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A GRANDE OPORTUNIDADE QUE PERDEU

No documento Direção de José Simeão Leal (páginas 39-51)

E continuamos a conversar :

— Eu gostaria de ser uma grande caricaturista

— confessa-me a Sra. Nair de Tefé. Por esse tempo, meu pai já se reconciliara com os meus bonecos. Já não punha embaraços a que eu colaborasse nos jornais e revistas do Rio. Sem remuneração, está claro.

Permitiu que eu fizesse exposições. E também permitia que todas as semanas exibisse um trabalho meu no cavalete da Casa David, primeiro, ou na Chapelaria Watson, depois, sempre na rua do Ouvidor. Esse cavalete era uma espécie de berlinda do Rio de 1910. Mas o barão de Tefé fazia mais. Tomava assina- tura de todas as companhias estrangeiras que por aqui apareceram nessa época.

— A frisa número 2 do Municipal era sempre nossa. Papai comprou-me uns binóculos especiais, com os quais eu podia acompanhar o jogo fisionômico dos artistas para retratá-los com precisão. Foi assim que garatujei toda a companhia da Réjane, figura por figura, como também Lucien Guitry, o grande come diante pai de Sacha, Ianka Chaplinska e muitas outras cantoras famosas que vieram ao Brasil naquele tempo.

A série da Réjane e sua companhia proporcionou a grande oportunidade de Rian, que havia de ser como uma revolução na vida da aristocrata Nair de Tefé.

— Mas eu recusei essa "grande chance". Meu pai estava muito doente. Não me arrependo.

E D. Nair Tefé me fala da "grande chance" que perdeu:

— Foi assim. Meu irmão, que residia em Paris e que sempre se mostrou um grande entusiasta das minhas caricaturas, achou que devia levar a série da Réjane a um dos maiores jornalistas francês, Pierre Lafitte, diretor do Excelsior. Foi um custo falar com o homem. Até que afinal meu irmão pôde mostrar a Lafitte os meus trabalhos. O jornalista — contou-me depois meu irmão — queria contratar o artista desde

logo, oferecendo-lhe colaboração efetiva no Excelsior. Mas eu estava no Brasil com meus pais. Para trabalhar no Excelsior tinha que me fixar definitivamente em Paris. Apesar de muito doente, papai queria ir. Poupei-lhe esse sacrifício. Decidi não aceitar o tentador convite de Pierre Lafitte.

UM TEMPERAMENTO ARTÍSTICO CONTRARIADO

E Nair de Tefé ficou no Brasil. Continuou a fazer caricaturas, a freqüentar as festas da "haute--gomme", a declamar nos salões elegantes do Rio. Sim, porque Nair de Tefé foi também uma notável "diseuse", declamando versos em francês com a mesma perfeição que em português.

— Coelho Netto escreveu Miss Love especialmente para mim. Miss Love é uma inglesa velha, caricata, que eu fazia com grande êxito. Sempre gostei de teatro. Adorava representar.

— E as caricaturas, dona Nair?

— Ora, as caricaturas. Publicava-as nos jornais e nas revistas do Rio. Ou então, divertia-me em desenhá-las nos meus leques. Enquanto isso, alguns magazines de Paris:

Fantasio, Femina, Le Rire, começavam a publicar minhas

"charges". E' só.

— Eu sei que não é.

— Depois veio o meu casamento. Mais tarde, quando meu marido deixou a Presidência da República e fomos para a Europa, expus em Paris e em Lausanne. Desde que me casei, nos onze meses que residi no Palácio Guanabara, deixara de lado as expo-

sições. Não quis aproveitar-me da situação. Minha carreira de artista estava encerrada.

Antes do casamento, d. Nair de Tefé tomou lições de piano com Oscar Guanabarino:

— Guá foi um grande mestre — disse-me. Como sabia ser professor! As suas discípulas tinham que ter personalidade.

Para ele, as condições de sucesso eram: vaidade, orgulho, ambição e teimosia.

— E Rian se acabou para sempre. . .

— Sim. Talvez. Ainda outro dia fiz uma caricatura de Mima Loy. Parece que não saiu má. Anda nem sei onde.

— Mas a senhora, quando esposa do presidente da República, não fazia mais caricaturas ?

— Fazia, é verdade; mas não as publicava.

MARECHAL HERMES NA INTIMIDADE

O casamento de d. Nair de Tefé com o marechal Hermes da Fonseca, teve, como era natural, uma larga repercussão.

— Casei-me no Palácio Rio Negro, no dia 8 de dezembro de 1913, dia de Nossa Senhora. Foi o Cardeal Arco-Verde quem celebrou o nosso casamento.

Deu-me uma linda imagem de Nossa Senhora, esmal tada, dizendo-me que eu me casava sob a proteção da Virgem Santíssima. Fui imensamente feliz. Meu esposo era um homem extraordinário, uma criatura sobre-humana. Casei-me por amor. Sempre desejei, quando mocinha, unir-me a um homem bom, leal e amigo. O marechal realizou plenamente o meu sonho.

E D. Nair me disse ainda:

— Meu pai, o barão de Tefé, não queria a princí pio o nosso casamento. Tinha pelo marechal uma grande amizade, sincera e profunda, de longos anos.

Temia, por isso mesmo, que a diferença de idade entre nós fosse um terrível obstáculo para a felicidade do amigo, a quem meu pai sempre desejou todas as venturas imagináveis. Mas nós fomos muito felizes.

O marechal, que era o melhor dos homens, foi um esposo exemplar.

Fala com gravidade e ternura sobre o marido:

— O marechal Hermes é uma figura que tem sido pouco estudada. Muito pouca gente o conheceu de verdade. Era um homem boníssimo, caridoso.

Um generoso coração, um belíssimo caráter. E, além disso, pessoa de muito tino. Não quero falar de sua atuação como político. Não entendo dessas coisas.

Nada poderia dizer-lhe a respeito, mesmo porque jamais interferi na sua vida pública. Em minha casa, ouvia falar do marechal como de um homem de bem e um soldado de valor. Sempre o admirei., portanto.

Hoje, guardo a sua memória. Venero o esposo e o patriota.

OS GRANDES CARICATURISTAS DO PASSADO

Voltemos, porém, às caricaturas. Rian vai falar um pouco dos seus colegas :

— Sem é para mim o maior caricaturista de todos os tempos, o "primus inter pares". A minha arte,

contudo, recebeu uma forte influência de De Losques, outro grande caricaturista francês. Em Paris, no meu tempo do Cours Julien, os trabalhos de De Losques me fascinaram. De Losques é irônico, profundamente irônico. Nunca fui pela deformação total do caricaturado. Sou o contrário de um Rouveyre, por exemplo. Este transformava as pessoas quase que em macacos.

Eu sou diferente. Os meus bonecos não provocam gargalhadas, despertam sorrisos. Sou francamente pelo sorriso, em matéria de caricatura.

— Por que não faz uma exposição retrospectiva dos seus trabalhos, d. Nair ?

— Acha que interessaria ?! Penso que não. Caricatura é atualidade. Vive o instante que passa. Depois uma exposição dá tanto trabalho. . .

Pergunto-lhe, agora, da sua maneira de desenhar. E d.

Nair me responde assim :

— A caricatura nasce da observação. Eu demoro a observar. Sou um pouco lenta, vagarosa mesmo.

Estudo bem a pessoa. E então o desenho sai-me de uma só vez, quase que num só traço. E' este, aliás, o segredo da espontaneidade, requisito indispensável para o caricaturista. Se o artista não é natural e espontâneo, adeus caricatura.

Não conhece os caricaturistas modernos, com exceção de Alvarus, que é seu amigo pessoal. Desde a morte da Baronesa em 1934. d. Nair afastou-se definitivamente de qualquer contato mundano e artístico, deixando a presidência da Academia Petropolitana de Letras, que exerceu cinco anos seguidos.

— Se o senhor me pergunta sobre os da nova geração, fica sem resposta. No meu tempo, Emílio

Cardoso Aires foi o mais interessante, o mais fino. Julião Machado, português de nascimento, era um mestre. E Raul, o veterano Raul, que até agora não se aposentou. Terei esquecido alguém ? Assim, de memória, apanhada quase de surpresa, é bem possível que me tenha escapado um ou outro nome. Que o esquecido não me leve a mal.

FIM DE VISITA

Passam das oito horas. A visita vai longa.

— D. Nair, a senhora está triste ?

— Recordar não deixa de ser um exercício melancólico. . .

— Imaginava Rian uma criatura alegre.

— Qual. Os humoristas, os que fazem os outros rir, quase sempre são tristes. Não foi Mark Twain quem disse isso

?

Parece que foi. Sei dizer que estou meio enca-bulado a tomar nota das confissões de uma dama ilustre, de uma aristocrata da Primeira República, que é afinal de contas uma senhora simples e bondosa, e além disso, humana como todos nós.

— Já se foram os meus entes queridos — disse- -me. Meu marido, primeiro. Meu pai e minha mãe, depois. Todos eles morreram nesta casa. São golpes rudes que a gente não esquece. Vou vivendo comigo mesma. Felizmente, não me falta "sense of humour".

Sou como um famoso escritor francês: "J'ai appris a me suffire..." Vivo com os meus bichos, a minha arte, o meu piano. ..

D. Nair de Tefé adora os animais. O vilino romântico está cheio deles: nove cães, quatro gatos, três passarinhos e um cavalo — o "Janota".

— Eles também sofrem, coitadinhos. Mas não se queixam...

E, despedindo-se, d. Nair desejou-me boa viagem e muitas felicidades.

Diretrizes, Rio de Janeiro. 7-5-1942.

PAULO HASSLOCHER: "FUI ELEGANTE POR AMOR AO BRASIL"

AULO Hasslocher é uma das figuras mais interessantes do Brasil. Entre os homens da sua geração, — a que veio depois de Bilac, — o famoso ex-diretor do ABC aparece como a antítese dos literatos da Confeitaria Colombo e da Livraria Garnier. As suas polainas elegantíssimas e os seus artigos desaforadíssimos fizeram época no tempo das campanhas presidenciais de Rui Barbosa, Epitácio Pessoa e Artur Bernardes.

Nesse tempo, Paulo Hasslocher escandalizava o Rio de Janeiro. Era o tipo mais alinhado da cidade. Muito alto, não dispensava fraque, cartola, gravata plastron, monóculos e polainas para sair à rua, onde vivia como um ser inteiramente estranho ao carioca, cidadão que se divertia na "Maison Moderne" e achava o trenzinho do Pão de Açúcar a oitava maravilha do mundo.

Esse Paulo Hasslocher não passa de um maluco. . . diziam dele a três por dois.

Pois bem. Enquanto os últimos poetas do parnasianismo procuravam a chave de ouro de um soneto que falava na Grécia ou em Roma, o "maluco", que desprezava essa gente, começou a trabalhar no ABC semanário político dirigido pelo italiano Ferdinando

Borla. E' onde vamos encontrá-lo, debruçado, sobre uma pequena mesa de pinho. Descalçou as luvas bonitas, deixou o fraque descansando numa cadeira e, de mangas arregaçadas, escreve um violentíssimo artigo de parceria com Luiz Morais.

Contra quem ? Pode ser contra Rui Barbosa ou contra Carlos de Laet, pois contra um e outro investiu a furiosa pena do jornalista que não tinha medo da careta de ninguém.

Hoje, o antigo panfletário não trabalha mais sobre a mesa de pinho da redação do ABC, de saudosa memória. Nada de fraque, cartola, plastron, monóculo ou polainas. O atual Paulo Hasslocher veste-se como qualquer mortal. E em lugar do monóculo petulante, duas modestas lentes bifocais, com aros de tartaruga, cobrem-lhe os olhos, que não perderam ainda a maliciosa vivacidade da juventude.

Ministro plenipotenciário do Brasil, Paulo Hasslocher nada tem de um diplomata do bom "vieux temps". Ê um homem que age, discute e chega mesmo a brigar se for preciso.

Quando cônsul nos Estados Unidos, andou caçando os revolucionários que queriam comprar aviões e navios para derrubar o governo. De volta à pátria não faz muitos meses, dedica-se de corpo e alma à solução de inúmeros e complicados problemas, na Comissão de Defesa da Economia Nacional ou na Junta Reguladora do Comércio de Fios e Tecidos, na Comissão Técnica de Estudos sobre a Folha de Flan-dres ou na Junta Reguladora do Comércio da Laranja.

Durante um almoço na Taberna da Glória, fui apanhando expressões e comentários de Paulo Hasslocher, que procurei transformar numa entrevista. Pode ser que muita coisa tenha eu acrescentado, tal a

minha preocupação de ser fiel à personalidade dos outros à custa de suas próprias palavras. E' possível que isso tenha acontecido.

Precavido como poucos, Paulo Hasslocher, considerando os prós e contras da sua entrevista, decidiu responsabilizar o cardeal D. Sebastião Leme pelas suas "boutades" :

— Você compreende, meu caro Francisco de Assis Barbosa, o Cardeal é nosso vizinho. Tudo que eu lhe disser, portanto, será como que sob a inspiração de Sua Eminência, que a esta hora deve estar no Palácio São Joaquim.

No entanto, se Paulo Hasslocher fosse um homem solene, esta reportagem seria a conversa mais cacete que se possa imaginar. Conversaríamos fatalmente sobre a laranja ou sobre a folha de Flandres e o leitor teria que suportar colunas e mais colunas com muito cifrão e muita estatística. Felizmente, o meu entrevistado, como já pressentiram, nada tem de solene. Trate- se de um conversador de primeira, capaz de emendar o dia com a noite contando histórias. O seu forte está em rememorar episódios do passado, que ele sabe vestir com graça e colorido.

Ora, como diz o outro, recordar é viver. Vamos, pois, recordar e viver a estupenda mocidade do nosso herói.

HÁ TRINTA ANOS...

Paulo Hasslocher começa a rememorar:

— Aos 21 anos, entrei para o Supremo Tribunal Federal. Não como ministro, é claro, mas como oficial

da Secretaria. Ganhava seiscentos mil réis para redigir ofícios aos meritíssimos juizes de Direito de todo o Brasil.

Era sempre o último a assinar o ponto. Descalçava as luvas, punha a bengala e a cartola em cima da mesa e sapecava o jamegão. O diretor da Secretaria, excelente pessoa, pedia-me com o coração nas mãos :

— Paulo, não faça mais isso. Entre discretamente na repartição. Venha assinar o ponto na minha sala, por favor.

Ao fim de algum tempo, como o serviço apertasse, resolvi contratar ura dos contínuos para meu secretário particular.

Pagava-lhe trezentos mil réis por mês e a medida que ia sendo aumentado no meu ordenado subia também o dele.

Há trinta anos, João do Rio e eu fomos os elegantes mais notáveis da cidade. Paulo Barreto fazia duas ou três "toilettes"

diárias. Depois do almoço ia para casa descansar, tomar banho e trocar de roupa. Depois do jantar, a mesma coisa. Naquela época, o Lapa e o Estrangeiros eram os grandes hotéis do Rio.

Um banheiro em cada um deles e sempre desocupado. . .

O QUE ERA O "A.B.C."

Paulo Hasslocher pediu fatias de peru ao garçon. Morde uma azeitona e explica o que era o ABC:

— Ferdinando Borla dirigia o jornal, que saía todos os sábados, à meia-noite, contando as novidades políticas da semana. Comecei a trabalhar ao lado de Luiz Morais, que é um dos maiores escritores do

Brasil. Tomei gosto pela coisa e um belo dia o Borla vendeu- me o ABC. Dei-lhe 25 mil liras, pagas em prestações mensais, pelo título, por duzentos e tantos clichés, duas cadeiras e uma pequena mesa de pinho. Luiz Morais e eu. durante dezesseis anos, fizemos o ABC. Era um jornal vibrante e combativo.

Acompanhou todas as campanhas presidenciais, acertando sempre. Apoiou a candidatura Hermes da Fonseca. Obrigou Rui Barbosa a renunciar à senatoria. Denunciei no meu jornal a sua condição de presidente de uma companhia nacional de soda cáustica e como tal incompatível para exercer o mandato de senador.

— No ABC colaboraram os maiores jornalistas do Rio. Gente como Antônio Torres, Lima Barreto, Oliveira Lima, a quem pagávamos cinqüenta mil réis por artigo. Sem falar em Osório Borba, Benjamim Costallat, Hamilton Barata e Teixeira Soares, rapazes que o ABC revelou.

No documento Direção de José Simeão Leal (páginas 39-51)

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