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A divisão do sujeito no processo de alienação

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 42-47)

1.3 Do “indiviso” à divisão do sujeito

1.3.2. A divisão do sujeito no processo de alienação

recalque primevo, que seria a primeira fase, incide na negação da entrada no consciente ao representante psíquico da pulsão, estabelecendo-se com isso uma fixação, a partir da qual, o representante psíquico permanece inalterado, e a pulsão permanece ligada a ele.

Partiremos desse ponto mais a frente, tentando relacionar o recalque inaugural, responsável pela clivagem psíquica necessária para a organização de um inconsciente recalcado, com a entrada do campo simbólico e sua função estruturante. O recurso a Lacan é justificado por ter sido ele o único comentador de Freud capaz de possibilitar uma articulação da psicanálise freudiana com disciplinas contemporâneas, como a linguística, sem se afastar de seu maior propósito: o retorno a Freud.

constituição. As múltiplas experiências sensoriais dão ao bebê a sensação de um corpo fragmentado. Seu interesse psíquico encontra-se arrastado sobre as tendências mirando um certo recolar do corpo, por uma unidade (LACAN, 1938, p.

26).

Lacan, interessado nos estudos da etologia e no teste do espelho proposto por Henri Wallon, destaca que antes mesmo da coordenação motora ser neurologicamente possível, a criança já se reconhece no espelho.

o filhote do homem, numa idade em que, por um curto espaço de tempo, mas ainda assim por algum tempo, é superado em inteligência instrumental pelo chimpanzé, já reconhece não obstante como tal sua imagem no espelho. (LACAN, 1949, p 96).

Entretanto, diferentemente dos animais que ao se reconhecerem no espelho logo se desinteressam por ele, o bebê se fixa na imagem formada. O reconhecimento de uma unicidade só pode provocar no infans um regozijar diante da unidade que se presentifica diante dos seus olhos. Ainda que a ele não é possibilitado elaborar esse júbilo em palavras, o bebê demonstra euforia ao ver refletido no espelho uma imagem que corresponde a si e ao seu movimento.

Embora sua insuficiência ainda seja determinante, o bebê a supera precipitando uma imagem primordial de eu identificada àquela projetada no espelho.

Isto é, a experiência de totalidade corporal – que irá desembocar na formação do eu - antecede à plena maturação das funções psicológicas superiores, responsáveis pelo controle motor. O estádio do espelho configura para a criança uma identificação, ou seja, uma transformação que é produzida quando ela assume uma imagem (Lacan, 1949, p. 97).

No estádio do espelho, Lacan desenvolve o que, em sua teoria, se poderia chamar de primeira fase do complexo de Édipo. O bebê humano - prematuro, se comparado ao animal recém-nascido, que se desenvolve rapidamente - percebe sua imagem refletida no espelho, e essa imagem lhe dá uma Gestalt antecipada do que, na realidade, ele ainda não é, ou seja, ela lhe dá uma imagem ideal. Ao identificar-se com essa imagem ideal, o sujeito se anula. (ALBERTI. 2009 p.178).

O que Lacan destaca na base desse processo é a necessidade de um Outro humano que dê um lugar à imagem projetada, caucionando por meio do olhar e da palavra que a imagem refletida é a criança. Vê-se aí fundamentada a assertiva de Lacan que o eu [moi] é um outro. Isto advém tanto de que a base do eu está numa projeção que vem de fora, como também de que o valor desta imagem é sustentado e autenticado por um Outro que também está fora.

Nesse tempo, contemplamos a aparente primazia do registro imaginário, lugar por excelência do eu [moi], em que o outro se destaca como semelhante, como igual, donde o sujeito pode reconhecer-se. A partir desta apreensão da imagem que vem de fora, da relação com o Outro, vemos que esse processo é alienante. Daí Lacan (1949) dizer que:

o estádio do espelho é um drama cujo impulso interno precipita-se da insuficiência para a antecipação [...] e para a armadura enfim assumida de uma identidade alienante, que marcará com sua estrutura rígida todo o seu desenvolvimento mental (p. 100).

É alienante uma vez que há uma ortopedia da imagem que não possui nada de exclusivo. Ela não é produto do interior do sujeito nem é propriedade deste, sua origem é no campo do Outro. Embora estejamos falando de uma aparente primazia do imaginário, é imprescindível destacar que este é amparado pelo registro simbólico. Uma vez que a criança nasce imersa em um mundo de linguagem, a fala dos pais introduz o simbólico nesse que é um sujeito em potencial e que já está capturado antes mesmo de nascer. O desejo dos pais se articula entre os significantes que operam a linguagem demarcando lugares no interior de uma estrutura inconsciente de trocas. Desta forma, ele já é banhado pelos efeitos da linguagem antes dela se apropriar e, consequentemente, nela se inscrever.

No experimento do buquê invertido (Lacan, 1953-1954), Lacan salienta que para conseguir visualizar a imagem refletida no espelho, o observador precisa se manter dentro do “cone de emissão”, que é o único lugar possível de avistar a ilusão de tridimensionalidade acirrada pela imagem real do buquê. Esse lugar representa a exigência de uma posição ocupada na ordem simbólica para que o sujeito consiga se apropriar da imagem formada no campo especular. “É desse lugar que depende o fato de que tenha direito ou defesa de se chamar Pedro” (ibidem, p. 111).

É no Esquema simplificado dos dois espelhos (ibidem, p. 185) que se torna mais fácil a apreensão da estruturação simbólica sustentando o processo especular.

O espelho plano intervém como mediador entre a imagem real produzida no espelho côncavo e a imagem virtual, ilustrando o processo em que a palavra passa a intermediar a relação entre o sujeito e a imagem de si.

Apesar de, esquematicamente, a imagem preceder a fala, o campo da linguagem não é cronologicamente posterior ao registro imaginário. Embora o infans não tenha ascendido à linguagem quando na inicial identificação imaginária ao outro,

“seria um erro acreditarmos que o Outro maiúsculo do discurso possa estar ausente de alguma distância tomada pelo sujeito em sua relação com o outro, que se opõe a ele como o pequeno outro, por ser o da díade imaginária(LACAN, 1960a/1998, p.

685).

E é pelo simbólico que a função do estádio do espelho alcança sua condição fundamental na formação do eu: a alienação. Nas palavras de Lacan “[...] o primeiro efeito que aparece da imago no ser humano é um efeito de alienação do sujeito. É no Outro que o sujeito se identifica e mesmo se experimenta de início (1946, p.

181)”, e também que: “Essa relação erótica em que o indivíduo humano se fixa a uma imagem que o aliena em si mesmo, eis aí a energia e eis aí a forma onde tem origem esta organização passional que ele chamará de seu eu" (1948, p. 116).

Podemos relacionar o Estádio do Espelho à primeira fase do Complexo de Édipo. Sabe-se que o neonato em suas necessidades vitais é amparado pelo desejo do Outro primordial, ou seja, o infans em seu desprovimento da fala, depende não só que o Outro o cuide e interprete suas necessidades, mas que ele sinta prazer em satisfazê-las. Lacan irá nos descrever a primeira fase do Complexo não como, simplesmente, a relação simbiótica da criança e da mãe, mas da criança com o desejo da mãe. Em se alienando ao desejo da mãe, a criança experimenta e se identifica pela circulação do desejo. Ela deseja o desejo do Outro, deseja se fazer reconhecer, deseja ser o desejo do Outro em todas as ambiguidades que tal afirmação suporta.

Portanto, é na medida em que a criança assume inicialmente o desejo da mãe - e ela só o assume como que de maneira bruta, na realidade desse discurso - que ela se abre para se inscrever no lugar da metonímia da mãe, isto é, para se transformar no que lhes designei, outra dia, como seu assujeito. (LACAN, 1957-1958, p. 208).

A criança fica especialmente isolada na situação dialética desta primeira fase, desprovida de qualquer outra coisa que não o desejo desse Outro que já se constituiu como aquele que pode estar presente ou ausente. Lacan aponta que a criança já reconhece o objeto do desejo da mãe, e este é o falo, que se apresenta como eixo de toda a dialética subjetiva. Se estamos afirmando que a criança tem o desejo de ser o objeto do desejo do Outro, não é surpreendente que esta venha surgir no lugar do objeto do desejo da mãe como que para atingir a satisfação. A criança se identifica especularmente como falo e desta forma, se torna o assujeto, assujeitado ao Outro primordial.

Sinteticamente, a partir do nascimento, o bebê é cuidado por um Outro primordial e por estar imerso no mundo da linguagem, é marcado pelo significante que lhe vem do Outro. Entretanto, “o seu ser não pode ser totalmente coberto pelo sentido dado pelo Outro: há sempre uma perda” (BRUDER & BAUER, 2007, p. 515).

Para entender melhor esse processo, formalizado por Lacan como alienação, utilizaremos da metáfora de “a bolsa ou a vida” compartilhada no Seminário, livro 11:

os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). No cerne desta aparente encruzilhada, estão implícitas uma escolha forçada e uma inerente perda em qualquer escolha (a da bolsa implica na perda das duas, e a da vida implica na escolha de uma vida, sem a bolsa).

Podemos localizá-lo (...), esse Vorstellungsrepräsentanz, nesse primeiro acasalamento significante que nos permite conceber que o sujeito aparece primeiro no Outro, no que o primeiro significante, o significante unário, surge no campo do Outro, e no que ele representa o sujeito, para um outro significante, o qual outro significante tem por efeito a afânise do sujeito.

Donde, divisão do sujeito – quando o sujeito aparece em algum lugar como sentido, em outro lugar ele se manifesta como fading, como desaparecimento. Há então, se assim podemos dizer, questão de vida e morte entre o significante unário e o sujeito enquanto significante binário, causa de seu desaparecimento. O Vorstellungsrepräsentanz é o significante binário. (ibidem, p. 207):

Lacan indica que há sempre uma determinada escolha emaranhada no assentimento da criança à sujeição a esse Outro - uma "escolha forçada". Se a criança decide por não se submeter ao Outro, essa escolha acarreta determinantemente na perda de si mesmo, impossibilitando o advento do sujeito.

Portanto, a partir da alienação, entendemos que a criança escolheu a sujeição à linguagem, tendo aceitado não apenas ser efeito do significante, como também de expressar suas necessidades por meio da linguagem se submetendo agora à identificação produzida pela palavra.

O sujeito existe a partir do momento em que a linguagem o acomoda e o conforma, ainda que ele permaneça sem-ser, um conjunto vazio, o sujeito aliena-se para passar do ser ao sentido. E esta palavra o reduz à medida do desejo do Outro primordial, sim, pois a alienação comporta tanto a linguagem quanto o desejo, sendo impossível separá-los. O desejo emerge na linguagem e só por ela, e a linguagem também compreende essencialmente um furo, um vazio, que a fala contorna, faz borda e tenta recobrir, porém sem jamais conseguir obturá-lo. Ou, como resumiria Lacan: “o desejo deitou-se com o significante (LACAN, 1957-1958, p. 155).

O vestígio primordial do sujeito é esta falta e o significante que lhe vem desde o Outro vem exatamente para constituir do nada o vazio7. O significante é o que tem autoridade de extrair do real a existência que distingue, ao mesmo tempo que apaga o ser A alienação constitui o primeiro passo da instituição da ordem simbólica, condenando o sujeito a aparecer apenas na divisão.

Vemos, portanto, como desde os primeiros passos de sua constituição, o sujeito é marcado por uma divisão, na medida em que se submete ao desejo do Outro e é marcado por seus significantes. A captura significante já se produz dilacerando e traçando esse contínuo e é nesse corte que se representa o sujeito.

Desta operação surge o traço, a linha do corte, que cinde o sujeito entre o SER e o SENTIDO. Enquanto escolhe se submeter ao sentido que emerge no campo do Outro, sucede o desaparecimento do ser. Nesse momento o infans não acedeu à palavra, somente é falado pelos significantes que vêm do Outro. Para falar é necessário haver a articulação de pelo menos dois significantes, sendo preciso que o segundo significante advenha (BRUDER & BAUER, 2007). O sujeito, então, aparece na divisão intervalar entre S1 e S2.

Na escolha pelo sentido, o significante mortifica o ser, como Lacan nos ensina em O Seminário livro 11: “não há sujeito sem, em alguma parte, afânise do sujeito, e é nessa alienação, nessa divisão fundamental, que se institui a dialética do sujeito”

(1964, p. 209). Esta parte decepada de si mesmo sugere que algo permanecerá desconhecido, sem, todavia, cessar de operar como uma verdade subjetiva barrada.

O sujeito experimenta assim, na simbolização primordial, sua divisão subjetiva.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 42-47)