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A GARANTIA E SEUS FUNDAMENTOS JURÍDICOS

A garantia é um instituto que resguarda o contratante ou consumidor contra riscos que se manifestam após a instauração da relação jurídica negocial46. É ela inerente à própria compra e venda, inspirada no princípio da boa-fé, e delimita as responsabilidades do fornecedor e do consumidor. A garantia é obrigação contratual, que gera o dever de indenizar, de modo que, embora por fundamentação diversa, assemelha-se, no resultado, às conseqüências do inadimplemento das demais obrigações contratuais.

Existem duas espécies de garantia: a legal e a contratual.

De acordo com o disposto nos artigos 24 e 25, do Código de Defesa do Consumidor47, a garantia legal, por decorrer da lei, não pode ser suprimida, total ou parcialmente, pela vontade das partes. Em contrapartida, a garantia contratual tem livre conteúdo (art. 50 do CDC48) e se manifesta em termos escritos em um contrato. Os termos de garantia podem dizer respeito ao

46 “Excepcionalmente, para os vícios de qualidade por insegurança, é possível a sua utilização, sem que esteja presente qualquer negócio jurídico da parte da vítima. É a hipótese, sem que esteja presente qualquer negócio jurídico parte da vítima. É a hipótese do bystander, onde relação jurídica entre vítima e fornecedor pode haver, mas não é negocial” (BENJAMIN, Antõnio Herman de Vasconcellos. In HIRONAKA, Giselda Maria Fernandes Novaes (coord). Novo Código Civil: Interfaces no Ordenamento Jurídico Brasileiro. Belo Horizonte: Del Rey, 2004, p.

107.).

47 CDC:” Art. 24. A garantia legal de adequação do produto ou serviço independe de termo expresso, vedada a exoneração contratual do fornecedor”.

CDC:” Art. 25. É vedada a estipulação contratual de cláusula que impossibilite, exonere ou atenue a obrigação de indenizar prevista nesta e nas seções anteriores”.

48 CDC:” Art. 50. A garantia contratual é complementar à legal e será conferida mediante termo escrito”.

direito (garantia dor evicção, por exemplo), ou podem abranger os vícios (de qualidade e quantidade).

Simão, em seu livro Vícios do Produto no Novo Código Civil e no Código de Defesa do Consumidor, faz uma síntese da doutrina sobre as teorias que existem para explicar os fundamentos da garantia, que merece ser reproduzida. O citado autor inicia por Orlando Gomes49, que busca esses fundamentos em três teorias: teoria da evicção parcial, teoria do erro e teoria do risco. A teoria que fundamenta a garantia no princípio da evicção parcial, acentuando que, se (a garantia) fosse semelhante à evicção, ao alienante restaria a obrigação de indenizar (como ocorreria em casos de evicção), o que não se aplica aos casos de incidência de vícios, que em regra, prevêem apenas a redibição do contrato com a devolução da coisa e do preço (e não a indenização).

A teoria do erro considera a vontade do alienante viciada quando baseada em erro sobre as qualidades essenciais do objeto. Contudo, para Orlando Gomes, os fundamentos dessa teoria não seriam os mias próprios para a garantia, por receberem tratamentos legais diferenciados: no casso de erro, a conseqüência é a anulação do contrato e, no caso dos vícios ocultos, há a possibilidade de abatimento do preço. Por fim, a teoria do risco, que se fundamenta na imposição legal ao alienante da responsabilidade pelos vícios da coisa. Esta é afastada por Orlando Gomes sem maior fundamentação, por entender que não se aplica aos vícios.

A teoria do erro considera a vontade do alienante viciada quando baseada em erro sobre a qualidade essencial do objeto – constitui um dos principais fundamentos da garantia, não podemos ser afastada pela mera consideração de que o erro implicaria necessariamente anulação. Ou seja, sempre que possível, deve-se preservar o negócio, reservando-se ao contratante o direito de reclamar a indenização, e não necessariamente busca a anulação do negócio. Esse raciocínio parte da máxima de que, quem pode o mais pode o menos, isto é, se é possível postular a anulação do negócio, que é o mais, parece

49 GOMES, Orlando. Contratos. Rio de Janeiro: Forense, 1997, p. 94

razoável que se possa postular o menos, que é manter o negócio com o recebimento de indenização correspondente ao vício.

Serpa Lopes50 classifica as teorias em dois grupos: (a) responsabilidade do contratante como um consectário necessário da natureza jurídica do contrato; e (b) a teoria eclética, que tem por base a idéia do erro.

Silvio Rodrigues51, secundado por Simão52, afasta-se da noção de erro e de inexecução do contrato e fundamenta a garantia na boa-fé, que constitui princípio informados do direito contratual. Com efeito, o princípio da boa-fé previsto no art. 422 do Código Civil53, constitui, o fundamento da responsabilidade por vícios ocultos e deve nortear todos os contratos, quer decorrentes de uma relação de consumo, quer decorrentes uma relação apenas civil. Assim, é de se prestigiar a expectativa de se estar contratando ou adquirindo algo que se pressupõe ter determinados requisitos básicos de qualidade que lhe são intrínsecos, pois é justamente nessa expectativa que reside a boa-fé do contratante ou adquirente.

De certa forma, a boa-fé objetiva congrega todas as outras teorias que, cada qual com sua visão, buscam fundamentos para a garantia, como é o caso da teoria do erro, da teoria do risco, do princípio da evicção parcial, que, resistem às críticas de Orlando Gomes e servem de fundamento para garantir.

A boa-fé objetiva opera seus efeitos nas hipóteses de redibição ou abatimento do preço, pois a garantia circunscrita ao redor dos vícios redibitórios visa a proporcionar estabilidade aos negócios jurídicos relacionados à

50 SERPA LOPES, Miguel Maria de. Curso de Direito Civil, 6 ed.Rio de Janeiro: Freitas Bastos, v. 3, p. 176 ss.

51 RODRIGUES, Silvio. Direito Civil. Dos Contratos e das Declarações Unilaterais de Vontade.

São Paulo: Saraiva, 2002, v. 3, p. 105.

52 SIMÃO, Vícios do Produto no Novo Código Civil e no Código de Defesa do Consumidor.

São Paulo: Atlas, 2003, p. 86.

53 CC:”Art. 442. Em vez de rejeitar a coisa, redibindo o contrato (art. 441), pode o adquirente reclamar abatimento no preço”.

transferência de bens de um contratante ou outro, fazendo com que o adquirente de certa coisa sinta-se tranqüilo quando à utilidade objetivada no bem adquirido, razão pela qual a questão da “culpa” perde um pouco seu sentido54.

A boa ou má-fé é relevante para efeito de reparação, pois, se o alienante não conhecia o vício ou defeito da coisa, restituirá o recebeu mais as despesas do contrato, ao passo que, se conhecia, restituirá o que recebeu mais perdas e danos, conforme dispõe o artigo 443 do CC55.

O Código Civil não fixa um prazo mínimo de garantia para os negócios de direito privado não abrangidos pelo direito do consumidor. Mas Caramuru ressalva que é evidente que esse silêncio não poderá representar a exoneração completa e absoluta da garantia, até porque a existência de tal exigência é algo que está de acordo com a função social do contrato56.

Com efeito, tendo em vista a função social do contrato, mesmo que o Código seja silente e não haja estipulação de prazo de garantia no negócio jurídico, é de considerar-se um prazo e garantia pelo qual se responsabilize o alienante, devendo tal lapso de tempo ser estabelecido tendo por base os usos e costumes aplicáveis aos contratos ou, não havendo, devem aplicar por analogia os prazos do Código de Defesa do Consumidor.

54 SANTOS, Caio Augusto Silva. Dos Vícios Redibitórios no Novo Código Civil e no Código de defesa do Consumidor . In HIRONAKA, Giselda Maria Fernandes Novaes (coord). Novo Código Civil: Interfaces no Ordenamento Jurídico Brasileiro. p. 74.

55 CC:” Art. 443. Se o alienante conhecia o vício ou defeito da coisa, restituirá o que recebeu com perdas e danos; se o não conhecia, tão-somente restituirá o valor recebido, mais as despesas do contrato”.

56 FRANCISCO, Caramuru Afonso. Código Civil de 2002: o que há de novo?. São Paulo: Juarez de Oliveira Ed., 2002, p. 109.

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