Nesse tópico, queremos reafirmar o contexto plural no qual se difundiu o cristianismo, a começar pelo caráter plural do movimento de Jesus. Ao transpor os limites da Palestina e libertar-se do judaísmo tradicional, o cristianismo viu-se imerso no mundo helenizado, com todas as peculiaridades antes elucidadas. Há uma questão de fundo que nos impulsiona: em que sentido esse aspecto plural lança luzes para compreender o surgimento do gnosticismo?
O contexto em que se divulgou a Boa Nova de Jesus é extremamente plural. De maneira esquemática, identificamos essa pluralidade em três grandes ambientes: o ambiente judaico tradicional, o ambiente do judaísmo helenizado e o ambiente do “paganismo” ou da
“gentilidade”105. Essa abordagem do mundo e do cristianismo plural interessa-nos particularmente porque também o gnosticismo é um fenômeno plural, fruto dessa “pluralidade endogâmica” do mundo helenizado106.
O mandato de Jesus: “Ide, pois; de todas as nações fazei discípulos...” (Mt 28,19) foi dirigido a um grupo plural, no qual encontramos desde simples pescadores, pequenos comerciantes a gente com certa cultura, certamente sob o influxo do helenismo. Uma mensagem
104 “Esta convivencia prolongada, con fases y vaivenes cambiantes de aceptación y rechazo, iba a dejar una profundíssima huella en todas las manifestaciones del genio de Israel y, sin duda alguna, en la más importante de ellas, la Biblia.” (LOZANO; PIÑERO, 2017, p. 101).
105 MATOS, H. C. J. Introdução à história da Igreja. 5.ed. Belo Horizonte: O Lutador, 1997. v. I. p. 31-38;
PIERINI, F. A idade antiga. São Paulo: Paulus, 1998a. (Curso de História da Igreja, I). p. 50-54.
106 Meeks observa com propriedade: “Os estudiosos do Novo Testamento neste século descobriram grande diversidade no cristianismo primitivo.” (MEEKS, 1992, p. 17).
destinada não apenas à casa de Israel, mas “ao mundo inteiro [...] a todas as criaturas” (Mc 16,15). Uma mensagem anunciada a um mundo plural, extremamente multifacetado.
Efetivamente, já no final do século I, a mensagem do mestre de Nazaré tinha chegado às principais cidades da bacia mediterrânea e a muitos povos que bem poderiam estar nas
“extremidades da terra” (At 1,8), como parece indicar a narrativa do dia de Pentecostes: “partos, medos e elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egito e da Líbia Cirenaica, de Roma (judeus e prosélitos), cretenses e árabes” (At 2,9-11), regiões onde provavelmente já tivesse chegado a boa nova.
Como essas pessoas simples, sem instrução, conseguiram realizar tal façanha, com parcos recursos, em meio a tantas adversidades? Eusebio de Cesareia, em sua Historia Ecclesiastica dá uma interpretação que constituirá uma espécie de cânon historiográfico cristão: o próprio Deus foi conduzindo a história para isso, desde o início dos tempos, através de uma praeparatio evangelica107, na qual as estruturas de um império mundial facilitaram os “caminhos do Evangelho”108. Assim, no século I temos a contribuição de Roma, da Grécia e do Judaísmo.
Nesse ambiente diversificado, encontramos também, no entanto, obstáculos ao anúncio evangélico109. No século II, as comunidades cristãs realizaram uma reflexão sobre sua própria trajetória e construíram sua identidade, entendendo sua saga, em última análise, como “obra da providência divina”. Vejamos, pois, alguns desses facilitadores, retomando sinteticamente os elementos apresentados nos tópicos anteriores.
No contexto mais amplo, no início do século I, na bacia mediterrânea e boa parte do Oriente próximo, encontramos o mundo sob o controle de uma única potência, Roma. Um século antes, no período da República, o mundo estava conturbado, cheio de guerras e sedições.
Otávio inaugurou uma nova etapa, foi proclamado Augustus (o “salvador do mundo”), e estabeleceu, com as forças militares, a pax augusta, na verdade, uma “paz armada” 110. Durante
107 Eusébio desenvolveu o tema de maneira aprofundada em sua obra Praeparatio evangelica, na qual ele procura demonstrar a excelência do cristianismo sobre as religiões e filosofias pagãs. Consiste em quinze livros, integralmente conservados, nos quais o autor apresenta a doutrina de Cristo aos pagãos. O termo indica também a obra da Providência divina que, ao longo da história, por diferentes caminhos, foi preparando os povos para receber a mensagem cristã.
108 GREEN, M. Evangelização na Igreja primitiva. São Paulo: Edições Vida Nova, 1989, p. 11-29.
109 Green analisa também os obstáculos havidos no século I para a propagação do Evangelho (GREEN, 1989, p.
31-54).
110 “A vitória de Otaviano, porém, que acabou com a República Romana sob a pretensão de restaurar e de pôr em prática a organização metódica de um império, estimulou uma era de estabilidade desconhecida anteriormente e de ótima oportunidade para a vida urbana, uma era que deveria durar um século” (MOMIGLIANO, 1991, p.
25). Para um estudo do amplo significado da pax romana, ver o estudo de WENGST, K. Pax Romana.
Pretensão e realidade. Experiências e percepções da paz em Jesus e no cristianismo primitivo. São Paulo:
Paulinas, 1991. (Bíblia e Sociologia, 7).
o primeiro século da Era Comum foi possível organizar um eficiente sistema administrativo, com províncias militares e senatoriais, divididas por sua vez em dioceses e paróquias. O extenso sistema viário, rigidamente vigiado e bem cuidado (cura viarum), e o ágil sistema de correio (cursus publicus) permitiam que as comunicações oficiais chegassem rapidamente em poucos dias aos confins dos domínios romanos. Havia assim grande facilidade para contatos e transações, militares, sociais, comerciais, culturais, religiosas. Os cristãos serviram-se desse sistema: longas viagens seriam impensáveis depois da queda do Império. O direcionamento da evangelização foi condicionado por esse sistema.
O processo de helenização foi outro elemento facilitador para o anúncio do Evangelho. O grego, de uma língua local tornou-se “universal” e foi o suporte de toda uma matriz cultural, desde o século IV a.EC. A educação formal era dada em grego. As escrituras judaicas foram traduzidas ao grego, a Septuaginta. O Novo Testamento foi escrito no grego koiné. Paulo escrevia em grego; Justino, em Roma, e Atenágoras, em Atenas, defenderam os cristãos em grego; Ireneu, nas Gálias, combateu os gnósticos em grego; os gnósticos escreviam em grego.
Hipólito, em Roma, fez o elenco de 33 heresias em grego. Até o século III a liturgia da Igreja de Roma se desenvolvia em grego. O grego, uma língua versátil, estética, com um substrato filosófico e teológico, servia a uma mensagem que se pretendia universal e que deu valência universal a culturas e valores religiosos locais111.
A mentalidade, cultura e literatura gregas foram paradigma para os romanos. Recordemos apenas alguns aspectos dessa “apropriação” ou “inculturação” que, por sua vez, será um recurso também utilizado pelos cristãos, possibilitando, dessa forma, a compreensão da sua proposta salvífica em escala universal naquele universo plural112.
A popularização da “teologia mitológica” grega encontrou seus correspondentes no Império, por meio do expediente da interpretatio. Já os poetas e filósofos gregos haviam criticado o grosseiro antropomorfismo das massas, coisa que será feita pelos eruditos latinos e também pelos apologistas cristãos. Platão fora popularizado pelos sofistas, “educadores populares”. O método sofista de defesa e ataque às críticas movidas ao cristianismo foi amplamente utilizado nas apologias cristãs do século II.
111 LILLA, S. Ellenismo e cristianesimo. In: DI BERARDINO, A. (Dir.). Dizionario Patristico e di Antichità Cristiane. Casale Monferrato: Marietti. 1983. v. 1. (Col. 1137-1142).
112 RAMOS, J. A. Salvação, identidade e sentido no horizonte histórico do judeo-cristianismo. In: ALMEIDA, C.;
ROLDÃO, Filipa; ALMEIDA, C. (Orgs.). Soteriologias. Identidades e salvação. Lisboa: Centro de História da Universidade de Lisboa, 2021, p. 49-74.
Paulo inicia o diálogo com a gentilidade dizendo vir em nome do “deus desconhecido”, que os piedosos atenienses acolheram, num primeiro momento, no areópago de Atenas. Um pouco antes, em Alexandria, Fílon já havia iniciado um diálogo frutífero que muito ajudaria os cristãos em sua aproximação racional à mentalidade grega, principalmente no acostamento entre a Sophia (Sabedoria) e o Logos (Palavra).
Se há um campo em que podemos detectar uma grande pluralidade, como anteriormente explicitado, este é o da esfera religiosa: já acenamos brevemente ao politeísmo greco-romano, enriquecido a cada conquista de Roma, que fazia aumentar o panteão das divindades reconhecidas e adoradas em todo o Império. Às “religiões filosóficas”, às práticas esotéricas desenvolvidas nos cultos órfico-pitagóricos e à religião oficial do Império, devemos acrescentar as religiões mistéricas e iniciáticas, com seu caráter entusiástico e altamente emotivo. Entre estas incluíam-se, segundo a classificação dos romanos, outras superstitiones, como o Judaísmo e o Cristianismo113.
Em que sentido esse ambiente religioso plural se tornou um caminho facilitador para o anúncio do Evangelho e também para a efervescência da gnose? Num primeiro momento, a tolerância romana em relação às religiões estrangeiras, desde que não atentassem contra a ordem pública, permitiu a sua expansão. A sede de novidades e carências da população, tais como a satisfação das necessidades básicas da sobrevivência, a busca de reconhecimento social numa sociedade rigidamente estratificada, o desejo de imortalidade e o consórcio com os deuses propiciava a aceitação de uma mensagem que se dirigia a todos, principalmente aos pobres, aos doentes, aos marginalizados. As “seitas” propiciavam um clima de acolhida, entusiasmo e companheirismo. Além disso, tinham outro atrativo, pelo fato de dar um jeito no sentimento de culpa: o sentido real de pecado, de débito com os deuses, o peso esmagador da heimarméne, do factus, do destino114. Eram uma alternativa abaixo da força irresistível dos astros, cujos segredos sobre a vida humana a astrologia procurava desvendar. Ofereciam segurança num mundo
113 GREEN, 1989, p. 18-21.
114 A Εἱμαρμένη (Heimarméne) era uma deusa grega responsável pela sucessão concatenada de causa e efeito, em âmbito universal, na qual se inserem os destinos individuais. Na mitologia, aparece associada a Ανάγκη (Anánke), a deusa da inevitabilidade, casada com Moros e mãe das Moiras, era também a personificação do destino, como necessidade inalterável. O termo se encontra na literatura filosófica, particularmente na tradição estoica, em religiões mistéricas e na obra gnóstica Pistis Sophia. A heimarméne representa, assim, a fatalidade, como emissária da Providência divina, que se interpõe ao exercício do livre arbítrio, processo fatigoso que será tarefa das pessoas instruídas e, particularmente, dos filósofos. O corpo humano e os sentidos estão sujeitos às leis físicas, ao domínio da heimarméne, soberana no universo corporal; a alma, no entanto, pode libertar-se desse domínio. Bardesanes de Edessa (ca. 154-222), mestre gnóstico siríaco, escreveu uma obra Contra a Heimarméne, defendendo ardorosamente o livre arbítrio, como dom de Deus ao ser humano, feito à sua imagem: BARDESANES DE EDESSA. Contro il fato. Kata Heimarmene, Liber Legum Regionum. Testo originale a fronte. Bologna: ESD-Edizioni Studio Domenicano, 2009.
perigoso, cercado de forças hostis, na esfera terrestre, nos ares e no submundo tenebroso. Por fim, a comunhão com o mundo divino se fazia através de um processo de iniciação ao alcance do comum dos mortais, pela refeição sagrada, pela orgia hierofânica, pelo êxtase, conseguido com diversos recursos, num clima de aconchego e “fraternidade”, elementos todos que abriam as portas da imortalidade. O cristianismo será uma resposta a esse anseio e o gnosticismo agudizará a experiência salvífica através da gnose.
O judaísmo da diáspora, helenizado por questões de sobrevivência e por certa simbiose na amplitude do contexto circundante, tornou-se também um facilitador para a difusão do cristianismo. O judaísmo a duras penas havia conquistado um espaço no Império, fazendo, por um lado, grandes concessões à cultura helênica, mas também ganhou, por outro lado, grande respeitabilidade pelo seu alto teor moral.
Os judeus conseguiram manter sua identidade nacional graças ao seu rígido monoteísmo.
Em geral não faziam proselitismo de sua fé, mas acolhiam, entre os puros (circuncidados da estirpe judaica), os simpatizantes ou “tementes a Deus” e aceitavam prosélitos (pagãos circuncidados). Antes da era cristã já constituíam uma comunidade considerável em Roma, numa complicada colônia no Trastévere (Além-Tibre), onde certamente se constituiu uma comunidade cristã. Flávio Josefo faz menção a vários decretos dos privilégios conseguidos pelos judeus em suas obras, como o fiscum iudaicum. No bojo do judaísmo, o cristianismo foi dilatando capilarmente sua presença. Uma primeira estratégia dos apóstolos era pregar nas sinagogas judaicas espalhadas na diáspora.
As Escrituras judaicas conseguiram foro de cidadania no mundo helênico graças à sua tradução para o grego, a Septuaginta. As suas várias edições em grego atestam sua
“popularidade”; além da Septuaginta, temos as recensões de Aristeu, Símaco e Teodosion, compiladas, entre outras, na Héxapla de Orígenes. Na diáspora, as sinagogas exerciam também um fascínio particular, pela beleza e simplicidade de seu culto; eram uma instituição única no mundo antigo, ao mesmo tempo uma escola filosófica e religiosa. As tradições rabínicas de interpretação das Escrituras demonstravam ao mesmo tempo a pluralidade de possibilidades e a liberdade de interpretação dos textos sagrados. O trabalho de Fílon, que usou largamente os recursos da alegoria para interpretar as Escrituras, abrirá um vasto horizonte para a interpretação cristã das Livros Sagrados. O livro do Gênesis será particularmente objeto de interesse da exegese gnóstica, que usará com grande liberdade e criatividade a interpretação alegórica e mitológica para compor sua cosmogonia, antropologia e soteriologia.
Tudo isso facilitou os caminhos do Evangelho. O proselitismo judeu, apesar de exclusivista, preparou a pregação cristã; a literatura missionária judaica, como os Oráculos Sibilinos, forneceu um modelo de aproximação à sensibilidade do mundo helenizado; o pluralismo judaico do século I, com seu monoteísmo, ética rigorosa, liberdade interpretativa, capacidade de adaptação cultural, culto nas sinagogas, amparava a difusão da mensagem cristã.
O florescimento da literatura apocalíptica e as tendências marginais do judaísmo foram campo fértil para o surgimento da gnose judaica e seu influxo na gnose cristã.
De toda forma, os cristãos têm uma grande dívida com seus irmãos mais velhos na fé. Em certo sentido, segundo Harnack, “esta dívida é tão grande, que quase pode-se dizer que a missão cristã é uma continuação da missão judaica”115. Nessa mesma linha, Rinaldi, afirma peremptoriamente:
O que nós chamamos “cristianismo” foi uma forma de judaísmo caraterizada por um fortíssimo impulso proselitista: os conceitos fundamentais subjacentes ao pensamento cristão, e a própria terminologia que o expressa, ainda são hoje primorosamente judaicos e não teriam sentido algum no léxico religioso “pagão” se posteriormente não tivessem ocorrido mediações culturais, paralelas ao processo de separação da
“igreja” da “sinagoga” e àquele da “helenização” do cristianismo. Ekklesia, Reino de Deus, Messias, Lei, pecado, fé. Graça, metánoia, batismo são vocábulos do léxico judaico apropriados pelos cristãos, que evocavam conceitos estranhos aos cânones da paideia clássica116.
Mas essa afirmação deve ser matizada, como veremos logo a seguir, a começar pelo próprio mestre judeu Jesus, cognominado o Cristo. Ele será “um sinal de contradição para muitos em Jerusalém” (Lc 2,33), “motivo de escândalo para os judeus, loucura para os gentios”
(1 Cor 1,23). No seio das próprias comunidades cristãs a pergunta de Jesus dirigida aos seus discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mc 8,29; Mt 16,15; Lc 9,20) encontrará muitas respostas, as quais serão problemáticas não somente no âmbito das ideias, mas também no campo das práticas, suscitando cismas e posicionamentos políticos, com enormes consequências para a história do Ocidente.
Centremo-nos agora no aspecto plural do cristianismo, procurando esmiuçar melhor o seu contexto a partir dessa perspectiva. Vários autores, como Rinaldi, preferem falar de
115 HARNACK, A. von. La missione e la propagazione del cristianesimo nei primi tre secoli. Torino: Bocca, 1906.
116 “Quel che noi chiamiamo ‘cristianesimo’ fu una forma di giudaismo caratterizzata da una fortissima spinta proselitistica: i concetti fondamentali alla base del pensiero cristiano, e la stessa terminologia che li esprime, sono ancora oggi squisitamente giudaici e non avrebbero nessun senso nel lessico religioso ‘pagano’ se non fossero intervenute sucessivamente mediazioni culturali, che corsero parallele al processo di separazione della
‘chiesa’ dalla ‘sinagoga’ e a quello di ‘ellenizzazione’ del cristianesimo. Ekklesía, Regno di Dio, Messia, Legge, peccato, fede, grazia, metànoia, battesimo sono vocabuli del lessico giudaico fatti propri dai cristiani, i quali evocavano concetti estranhei ai canoni della paideia classica” (RINALDI, 2016, p. 11).
“cristianismos”: “A mensagem de Jesus assumiu diversas facetas, de modo que seria mais correto falar de ‘cristianismos’ no plural. Algumas dessas formas floresceram por certo tempo e depois desapareceram, outras tiveram vida longa”117.
O “cristianismo primitivo” é um capítulo desafiador em termos de documentação118. Boa parte do que constitui a literatura cristã começou a ser redigida trinta ou quarenta anos depois dos acontecimentos fundantes. Antes da destruição de Jerusalém (70 EC) a sociedade da Palestina judaica era muito diversificada. No período anterior ao ano 70 deu-se a primeira expansão da missão cristã em diversos contextos e começaram a ser escritos os primeiros documentos que fariam parte do cânon do Novo Testamente e certamente outros mais, de datação incerta. Após a destruição do Templo de Jerusalém, não apenas o judaísmo se reconfigurou, mas também a missão cristã, que cada vez mais se distanciava de suas raízes judaicas.
Quando abordamos a história da helenização do judaísmo, destacamos brevemente os dois grandes posicionamentos no seio do povo judeu face ao helenismo: a parcela da sociedade que o assumiu, representada pela aristocracia, os grandes proprietários de terra e comerciantes abastados e os grupos refratários a ele, representados pelos hasidim e sua evolução nos grupos sectários dos fariseus e essênios. Na época de Jesus, havia ainda a facção dos saduceus e os herodianos, que também faziam parte dos estratos elevados da sociedade.
Daniélou assevera, no entanto, que a configuração social era muito mais diversificada, com várias tendências e pequenos grupos que se relacionavam por diferentes vazantes e no meio dos quais se desenvolveram tendências heterodoxas que também influenciaram o cristianismo, e nos quais encontramos as raízes do assim chamado “protognosticismo”:
Existem ainda os herodianos e os zelotes. Mas Justino nomeia além deles os “genistas, os meristas, os galileus, os helênios, os batistas”. Conhecemos também os samaritanos. Não é fácil identificar todos esses grupos. Representam eles correntes diversas às margens do judaísmo oficial. Os samaritanos são uma delas. As seitas batistas jordanianas são outras. Existem personagens mais inquietantes, os “magos”, Simão ou Teudas, quer dizer, judeus influenciados pelo dualismo iraniano.
117 “Il messaggio di Gesù fu diversamente declinato, talché sarebbe più corretto parlare di ‘cristianesimi’ al plurale.
Alcune di queste forme vigoreggiarono un tempo per poi scomparire, altre ebbero vita lunga.” (RINALDI, 2016, p. 11).
118 Ao falarmos em “cristianismo primitivo”, entendemos o cristianismo do primeiro século e início do segundo século. Por cristianismo antigo, por sua vez, entendemos o conjunto do cristianismo periodizado até a queda de Roma, em 476. Seguimos aqui a proposta de periodização de Raymond: era apostólica (até a morte de Paulo, ca. 30-60); era subapostólica (60-100); pós-apostólica (100). Os “Padres Apostólicos” coincidem com a era pós-apostólica (finais do século I até primeira metade do século II). BROWN, R. E. As Igrejas dos apóstolos.
São Paulo: Paulinas, 1986. (Temas bíblicos). p. 100.
Reencontraremos o prolongamento destas correntes no cristianismo ortodoxo ou heterodoxo119.
Devemos situar a comunidade primitiva no contexto desse judaísmo bem complexo.
Além dos grupos mais conhecidos, como os saduceus, fariseus, essênios e zelotas, havia outros pequenos grupos marginais, uns mais, outros menos helenizados, entre estes aqueles genericamente designados como helenistas. Cabe destacar que, com exceção dos saduceus, encontramos representantes desses grupos na constituição das primeiras comunidades cristãs no ambiente da Palestina. Esses grupos eram muito reservados e elitistas. No entanto, exerciam enorme influência no povo judeu.
O núcleo da primeira comunidade cristã era constituído principalmente de judeus tradicionais, entre os quais havia fariseus convertidos. Mas cedo surge o problema das divergências entre os judeu-cristãos e os cristãos helenistas. Os Doze devem ser situados entre os primeiros e Estêvão com o grupo dos “diáconos” entre os segundos. De alguma forma os sadocitas convertidos eram outro polo de tensão com os judeus tradicionais e fariseus convertidos. Um papel preponderante deve ser reconhecido a esse grupo dos judeu-cristãos, do qual se formarão grupos mais radicais, por seu caráter judaizante e pela maneira de interpretar o messianismo de Jesus, como são os ebionitas e as comunidades representadas pelo Evangelho dos Hebreus, o Evangelho de Tomé e os Apocalipses de Tiago120. Nesses grupos Tiago (o
“irmão do Senhor”) tem preponderância sobre Pedro e João, e é apresentado como aquele que deve conduzir a comunidade depois da ascensão do Senhor e quem recebeu a gnose do Ressuscitado.
Associados aos fariseus encontram-se ainda escribas convertidos, que certamente seguiam o estilo literário dos targumim, com sentido cristão, como denotam a Epístola de Clemente, a Epístola de Barnabé e outros escritos posteriores, assim como “numerosas prescrições morais e fórmulas litúrgicas, cujo eco encontramos nos Evangelhos [que] se situam no prolongamento do judaísmo rabínico”121.
Com relação aos essênios, é provável que tenha havido sadocitas convertidos à comunidade cristã, ainda que nem todos os elementos referentes à vida em comum e partilha
119 DANIÉLOU, J. Das origens até ao terceiro século. In: ROGIER, L.-J. et.al. Nova história da Igreja. 3.ed.
Petrópolis: Vozes, 1984. v. 1. p. 41.
120 O Evangelho de Tomé e os Apocalipses de Tiago encontram-se entre os códices de Nag Hammadi. “Os três Apocalipses de Tiago, reencontrados em Nag Hammadi, e que são gnósticos, atestam as fontes judeu-cristãs do gnosticismo. Nos escritos pseudo-clementinos, que utilizam fontes judeu-cristãs ebionitas, Tiago se apresenta como o personagem mais importante da Igreja (Hom. Clem. 1,1).” (DANIÉLOU, 1984, p. 33).
121 DANIÉLOU, 1984, p. 34.