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Dos cortiços às favelas

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 54-57)

Os dois artigos da Lei Áurea não tratam do que deveria ocorrer no dia seguinte à festa que se instalou no pátio do Passo Imperial e se espalhou pelas ruas do Rio de Janeiro. Passou-se agora a haver, no Rio e em todo o país, uma massa de novos cidadãos sem cidadania plena, aos quais são tolhidos os direitos mais elementares como morar e trabalhar (DA SILVA, 2008).

Com a abolição há a migração dos libertos das fazendas para as zonas urbanas em busca de sustento. Esta massa de ex-escravos é jogada nas ruas das grandes cidades brasileiras, sem formação educacional ou capacidade técnica para se inserir nos nascentes parques industriais.

O Estado brasileiro, por sua vez, estimulado pelas elites brancas, incentiva a migração de cidadãos europeus que têm a dupla função de servir para a formação de um exército industrial de reserva capacitado e, auxiliar no embranquecimento da população.

Com estas duas migrações da pobreza: ex-escravos e europeus sem posses, estava posta a fórmula que fez crescer exponencialmente a população da cidade do Rio de Janeiro, em fins do século XIX.

Lessa (2001) calcula que, em 1890, a cidade possuía uma população de 522 mil habitantes, destes, cerca de 106.461, eram de origem europeia.

Aproximadamente 24% da população era constituída de imigrantes estrangeiros e 22% de brasileiros de outras regiões, entre estes a grande maioria era de negros retirados das senzalas.

Nesta nova demografia, onde os sujeitos contam apenas com seus corpos para o exercício de acúmulo de capital, a cidadania não é universal, tampouco o é o direito à moradia. Enquanto a população da cidade cresceu quase 90%, o número de moradias aumentou em apenas 62%, o déficit habitacional não ajudava a fechar a conta (LESSA, 2001).

O comércio da época concentrava-se no centro da cidade e a indústria nascente, junto com o escoamento e entrada de novos produtos, em seu entorno (região portuária, São Cristóvão, Caju e Praça XI). A solução encontrada por aqueles que precisavam de acesso a esta estrutura e também de moradia foi ocupar

os prédios disponíveis no centro. É assim que pipocam na cidade centenas de cortiços9.

Pronto! Estava resolvida a equação da superpopulação da cidade, os pobres urbanos poderiam morar próximos a seu ganha pão. Engana-se quem pensar assim.

Acaso as elites brancas, herdeiras do império e tão relacionadas com o mais moderno que ocorria na Europa, permitiriam que a cidade fosse tomada por Cabeças de Porco10?

A condição insalubre dos cortiços, rapidamente os fez serem considerados como o principal foco de infecções sanitárias e esconderijo de criminosos. Sua erradicação que já vinha sendo tentada desde o império intensifica-se logo após a proclamação da república, quando teses higienistas começam a ganhar força junto ao governo.

Gonçalves (2013) indica que este discurso higienista que procurava relacionar as camadas pobres da população e seus locais de moradia a grupos socialmente perigosos, apontava que a condição social dos sujeitos causava e reforçava os fatores naturais de contaminação.

A legislação torna-se, pois, grande aliada para o controle dos cortiços. Foi-se pouco a pouco estendendo o perímetro de proibição para exploração do aluguel de quartos, até que, afinal, em 10 de fevereiro de 1903, por meio do Decreto n°. 391, o poder público proíbe a construção de novos, reforma ou manutenção de cortiços (GONÇALVES, 2013).

Já em 1880, Karl Marx, no livro I de O Capital, atentava para o que as medidas sanitaristas estavam causando na Europa daquele momento. Tais avaliações assemelham-se diretamente com roteiro pelo qual a cidade do Rio de Janeiro passaria no início do século seguinte. Dizia Marx:

“(...) qualquer observador desprevenido percebe que, quanto maior o amontoamento correspondente de trabalhadores no mesmo espaço e, portanto, quanto mais rápida a acumulação capitalista, tanto mais miserável

9 Muitas outras designações eram usadas para identificar este tipo de construções (casas de cômodo, estalagens), contudo chama-las de “cortiços” era a opção mais recorrente usada pela imprensa e pela população da época.

10 Cabeça de Porco era como chamava-se o maior cortiço do Rio. Com uma cabeça do animal empalhada na porta, era habitado por cerca de 4 mil pessoas. Interditado pela Inspetoria Geral de Higiene, o Cabeça de Porco foi demolido em 26 de janeiro de 1893. O cortiço era propriedade do Conde d’Eu, marido da Princesa Isabel (MONTEIRO, 2004).

as habitações dos trabalhadores. Os ‘melhoramentos’ urbanos que acompanham o progresso da riqueza, a demolição de quarteirões mal construídos, a construção de palácios para bancos, lojas etc., o alargamento das ruas para o tráfego comercial... desalojam evidentemente os pobres, expulsando-os para refúgios cada vez mais abarrotados de gente. Além disso, todo mundo sabe que a carestia do espaço para morar está na razão inversa da qualidade da habitação. Com o desenvolvimento e o ‘embelezamento’ das cidades, os males cresceram de tal modo que o simples medo das doenças contagiosas, que não poupam nem a respeitabilidade burguesa, motivou a promulgação pelo Parlamento de nada menos que 10 leis relativas à fiscalização sanitária”. (MARX, 1880:764-771, grifo nosso).

Do lado de cá, na parte de baixo do Atlântico. A administração do prefeito Pereira Passos (1902-1906) coloca em prática uma reforma urbanística e sanitária em todo o centro da cidade do Rio de Janeiro.

A Reforma Pereira Passos abriu ruas (Avenida Central, atual Rio Branco) e foi responsável pela construção de uma arquitetura europeizada presente até hoje no cenário carioca. Seu sentido principal era o de sanear e higienizar a cidade, retirando os pobres de seu centro econômico.

Como sabemos, e em nossas cidades ainda é assim hoje, estas pessoas constituíam o grosso da mão de obra barata necessária ao funcionamento da metrópole e tê-los distante significaria um sério impacto no arranjo produtivo da época e perdas consideráveis para aqueles que exploravam a força de trabalho. A solução encontrada foi autorizar a ocupação das encostas.

É assim que, autorizados pelo poder público que momentos antes os havia desalojado, os sem teto do “bota a baixo” recolhem escombros e constroem barracos em morros próximos, iniciando o processo de ocupação das encostas da cidade. Os cortiços do centro da cidade viram algumas das favelas que conhecemos até hoje.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 54-57)