institucional, fez surgir o pensamento de que sua remoção era a solução para ordenar o solo urbano.
Somado a este caráter de “aberração” dado as favelas estava sua invisibilidade política. Os barracos concentravam uma população de analfabetos, impedidos de votar até então, e desempregados, que por estarem fora do mercado de trabalho formal não recebiam a devida atenção das políticas sociais. Estes sujeitos, por sua lateralidade social, ficavam de fora do jogo político da cidade, sendo obrigados a receber a imposição de ações governamentais construídas sem seu conhecimento ou concordância.
Por meio de incentivos fiscais e da participação dos Institutos de Aposentadoria e Pensões, foram construídos, no ano de 1942, três conjuntos nos bairros da Gávea, Caju e Leblon, para onde se mudaram cerca de 4.000 pessoas.
Para serem selecionados e receberem uma moradia nos parques, os indivíduos deveriam obedecer a inúmeros critérios, entre eles, ter trabalho comprovado na Zona Sul do Rio de Janeiro e possuir atestado de bons antecedentes.
Além disso, a vida nos parques proletários significava a obediência a severas regras de controle social. Esta atmosfera nos parques acabou gerando muitas resistências entre os moradores (VALLA 1986, p.38-39).
A experiência dos parques proletários criou um movimento de articulação interna que está na origem da organização das associações de moradores das favelas. A preocupação com a remoção de seus locais de vínculo afetivo e redes sociais, com a qualidade das habitações oferecidas e com o intenso controle sofrido, suscita nos moradores a necessidade de ação política para impedir que o estado agisse sem sequer consultá-los (BURGOS, 2006).
O contexto nacional era de saída de uma ditadura13. O Partido Comunista (PC), que até então atuava de maneira clandestina, passa a intensificar sua ação junto aos favelados, o que é percebido em sua grande vitória para a Câmara de Vereadores, quando elegeu 36% dos representantes, nas eleições de 1947.
Esta vitória se deu porque a trajetória de luta dos comunistas contra o fascismo e todo seu ideário de construção de uma sociedade igualitária encontrou reflexo nos anseios dos moradores dos parques proletários e favelas da cidade, tão envolvidos com um cotidiano de estigmatização, repressão e ausência estatal.
O PC instalou centenas de comitês populares pela cidade e nas favelas que duraram até o fim de seu curto período institucional, mas mesmo com a revogação da autorização de funcionamento do partido, em 7 de maio de 1947, as bases para a organização política dos moradores de favelas já estavam lançadas.
A atuação política dos moradores de favela junto ao PC cria e dá impulso a metáfora segundo a qual, era preciso, para o poder público “subir o morro antes que
13 O Estado Novo, período ditatorial que marcou o segundo governo de Getúlio Vargas (1937-1945).
deles desçam os comunistas”14. Era necessária alguma ação para solucionar as pautas dos favelados e, consequentemente, diminuir sua militância, para isso entra em atuação a Arquidiocese do Rio de Janeiro.
A Igreja Católica, em acordo com o Estado e servindo aos seus interesses, intensifica, naquele momento o trabalho começado junto a estas populações pela Fundação Leão XIII.
O documento de origem da Fundação dizia ser sua finalidade “dar assistência material e moral aos habitantes dos morros e favelas do Rio de Janeiro”. Por outro lado era visível que a função política de tal organismo consistiria em resolver o problema do controle político e da formação de bases eleitorais no seio de uma população com forte potencial para organização e luta como era, já naquele momento, a população favelada carioca (BURGOS, 2006, p. 29).
Da parte do Estado e da Igreja estava estruturada a política assistencialista do momento, com o intuito de arrefecer os conflitos. O que originou outros instrumentos como a Cruzada São Sebastião, ligada a própria Igreja e o Serviço Especial de Recuperação das Favelas e Habitações Anti-higiênicas (Serfha), órgão do poder público.
Ambos tinham como norte organizador minimizar a intensidade das pautas dos excluídos por meio de intervenções que iam do remocionismo ao estímulo à criação de associações de moradores “domesticadas” segundo um código de condutas.
Liderada por Dom Helder Câmara, bispo auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro, que depois viria a se tornar um dos grandes ícones da Igreja Católica na luta em favor dos menos favorecidos, a Cruzada São Sebastião iniciou sua atuação em 1955.
Dom Helder pregava que o problema das favelas deveria ser solucionado no prazo de 12 anos, quando, até as comemorações do 4°. centenário da cidade, todas as favelas estariam urbanizadas. A urbanização das favelas sob o controle da Igreja
14 Lema alardeado pelas autoridades e por membros da Igreja católica, quando da criação da Fundação Leão XIII. Valla (VALLA, 1986, p. 43). Também citado no relatório SAGMACS pág. 38.
começou pela favela da Praia do Pinto, de onde foram transferidos os moradores para um conjunto habitacional no Leblon15.
Nos anos que se seguiram, Dom Helder, em nome da Cruzada São Sebastião atuou intensamente junto às questões que envolviam as favelas da cidade, reunindo-se com autoridades e moradores. A Cruzada recebeu doações de terras da União e, com a venda de alguns destes terrenos, angariou fundos para suas ações (RODRIGUES, 2103).
Ainda no ano de 1956, na gestão de Negrão de Lima, a prefeitura do Distrito Federal instituiu um órgão que teria atribuições que dialogavam muito com os planos da Cruzada. Ao Serviço Especial de Favelas e Habitações Anti-Higiênicas (Serfha)16 cabia, dentre outras coisas, criar “centros de acolhida na periferia do Distrito Federal” que serviriam para o “controle e orientação das populações migrantes”, além do “estudo e acordos para a criação de colônias agrícolas na região geoeconômica em que se situa o Distrito Federal”17. Ademais, o Serfha deveria ser também responsável por iniciativas de urbanização e assistência médica, social e policial nas favelas.
A partir da década de 1960, o órgão passa a ser comandado por José Arthur Rios, na época, um jovem sociólogo que havia acabado de participar do primeiro estudo sociológico sobre a realidade das favelas do Rio de Janeiro18.
Sob o comando de Arthur Rios, o Serfha inicia um trabalho de buscar uma proximidade maior do Estado com a população favelada. Para isso, começa a instigar a organização de associações de moradores nestes territórios.
15 O conjunto construído no Leblon recebeu o nome do órgão da Igreja e é conhecido até hoje como Cruzada São Sebastião. Para lá foram transferidos cerca de 171 moradores da favela da Praia do Pinto. Nos tempos atuais, os moradores da Cruzada continuam a conviver contiguamente com a classe média alta da cidade e sua presença é vista como a principal causadora dos problemas de segurança no bairro. (OLIVEIRA, 2012).
16 Um mês após a criação do Serfha, o presidente Juscelino Kubitscheck promulgou a chamada Lei 2875, de 19 setembro de1956, chamada de “Lei das favelas”. Através desta lei a União destinou uma verba de 50 milhões de cruzeiros à Cruzada São Sebastião, para promover a ‘urbanização’ das favelas do Distrito federal, assim como verbas com o mesmo fim, para as cidades de Recife, Vitória e São Paulo (RODRIGUES, 2103).
17 Decreto n°. 13304, de 28 de agosto de 1956.
18 A pesquisa “Aspectos Humanos das Favelas Cariocas”, conduzida pelos técnicos da Sociedade para Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais (SAGMACS), liderados pelo padre Lebret. Adiante trataremos mais especificamente desta pesquisa que inaugurou o campo de estudos sociológicos sobre o fenômeno das favelas do Rio de Janeiro.
Trajado de um idealismo democratizante, pois estimulava a participação política e a organização dos favelados em instituições representativas de sua realidade, este feito do órgão governamental tinha, na verdade, um objetivo muito próprio que era o do controle político das associações pelo Estado e a contenção do crescimento das favelas, como demonstra o texto do acordo que era firmado entre as associações e o Serfha.
Eram compromissos das associações:
i. Cooperar com a Coordenação de Serviços Sociais, na realização de programas educacionais e de bem-estar.
ii. Cooperar na urbanização da favela, recolhendo quaisquer contribuições dos residentes para a melhoria local, responsabilizando- se pela utilização de tais contribuições e submetendo-se a supervisão da coordenação.
iii. Contribuir para a substituição progressiva dos barracos por construções mais adequadas e cooperar, através da mobilização do trabalho, para a realização de outras obras de emergência na favela.
iv. Cuidar das construções e melhorias feitas na favela.
v. Solicitar a autorização da Coordenação para a melhoria das casas, especificando a necessidade de reparo e manutenção.
vi. Impedir a construção de novos barracos, vindo, quando necessário, a esta coordenação para apoio policial.
vii. Cooperar com a Coordenação para realocar os moradores removidos das favelas.
viii. Encaminhar à coordenação as necessidades e reinvindicações da favela relativas a serviços públicos, manutenção, saneamento, polícia e higiene.
ix. Na favela, manter a ordem, o respeito pela lei e, de um modo geral, garantir o cumprimento das determinações da Coordenação e do Governo.
x. Dirigir todos os pedidos de assistência médica, hospitalar e educacional para a Coordenação.
Em contrapartida a Coordenação, representando o Estado, se comprometia a:
i. Fortalecer a associações da favela e nada fazer nas favelas ou vilas operárias, sem anúncio ou acordo prévio.
ii. Desenvolver um plano permanente de bem-estar para a favela com relação a melhorias no local, suas habitações e a situação de seus habitantes.
iii. Supervisionar a utilização dos recursos recolhidos pela associação e aplicados para melhorias na favela;
iv. Substituir progressivamente os barracos por construções mais adequadas, com a ajuda dos próprios favelados;
v. Autorizar a melhoria dos barracos existentes, tendo sido os reparos aprovados pela associação.
vi. Dar assistência às necessidades e reivindicações da favela, procurando a ajuda de outros organismos, mas sempre com cooperação com as associações.
vii. Impedir qualquer violência da parte dos detentores de falsos títulos de propriedade contra os favelados.
viii. Impedir a exploração dos favelados sob qualquer forma, especialmente com relação ao aluguel de barracos e ao fornecimento de eletricidade.
ix. Estimular a criação de cooperativas pela Associação, de modo a combater a exploração dos favelados por intermediários.
x. Atender aos pedidos de assistência médica, hospitalar educacional sempre que associação levá-los à Coordenação, dentro dos limites dos recursos existentes (LEEDS; LEEDS, 1978, p. 248-250).
Nos termos do acordo acima apresentado, nota-se a orientação para uma relação comensal entre as associações e a Coordenação, onde a atuação política nas favelas, bem como a vida de modo geral, deveria ser regulada pelo Estado. A subordinação política era a moeda de troca por serviços públicos e urbanização do território (BURGOS, 2006).
Com o esvaziamento do Serfha, ainda na década de 1960, ocorre a criação da Cooperativa de Habitação do Estado da Guanabara (COHAB) que era apresentada como uma instituição com fins de dar assistência às favelas para melhorá-las com a construção de casas e urbanização.
Na prática, a atuação da COHAB marca o início de um período de remoção sumária das favelas, corroborando com a política de remoção executa a construção
dos conjuntos habitacionais de Vila Esperança, Vila Kennedy, Vila Aliança e Cidade de Deus, removendo cerca de 42.000 pessoas e destruindo mais de 8.000 barracos.
O período inaugurado pelo golpe civil militar de 1964 traz tempos de exceção política na sociedade brasileira e a ação coletiva, ainda embrionária nas favelas cariocas, sofre um duro revés, quando setores do Estado que defendiam claramente a remoção passam a ocupar mais espaços de influência na formulação de políticas públicas.
Inúmeras mudanças políticas e administrativas ocorrem neste período, entre eles, é decretado o fim do Serfha que teve suas funções incorporadas pelo Serviço Social das Favelas e pelo Departamento de Recuperação de Favelas (VALLA, 1986).
As ações de remoção deste período não se deram sem luta e violência, e este clima de exceção e terror com o desaparecimento de lideranças atrelado ao sentimento de impotência serve para que seja posta em curso uma certa
“cooptação”.
O apoio político no interior das favelas era negociado em troca da oferta de vagas de empregos ou transferência de recursos para as associações de moradores, elevando as lideranças locais ao posto de representantes do Estado no interior das favelas, fazendo com que algumas chegassem até a apoiar as remoções. (MACHADO DA SILVA, 2011).
A remoção e a violência do período militar causaram um forte refluxo no processo de organização política dos excluídos. Desterritorializar e despersonalizar estes sujeitos enquanto atores sociais e políticos eram objetivos patentes e o sucesso desta empreitada estatal deixa um vazio político (BURGOS, 2006, p. 39).
As iniciativas de remoção das favelas para os conjuntos habitacionais ganharam força com a chegada da Ditadura Militar ao poder, a violência destas ações causou um forte refluxo no processo de organização política dos excluídos.
Desterritorializar e despersonalizar estes sujeitos enquanto atores sociais e políticos eram objetivos patentes.
Já na década de 1970, a crise do capital enfrentada pelos Estados e a consequente emergência de governos neoliberais, especialmente, em países da América Latina, trouxe uma nova maneira de enfrentar o problema da habitação e da favelização das grandes cidades influenciada pelas cartilhas do Fundo Monetário
Internacional (FMI) e do Banco Mundial. Sobre esta nova conjuntura, Davis vai dizer que:
“Melhorar as favelas em vez de substituí-las tornou-se a meta menos ambiciosa da intervenção pública e privada. Em vez da reforma estrutural da pobreza urbana imposta de cima para baixo, (...) a nova sabedoria do final da década de 1970 e início da de 1980 exigia que o Estado se aliasse a doadores internacionais e, depois, a ONGs para tornar-se um
“capacitador” dos pobres. Em sua primeira iteração, a nova filosofia do Banco Mundial (...) insistia numa abordagem de oferta de “lotes urbanizados” (fornecimento de infraestrutura básica de água e esgoto e obras de engenharia civil) a fim de ajudar a racionalizar e melhorar as habitações construídas pelos próprios moradores” (DAVIS, 2006, p. 79-80).
No Rio de Janeiro, a percepção desta nova maneira estatal de agir nas favelas fica evidente na substituição das remoções pelo oferecimento de obras de infraestrutura e de diversos programas das três esferas governamentais.
Esta mudança de orientação governamental, atrelada a mudanças na legislação em relação às favelas, à construção de habitações de alvenaria e à chegada de concessionárias de serviços públicos desde o final dos anos de 1970, constituem, para alguns autores da sociologia urbana, dispositivos capazes de tornar as favelas bairros das cidades.
Contudo, em contraposição a esta tese da “vitória da favela”19 o que se percebe é que tais ações, apesar de contribuírem para estabelecer um espaço habitável aos moradores, descuidam dos problemas de sua integração no conjunto da sociedade. Afinal, apenas urbanizar a favela não habilita seus moradores a estabelecer vínculos significativos com o restante da sociedade.
Efetivamente, se a favela venceu, como defende a tese, os favelados não venceram, dado o fato de que, nos dias atuais, permanecem travando um intenso combate, em busca de reconhecimento e respeito aos seus direitos mais fundamentais.
Há, na atualidade, como recorda Machado da Silva, uma “continuidade do problema da favela”, nas cidades brasileiras. A desarmonia, bem lembra o autor, reside no fato de os moradores das favelas permanecerem no lugar que lhes foi
19 Alba Zaluar e Marcos Alvito introduzem a coletânea “Um século de Favela”, defendendo a tese de que “Após 100 anos de luta, empregando diferentes formas de organização e de demanda política, inclusive o carnaval, a favela venceu.” (ZALUAR e ALVITO, 2006, p. 21).
estabelecido na hierarquia social, o de sujeitos obrigados a reproduzir as desigualdades constituintes da sociedade brasileira (MACHADO DA SILVA, 2002).