Ele propõe o seguinte processo histórico-religioso para os escritos paulinos: antes de sua conversão, Paulo combatia um cristianismo universalista (livre da Lei). Uma vez convertido ao cristianismo, a isso se devem os tratos gnosticizantes de sua linguagem e de suas concepções teológicas. Esse cristianismo universalista livre da Lei teria nascido de um encontro entre o primitivo cristianismo palestinense com uma gnose hebraica, provavelmente originária da Samaria. O representante icônico desse cristianismo universalista poderia ser identificado em Estêvão. A teologia paulina em seu complexo constituiu-se dessa base universalista, de corte judaico-helenístico, com elementos cristão-apocalípticos e motivos essenciais do cristianismo helenístico-sinagogal de fundo antioqueno, além de ideias originais do próprio Apóstolo.
A teologia pré-joanina fundar-se-ia sobre uma gnose que incorporou Jesus Cristo (de qual tradição cristã?) como um redentor enviado do céu. Estariam aí unidos elementos desse gnosticismo cristianizado com elementos fundamentais do credo helenístico, sem que se possa determinar com certeza o que havia de ortodoxia ou heterodoxia. Dessa teologia da comunidade pré-joanina nasceriam, com o auxílio da tradição sinótica, o Evangelho de João e depois as cartas (1, 2, 3 de João). Somente no século II, e definitivamente com a constituição do cânon,
63 SCHMITHALS, 2008, p. 240-243.
as diversas tradições proto-cristãs confluíram majoritariamente uma na outra, excluindo definitivamente a gnose.
Segundo Montserrat Torrents, a pergunta por uma gnose pré-cristã dependerá da perspectiva com a qual se considera o fenômeno64. Assim, do ponto de vista metodológico, a pergunta poderia ser formulada dessa maneira: existiu antes do cristianismo uma gnose sociologicamente stricto sensu que professava sob alguma forma as doutrinas do gnosticismo cristão dos séculos II e III?
Ligado a esse problema, há um segundo campo semântico a se considerar: o cristianismo.
Quando começou o “cristianismo”? De acordo com uma perspectiva mais tradicional, o cristianismo teria começado com a primeira comunidade cristã de Jerusalém. De acordo com uma perspectiva mais crítica, o cristianismo começou quando este se tornou uma “religião do Livro”, ou seja, quando se apossou de seu próprio livro, o Novo Testamento... as comunidades anteriores ao cânon neotestamentário deveriam ser consideradas seitas judaicas.
No caso da relação entre cristianismo e gnose, poderíamos considerar o seguinte quadro evolutivo: a) comunidades cristãs que desconhecem o Novo Testamento e interpretam exclusivamente a Bíblia hebraica; b) comunidades cristãs que conhecem o Novo Testamento, mas continuam a interpretar preferentemente a Bíblia hebraica e c) comunidades cristãs que conhecem e interpretam o Novo Testamento (e eventualmente também a Bíblia hebraica).
No final, também esse autor corrobora a tese sustentada pela maioria dos estudiosos do tema. O gnosticismo, claramente detectável, é fenômeno do século II. E esse gnosticismo cristão é um movimento intensamente sincrético. Bebe de todas as fontes religiosas, filosóficas e esotéricas que emanavam nas cidades do Império.
Como conclusão, na segunda metade do século II sim se pode encontrar personagens, correntes e sistemas gnósticos que atestam um “movimento gnóstico”, com ampla documentação, nem sempre fácil de interpretar ou que arregimente os estudiosos numa unidade interpretativa. A esse propósito, deve-se levar em consideração a perspicaz observação de Markschies:
[...] a unidade de um fenômeno denominado desde a antiguidade com a palavra grega para “conhecimento” é relativamente larga; subsiste há séculos antes de tudo em virtude das construções tipológicas dos estudiosos, que, seja por motivo da “luta contra a heresia”, seja pelo interesse pela história do pensamento, da religião e da cultura – são adotadas para colocar uma ordem mais clara aos fatos. Quanto mais se tem consciência deste dado, mais facilmente se consegue explicar a real pluralidade das orientações e a assumi-las de um modo criativo para compreender a “gnose”. Em
64 MONTSERRAT TORRENTS, 2017, p. 631-634.
outras palavras, a crescente multiplicidade das orientações nos últimos anos é adequada para a finalidade na medida em que dá conta de que o fenômeno unitário da
“gnose”, ao qual se referem todas as reconstruções, existe apenas na forma de diversas construções tipológicas65.
Passemos, pois, a considerar, servindo-nos dessa chave hermenêutica, os sistemas gnósticos cristãos, antes de aprofundarmos, no próximo capítulo, o sistema valentiniano, com sua peculiar antropologia. Concluamos este tópico com a observação de Monstserrat Torrents:
Vamos reconhecer, pois, que aqueles obscuros gnósticos cristãos foram pensadores autenticamente originais, que conseguiram costurar uma roupa nova a partir dos velhos farrapos da cultura helenística. Cada remendo tem sua história, mas a peça, em seu conjunto, é decididamente nova66.