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A divisão do sujeito no recalque primordial

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 47-54)

1.3 Do “indiviso” à divisão do sujeito

1.3.3 A divisão do sujeito no recalque primordial

O vestígio primordial do sujeito é esta falta e o significante que lhe vem desde o Outro vem exatamente para constituir do nada o vazio7. O significante é o que tem autoridade de extrair do real a existência que distingue, ao mesmo tempo que apaga o ser A alienação constitui o primeiro passo da instituição da ordem simbólica, condenando o sujeito a aparecer apenas na divisão.

Vemos, portanto, como desde os primeiros passos de sua constituição, o sujeito é marcado por uma divisão, na medida em que se submete ao desejo do Outro e é marcado por seus significantes. A captura significante já se produz dilacerando e traçando esse contínuo e é nesse corte que se representa o sujeito.

Desta operação surge o traço, a linha do corte, que cinde o sujeito entre o SER e o SENTIDO. Enquanto escolhe se submeter ao sentido que emerge no campo do Outro, sucede o desaparecimento do ser. Nesse momento o infans não acedeu à palavra, somente é falado pelos significantes que vêm do Outro. Para falar é necessário haver a articulação de pelo menos dois significantes, sendo preciso que o segundo significante advenha (BRUDER & BAUER, 2007). O sujeito, então, aparece na divisão intervalar entre S1 e S2.

Na escolha pelo sentido, o significante mortifica o ser, como Lacan nos ensina em O Seminário livro 11: “não há sujeito sem, em alguma parte, afânise do sujeito, e é nessa alienação, nessa divisão fundamental, que se institui a dialética do sujeito”

(1964, p. 209). Esta parte decepada de si mesmo sugere que algo permanecerá desconhecido, sem, todavia, cessar de operar como uma verdade subjetiva barrada.

O sujeito experimenta assim, na simbolização primordial, sua divisão subjetiva.

realidade externa e a interna, inaugurando o princípio de realidade, que uma parte do aparelho psíquico se destaca inaugurando o sistema pré-consciente/consciente.

Contudo, deixamos em aberto a explicação sobre o inconsciente enquanto recalcado, ou seja, como barrado do sistema pré-consciente/consciente.

Na clássica carta a Fliess de 6 de dezembro de 1896, Freud escreve:

Você sabe que trabalho com a suposição de que nosso mecanismo psíquico foi gerado por um processo de estratificações sucessivas: de tempos em tempos o material preexistente, sob a forma de traços de memória sofrem um rearranjo de acordo com novas associações, uma retranscrição (Umschrift) [...] Cada reescrita posterior inibe a anterior e desvia o processo excitatório. Cada vez que a reescrita subsequente falha, a excitação é processada de acordo com as leis psicológicas que eram válidas para o período psíquico anterior e é seguindo as vias então disponíveis. Um anacronismo subsistirá, então, em uma certa província alguns "fueros" ainda governarão; "relíquias" aparecem. [...] O impedimento (Versagung) da tradução é o que clinicamente chamamos de “recalque” (1896/1980, p.274;

276, tradução nossa).

Nesta época, Freud se esforçava para postular o princípio da fixação, tão caro ao conceito de recalcamento primário que Freud iria desenvolver anos depois.

Nesse momento, ele compreendia que o sistema psíquico funcionava como uma verdadeira inscrição de traços em séries de sistemas mnésicos que seriam traduzidos de um sistema para o outro.

Em psicanálise, não é unânime a consideração da fundação do inconsciente e a consequente constituição do psiquismo humano, tendo portanto, uma série de construções teóricas sobre a articulação do recalque originário como a primeira operação de firmamento do psiquismo.

Para tentar ilustrar o pensamento de Freud sobre o recalque primevo, Garcia- Roza recorre ao caso do Homem dos Lobos, escrito por Freud em 1914/ 1915. A partir de um sonho relatado pelo jovem paciente de quando tinha 4 anos de idade e que Freud interpreta como sendo uma cena de uma cópula entre os pais em um coito por trás, presenciada pelo paciente por volta de seu um ano e meio de idade, o autor tenta retirar o que lhe interessa à clarificação do problema do recalcamento originário.

O fato importante a se destacar nessa análise é a de que foi apenas a partir do sonho que o menino compreendeu o significado da cena primária que havia presenciado dois anos e meio antes e que mesmo no sonho o que foi vivido por ele não foi a cena em si, mas a cena dos (1940 [1938]) trepados na árvore. De fato, a cena do coito entre os pais nunca foi evocada, ela foi reconstruída por Freud a partir do relato do sonho e das associações do paciente. Quando Freud afirma que somente a partir dos quatro anos o paciente compreendeu o significado da cena primária, ele não está dizendo que a cena foi recordada pelo paciente, mas sim que, a partir do sonho, a cena ganhou significado traumático. (GARCIA-ROZA, 2009, p.158).

Segundo o autor, quando a cena foi vista pela criança na idade de um ano e meio, ocorreu sua inscrição num inconsciente não recalcado e, por isso, não teve uma significação nem, por consequência, um valor traumático. Apenas por ocasião do sonho, o menino deu sentido à cena, devido às suas excitações e às suas pesquisas sexuais (2009, p.158).

A partir de uma leitura histórica e rigorosa da obra de Sigmund Freud e da correspondência Freud/Fliess, Coutinho Jorge (2000) sublinha a relação entre a abdicação do funcionamento instintual - fruto da aquisição da postura ereta, a bipedia - e o consequente começo da pulsão como fatores efetivos e instituidores da espécie humana. Para Freud, o olfato cumpria sua função a partir de um funcionamento instintivo, cujo automatismo mirava o desencadeamento do acasalamento com fins reprodutivos.

Freud destaca que a diminuição dos estímulos olfativos está intimamente ligada ao fato da espécie humana, em sua evolução, erguer-se do chão, adotando a bipedia. A aquisição da postura ereta também obtém como consequência o predomínio do sentido da visão em detrimento do olfato. Esta passagem inaugura para Freud à noção de recalque orgânico, que precederia o recalque original.

(...) por que o recalque incide privilegiadamente sobre a sexualidade? Freud valorizava enormemente esse problema e chegou a afirmar que o recalque orgânico era sua “conjectura mais profunda”. Importa frisar que a noção de recalque orgânico percorre, ainda que de modo mais ou menos marginal, toda a obra de Freud, do início ao fim, desde a correspondência com Fliess até o ensaio sobre O mal-estar na cultura, sempre em breves observações ou em notas de rodapé. O que é o recalque orgânico? Ele está ligado à filogênese e é, para Freud, o efeito produzido pelo advento da postura ereta em determinado momento da evolução da espécie. A adoção gradativa da bipedia teve como conseqüência o decréscimo igualmente gradual da importância do olfato nas trocas sexuais entre os indivíduos da espécie, com o concomitante incremento da visão como elemento mediador primordial dessas trocas (COUTINHO JORGE. 2000, p.58).

O recalque orgânico seria a pedra fundamental do recalcamento e também o responsável pela transição da disposição instintiva animal para o funcionamento pulsional humano. Se a sexualidade animal era regida por estímulos olfativos periódicos e cíclicos, na passagem para predominância da visão, que foi a possibilidade de o humano advir, a sexualidade é balizada pela pulsão que é uma força ininterrupta. Desse modo, a defesa orgânica da nova forma de vida adquirida com o corpo ereto do homem contra a sua primeva existência animal, seria o ascendente do recalque sexual.

Podemos entender melhor a gênese da divisão dos sistemas a partir da inserção dos três registros propostos por Lacan: Real (R), Simbólico (S) e Imaginário (I). Para isso nos valeremos da citação do texto de COUTINHO JORGE (2000), que sinteticamente nos traz uma boa definição dos três registros:

O imaginário não é da ordem da mera imaginação e esse registro deve ser entendido como o da relação especular, dual, com seus logros e identificações, mas, sobretudo, segundo os desenvolvimentos finais de Lacan, com o advento do sentido. Já o simbólico é da ordem do duplo sentido, e o real, que não se confunde com a realidade, é o não-senso radical, ou, como diz Lacan, o “sentido em branco”. Dito de outro modo, o simbólico é o registro que permite ao falante mediatizar o encontro com o não-senso do real. (p. 46)

Completamos que o imaginário é o campo da consistência, da completude de sentido e o lugar do “eu” por excelência. O simbólico é o registro que atravessa e corta o plano das relações imaginárias. Este é o sistema dos significantes, tem íntima relação com o inconsciente e seu funcionamento é subordinado às leis da linguagem. Já o real é o que não se integra, o que não pode ser nomeado, pois não cessa de escapar da representação. O real aparece nas repetições ausentes de sentidos.

COUTINHO-JORGE (2000), depreendendo-se das formulações freudianas sobre o recalque orgânico, afirma que esta operação fundou o real inerente ao inconsciente e à pulsão, enquanto o recalque primário produz o recalcamento do real ao fundar o simbólico do inconsciente e da pulsão. Se propondo a pensar a fantasia articulada à pulsão de morte, sendo esta primeira a que vem desempenhar uma função de freio em relação ao real do gozo destrutivo da pulsão de morte, o autor sugere, inovadoramente, a hipótese de que a fantasia surge a partir da operação do recalque originário, agenciada pelo significante o Nome-do-Pai.

No subcapítulo em que abordamos o Estádio do Espelho foi evidenciado como uma relação regida pelo imaginário é precária de limites, ilusória e alienante.

Para que a relação de unidade inicial mãe-criança seja interrompida, é necessário que o simbólico adentre pela operação que Lacan chama de metáfora paterna ou função paterna. É o pai, ou melhor, o Nome-do-Pai, o significante primordial que incidirá com o “Não” interposto à satisfação mútua configurada na relação mãe- criança, criando um espaço ou uma lacuna fundamental entre elas.

a função paterna é dada de início, estruturando o sujeito enquanto desejante. (...) é porque o pai vem barrar o desejo da mãe que o sujeito tem aberta a possibilidade de desejar. Até então, o bebê é objeto de desejo do Outro, mas no momento em que o pai aponta para o bebê que tem aquilo o que a mãe deseja, o pai passa a ser o detentor desse objeto. Aos olhos do

bebê, então, o pai tem o Falo, que faz com que a mãe descomplete-se dele, seu filho, e o sujeito passe a querer ter o falo, ficar como o pai. (ALBERTI, 2009, p. 231)

A simbolização primordial, gerenciada pela incidência do Nome-do-Pai, é correlativa ao mecanismo intrapsíquico do recalcamento originário que marca a entrada da criança no jogo humano, na ordem simbólica. Freud já declarava que no recalcamento primário era estabelecido um ponto de ancoragem que tornava os posteriores elementos psíquicos passíveis de serem recalcados. Se retornamos ao texto Projeto para uma Psicologia, retiramos dele o termo Vorstellungsrepräsentanz, que é traduzido por Lacan como representante da representação como chave para compreendermos o mecanismo originário.

Temos fundamentos, portanto, para supor uma repressão primordial, uma primeira fase da repressão, que consiste no fato de ser negado, à representante psíquica do instinto, o acesso ao consciente. Com isso se produz uma fixação; a partir daí a representante em questão persiste inalterável, e o instinto permanece ligado a ela (FREUD, 1915, p. 63-64).

É justamente a negação da Vorstellungsrepräsentanz no aparelho psíquico e sua fixação pelo investimento da pulsão que permite a existência da clivagem psíquica, dando ao recalque um antecedente lógico. Esse representante da representação é ausente de qualquer significado, ou, como trataria Lacan, um significante sem sentido, sem potência de representação.

O recalque é explicado por Lacan como tendo sua base em um casal de significantes: o "significante unário", que Lacan representa como S1, e o "significante binário" como S2, sendo este último o que vem a ser constituído como ponto central no recalque originário.

O Nome-do-Pai é o significante apaziguador que possibilita nomear, por meio da metáfora, o desejo do Outro materno. A medida em que um terceiro introduz a lei da interdição à relação alienante da mãe com a criança, esta última se depara com a falta, primeiramente, no Outro materno. Por consequência, se a mãe aparece agora marcada pelos limites, submetida à ordem simbólica e, portanto, sujeito do desejo, o infans não se vê mais como o objeto do desejo do Outro, mas como portador de uma falta irremediável, sendo que, aquilo que falta ao Outro também falta ao sujeito.

Na alienação temos um Outro completo, ilimitado, tesouro dos significantes, enquanto que, na separação, a condição lógica introduz um Outro barrado, a quem falta alguma coisa.

Uma falta é aquela que o sujeito encontra no Outro e que é própria da estrutura do significante, é o fato de, nos intervalos do discurso do Outro, nesse intervalo cortando os significantes, deslizar o desejo, o que faz o sujeito apreender algo do desejo do Outro. A outra falta é trazida pelo sujeito que responde a essa captura com a falta, anterior, de seu próprio desaparecimento (o desaparecimento que corresponde a sua afânise, ao se submeter ao sentido dado pelo Outro). Em plena alienação, vimos que há a falta do sujeito, vinculada ao significante afanísico, que obtura o que o significante pode dar de "ser" ao sujeito. Esta falta é recuperada com a falta do sujeito como objeto para o Outro. (BRUDER e BRAUER, 2007, p 518 - 519)

Desta forma, o Nome-do-Pai - tomado como a inscrição de uma barra na constituição do sujeito - que interdita o acesso tanto da mãe quanto da criança, também é o significante que retroativamente, dá sentido ao desejo materno, que era enigma para o sujeito. O Nome-do-Pai inscreve no campo do Outro a possibilidade de significação, ainda que sempre instável e impossível de ser atingida em sua plenitude. A criança, submetida à lei simbólica, advém como sujeito do desejo, a partir de sua entrada na linguagem. O sujeito vem a se servir da cadeia significante, utilizando-se dela e não apenas sendo utilizado por ela.

Quinet (2015) localiza o recalque originário no segundo tempo do Édipo com a intervenção do Nome-do-Pai no Outro que faz com que a identificação da criança com o falo da mãe seja destruída, ou, pelo menos, recalcada

A criança, antes submetida ao Outro absoluto (A), não barrado, encontra-se, a partir de agora, diante de um Outro barrado pela inscrição da castração no Outro (A), inaugurando-se a cadeia significante do Inconsciente do sujeito, momento que corresponde ao recalque originário (p. 44).

De acordo com a visão freudiana do complexo de Édipo, a angústia de castração se dá numa dupla face. Se por um lado a criança vê-se privada do investimento libidinal no objeto materno, por outro, esta é a sua possibilidade, diante da falta do Outro, de vir à cena como sujeito do desejo. Pois, como Lacan salienta, a angústia sobrevém quando a falta falta, quando a criança se vê como objeto de desejo na pretensa completude desse Outro Primordial, não podendo se estruturar como sujeito. Nessa perspectiva, a castração consagra a falta pela qual o desejo de fato se articula, e se essa falta não comparece, ofuscando a função do objeto e do sujeito, surge a angústia.

O que provoca a angústia é tudo aquilo que nos anuncia, que nos permite entrever que voltaremos ao colo. Não é, ao contrário do que se diz, o ritmo nem a alternância da presença-ausência da mãe. ... A possibilidade da ausência, eis a segurança da presença (Lacan, 1963, p.64).

Concluímos, portanto, que é pelo recalque da angústia em ser mero objeto do Outro, agenciado por esse significante distinto, que Lacan nomeia como Nome-do- Pai e Freud como Vorstellungsrepräsentanz, que há condição do inconsciente se organizar e de entrar em cena o sujeito do inconsciente, como efeito desse processo. Ou seja, o Outro é barrado e a criança deixa de ser o mero abjeto do Outro, podendo ser sujeito

Quando abordamos a alienação como uma das causações do sujeito, notamos de saída que se trata de uma operação na qual o sujeito será pensado como sujeito dividido entre o ser e o sentido. O sujeito não causa a si mesmo, ele é efeito do significante que lhe é introduzido, sendo o germe que carrega dentro de si que o que o cinde. (LACAN, 1960). Vimos que na petrificação do significante veiculado pelo Outro, embora já seja o primeiro contato do sujeito com o simbólico, ele fica aprisionado à marca radical que recebe do Outro, devendo então existir um outro tempo, a separação, que o liberte desta marca paralisante para que tenha acesso ao universo simbólico em sua potência dialética.

Uma falta é, pelo sujeito, encontrada no Outro, na intimação mesma que lhe traz o Outro por seu discurso. Nos intervalos do discurso do Outro, surge, na experiência da criança, o seguinte, que é radicalmente destacável: ele me diz isso, mas o que é que ele quer? Nesse intervalo cortando os significantes (...) está o que chamei de metonímia. É de lá que desliza o que chamamos desejo. O desejo do Outro é apreendido pelo sujeito naquilo que não cola, nas faltas do discurso do Outro”. (LACAN, 1964, p. 209).

No processo de passar do ser ao sentido, prevalece um resto não assujeitável à representação significante no campo do Outro. Esse resto evidencia o contorno do Outro em seu limite, o que vem dar seguimento à operação da separação que só é possível pelo recalque primordial agenciado pelo Nome-do-Pai.

Lacan (1964) salienta o caráter evanescente do sujeito do inconsciente, servindo-se da imagem de uma fenda para destacar que o núcleo da estrutura inconsciente é constituído por esta hiância causal. O sujeito não comparece apenas no campo do Outro enquanto tesouro dos significantes, mas também na relação com esse resto inassimilável, que não cessa de não se escrever e que evidencia sua irremediável divisão.

2 A PSICANÁLISE NA PÓLIS E O ADOLESCENTE ENTRE O DIREITO E O DESEJO

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 47-54)