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A POLÊMICA COM ANTÔNIO TORRES

No documento Direção de José Simeão Leal (páginas 51-55)

Brasil. Tomei gosto pela coisa e um belo dia o Borla vendeu- me o ABC. Dei-lhe 25 mil liras, pagas em prestações mensais, pelo título, por duzentos e tantos clichés, duas cadeiras e uma pequena mesa de pinho. Luiz Morais e eu. durante dezesseis anos, fizemos o ABC. Era um jornal vibrante e combativo.

Acompanhou todas as campanhas presidenciais, acertando sempre. Apoiou a candidatura Hermes da Fonseca. Obrigou Rui Barbosa a renunciar à senatoria. Denunciei no meu jornal a sua condição de presidente de uma companhia nacional de soda cáustica e como tal incompatível para exercer o mandato de senador.

— No ABC colaboraram os maiores jornalistas do Rio. Gente como Antônio Torres, Lima Barreto, Oliveira Lima, a quem pagávamos cinqüenta mil réis por artigo. Sem falar em Osório Borba, Benjamim Costallat, Hamilton Barata e Teixeira Soares, rapazes que o ABC revelou.

homenageado e os homenageantes. Assim aconteceu. só este seu amigo escapou à tremenda vaia dos inimigos de Malheiros Dias.

Antônio Torres era meu amigo, colaborava no ABC. Por este motivo, segundo me explicou, evitou que eu fosse também vaiado.

Mas como o mundo dá muitas voltas, o meu amigo Antônio Torres acabou virando contra mim. Primeiro, mandou- me um artigo atacando a Alemanha, logo depois da declaração do estado de guerra, em 1917. O meu sobrenome germânico incitava-o. Publiquei o artigo. Veio um segundo. Este, contra os portugueses. Eu, como genro de português, senti-me atingido. Respondi a essas insinuações malévolas. Pronto Começou a polêmica. Torres no Correio da Manhã e na Gazeta. Eu no ABC.

UM DUELO A ESPADA

E Paulo Hasslocher continua a rememorar :

— A polêmica ia cada vez mais feia. Formaram-se grupos. Contratamos capangas. Passei a andar de chicote na mão, protegido pelo "Bonitinho do Castelo", pelo "Cabo Elpídio" ou pelo "Bamba da Saúde". Até que decidimos resolver a polêmica com um duelo. Georgino Avelino foi o portador do meu desafio. Antônio Torres, que morava na rua Silveira Martins, topou a parada sem discutir.

O meu duelo com Torres foi um duelo de verdade muito diferente dos duelos a revólver que se realizaram nos primeiros anos da República. Efigênio de

Sales propôs que lutássemos a espada. Ambos desconhecíamos a esgrima. A luta seria, assim, de igual para igual.

Com os nossos padrinhos e médicos, batemo-nos num barracão do Morro da Viúva, no mesmo local em que hoje se ergue a Escola Ana Neri, às duas horas da manhã, para evitar a intervenção da polícia. Antônio Torres portou-se com uma bravura extraordinária. Feri-o dezoito vezes. E não se deu por vencido.

Assentamos ali mesmo que a polêmica estava encerrada e que nunca mais escreveríamos um sobre o outro, o que lealmente cumprimos.

Meus padrinhos foram Georgino Avelino e Luiz Morais.

Os de Torres, Efigênio de Sales e Adoasto Godói. Meu médico, o Dr. Dionísio Cerqueira. Gastão Cruls, o de Antônio Torres.

HOMENS E MULHERES NAS JANELAS

Com a faca de mesa, Paulo Hasslocher descreve-me os dezoitos golpes que desferiu contra o escritor das Verdades Indiscretas.

— Foi este o único duelo a espada que houve na República — conclui, sempre exuberante.

Volta às fatias de peru e a falar no ABC :

— Luiz Morais era o escritor. Eu, a flama da revista. Antônio Torres taxou-me de ignorante. Mas a verdade é que o ABC morreu, quando deixei a sua direção. Numa época de negativismo, em que homens e mulheres viviam nas janelas, preguiçosos e cansados, o meu semanário agitava idéias construtivas, como a

fundação de um porto livre em Pernambuco ou a criação da siderurgia em Minas. Naquele tempo, em que os bondes usavam ceroulas, o Brasil parecia que não ia para a frente.

Somos um país sem capitais, diziam os eternos pessimistas. O estribilho ganhava foros de verdade. A descrença nas nossas possibilidades econômicas passou a ser quase que geral.

Olavo Bilac proclamava que o trabalho fora feito para negro e português. As "coteries" literárias — Bilac, Guimarães Passos, Coelho Neto, Oscar Lopes, Emilio de Menezes e outros

— nao queriam saber dos novos que deixassem de comparecer ao beija-mão na Colombo, regado muitas vêzes à parati-com- goma.

Os intelectuais brasileiros viviam ilhados, com um olho em Portugal e outro na França. Copiavam Fialho e Eça de Queiroz. Imitavam Heredia e Leconte de Lisle. Desse Leconte de Lisle é que eles gostavam de verdade. ..

TRÊS HOMENS QUE SABIAM INGLÊS

Depois do peru, a sobremesa. Mas antes de chegar a ela, Paulo Hasslocher conta-me que os três homens, dos que mais se destacaram no Brasil, nessa primeira metade do século, eram dos poucos que liam inglês entre nós :

— Rui Barbosa, que adaptou a Constituição dos Estados Unidos. Assis Brasil, que foi o primeiro a falar em representação e justiça no seu famoso livro, O Regime Democrático, cujas idéias eram inaplicáveis ao meio brasileiro.

E Machado de Assis, que encontrou

nos humoristas ingleses as suas influências mais destacadas . Há vinte ou trinta anos passados, lia-se muito pouco no Brasil. Um livro de sucesso alcançava quinhentos exemplares, no máximo mil. Hoje, dos livros de José Lins do Rego e Érico Veríssimo vendem-se dezenas e dezenas de milhares. E' fabuloso o nosso progresso nesse sentido.

O ABC também editou. Foi por minha sugestão que Alberto de Faria escreveu o seu livro sobre Mauá. Alberto de Faria morava em Petrópolis, numa casa que pertencera a Mauá.

Um dia, eu lhe propus:

— Alberto, você é rico. Por que não aproveita as suas horas a escrever um livro sobre Mauá ?

Alberto de Faria concordou, e nos deu essa obra notável que o levou à Academia. Além de Mauá, o ABC publicou muitos outros livros, inclusive as Obras Completas de Tobias Barreto, sob o patrocínio do governo sergipano, que alcançaram, aliás, o maior sucesso de livraria do tempo.

Tiramos dois mil exemplares de cada volume. E hoje estão todos esgotados.

No documento Direção de José Simeão Leal (páginas 51-55)

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