A opção por um caminho metodológico mais adequado para a elaboração deste trabalho é baseada na ideia da concretude e características inerentes à cada pesquisa, assim, entende-se que os princípios gerais dos métodos, embora úteis, são referenciais amplos, genéricos, não considerando as peculiaridades e especificidades de cada uma.
Para Becker (1993, p.13) é preciso adequar os métodos às circunstâncias e aos problemas. É possível, no entanto, afirmar que os objetivos da presente pesquisa foram delimitados e definidos, com segurança, deste o início do trabalho, portanto, não nos deparamos com maiores dificuldades em nosso caminhar metodológico.
O que ora se apresenta é um estudo de caráter intervencionista cuja proposta metodológica é classificada como quase experimental. Esta modalidade de pesquisa preserva algumas características da pesquisa qualitativa. É essencial pontuar, para maiores entendimentos, que os estudos exploratórios, segundo Fiorentini e Lorenzato (2006, p. 104) “[...] caracterizam-se pela realização de experimentos que visam verificar a validade de determinadas hipóteses em relação a um fenômeno ou problema”. Esses experimentos compõem a parte da investigação onde se manipulam certas variáveis e observam-se seus efeitos sobre outras. Estes autores ainda distinguem dois tipos especiais de pesquisa experimental:
a) quase-experimental: é aquele em que a variável independente é manipulada pelo pesquisador, operando com grupos de sujeitos escolhidos sem o seu controle;
b) experimental: é útil quando se deseja destacar as relações entre variáveis (previamente selecionadas); nele, as hipóteses desempenham importante papel e o pesquisador pode controlar tanto a variável independente como também a constituição dos grupos de sujeitos envolvidos na pesquisa. (FIORENTINI E LORENZATO, 2006, p. 105).
58 [...] responde a questões particulares, e que as ciências sociais não tratam da realidade quantificada. Elas trabalham com um universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, por isso as variáveis não podem ser medidas, porém devem ser descritas daí seu caráter exploratório e não confirmatório (TRIVIÑOS, 1987, apud
A partir da delimitação do objetivo geral e do problema de pesquisa os caminhos teórico-metodológicos deste trabalho pode ser, a partir das subespecificações da pesquisa experimental descritas anteriormente, classificado como quase-experimental, tendo a sala de aula como seu
“laboratório”. O experimento consistiu na intervenção de ensino e os testes diagnósticos. É importante salientar que, nos momentos de realização das atividades em grupos, a organização destes grupos ocorria por conta da turma, sem nenhuma interferência de nossa parte. Ressalta-se, ainda, não ter havido nenhum tipo de critério para as formações dos grupos.
As vivências cotidianas somadas às revisões bibliográficas podem conduzir à formulação de hipóteses em relação às condutas dos professoras/es quando estes profissionais são confrontados com situações relacionadas ao cotidiano escolar periférico de alunas/os negras/os onde se deparam, diariamente, com as questões Étnico-Raciais, então, é preciso não estabelecer hipóteses explícitas, pois, acredita- se que as mesmas estariam implícitas nas questões de pesquisa, assim como tantas outras não perceptíveis por virem através dos critérios que foram empregados na organização das oficinas propostas. É, portanto, este tipo de caminhar livre que permite apontar e dizer que a pesquisa apresenta suas características enquanto pesquisa qualitativa.
A abordagem qualitativa, tendência crescente no panorama educacional, a vem se voltando, especialmente, para o interior da escola e neste processo de aproximação procura captar seu cotidiano, extraindo dele os elementos capazes de construir novos conhecimentos. Reconhece-se a importância da análise sobre o que se passa em sala de aula, sobretudo na situação de ensino e aprendizagem, para tal são utilizadas metodologias de cunho mais qualitativo e das quais espera-se subsídios para a construção de conhecimentos mais relevantes sobre o universo escolar, seus atores, a produção do conhecimento, e as relações que ali ocorrem, tanto com o macrossistema, como em seu interior.
Em relação à abordagem qualitativa, Triviños (1987, apud KIMURA, 2005, p.194), diferencia a pesquisa qualitativa da quantitativa, defendendo que ela:
58 KIMURA, 2005, p. 194).
Nesse sentido, Lüdke e André (1986, p. 11/12/13), citando Bogdan e Biklen (1982), apontam cinco características básicas que configuram uma pesquisa qualitativa em Educação:
1 - “A pesquisa qualitativa tem o ambiente natural como sua fonte direta de dados e o pesquisador como seu principal instrumento”. (1986, p. 11). Sendo assim, a pesquisa qualitativa supõe o contato direto e prolongado do pesquisador com o/s ambiente/s, o/s objeto/s ou sujeito/s que estão sendo investigados/as, via de regra, por meio do trabalho intensivo de campo. A partir do descrito será preciso apontar a elaboração de mecanismos que busquem estreitar os contatos com as professoras e professores do Programa de pós-graduação, de maneira a nos tornarmos imersos a todo esse ambiente natural. Essa imersão, diferentemente de uma inserção, colocará esta pesquisa diante da possibilidade da busca por impressões iniciais relacionadas aos conhecimentos e (des)conhecimentos sinalizados pelo grupo em relação à temática das Relações Étnico-Raciais e a Lei Federal 10.639/03.
2 – “Os dados coletados são predominantemente descritivos. O material obtido nessas pesquisas é rico em descrições de pessoas, situações, acontecimentos; inclui transcrições de entrevistas e de depoimentos, fotografias, desenhos e extratos de vários tipos de documentos”. (1986, p. 12). Todos os dados da realidade em questão são de fundamental importância para contextualizar o trabalho aqui apresentado, desta maneira, é preciso atentar para o maior número possível de registros, e suas respectivas qualidades, observando os elementos de pesquisa presentes em cada uma das situações que compõem cada momento “Roda de conversa: perspectivas acerca de uma Educação para as Relações Étnico- Raciais”; “Brincadeiras cantadas e Jogos de Cognição: os valores civilizatórios Afro- brasileiros como base para a formação continuada de professores de Matemática”; “O jogo Mancala: do mágico ao sagrado”; “Registros de impressões individuais”, além de registros fotográficos e filmagem. Entende- se, por meio destas atividades, que aspectos supostamente triviais e essenciais poderão emergir para a melhor compreensão de nosso problema.
3 – “A preocupação com o processo é muito maior do que com o produto.
O interesse do pesquisador ao estudar um determinado problema é verificar
58 como ele se manifesta nas atividades, nos procedimentos e nas interações cotidianas”. (1986, p. 12). A pesquisa em curso observa o pensamento dos professores do programa e como estes veem o currículo de maneira diferente das tradicionais, para que se rediscuta outro aspecto, ainda mais cruel do racismo: o racismo epistêmico, ou seja, aquele que tenta invalidar a produção e a contribuição dos povos africanos e afro- brasileiros à produção cientifica e à produção intelectual.
4 - “O ‘significado’ que as pessoas dão às coisas e à sua vida são focos de atenção especial pelo pesquisador”. (1986, p. 12). O presente estudo busca, assim, entender os diferentes pontos de vista dos professores/as ao observar como estes compreendem e interpretam a política educacional voltada para a diversidade Étnica-Racial.
– “A análise dos dados tende a seguir um processo indutivo”. (1986. p.13).
Não houve preocupação em buscar evidências que comprovem hipóteses definidas antes do início dos estudos. Concorda-se com Lüdke e André (1986, p. 13), quando afirmam que “[...] as afirmações se formam ou se consolidam basicamente a partir da inspeção dos dados num processo de baixo para cima”.
Relata-se, assim, que características identificadas por Lüdke e André (1986, p. 19) em estudo qualitativo podem ser observadas no presente estudo. A saber: 1) Visar à descoberta; 2) Enfatizar a “interpretação em contexto”; 3) Buscar retratar a realidade de forma completa e profunda; 4) Usar uma variedade de fontes de informação; 5) Permitir generalizações naturalísticas, isto é, generalizações que ocorrem em função do conhecimento experimental do sujeito, no momento em que este tenta associar dados encontrados no estudo com dados que são frutos das suas experiências pessoais. 6) Procurar representar os diferentes, e, às vezes, conflitantes, pontos de vista presentes numa situação social; 7) Utilizar uma linguagem e uma forma mais acessível do que os outros relatórios de pesquisa.
Encerramos este subtítulo considerando ser de extrema relevância para toda e qualquer pesquisa, com ênfase em Educação, um olhar para a dimensão política.
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