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A geração de dados

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 89-95)

Na tentativa de entender o conflito de sentimentos por quais eu passava e nas novas relações que eu estabelecia que decidi discutir sobre isso no grupo de pesquisa da Prática Exploratória, da PUC-Rio, onde eu fazia uma oficina, com meus colegas de profissão, com minha orientadora, com minha família e com minhas leituras. Quando as coordenadoras do grupo, Inés Miller e Maria Isabel Cunha,

pediram para eu formular um puzzle no grupo de pesquisa, meus primeiros pensamentos foram: “Por que tenho a sensação de estar fazendo tudo errado?”,

“Por que mesmo sabendo que sou capaz de dar boas aulas, ainda assim não estou satisfeita com o meu trabalho?”, “Por que alguns alunos perecem não estar interagindo/participando das aulas?”. Na verdade, havia muitas questões, porque eram muitas as razões dos meus conflitos, mas entreguei apenas dois puzzles: “Por que me sinto tão desconfortável com as minhas aulas? Por que sinto não estar dando boas aulas de inglês?”.

A partir dos puzzles elaborados, começamos, os membros do grupo de pesquisa da Prática Exploratória, da PUC-Rio, e eu, a refiná-los e a refletir sobre eles, na tentativa de compreender o desconforto e o porquê de me sentir frustrada. A partir das discussões percebi que o entendimento deveria vir do que já tínhamos, meus alunos e eu, e não do desenvolvimento de novas práticas. Tínhamos nossas interações, confiança, o material didático e o conteúdo do currículo mínimo para seguir. Assim, com a ajuda dos colegas do grupo de Prática Exploratória, desenvolvi uma primeira atividade pedagógica com potencial exploratório a ser trabalhado com uma de minhas turmas- APPE (ALLWRIGHT; HANKS, 2009).

Posteriormente, eu planejei outras APPEs a serem trabalhadas com diferentes turmas. Em todas as APPEs trabalhadas, num primeiro momento, os alunos realizaram atividades do livro, praticando o conteúdo ensinado, e logo depois, produziram algum material escrito em que pudessem se expressar a respeito das aulas de inglês, ainda utilizando o conteúdo estudado. Em todas as turmas, eu recolhi as produções escritas para serem discutidas em um outro momento.

Na etapa seguinte, levei o material produzido dos alunos para serem discutidos pelo grupo de cada turma, em conversas exploratórias (MORAES BEZERRA; NUNES, 2013). Meu objetivo era entender como meus alunos percebiam aspectos das aulas, tais como objetivos, metodologia, a importância das aulas em suas vidas, enfim, se estavam de acordo com suas necessidades e expectativas.

Além disso, através dessas práticas discursivas, esperava que juntos, os alunos e eu, contribuíssemos para a negociação de sentidos, construção de entendimentos, reconstrução de nossas identidades, confirmação ou refutação de nossas crenças e das crenças dos colegas, assim como desenvolver a percepção sobre si e sobre o outro.

Nesse trabalho para continuar entendendo não só as minhas questões, mas também num movimento de continuar (re)significando a minha prática, (re)formulando minhas crenças, (re)avaliando o meu papel como professora de inglês, senti a necessidade de um reencontro, pois queria saber se os entendimentos dos alunos continuavam os mesmos. Queria ouvi-los num novo contexto, ou seja, sem termos as relações institucionais de professor-alunos. Por isso, entrei em contato com dois alunos que eram do primeiro ano do Ensino Médio quando era sua professora, e hoje, estão no terceiro ano, são eles Noah e Luna14. Noah, agora com 18 anos, mudou de escola, Luna, com 17, permanece na mesma escola em que fui sua professora. O terceiro aluno, Nick15, com 17 anos e no segundo ano do Ensino Médio, entrou em contato comigo para dizer que soube que estava encontrando com alguns alunos e pediu para participar.

Tentei marcar um encontro em que todos pudessem estar presentes juntos, mas por causa da incompatibilidade nos horários, acabei me encontrando separadamente com cada um. As conversas aconteceram no curso de inglês de um amigo. As lembranças e algumas APPES, que agora nos serviram como ARPE – Atividade Reflexiva com Potencial Exploratório (MORAES BEZERRA, 2007) – feitas durante o período em que éramos professora e alunos foram as motivações para começarmos nossas reflexões. Conversamos sobre nossas experiências no processo de ensino-aprendizado da língua inglesa desde quando começamos nossas estudos até aquele momento.

No início, planejei que as interações se dessem em forma de conversas, afinal, nesse processo de co-construção de conhecimento, nossas relações não eram as mesmas da sala de aula, a assimetria foi minimizada, pois agora estávamos ali sem nossos papéis garantidos pela instituição. Éramos participantes, colegas de caminhada, refletindo juntos. Entretanto, como mediadora do encontro, acabei em alguns momentos transformando nossa conversa em entrevista, pois queria mais detalhes sobre o que eles estavam dizendo, ou porque eu queria problematizar algumas questões.

As transcrições das gravações foram feitas na tentativa de observar as nuances dos discursos dos participantes e de suas ações durante as interações.

Para as transcrições utilizei as convenções baseadas nos estudos da Análise da

14 Nomes fictícios escolhidos pelos próprios participantes.

15 Nome fictício escolhido pelo participante.

Conversa Etnometodológica (SACKS, SCHEGLOFF, JEFFERSON, 1974; GARCEZ, 2006; LORDER, JUNG, 2008). Associada a ACE, utilizei os construtos teóricos da Sociolinguística Interacional (GOFFMAN, 2002) em uma tentativa de mapear como os participantes interagem face-a-face, como percebem os pormenores das interações e de como agem para se adaptar a natureza dinâmica do evento discursivo. Além do mais, a fim de entender como os participantes se constroem discursivamente, analiso suas narrativas (BASTOS, 2005), avaliações, crenças (BARCELOS, 2006; SILVA, 2010), instâncias de afeto (MORAES BEZERRA, 2013) e na forma como projetam suas identidades (MOITA LOPES, 2002).

O próximo capítulo se dedica a minha tentativa de buscar entendimentos sobre minha prática docente, através das análises do dados das minhas observações e percepções, alguma produção escrita desses três alunos e as transcrições dos áudios, gerados a partir de nossas interações.

7 ANALISANDO OS RETALHOS

Saber que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção. Quando entro em uma sala de aula devo estar aberto a indagações, à curiosidade, às perguntas dos alunos, a suas inibições; um ser crítico e inquiridor, inquieto em face da tarefa que tenho – a de ensinar e não a de transferir conhecimento.

Somente quem escuta paciente e criticamente o outro, fala com ele.

Paulo Freire, ([1996]2015)

O presente capítulo apresenta a análise dos dados gerados durante o processo de investigação feita com base no arcabouço teórico já apresentado e conforme os objetivos da pesquisa. Os dados foram gerados em conversas exploratórias realizadas em encontros individuais com três ex-alunos de minhas turmas de língua de inglesa do Ensino Fundamental e Médio, no período em que fui professora da rede estadual do Rio de Janeiro. Durante as conversas, que considero Atividades Reflexivas de Potencial Exploratório – ARPE (MORAES BEZERRA, 2007) emergem nossas narrativas, que “são excelentes métodos para capturar a essência da experiência humana, e o aprendizado e mudança humana” (BARCELOS, 2008, p. 37, tradução nossa) como nos co-construímos socialmente, nossas crenças e nossas relações afetivas. Houve uma tentativa da minha parte em manter nossa interação apenas como uma conversa, minimizando a assimetria. Além disso, observo frequentes mudanças de enquadres e de alinhamentos que acontecem em cada encontro.

A tentativa de análise aqui apresentada passa por questões sobre qualidade de vida em sala de aula (GIEVE; MILLER, 2006), sobre a importância das aulas de

inglês na escola pública, assim como a importância do idioma na vida desses alunos, sobre como problematizamos nossos conflitos, sofrimentos e angústias.

Durante nossas interações, narramos histórias, que são maneiras de nos projetamos e de projetamos o outro discursivamente. Dessa forma, problematizo o processo de socioconstrução discursiva de nossas identidade e de nossas práticas.

Reitero que a Prática Exploratória (ALLWRIGHT e HANKS, 2009) norteia o fazer pedagógico e acadêmico da presente pesquisa, na esperança que este trabalho contribua para a inteligibilidade sobre o processo de ensino-aprendizagem da língua inglesa sob a perspectiva dos alunos e também no processo de (re) significação da minha formação docente.

Divido esse capítulo em seções: “Primeiros puzzles”, que foram questões levantadas, por mim e meus alunos, ainda durante o período que lecionei na escola.

É uma narrativa minha, sobre minhas percepções, minhas emoções e sensações sobre o que estávamos vivendo e refletindo naquele momento. Logo, depois apresento os outros participantes: Nick, Noah e Luna. Finalmente, seguem as análises das transcrições das conversas exploratórias individuais.

De antemão, é importante deixar claro que a tentativa de análise presente nesta pesquisa é de minha inteira responsabilidade e foi realizada de acordo com as limitações de “um ser inconcluso, consciente de sua inconclusão, e seu permanente movimento de busca do ser mais” (FREIRE, [1996]2015, p. 101), com suporte da base teórica apresentadas previamente nos capítulos 1, 2, 3, 4 e 5. Dessa forma, enfatizo que não são representação da verdade, estão longe de ser, mas são minhas impressões, sob as lentes da Prática Exploratória, de como tento entender tudo o vivido não somente durante o ano letivo em que lecionei na escola pública, mas principalmente depois dele. O processo reflexivo ainda permanece a cada texto lido, a cada conversa exploratória outros entendimentos emergem, e um novo olhar surge, os entendimentos se ampliam, no mesmo instante que outros conflitos e questões afloram, provando o caráter sustentável da Prática Exploratória. A seguir, apresento nossos primeiros questionamentos e angústias.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 89-95)