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A equipe que cuida e é cuidada

No documento Quem cuida do cuidador? (páginas 140-145)

6 Quem cuida do cuidador?

6.6 A equipe que cuida e é cuidada

independência, para a singularidade, nem do cuidador nem do cuidado.

E mais adiante:

Quando a criança, através da maturação do seu apa- rato locomotor, começa a se aventurar para longe da mãe, é comum que ela fique tão absorta em suas pró- prias atividades que se esqueça da presença da mãe por longos períodos de tempo. Periodicamente, no entanto, ela retorna à mãe, parecendo necessitar, de tempo em tempo, de sua proximidade física [...] Deve- se ter em conta [...], que durante toda a subfase de treinamento, a mãe continua a ser necessária à cri- ança como um ponto estável, uma base que preen- cha a necessidade de reabastecimento através do contato físico.

Desde cedo, oscilam os momentos em que nos sentimos aptos a enfrentar o mundo com nossas próprias pernas e aque- les em que precisamos do colo e do abraço maternos. Na vida adulta continuamos a precisar desse “reabastecimento” toda vez que nossa “reserva” de autoestima e autoconfiança encon- tram-se exauridas.

Mas isso só será possível se, de um lado, conseguirmos nos sentir “bebês” e, de outro, encontrarmos, no âmbito dos nossos relacionamentos, quem se disponha afetivamente e empaticamente a ser “pai” e “mãe”. Nessas condições, instala- se um clima de compartilhamento, de mutualidade, de troca, que trará, como resultante, a recuperação da autoestima e da autoconfiança, ou seja, a possibilidade de, psicologicamente, voltarmos a ser adultos.

Na nossa equipe, cada profissional exercia o papel de cuidador (na função mãe). Esse era o papel pregnante seja à frente dos grupos, seja nos atendimentos individuais ou mes- mo nas outras atividades desenvolvidas. Éramos todos cuida- dores porque motivados para isso. Mas, por isso mesmo, identificados com os pacientes e estressados face à natureza

do trabalho desenvolvido, estávamos frequentemente fragili- zados, vulneráveis, necessitando receber cuidados. Circuns- tâncias pessoais ou profissionais, mesmo face ao bom “ambiente protetor” oferecido pela equipe, “deslocavam-nos”, algumas vezes, da “função-mãe” para a de “bebês”. Estou dizendo que, em condições normais, um “ambiente protetor” faz-se neces- sário ao redor da díade profissional-paciente. Mas em deter- minadas condições, a vulnerabilidade ou fragilidade do profissional alcança tal ponto que ele, dinamicamente, passa da “função-mãe” para a “função-bebê”. O holding que era ofe- recido passa, agora, a ser demandado.

Ora, se já era importante haver, para cada profissional, um ambiente de sustentação à sua volta, fundamental se tor- na que ele encontre quem cuide dele, quando seu nível de fragilidade atinge um determinado limiar. Aqui, eu entendo que a dinâmica da equipe marca a diferença. No nosso caso, dado o espírito de cuidadores de que estávamos imbuídos e o clima de coesão e transparência que circulava entre nós, o apoio vinha dos próprios colegas e nos tornávamos “mães” para aquele que necessitava de cuidado. Creio que o “círculo de sus- tentação” que envolvia as díades formadas conforme as cir- cunstâncias, e que funcionava como “pai” de todos nós, era a própria equipe representada pelo conjunto de profissionais e alicerçada na proposta de trabalho claramente definida e to- talmente compartilhada.

Em síntese, o exercício de relações afetuosas e cuidado- ras verificado entre os profissionais da nossa equipe só foi pos- sível, a meu ver, pelo exercício compartilhado das tarefas e pela comunicação franca que existia entre nós que, por sua vez, consubstanciavam-se num desejo comum de cuidar e numa proposta de trabalho claramente definida e coletivamente par- tilhada. Assim também ocorre com o holding que, em sendo o conjunto de cuidados oferecidos pela mãe ao bebê, resulta ade- quado se motivado pelo desejo da mãe de cuidar daquele bebê,

desejo esse acompanhado de um estado de sensibilidade (a pre- ocupação materna primária) que lhe permite captar de forma pronta (e empática) as necessidades do bebê e atendê-las de forma eficiente e eficaz. O apoio dado pelos profissionais, uns aos outros, pôde acontecer na medida em que a experiência compartilhada de cuidar-ser-cuidado foi sendo vivenciada à semelhança do holding através do intercâmbio de papéis que propiciava a cada um colocar-se, de acordo com as circunstân- cias e de modo flexível, como já disse, ora na “função pai”, ora na “função mãe”, ora na “função bebê”.

O cuidado vivenciado pela equipe traz no seu interior o reviver do encontro primitivo. O cuidado amoroso e empático da mãe, vivenciado pela dupla a partir do desejo de cuidar- ser-cuidado, empresta ao bebê o sentimento de acolhimento e de proteção que o faz sentir afinidade e desejo de permanecer- partilhar a presença da mãe. O vínculo ou parceria pai-mãe contribui para o apoio desejado e captado pelo bebê. É impor- tante que a equipe encontre espaços de troca, de cuidados mútuos, de apoio e acolhimento para que os vínculos de parce- ria e afinidade se consolidem. Na verdade, reproduz-se na equi- pe, o próprio grupo familiar. Um comentário da psicóloga é revelador:

[...] na equipe a gente não queria que alguém ficasse dependente de nós; nós acolhíamos, prá todo mundo crescer juntos... naquela equipe todos nós cresce- mos e depois fomos dando os filhotes: fulano foi fa- zer mestrado, eu vim para cá....tanto é que o grupo continuou funcionando mesmo quando alguém saía;

a gente tinha uma independência, a gente criava o nosso espaço apesar de estamos em grupo.

A fala é clara na relação com o grupo familiar: crescer e dar filhotes. Como enfatiza Mello Filho (1995), todo grupo

revive o grupo fundamental – familiar. Sua dinâmica tende a instituir papéis: pai-mãe-filhos de forma rígida ou flexível. O coordenador, pelo menos no início, tende a exercer o papel pai- mãe, mas, na continuidade, o próprio grupo, ou algum mem- bro do grupo, assume às vezes essa função.

Recentemente, ao participar de uma reunião com super- visores de equipes de unidades básicas de saúde, a enfermeira e a médica, ao exporem dificuldades do seu trabalho, disseram ser frequente a troca e o apoio mútuo entre ambas. E uma delas, referindo-se à outra, afirmou textualmente: ela é minha

“marida”!’ Ou seja, há um intercâmbio de funções pai-mãe, sendo, cada uma, ora marido, ora esposa.

Penso, agora, no profissional de saúde, que tem que, por dever de ofício, lidar com pessoas em sofrimento. Arrisco-me a afirmar que sem assumir a “função-mãe” o profissional não estará habilitado a cuidar do seu paciente. Será então um “pres- crevedor”, mas não um “cuidador”. Por outro lado, ao se identi- ficar com o paciente, “sofrerá” com ele, tornando-se vulnerável e necessitando de cuidado. Quem cuidará dele? Alguém há de assumir a “função-pai”. Foi essa possibilidade que visualizei no trabalho em equipe que desenvolvi junto a pacientes hiper- tensos. É claro que existem outras possibilidades de apoio ao profissional de saúde. Mas encontrá-la ali, no seu próprio lo- cal de trabalho, junto aos seus companheiros, foi a nossa expe- riência. Se considerarmos as ideias de Winnicott, a equipe de saúde reproduz a rede de sustentação básica: mãe-bebê-pai, na medida em que seus membros sejam capazes de se colocar ora como mães, ora como pais, ora como bebês.

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No documento Quem cuida do cuidador? (páginas 140-145)