3 Holding
3.5 Profissionais de saúde e holding
necessidade da criança em crescimento, do adoles- cente e, por vezes, mesmo do adulto, sempre que há uma pressão que ameaça confusão e desintegração.
Há momentos, pois, em que o indivíduo se mostra mais vulnerável, mais ameaçado em sua integridade física ou psi- cológica. Seu self se torna menos coeso, menos estruturado, menos confiante. Psicologicamente o indivíduo regride a uma fase de dependência. Busca um self-objeto capaz de lhe resti- tuir a integridade, o “eu” que ele construíra nos seus primórdios através da relação de holding. E o faz dinamicamente buscan- do o mesmo ambiente emocional. Buscando relações interpes- soais ou grupais que contenham, na sua essência, aqueles
“ingredientes” adequados à “boa” estruturação (ou reestrutu- ração) do self.
momento, de modo a podermos fornecer o ambiente emocional adequado. (Winnicott, 1990, p. 179)
Ele faz nítida distinção entre o processo “elaborativo” da fase edipiana, e o processo “vivencial” da fase que a antecipa.
Em nossa atividade terapêutica, reiteradamente nos envolvemos com pacientes; atravessamos uma fase em que ficamos vulneráveis (como a mãe) por causa do nosso envolvimento; identificamo-nos com a cri- ança, que por algum tempo permanece dependente de nós a um grau extremo. (1997, p. 28)
Winnicott dirige-se também a assistentes sociais e sus- tenta sua intervenção nos moldes de um holding oferecido às pessoas atendidas por esses profissionais. Diz que o ambiente social, na medida em que proporciona um ambiente facilita- dor (ou provisão ambiental adequada), pode contribuir mais que o psicanalista para o paciente que se mostre num estado regressivo. E textualmente declara:
Eu penso em cada assistente social como sendo um terapeuta [...]. Sua função mais importante é a tera- pia do tipo que é sempre conduzida pelos pais na correção de falhas relativas da provisão ambiental.
(Winnicott, 1982, p. 204)
Davis e Wallbridge (1982) assim se manifestam com re- lação à visão de Winnicott do trabalho das assistentes sociais:
Winnicott considerava o conceito de suporte parti- cularmente útil na descrição do trabalho de casos do serviço social. Em uma palestra na Associação de Assistentes Sociais, em 1963, ele disse: “Sua função
pode logicamente ser revista em termos de cuidados com bebês, ou seja, em termos de ambiente facilita- dor, da facilitação dos processos de maturação. A integração é vitalmente importante neste sentido, e seu trabalho neutraliza bastante as forças desinte- gradoras nos indivíduos e nas famílias, e em grupos sociais localizados... O serviço social tem sempre como objetivo não um direcionamento da vida ou do de- senvolvimento do indivíduo, mas a capacitação das tendências em ação no indivíduo, levando a uma evo- lução natural baseada no crescimento.
É clássica a proposta de Winnicott de lidar com a ques- tão da delinquência e é interessante assinalar como ele admite a hipótese de que a experiência de holding (no caso de um bom holding) possa ser vivenciada pela primeira vez já na vida adul- ta (ou adolescente) e conseguir ser internalizada pelo indiví- duo. Winnicott descreve um ambiente residencial para meninos problemáticos e diz que não seria possível um tratamento in- dividual. Uma das razões para a existência desses estabeleci- mentos é que os meninos não trazem um “ambiente interno suficiente”. E admite que tal ambiente possa ser “construído”
a partir do trabalho dos profissionais envolvidos.
A assistência residencial não é apenas algo que se torna necessário por não existirem pessoas em nú- mero suficiente e adequadamente treinadas para tan- tos indivíduos. A terapia de assistência residencial originou-se por existirem crianças a quem falta uma das, ou ambas, as características essenciais à tera- pia individual. Uma delas é que o único ambiente que pode lidar com elas adequadamente como indi- víduos é o estabelecimento residencial, e a outra é que elas trazem consigo uma baixa quantidade do
que Will Hoffer chamou de ambiente interno, ou seja, uma experiência de provisão ambiental suficiente- mente boa que tenha sido incorporada e ajustada num sistema de crença nas coisas. (Winnicott, 1999b, p. 253)
Entendo que o “ambiente residencial” reproduza o gru- po familiar e favoreça a “experiência de provisão ambiental suficientemente boa”. Entendo, também, que a equipe de saú- de, por sua natureza, assemelha-se em muito ao grupo famili- ar, na medida em que tem como proposta cuidar de alguém – o paciente – desejando, em última análise, restituir-lhe a saúde, ou seja, a linha de continuidade do ser. O paciente, vulnerabi- lizado pela doença, comporta-se psicologicamente como um bebê e anseia encontrar um ambiente cuidador capaz de lhe propiciar o resgate de sua integridade.
Além disso, o profissional de saúde, tanto quanto a mãe na sua tarefa de cuidar, identifica-se com seus pacientes e se vulnerabiliza também, necessitando, pois, de um ambiente de sustentação ou proteção ao seu redor. Se estiver inserido numa equipe e a mesma viver um relacionamento semelhante ao do holding, haverá sempre quem assuma momentaneamente o papel de “pai”, dando suporte à “mãe cuidadora”. Eu diria que, em alguns momentos, o próprio profissional assumirá o papel de “bebê”, cabendo aos demais e á equipe como um todo, ofe- recer-lhe um “ambiente cuidador”.
Vale ressaltar que o “ambiente familiar”, vivenciado por uma equipe de profissionais de saúde, só se faz possível, se cada um dos profissionais tiver, dentro de si, o desejo de cui- dar. Só nessas condições a ação profissional se constitui num
“ato de cuidar” e predispõe os seus membros a estabelecer rela- ções em muito semelhantes às que ocorrem no grupo familiar original.