as habitações dos trabalhadores. Os ‘melhoramentos’ urbanos que acompanham o progresso da riqueza, a demolição de quarteirões mal construídos, a construção de palácios para bancos, lojas etc., o alargamento das ruas para o tráfego comercial... desalojam evidentemente os pobres, expulsando-os para refúgios cada vez mais abarrotados de gente. Além disso, todo mundo sabe que a carestia do espaço para morar está na razão inversa da qualidade da habitação. Com o desenvolvimento e o ‘embelezamento’ das cidades, os males cresceram de tal modo que o simples medo das doenças contagiosas, que não poupam nem a respeitabilidade burguesa, motivou a promulgação pelo Parlamento de nada menos que 10 leis relativas à fiscalização sanitária”. (MARX, 1880:764-771, grifo nosso).
Do lado de cá, na parte de baixo do Atlântico. A administração do prefeito Pereira Passos (1902-1906) coloca em prática uma reforma urbanística e sanitária em todo o centro da cidade do Rio de Janeiro.
A Reforma Pereira Passos abriu ruas (Avenida Central, atual Rio Branco) e foi responsável pela construção de uma arquitetura europeizada presente até hoje no cenário carioca. Seu sentido principal era o de sanear e higienizar a cidade, retirando os pobres de seu centro econômico.
Como sabemos, e em nossas cidades ainda é assim hoje, estas pessoas constituíam o grosso da mão de obra barata necessária ao funcionamento da metrópole e tê-los distante significaria um sério impacto no arranjo produtivo da época e perdas consideráveis para aqueles que exploravam a força de trabalho. A solução encontrada foi autorizar a ocupação das encostas.
É assim que, autorizados pelo poder público que momentos antes os havia desalojado, os sem teto do “bota a baixo” recolhem escombros e constroem barracos em morros próximos, iniciando o processo de ocupação das encostas da cidade. Os cortiços do centro da cidade viram algumas das favelas que conhecemos até hoje.
espaço que assusta as classes mais abastadas e obriga o poder público a agir, via de regra, com força e violência contra seus moradores.
A tarefa de determinar o momento em que estes territórios surgiram no cenário da cidade já foi empreendida por inúmeros autores, todos concordam com a origem do termo “favela” e sua relação com o fato de o Morro da Providência, nos arredores do Ministério da Guerra, no Rio de Janeiro, ter sido inicialmente ocupado por soldados retornados da Guerra de Canudos (1896-1897).
Ocorre que, no sertão da Bahia, estes soldados conheceram uma planta muito comum que recobria a vegetação de um morro local de nome Favella11 (Jatropa phyllaconcha). Em referência à campanha militar de Canudos e seus soldados o morro por eles ocupado passou a ser conhecido como “Morro da Favella”
(VALLADARES, 2011; GONÇALVES, 2013).
Ademais, outras ocupações como a do Morro de Santo Antônio eram relatadas. Valladares (2011) aponta que territórios como a Quinta do Caju, o Morro da Mangueira e a Serra Morena, onde se encontravam majoritariamente imigrantes europeus, também encontravam-se ocupadas, desde 1881 por incentivo do poder público.
Outro autor, Campos (2010), defende a tese de que algumas favelas se desenvolveram a partir de antigos quilombo periurbanos que sem espalharam pela capital do Império, em meados do século XIX. Tese que é perfeitamente aceitável se pensarmos nas caracteristicas do Rio de Janeiro: capital de um regime escravocrata por mais de 300 anos, último país independente das Américas a abolir esta odiosa prática.
Esta tese também é defendida por (LESSA, 2001), para quem, a organização de cunho quilombola urbana do Rio de Janeiro estaria presente na arqueologia da favela. Ele recorda que, alguns quilombos fronteiriços à cidade, como o da Serrinha, possibilitavam que seus moradores adentrassem a cidade para obter renda como faziam os escravos libertos.
Ao observar todas estas características ligadas ao surgimento das favelas, é de se esperar que a convivência entre seus moradores o conjunto da cidade não nascesse pacífica. Nos primeiros anos do século XX, os desconfortos causados às
11 A grafia da palavra, até o ano de 1942, quando houve uma reforma ortográfica no Brasil, era favella. Sempre que for feita menção ao período até 1942 ou quando forem utilizados textos desta época, será mantida a grafia original.
classes dominantes por estas aglomerações originaram inúmeras iniciativas estatais que buscaram conter e até mesmo eliminar a presença das favelas da topografia da cidade.
O pensamento urbanista de então absorve uma concepção organizativa de cidade, pautada pelos interesses do crescente mercado imobiliário, cuja orientação era regular a divisão espacial da cidade segundo suas necessidades de acumulação de capital. Há uma valorização financeira de muitos terrenos ocupados por favelas nas zonas sul e central da cidade. É deste período a proibição do Código de Obras12 do Rio de Janeiro de se construir novas moradias nas favelas. (VALLADARES, 2011;
GONÇALVES, 2013).
Havia uma intensa necessidade do poder público de entender tal reordenação dos pobres no espaço urbano e “na origem desse conhecimento impunha-se uma finalidade prática: conhecer para denunciar e intervir, conhecer para propor soluções, para melhor administrar e gerir a pobreza e seus personagens.”
(VALLADARES, 2000, p. 7).
Como podemos ler nos inúmeros relatórios da época sobre as favelas, havia por parte do poder público um posicionamento evidentemente preconceituoso. Um deles, apresentado pelo diretor do Albergue da Boa Vontade Vitor Tavares de Moura ao Secretário-Geral da Saúde, é como um enunciado do pensamento recorrente das elites sobre as favelas, naquele caso específico o Morro da Favela:
“A vida lá em cima é tudo quanto há de mais pernicioso. Imperam os jogos de baralho, de chapinha, durante todo o dia, e o samba é a diversão irrigada a álcool. Os barracões, às vezes com um só compartimento abrigam, cada um, mais de uma dezena de indivíduos, homens, mulheres e crianças, em perigosa promiscuidade. Há pessoas que vivendo lá em cima, passam anos sem vir à cidade e sem trabalhar. E este morro está situado no coração da cidade, junto ao centro de trabalho intenso que são o porto, os moinhos Fluminense e Inglês, as Usinas Nacionais”. (VALLA, 1986, p. 35).
A descoberta da favela como fenômeno social se dá por conta da situação incômoda que sua presença causava na paisagem da cidade. O vertiginoso crescimento que experimentaram, colocando-as cada vez mais próximas da cidade
12 O Decreto Municipal n°. 6.000, de 1°. De julho de 1937, estabeleceu, pela primeira vez em seu artigo 349, um conceito jurídico oficial para tipificar as favelas, além de tratar das demais questões relacionadas à postura urbana como construções, loteamentos, altura dos prédios e zoneamento.
Suas especificações vigoraram até 1970 e influenciaram toda a expansão urbana do Rio de Janeiro e outros municípios que o tomaram como exemplo.
institucional, fez surgir o pensamento de que sua remoção era a solução para ordenar o solo urbano.
Somado a este caráter de “aberração” dado as favelas estava sua invisibilidade política. Os barracos concentravam uma população de analfabetos, impedidos de votar até então, e desempregados, que por estarem fora do mercado de trabalho formal não recebiam a devida atenção das políticas sociais. Estes sujeitos, por sua lateralidade social, ficavam de fora do jogo político da cidade, sendo obrigados a receber a imposição de ações governamentais construídas sem seu conhecimento ou concordância.