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3.5 Cenário da pesquisa

3.5.1 A faculdade

"Uma faculdade na zona rural (como era denominada a zona oeste antigamente) é um contrassenso maior do que construir um galinheiro na Avenida Rio Branco". Esta frase dita por um vereador, em 1959, na Câmara, não fez desanimar o também vereador, da zona rural, Miécimo da Silva, que sempre se interessou pela Educação e, por isso mesmo, queria trazer para essa região uma instituição de Ensino Superior para formação de professores. O grande sonho de Miécimo era criar no bairro de Campo Grande uma Faculdade de Filosofia, mas o que parecia uma utopia para muitos se tornou uma realidade quando encontrou o apoio de profissionais e intelectuais interessados no desenvolvimento e crescimento da região a partir da Educação, entre tantos colaboradores destaca-se os seguintes professores: Deblangy Machado de Almeida, Wilson Choeri, Antônio Coletta de Almeida, Leda Corrêa de Noronha, Aloísio Jorge do Rio Barbosa, Carmem Navarro, Edméa Evangelho Lopes e Tito Urbano da Silveira.

A luta foi árdua, contra tudo e todos, mas em 1961, ainda sem sede própria,

conseguiu-se implantar a Faculdade de Filosofia no bairro de Campo Grande. O funcionamento se dava no Colégio Batista de Campo Grande, cedido pelo também fundador, Pastor Israel Pinheiro. A seguir, funcionou no Colégio Belisário dos Santos, graças à cessão feita pelo seu diretor, Professor Helton Veloso de Castro, tendo, posteriormente, foi transferida para a Fundação Souza Marques, em Cascadura, até instalar-se na atual sede, na Estrada da Caroba. Para atender às necessidades educacionais da região, principal prioridade de seus fundadores, a FEUC também teve a colaboração de muitas outras pessoas que, com uma visão altruísta e idealista, trabalharam até de graça para a implantação dessa Instituição.

Estão as Faculdades sediadas à Estrada da Caroba, 685, Campo Grande, cidade do Rio de Janeiro, Estado do Rio de Janeiro. As Faculdades mantêm em pleno funcionamento nove cursos de graduação, sendo que os cursos de Ciências Sociais, Geografia, História, Pedagogia e Letras (Português-Espanhol, Português- Inglês e Português-Literatura) foram autorizados a funcionar pelo Decreto nº 48.994/60 e reconhecidos pelo Parecer nº 411/66 e Decreto nº 59.848/66. Já o curso de Matemática, autorizado pelo Parecer nº 316/67 e Decreto nº 62.323/68, e reconhecido pelo Parecer nº 4868/75 e Decreto nº 77.171/76. O curso, atualmente, voltou a ser de Matemática, conforme Portaria nº175, de 12-08-2006.

Desta forma, as Faculdades Integradas Campo-Grandenses, há mais de 50 anos, dedica-se à formação de professores, tendo um compromisso moral com a qualidade da Educação, especialmente atinente à zona oeste da cidade do Rio de Janeiro - possuidora do maior contingente estudantil da América Latina - e a de municípios vizinhos ao Rio de Janeiro, como é o caso dos municípios de Itaguaí, Mangaratiba, Seropédica, Angra dos Reis, Parati, Paracambi e parte da Baixada Fluminense.

A tradição das Faculdades é tão acentuada nessa região, que dificilmente não se encontra em suas escolas professores formados por elas formados, e sua responsabilidade se torna ainda maior quando se constata que muitas autoridades da região, diretores de escolas e mesmo de instituições de Ensino Superior foram formados pela FEUC. São oferecidos, também, cursos de pós-graduação "lato sensu" nas áreas dos cursos já mantidos na graduação.

Segundo elementos da cultura africana, depois do nascimento de "deus" de seu ventre foram surgindo todas as coisas do universo: o sol, as estrelas, o mar, o homem e os animais. Na zona oeste, pode-se dizer, com certeza, que a FEUC foi

este "ventre" que gerou grande parte das instituições de ensino, proporcionando e favorecendo o seu desenvolvimento, graças ao seu pioneirismo e absoluto sucesso na visão real de futuro que tiveram seus idealizadores.

É possível comprovar que uma parcela significativa das autoridades regionais, a grande maioria dos dirigentes de escolas, dos docentes e até mesmo dos proprietários de escolas e faculdades da região e de municípios vizinhos são ex- alunos das Faculdades Integradas Campo-Grandenses. Neste sentido, a FEUC se constitui num grande pólo irradiador e multiplicador de educação em uma região que hoje é, sem dúvida, um dos maiores centros educacionais da América Latina.

Mesmo já tendo decorrido 50 anos de sua fundação, formando mais de 20 mil professors a FEUC, ainda hoje, se mantém na contramão da história, pois continua fascinada pela formação de profissionais da área de Educação. Enquanto a maioria das instituições de ensino superior deixaram de se interessar pelos cursos de Licenciatura, a FEUC se dedica à educação por acreditar que a mudança de um país começa a acontecer dentro das salas de aula e, é claro, naquelas que têm professores.

A prova de seu sucesso é que hoje convivem num momento muito especial na direção da instituição, antigos instituidores e fundadores, alguns de seus ex- alunos, como Hélio Rosa de Araújo, Jacinta Reis Ferreira, Dieni da Costa Pimenta, Durval Neves da Silva, além de muitos outros na área de ensino.

3.5.2. O Curso

O curso de pós-graduação em Teoria e Prática de Matemática oferecido pela Faculdade Integradas Campo-Grandenses - FEUC - pertence ao campo das ciências exatas e se destina a profissionais graduados em Matemática ou áreas afins que atuem ou pretendam atuar com seu ensino em qualquer nível. É oferecido na modalidade presencial.

A Matemática pode ser usada para explicar, medir e controlar processos naturais ou artificiais. Ela tem uma influência universal no nosso quotidiano e contribui de forma decisiva para o progresso e bem-estar da humanidade.

Entretanto, avaliações nacionais e internacionais sinalizam o baixo rendimento dos estudantes brasileiros nesta disciplina. Assim, paralelamente ao estudo de conceitos, faz-se necessário rever os métodos tradicionais deensino.

Pretende-se, portanto, avaliar e refletir sobre os principais aspectos relacionados aos conhecimentos na área da Educação Matemática, oportunizando aos alunos conhecer as orientações contidas nos Parâmetros Curriculares Nacionais para Matemática nos Ensinos Fundamental e Médio, identificarem as tendências atuais no ensino de Matemática e desenvolverem projetos e materiais didáticos para o ensino desta disciplina. O curso se desenvolve por meio de aulas expositivas, interativas e dinâmicas que incluem a utilização de laboratório de Informática e a apresentação de diferentes profissionais em palestras, mesas redondas, comunicações. São realizadas discussões em grupos, trabalhos individuais e em grupo, além de seminários e outros tipos de encontros educacionais.

Sendo assim, ao proporcionar diversos encontros, momentos nos quais diferentes profissionais que atuam direta ou indiretamente relacionadas ao tema do curso expõem e discutem o trabalho que realizam em parceria, o curso verifica que os alunos podem compreender a importância da atuação conjunta para a busca de soluções de problemas.

3.5.3. A turma

A turma é composta por 21 alunos/as, sendo 15 homens e seis mulheres. O primeiro encontro contou com a participação de 14 professores, registra-se, assim, a ausência de sete profissionais; no segundo sábado encontro 15 pessoas estavam presentes e seis ausentes; do terceiro encontro participaram 16 professores/as e foram cinco os ausentes. E, por fim, no último dia de encontro contou-se com a presença de 18 participantes, apenas três ausências. Foi possível conferir que todos os integrantes estavam inseridos em salas de aula, seja nas redes públicas e/ou privadas.

O comprometimento do grupo era traduzido pelo constante clima de participação, sobretudo nos debates e questionamentos durante a realização das atividades. Os alunos trabalhavam bem e de forma organizada. Em relação aos motivos que nos levaram a escolha do curso e a respectiva turma, é importante deixarmos registrado que estiveram pautados, a partir do interesse do curso, por meio da disciplina - Prática de Ensino Fundamental e Médio – em rever métodos

tradicionais de ensino, possibilitando então se pensar um contexto diferente de um contexto europeu, com um conteúdo programático disciplinar favorável a implementação de oficinas e projetos de trabalho.

3.5.4. O profissional: funcionário e estudante da faculdade que realizou as filmagens e as fotografias

As filmagens e fotografias foram realizadas por um profissional da área, também funcionário técnico-administrativo da faculdade e estudante do 7º período do curso de licenciatura em Matemática. As suas contribuições foram valiosas, embora não fosse aluno do Programa de Pós-graduação, mas, aluno do curso de Matemática da Faculdade em questão, o colega se sentiu tocado em vários momentos das discussões, com as falas das alunas/os professoras/res do grupo ao ponto de pedir a palavra e dar os seus depoimentos e fazer as suas intervenções, passando a câmera de filmagem para outro colega professor. Este profissional foi o responsável pelos vídeos e também por todos os registros fotográficos. O termo

“profissional” é totalmente adequado, pois este trabalha no ramo de filmagens e fotografias através de uma pequena empresa, onde trabalha como cinegrafista e fotógrafo. Declara-se sua participação como fundamental ao alertar os organizadores quanto aos aspectos técnicos mais gerais, tais como: a organização dos alunos durante as atividades de filmagem, os momentos em que devíamos interromper as atividades, os alunos de quem deveríamos nos aproximar para uma observação mais detalhada dos diálogos e condutas, as questões de iluminação e som.

3.5.5. Síntese do capítulo

O interesse principal desta pesquisa é investigar as concepções que alunos do respectivo Programa de Pós-graduação revelaram sobre a implementação da Lei Federal 10.639/03, mais precisamente, a identificação de condutas, concepções e procedimentos relativos a Lei que os professores apresentariam enquanto vivenciassem a proposta de ensino. Procurou-se, deste modo, abordar, nas oficinas, questões que perpassassem por todos esses contextos.

73 4 ANÁLISE

As análises dos dados foram organizadas em uma sequência que teve por critério seguir as temáticas de argumentações percebidas, ao decorrer das análises.

Pensar as análises dos dados a partir dessas divisões, não foi tarefa fácil, haja visto que eles não aconteceram linearmente, mas de modo dinâmico e integrado. A divisão foi feita a partir das temáticas Relações Étnico-raciais e História e Cultura Africana e Afro-Brasileira Esteriótipos, Identificação e Relação com os Conceitos Matemáticos.

4.1 Relações Étnico-Raciais e História e Cultura Africana e Afro-Brasileira

Neste subtítulo são apresentados os resultados que fazem referência às temáticas das Relações Étnico-Raciais e História e Cultura Africana e Afro-Brasileira revelados pelos participantes a partir das oficinas propostas. A observação destes resultados levou a reflexões que podem, sim, contribuir para o fomento do debate sobre o papel das respectivas temáticas na formação continuada de professores de Matemática que, acredita-se deve contemplar a construção de relações sociais positivas e o engajamento em lutas para a eliminação do racismo antinegro.

4.1.1 Ações afirmativas no ensino superior – políticas de cotas nas universidades públicas.

As faces da resistência – para quê Cotas?

Cotas é um equívoco – por que instituir e oficializar a discriminação?

O olhar lançado por um dos participantes sobre a questão das cotas nas universidades fez com que esta fosse compreendida não apenas como uma ação desnecessária, mas sendo, elas mesmas, promotoras da discriminação racial. As cotas, para muitos, se constitui como uma iniciativa que acarreta a negação da identidade negra e revela o desconhecimento da especificidade das condições objetivas de vida dos afro-brasileiros. Na fala do participante:

“Eu acho que com as cotas a discriminação vai continuar, as cotas reforçam a discriminação”. (Antônio).

É interessante questionar, na busca de algumas respostas para as indagações levantadas pelo participante, se a necessidade das cotas nas universidades não se justificaria exatamente pela existência de um sistema estruturalmente racista; se não é a discriminação dos negros, e o processo de exclusão a que estão submetidos diariamente, que gera a necessidade do estabelecimento de ações que visam corrigir as desigualdades históricas, colocando- os em seu devido lugar de visibilidade histórico-social e política, onde, na maioria das vezes, essa visibilidade é apresentada de maneira negativa e estereotipada? Se o preconceito racial já existe fora da universidade não é necessário que se criem condições para a sua superação?

Entendemos, então, que o discurso do participante aponta para a necessidade de compreensão das cotas como estratégias de intervenção contra o racismo antinegro, como um mecanismo capaz de romper com as estruturas de poder dominantes que são ocupadas, especificamente, pela supremacia branca.

Vale ressaltar que para Foucault (2001, apud Schucman, 2012. p. 75) “O poder não se tem, o poder se exerce”, ou seja, o poder não é algo que os indivíduos possuem, mas, sim, que realizam em atos e materialidades. É fundamental, portanto, que a análise das formas de exercer e manter a branquitude neste lugar simbólico de poder, para que se criem cada vez mais condições e mecanismos onde os negros possam ocupar lugares de poder somente ocupados por brancos e que, enfim, se constituam como cidadãos de direitos.

A adoção de cotas para negros em universidades contraria o princípio da meritocracia – faz-se necessário melhorar a Educaçãobásica.

Um dos alunos se apresentou contra a política de cotas nas universidades sinalizando a responsabilidade do governo, sem especificar a instância, de oportunizar melhores condições no que se refere à qualidade do ensino anterior ao vestibular, para que os alunos de escolas públicas consigam terem acesso por

via de mérito, de uma desta voz ouviu-se:

“Eu acho que o governo tinha que melhorar a qualidade do ensino, melhorar as políticas públicas que invistam na educação fundamental pública, buscando garantir uma educação de qualidade”. (Pedro).

A observação realizada possibilitou perceber neste discurso que muitos são os indivíduos que permanecem atrelados aos modelos meritocráticos e acabam por transferir para outras perspectivas educativas a responsabilidade pelas transformações que reconhecem necessárias. Compreende-se a dificuldade desta parcela de participantes que apresenta dificuldade em romper com as práticas instituídas, sendo também esta desconstrução uma tarefa da universidade pública, pois como órgão educacional responsável pela formação de inicial de professores deve assumir o compromisso com a mudança, não tendo apenas um lugar de passividade de onde aguarda a mudança estrutural da sociedade.

Giroux (apud BENTO, 2002), que se identifica com a fala do participante, reforça o discurso contra as ações afirmativas e as cotas nas universidades públicas, imputando a estas o status de “privilégios raciais”. O autor faz um paralelo entre o que se observa hoje no Brasil e o debate sobre branquitude nos EUA, apontando que na década de 80 os indivíduos brancos da classe média sentiram-se ameaçados pelos direitos das minorias cuja expansão os fazia perder privilégios. O Partido Republicano capitalizou sobre o medo dos brancos lançando um ataque agressivo às políticas de ação afirmativa, propondo a redução de gastos sociais e desmantelando o estado de bem estar. O discurso de branquitude estava carregado de medo, ressentimento e amargura e mascarava as profundas desigualdades raciais que marcavam a ordem social. A classe política que representava esta posição, este entendimento, termina por criar, um novo populismo que elegia um discurso que se pautava por valores tradicionais e individualistas contra os coletivos como a democracia multicultural e a diversidade cultural.

Os negros, desta forma, passaram a ser responsabilizados por todos os problemas que o país estava vivendo – um país onde parcela da mídia, que é formadora de opinião, defendia como ideal uma sociedade onde nenhum segmento racial fosse alienado, e que brancos não precisariam sentir-se mal,

responsabilizados, por pertencerem a esta etnia.

Foi, então, possível compreender que a política de cotas para negros nas universidades públicas não são consideradas, por alguns participantes, mecanismos

de redução dos efeitos antirracistas impostos aos grupos

desfavorecidos transferindo para a educação básica a responsabilidade pelamudança.

Reconhece os seus privilégios, mas, em relação às políticas de cotas nas universidades somos todos iguais.

A ideia de que o discurso brasileiro apresenta uma posição ambígua em relação ao racismo é totalmente legítima a partir do momento em que a perda de privilégios está em jogo. O reconhecimento do racismo não é, exatamente, um problema para a população brasileira, porém, quando este reconhecimento levanta a possibilidade de mexer nos privilégios estabelecidos para os caucasianos (brancos) a contrariedade, rapidamente, se organiza e se manifesta no discurso da igualdade, do “somos todos iguais”.

Todo o discurso é possuidor de uma racionalidade fragmentada e que, portanto, dialoga com interesses – assim, é sempre fácil admitir racismo quando a perda de privilégios não está em jogo, deste modo, quando se fala a respeito da política de cotas nas universidades, mesmo explicando seu caráter de mecanismo de correção da desigualdade histórica e social onde seus privilégios acumulados por anos de propriedade a partir da escravização do povo negro, o discurso do “somos todos iguais” surge forte, mas atemorizado, para defender o espaço do privilégio branco.

“Eu acho que não é justo ter cotas para negros porque eu conheço muita gente branca de periferia que também é pobre e não vai ter acesso”. (Carlos).

A fala do participante sinaliza aspectos significativos da branquitude e pode- se observar que, de acordo com o que foi dito, o problema está relacionado à classes sociais - onde todos podem ser atingidos. Essa ideologia é fortemente sustentada pela falsa democracia racial. Está arraigada no pensamento social brasileiro a ideia de que o pobre é o único responsável por sua posição social,

assim como o negro em relação à pobreza, remetendo ao injustiçado a responsabilidade pela própria posição. (MUNANGA, 1999. p. 49).

O reconhecimento dos privilégios não implica necessariamente em abrir mão desses privilégios, dessa maneira, o que a autora nos coloca vai ao encontro com o que pensa o respectivo participante, ou seja, brancos obtém privilégios e reconhecem o racismo. (SCHUCMAN, 2012. p. 76).

As faces da resistência – sim, as cotas são necessárias!

Abolir preconceitos e racismo – que ações são necessárias?

Sabe-se que existe a necessidade inicial e imediata de uma intervenção direta nos contextos racistas, independente de análises prévias, que contrariam os interesses da elite branca das Ciências Sociais, que “[...] sempre pregou a necessidade de primeiro interpretar a realidade das relações sociais raciais para depois intervir sobre ela”. A instituição das cotas é um mecanismo fundamental na luta antirracista, é fator capaz de desestabilizar e expor o racismo presente na Academia. Entende-se que, a partir do “... momento em que intervimos, o sistema reage, exibindo os seus sintomas recalcados. E é pelo flagrante desses sintomas que podemos conhecê-lo mais profundamente”. CARVALHO (2004, p. 80-81 apud VELOSO, 2006, p. 94).

A seguir a fala de um dos participantes, que acredita no sistema de cotas, que diante dos colegas defendeu sua posição, ressaltando a possibilidade de instauração do debate que dá visibilidade à questão racial, pela emergência de questões que precisam ser discutidas na escola:

“...a gente tem em todo o último domingo do mês um piquenique, lá no Aterro do Flamengo e, em um dos últimos piqueniques que a gente foi fazer um primo meu e o amigo dele estavam discutindo sobre cotas, cara foi muito curioso esse dia, a gente discutindo sobre cotas meu primo não concorda, o garoto que é negro também não concorda, aí olha o que aconteceu. Nosso piquenique, a gente chama de piquenique com Jesus, mas, a gente não fica pregando nada não, a gente só fica conversando e tal, enfim, aí eu falei pro Pedro e o amigo dele: “olha”, ali no MAM (Museu de Arte Moderna) estava tendo formatura, tem muita formatura ali, foto e tal, aí eu falei “olhem pro nosso piquenique com os moradores de rua e olhem pra aquela foto de formatura ali, procurem um negro ali se formando e procurem um branco ali no nosso piquenique”

não tinha, lá na formatura era só branco e com a gente comendo no piquenique era só negro, só negro, eu falei “vocês não conseguem

perceber a importância das cotas só nesse visual?” Aí já baquearam, né?”. (Marcos).

A implementação do sistema de cotas raciais nas universidades públicas, ao produzir modificações em suas estruturas, faz emergir discursos e práticas de resistências contra as medidas de intervenção nas condições de subalternização dos afro-brasileiros. Sendo assim:

“Por este modo de compreender a realidade, faz-se necessário que não apenas professores e professoras rompam com preconceitos raciais dissimulados pelos valores democráticos assumidos pela sociedade brasileira. É fundamental que os alunos, sobretudo os afro-brasileiros, tornem-se conscientes, e se instrumentalizem para a luta contra as condições que os mantém em uma posição social subordinada”.

(VELOSO, 1996. p. 95).

Entende-se, portanto, a fundamental relevância da inserção dos alunos cotistas, sobretudo os afro-brasileiros nas universidades públicas, haja vista que a história desse país necessita ser refeita por quem de fato a construiu e uma nova realidade social passe a ser estabelecida. A instituição universitária não pode se esquivar, sob pena de oportunizar acesso aos cursos superiores, sem, contudo, possibilitar a transformação da realidade social.

4.1.2 Representações e impressões sobre o corpo negro.

O presente tópico tem seus desdobramentos a partir de uma declaração feita por um dos participantes da pesquisa. É importante destacar que esse participante se autodeclara negro. O momento que envolve a declaração foi um dos mais importantes e o que mais nos sensibilizou durante as roda de conversas, ao ponto de se transformar em reflexão em relação aos propósitos na pesquisa. A construção de uma identidade negra que seja positiva em meio a uma sociedade que, historicamente, ensina ao negro, desde muito cedo, que para ser aceito é preciso negar-se a si mesmo, é um desafio enfrentado pelos negros brasileiros.

A declaração do participante, acerca de seu cabelo quando colocamos em discussão a construção da identidade negra, com foco na estética, onde disse

“Eu raspo a minha cabeça porque o meu cabelo é ruim” (João), estimulou a indagar algumas questões do tipo: Como os educadores negros pensam o próprio corpo? Como pensam e veem o corpo negro? Os educadores, durante os

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 68-73)