Os dois artigos da Lei Áurea não tratam do que deveria ocorrer no dia seguinte à festa que se instalou no pátio do Passo Imperial e se espalhou pelas ruas do Rio de Janeiro. Passou-se agora a haver, no Rio e em todo o país, uma massa de novos cidadãos sem cidadania plena, aos quais são tolhidos os direitos mais elementares como morar e trabalhar (DA SILVA, 2008).
Com a abolição há a migração dos libertos das fazendas para as zonas urbanas em busca de sustento. Esta massa de ex-escravos é jogada nas ruas das grandes cidades brasileiras, sem formação educacional ou capacidade técnica para se inserir nos nascentes parques industriais.
O Estado brasileiro, por sua vez, estimulado pelas elites brancas, incentiva a migração de cidadãos europeus que têm a dupla função de servir para a formação de um exército industrial de reserva capacitado e, auxiliar no embranquecimento da população.
Com estas duas migrações da pobreza: ex-escravos e europeus sem posses, estava posta a fórmula que fez crescer exponencialmente a população da cidade do Rio de Janeiro, em fins do século XIX.
Lessa (2001) calcula que, em 1890, a cidade possuía uma população de 522 mil habitantes, destes, cerca de 106.461, eram de origem europeia.
Aproximadamente 24% da população era constituída de imigrantes estrangeiros e 22% de brasileiros de outras regiões, entre estes a grande maioria era de negros retirados das senzalas.
Nesta nova demografia, onde os sujeitos contam apenas com seus corpos para o exercício de acúmulo de capital, a cidadania não é universal, tampouco o é o direito à moradia. Enquanto a população da cidade cresceu quase 90%, o número de moradias aumentou em apenas 62%, o déficit habitacional não ajudava a fechar a conta (LESSA, 2001).
O comércio da época concentrava-se no centro da cidade e a indústria nascente, junto com o escoamento e entrada de novos produtos, em seu entorno (região portuária, São Cristóvão, Caju e Praça XI). A solução encontrada por aqueles que precisavam de acesso a esta estrutura e também de moradia foi ocupar
os prédios disponíveis no centro. É assim que pipocam na cidade centenas de cortiços9.
Pronto! Estava resolvida a equação da superpopulação da cidade, os pobres urbanos poderiam morar próximos a seu ganha pão. Engana-se quem pensar assim.
Acaso as elites brancas, herdeiras do império e tão relacionadas com o mais moderno que ocorria na Europa, permitiriam que a cidade fosse tomada por Cabeças de Porco10?
A condição insalubre dos cortiços, rapidamente os fez serem considerados como o principal foco de infecções sanitárias e esconderijo de criminosos. Sua erradicação que já vinha sendo tentada desde o império intensifica-se logo após a proclamação da república, quando teses higienistas começam a ganhar força junto ao governo.
Gonçalves (2013) indica que este discurso higienista que procurava relacionar as camadas pobres da população e seus locais de moradia a grupos socialmente perigosos, apontava que a condição social dos sujeitos causava e reforçava os fatores naturais de contaminação.
A legislação torna-se, pois, grande aliada para o controle dos cortiços. Foi-se pouco a pouco estendendo o perímetro de proibição para exploração do aluguel de quartos, até que, afinal, em 10 de fevereiro de 1903, por meio do Decreto n°. 391, o poder público proíbe a construção de novos, reforma ou manutenção de cortiços (GONÇALVES, 2013).
Já em 1880, Karl Marx, no livro I de O Capital, atentava para o que as medidas sanitaristas estavam causando na Europa daquele momento. Tais avaliações assemelham-se diretamente com roteiro pelo qual a cidade do Rio de Janeiro passaria no início do século seguinte. Dizia Marx:
“(...) qualquer observador desprevenido percebe que, quanto maior o amontoamento correspondente de trabalhadores no mesmo espaço e, portanto, quanto mais rápida a acumulação capitalista, tanto mais miserável
9 Muitas outras designações eram usadas para identificar este tipo de construções (casas de cômodo, estalagens), contudo chama-las de “cortiços” era a opção mais recorrente usada pela imprensa e pela população da época.
10 Cabeça de Porco era como chamava-se o maior cortiço do Rio. Com uma cabeça do animal empalhada na porta, era habitado por cerca de 4 mil pessoas. Interditado pela Inspetoria Geral de Higiene, o Cabeça de Porco foi demolido em 26 de janeiro de 1893. O cortiço era propriedade do Conde d’Eu, marido da Princesa Isabel (MONTEIRO, 2004).
as habitações dos trabalhadores. Os ‘melhoramentos’ urbanos que acompanham o progresso da riqueza, a demolição de quarteirões mal construídos, a construção de palácios para bancos, lojas etc., o alargamento das ruas para o tráfego comercial... desalojam evidentemente os pobres, expulsando-os para refúgios cada vez mais abarrotados de gente. Além disso, todo mundo sabe que a carestia do espaço para morar está na razão inversa da qualidade da habitação. Com o desenvolvimento e o ‘embelezamento’ das cidades, os males cresceram de tal modo que o simples medo das doenças contagiosas, que não poupam nem a respeitabilidade burguesa, motivou a promulgação pelo Parlamento de nada menos que 10 leis relativas à fiscalização sanitária”. (MARX, 1880:764-771, grifo nosso).
Do lado de cá, na parte de baixo do Atlântico. A administração do prefeito Pereira Passos (1902-1906) coloca em prática uma reforma urbanística e sanitária em todo o centro da cidade do Rio de Janeiro.
A Reforma Pereira Passos abriu ruas (Avenida Central, atual Rio Branco) e foi responsável pela construção de uma arquitetura europeizada presente até hoje no cenário carioca. Seu sentido principal era o de sanear e higienizar a cidade, retirando os pobres de seu centro econômico.
Como sabemos, e em nossas cidades ainda é assim hoje, estas pessoas constituíam o grosso da mão de obra barata necessária ao funcionamento da metrópole e tê-los distante significaria um sério impacto no arranjo produtivo da época e perdas consideráveis para aqueles que exploravam a força de trabalho. A solução encontrada foi autorizar a ocupação das encostas.
É assim que, autorizados pelo poder público que momentos antes os havia desalojado, os sem teto do “bota a baixo” recolhem escombros e constroem barracos em morros próximos, iniciando o processo de ocupação das encostas da cidade. Os cortiços do centro da cidade viram algumas das favelas que conhecemos até hoje.