nos humoristas ingleses as suas influências mais destacadas . Há vinte ou trinta anos passados, lia-se muito pouco no Brasil. Um livro de sucesso alcançava quinhentos exemplares, no máximo mil. Hoje, dos livros de José Lins do Rego e Érico Veríssimo vendem-se dezenas e dezenas de milhares. E' fabuloso o nosso progresso nesse sentido.
O ABC também editou. Foi por minha sugestão que Alberto de Faria escreveu o seu livro sobre Mauá. Alberto de Faria morava em Petrópolis, numa casa que pertencera a Mauá.
Um dia, eu lhe propus:
— Alberto, você é rico. Por que não aproveita as suas horas a escrever um livro sobre Mauá ?
Alberto de Faria concordou, e nos deu essa obra notável que o levou à Academia. Além de Mauá, o ABC publicou muitos outros livros, inclusive as Obras Completas de Tobias Barreto, sob o patrocínio do governo sergipano, que alcançaram, aliás, o maior sucesso de livraria do tempo.
Tiramos dois mil exemplares de cada volume. E hoje estão todos esgotados.
dade com que foi recebido o futebol. Tinha 10 ou 12 anos, quando voltava de um jogo com um grupo de meninos da minha idade. Trazia a pelota de couro numa das mãos e vinha naturalmente suado e vermelho. Encontrei-me com um senador do Ceará, que me olhou com tristeza, todo circunspeto, dentro das suas calças brancas.
— Menino — disse-me. E' uma pena o filho do senador Germano Hasslocher andar a praticar esse ne- fando esporte de pés.. . Se isso faz bem à saúde, juro que prefiro ver meu filho tuberculoso a vê-lo jogando futebol. . .
Veja só. Eu era doido pelo futebol e decerto não fui atrás das patéticas palavras do senador cearense. A minha turma do Colégio Alfredo Gomes — Raul Barreto de Albuquerque Maranhão, Almir Antunes. João Batista Lemos, eu e mais alguns — treinava todos os dias num campo alugado a 10 mil réis por mês, onde mais tarde se construiu o estádio do Fluminense.
PIONEIRO DOS TIROS DE GUERRA
Uma das glórias de Paulo Hasslocher é a de ter sido pioneiro dos tiros de guerra no Brasil, ao tempo do governo do Marechal Hermes da Fonseca :
— Mas nunca passei de cabo. Primeiro, pertenci ao Tiro de Guerra n.° 7. Depois ao célebre Tiro de Guerra n.° 5, para o qual arranjei cerca de oitocentos e cinqüenta sócios. Fizemos uma parada espetacular, com dois mil e quinhentos soldados. Fui eu o autor do novo uniforme das linhas de tiro, que constava do seguinte: um quépi russo, um culote espalhafatoso,
chicote, monóculo.. perneiras inglesas e luvas. Diniz Júnior e Gustavo Barroso logo me imitaram. E o bom do Shiamarelli, meu alfaiate desse tempo, dizia-me, esfregando as mãos de contente :
— Grazzie, dottore. Io fatto due mile uniforme.
A verdade é que, devido ao uniforme elegante e
espalhafatoso, todo o mundo queria ser reservista. Atacaram- me uma vez perante o Ministro da Guerra e este observou.
— O Paulo Hasslocher está certo. ele está fazendo um grande bem ao Brasil.
— Na verdade, eu fui elegante, porque amava o meu país.
Chegou a hora do café. Paulo Hasslocher diz-me o seguinte :
— Hoje tudo mudou. O Brasil progrediu muito.
G impulso inicial veio com o barão do Rio Branco, que começou por ensinar os homens inteligentes e vadios a pegar no pesado. Mas as primeiras obras de vulto surgiram mesmo depois da Revolução de 30. São elas:
o saneamento da Baixada Fluminense e a organização da Companhia Siderúrgica Nacional.
O brasileiro já não é mais aquele pessimista que vivia a alardear o seu desânimo.
— Qual o que. Nada podemos fazer. O Brasil é um país sem capitais. A verdade é que estamos realizando coisas notáveis. Até navios de guerra cons truímos. Agora, temos que marchar para a frente, sempre para a frente. . .
E Paulo Hasslocher bebeu o último gole da sua xícara de café.
Diretrizes, Rio de Janeiro, 5-2-1942.
MAGDALENA TAGLIAFERRO: "FAÇAMOS A REVOLUÇÃO NO ENSINO MUSICAL"
M
AIS de trinta nações de quatro continentes aplaudiram a, arte da nossa patrícia Magdalena Tagliaferro, considerada pelos entendidos uma das mais perfeitas pianistas do mundo. Aos treze anos, a Tagliaferro conquistava o primeiro prêmio do Conservatório de Paris, na Classe de Marmontel, num concurso que ficou memorável. Seu nome logo se popularizou na capital francesa e passou a ser conhecido em toda a Europa. Era uma grande revelação musical, das que surgem uma vez em cada geração.Magda Tagliaferro é uma criatura dotada pelos deuses de qualidades extraordinárias. À sensibilidade invulgar da artista juntam-se o talento acima do comum e o caráter pessoal de uma técnica impecável. Interpretando a música clássica, como a romântica ou a moderna, ela nos aparece sempre como uma criadora de poesia.
Em França, Magdalena Tagliaferro prestou inestimáveis serviços à divulgação da música moderna, razão pela qual um grupo numeroso de artistas, tendo à frente Gabriel Pierné, solicitou a concessão da Legião de Honra para a ilustre pianista brasileira, que é, assim, uma das raras mulheres que possuem o grau superior
de "officier" da mais alta condecoração da República Francesa.
Há muitos anos que Magdalena Tagliaferro se dedica ao ensino do piano. No Conservatório de Paris, a maior escola de música do mundo, onde lecionou vários anos, acumulou certamente uma grande experiência. No Brasil, Magdalena Tagliaferro organizou dois cursos de interpretação e alta virtuosidade, um no Rio e outro em São Paulo, o primeiro a pedido do ministro da Educação e Saúde, sr. Gustavo Capanema, e o segundo a convite do interventor paulista, senhor Fernando Costa. Esses cursos têm sido alguma coisa de notável na vida musical e no ensino artístico do nosso país.
Magdalena Tagliaferro foi solista das maiores orquestras sinfônicas da Europa e dos Estados Unidos, sob a regência de maestros como Weingartner, Bar-birolli, Wolff, Stokowski, Fauré, Georgesco e tantos outros. O seu repertório é enorme, um dos maiores que se conhecem, pois a pianista executa com o mesmo brilho e igual maestria as escolas musicais mais di- versas .
Na entrevista que concedeu a Diretrizes, Magdalena Tagliaferro traça o plano de uma verdadeira revolução no ensino musical. As suas palavras são uma advertência, corajosamente dirigida aos maus professores que deseducam o gosto artístico da mocidade e do povo.
A CASA DE VAUCRESSON
Burlando a censura postal dos homens de Vichi, os franceses têm feito sair do território ocupado pelos
nazistas milhares e milhares de cartas clandestinas. São, na maioria, bilhetes quase telegráficos, escritos às vêzes em linguagem cabalística, que levam para outros mundos notícias que a Gestapo não gosta de divulgar. No dia em que o último soldado do Eixo tombar na trincheira, a história desse correio secreto francês, que se organizou de forma tão admirável, sob o terror hitlerista, há de constituir um dos momentos heróicos da vida do grande povo vendido por Pierre Laval.
Em dezembro do ano passado, Magdalena Ta gliaferro recebeu, numa carta clandestina, a comunicação de que a sua casa de Vaucresson, conhecida em toda a França, tal o número de artistas, escritores, e políticos que ali se reuniam, tinha virado quartel general de um Estado Maior do Exército Alemão. Ao lado de Saint Cloud, distante vinte minutos de Paris, numa situação maravilhosa, o invasor não podia se instalar melhor.
— Imagine que a minha casa de Vaucresson — disse-me a pianista brasileira, no início desta entre vista — tem onze quartos enormes, todos com ba nheiros. Não tenho dúvidas, o Estado Maior alojou-se muito bem.
Os olhos da Tagliaferro brilham diferente quando ela fala da sorte da França:
— O povo francês está sofrendo conseqüências terríveis da política de avestruz de uns dez ou quinze homens. Eles não queriam ver o perigo que se avi zinhava pouco a pouco. Os maus políticos fizeram a desgraça da França. Uma súcia de Lavais entregou
o país aos seus maiores inimigos. O povo quis defender a pátria mas era impossível. Observa:
— O francês tão nobre e tão sensível não é gente combativa. Mas sabe defender o solo pátrio como um leão. Pobre povo francês!
E como quem corrige um erro imperdoável:
— Grande povo francês! Eu bem imagino o quanto ele está sofrendo!
LA PETITE TAGLIAFERRO
A França fez a glória de Magdalena Tagliaferro. Nascida em Petrópolis, educada em São Paulo, tinha doze para treze anos quando foi morar em Paris. Seus pais eram franceses.
Paulo Tagliaferro, engenheiro diplomado pela "École Central", e que andara pelo Chile e pela Argentina, antes de fixar-se no Brasil, não descansou até que um dia decidiu seguir a sua verdadeira vocação — a arte. Estudara canto, piano e composição. Em vez de montar um escritório de arquitetura, organizou em São Paulo uma escola de canto. Uma escola de canto que marcou época. Passou a ser conhecido em toda a Paulicéia como o "médico das vozes".
Magdalena tinha por quem puxar. Procurou o piano sozinha. Aos cinco anos tocou a primeira música. Aos oito.
acompanhava o coro da Escola de Paulo Tagliaferro, que se compunha de vinte e tantas vozes. Ai daquele que desafinasse!
A pequena acompanhadora
apontava logo com o dedinho, para a direita ou para a esquerda:
— Foi ele!
A menina começava a brilhar muito cedo. Um ano mais e dava em Petrópolis o seu primeiro concerto com orquestra.
Tocou o Concerto em Ré Menor de Mozart. Foi um sucesso.
Aos onze, faz a sua primeira "tournée", indo ao Rio Grande do Sul. Era sucesso sobre sucesso. Mas um dia, Paulo Tagliaferro cai doente e a família teve que se mudar para a Europa. Em Paris, Magdalena entra para o Conservatório. Em menos de um ano sai diplomada, conquista o primeiro prêmio, tocando a Sonata em Lá Menor de Weber. Cortot, Pugnot, César Galeotti, Diemer, Plante e Mos-covsky, que estavam na banca, presidida pelo diretor do Conservatório, Gabriel Fauré, ficaram entusiasmados com a "enfant prodige". Os jornais falaram do concurso de "la petite Tagliaferro" como de um acontecimento excepcional.
ENTREVISTAS E ENTREVISTAS
A artista não gosta de contar em público os sucessos da sua carreira.
— Acho horrível quando leio nas entrevistas o relato de êxitos pessoais. São coisas que me irritam ouvir uma pessoa dizer: Em Nova York, o público delirou; em Paris, a mesma coisa; eu não sei onde houve isto e mais aquilo.
E' que Magdalena Tagliaferro tem sempre alguma coisa para dizer. Daí a posição de defesa que assume
diante do repórter. Quando lhe perguntam qualquer tolice, ela responde com ironia ou faz "blague". Nos Estados Unidos, por exemplo, um jornalista pediu a sua impressão sobre o Empire Building. Magdalena Tagliaferro deu-a, sem pestanejar:
— Tive uma decepção, uma grande decepção. . .
— Como ? Então, acha pouco oitenta andares para um edifício ?
— Não discuto isso. Mas é que pensei que o Empire Building tivesse cento e oitenta andares. . .
Numa outra entrevista, Magdalena Tagliaferro declarou que não trouxera o seu piano de cauda, de Paris porque o instrumento não coubera no ''clipper" em que ela fez a travessia transoceânica de Lisboa a Nova York.
— Os repórteres norte-americanos — explica-me então — gostam de coisas sensacionais. Resolvi, por causa disso, inventar essas coisas para satisfazer o gosto deles.
O CONSELHO DE BOUCHERIT
Não há outro remédio. A entrevista que tenho a fazer com Magdalena Tagliaferro tem que ser séria. E' sobre o ensino musical. Faço uma porção de perguntas . Quando começou a estudar ? Acha que o "primeiro prêmio" lhe valeu alguma coisa
? Ela me responde tudo isso de uma só vez :
— Dois anos depois do meu primeiro prêmio, no Conservatório de Paris., é que eu comecei a estudar
de fato. Quando apareci, pensava que os dons de Deus bastariam para fazer uma grande artista. Pura ilusão! Foi Jules Boucherit, o célebre violinista, quem me abriu os olhos. Depois de dois anos, de mais de 40 concertos juntos, com música de câmera, um dia, ele me disse: — "Você parou. Todos .nós esperamos muito de você. Mas se continuar assim, não será a grande pianista que promete. Não apareça mais em público. Vá para casa. Estude. Você precisa estudar muito ainda".
— Pobre "menina-prodígio"! — aparteio.
Magdalena Tagliaferro retruca-me, com vivacidade:
— Ah, se todas as "meninas-prodígios" levassem um carão desses, de vez em quando, garanto que não havia tanta pianista ruim na face da terra. Não sabe o bem que me fez o conselho de Boucherit. Só então compreendi que estava seguindo caminho errado. A princípio, sofri muito. Fiquei em casa, chorando oito dias e oito noites sem parar. O remédio era estudar sem preguiça. Pois foi o que fiz. Estudei dois anos a fio. Durante todo esse tempo não apareci uma única vez em público.
Confessa francamente:
— O sucesso fácil estava me fazendo retroceder.
Consegui vencê-lo a tempo de me salvar. Dois anos me bastaram para curar. Reapareci conscientemente no concerto do Conservatório de Paris, sob a regência de Reynaldo Hahn, tocando Mozart, Beethoven e Grieg. Mas, aí, então, eu já sabia o que estava fazendo.
Tudo por causa do conselho de Jules Boucherit.
OS MESTRES DE MAGDA
Três mestres se destacam na carreira da notável pianista brasileira. São eles Paulo Tagliaferro, Gabriel Fauré e Alfred Cortot. Magdalena Tagliaferro fala dos seus mestres assim :
— O primeiro foi meu pai. Eu tive a sorte de encontrar, na minha casa, um mestre compreensivo e inteligente, que soube descobrir e desenvolver os dotes que Deus me deu. A iniciação., sempre tão perigosa para a vida de um artista, eu a recebi como poucos. Meu pai era um grande professor.
— E Alfred Cortot?
— Este foi meu professor durante três anos. Aprendi muita coisa com ele. E parece que aprendi tanto que, um belo dia, Cortot descobriu que eu também possuía uma voz excelente. "Eu poderia acompanhar-te ao piano" — dizia-me. O mestre queria desviar a discípula da sua vocação. Fizemos a experiência. E eu dei vários concertos de canto, na França e na Bélgica, chegando mesmo a interpretar peças, como o L'enfant prodigue, de Debussy e o Fausto de Schumann, com coros.
— E Fauré?
— Gabriel Fauré foi um compositor extraordinário, um dos maiores nomes da música moderna. Fui e sou ainda hoje intérprete entusiasta das suas músicas Fiz com ele "tournées"
memoráveis em diversos países da Europa. Só tocávamos música de Fauré. Na Sonata para piano e violino, Gabriel Fauré virava as páginas para mim. E na execução da Balada para piano e orquestra, era ele que ocupava modestamente
o lugar do segundo piano. Gabriel Fauré não tinha pose.
Encantava a sua simplicidade de maneiras. Gostava muito de chupar laranjas, quando eu as descascava à moda brasileira.
O TALENTO E' QUASE TUDO
Não posso deixar de olhar a roseta encarnada da Legião de Honra, na blusa azul de Magdalena Ta-gliafenro, o que me faz lembrar a França mais uma vez. Estou conversando com uma senhora ilustre, que diz coisas inteligentes e que parece não acreditar muito na glória. Numa coisa eu logo vi que ela acredita. É no seu próprio talento.
— Sem talento não se faz um artista — disse mais de uma vez no decorrer da nossa entrevista.
Mas o talento não é tudo. É quase tudo. Às vezes, é coisa tão poderosa que um verdadeiro artista acaba vencendo os defeitos que adquiriu com os maus pro fessores. Isso pode acontecer, não há dúvida- O certo, porém, é que muito talento vem sendo estragado des de o começo, irremediavelmente. Há professores que matam artistas.
E mais adiante:
— Eu não posso me queixar dos mestres que tive. Bem, ao contrário. Mas nem por isso deixo de pensar nos bons alunos entregues aos maus professo res. É uma lástima. Os chamados defeitos adquiridos que encontrei em muitos jovens de talento me fizeram sair à procura de remédio para tantos males.
Tiro as minhas deduções: os maus professores levaram Magdalena Tagliaferro a lecionar piano.
UM CRIME ENSINAR ERRADO
Magdalena Tagliaferro fundou uma escola de piano em Paris, alguns anos antes de ser chamada a ensinar no Conservatório de Paris. Continua a conversar comigo, como professora:
— Ensinar errado é um crime. Nos anos que lecionei na França, pude verificar até onde pode che gar um professor incompetente. Vi alunos de piano com os músculos do braço em petição de miséria Rapazes e moças que padeciam de caimbras doloro- síssimas, por culpa de maus professores. Vai-se preso por muito menos, No entanto, não há tribunal que julgue os professores que ensinam errado.
Parece que descobriu o porquê da proliferação dos maus professores, quando me diz:
— O amadorismo é o grande culpado. Há pes soas que tocam por tocar, porque é "chic". Eu tenho muita pena das crianças que sentam ao piano e to cam para as visitas. — "Tão engraçadinhas" — "E' um amorzinho!" — Como que estou ouvindo as titias e as vovós cheias de entusiasmos carinhosos. Esse sentimentalismo é que tem feito muito desastre no ensino musical.
Magdalena Tagliaferro é "tranchant", nesse particular :
— Sim, porque convenhamos, nem todo mundo tem necessidade de ser pianista. Não é indispensável que todo mundo saiba tocar piano. Mas infelizmente nem os papás nem as mamas pensam assim. E quem
paga o pato é o pobre vizinho que não tem nada com isso.
Conta-me, então., uma coisa deliciosa :
— O professor deve ser, antes de outra coisa, honesto. Se o aluno tem ou não tem jeito, logo se vê.
Se não nasceu mesmo para tocar piano, não deve perder tempo com notas e pautas. Nesses casos, eu costumo agir diplomaticamente. Devolvo o aluno ao pai, acon selhando-o que tente por exemplo as artes plásticas.
Que Deus e os pintores me perdoem, mas é que pin tando "cachepots" e almofadas, o "enfant gaté" se diverte e deixa a vizinhança em perfeita paz, não é mesmo ?
"A ESCOLA DOS MEUS SONHOS"
Faço uma proposta a Magdalena Tagliaferro. A de formarmos juntos uma escola de ensino pianístico.
Suponhamos que tivéssemos plenos poderes para isso, digo eu.
— A pergunta é terrível — objeta-me. Poderei respondê- la não com a intenção belicosa de pretender levantar polêmicas.
Mas para falar-lhe de uma forma mais concreta, ao alcance principalmente daqueles que não entendem do assunto, de como penso deve ser ministrado o ensino musical. Vamos traçar o plano da escola dos meus sonhos. E' uma hipótese um tanto vaga e nada pretensiosa. Assim concordo. Está bem?
— Pois não. Pois não. A senhora tem autoridade e experiência para isso.
— Devo ter alguma . ..
— Comecemos, então. . .
— Em primeiro lugar, a escola dos meus sonhos estaria localizada num edifício moderno, bem construído, com instalações confortáveis, salões amplos, com boa acústica, ar condicionado, um edifício que fosse, enfim, bem diferente da nossa antiquada e tão querida Escola Nacional de Música. A arte precisa morar numa casa bonita. Não é nada demais que eu lhe fale assim. Para usar uma expressão bem feminina, as jóias são guardadas nos escrínios. A música também exige o seu.
— À porta, uma inscrição . . .
— E por que não? Sim, uma inscrição, que podia dizer o seguinte: "Nada mais triste que a mediocridade. Não devemos encorajar os medíocres".
Há uma outra coisa importante que ela faz questão de frisar:
— A minha escola teria classe com número li mitado de alunos. Nos concursos ou nos exames, os professores não seriam examinadores. Escolheria artis tas de valor reconhecido, fora do corpo docente, para examinar os meus alunos. Gente da altura de um Villa-Lobos, de um Tomás Teran, de um Alexandre Brailowski. Gente boa, mas que não fosse professor da escola...
O "PEQUENO MOZART"
E Tagliaferro continua falando, no mesmo tom de franqueza :
— Para traçar o plano da escola dos meus sonhos, usaremos um símbolo que foge, é verdade, à regra geral, mas que nos ajudará a compreender melhor certas nuan ças do ensino musical. Esse símbolo chamaremos de
"pequeno Mozart". Se todas as naturezas humanas fossem iguais umas às outras, a coisa mudava de figura.
Poderíamos, então, preparar pianistas sob medida, tendo em vista uma só receita. Temos que atender, porém, a detalhes de ordem psicológica, e até mesmo fisiológi cas, a certas pequenas coisas importantíssimas, que mesmo quem lida com crianças pode entender.
Para os primeiros anos do aprendizado pianístico Magdalena Tagliaferro nao prescindiria de forma alguma da colaboração de professores especializados em educação infantil.
— O primeiro tempo da nossa Escola, — prosse gue — ou seja, o Curso de Iniciação Musical, receberia os meninos o mais cedo possível, a partir dos seis anos. No máximo, até nove anos. De um modo geral, o pequeno estudante de música deve aprender os primeiros elementos de piano, solfejo, ginástica rítmica, as primeiras noções de canto orfeônico. Tudo isso simultaneamente, além de muitas outras noções ele mentares de música, claro está.
E esclarece :
— Em todo o caso, o importante nesses primeiros anos é descobrir o aluno, saber desenvolver as suas