Keynes vs. Lei de Say
1. A “grande realização” de Keynes
Capítulo III
Penso, portanto, que tenho razão em dedicar um capítulo especial a este tema.
É importante perceber, para começar, como Mises4 apontou, que o que é chamado de Lei de Say não era originalmente projetada como parte integrante da economia clássica, mas como uma preliminaridade, como uma refutação de uma falácia que há muito precedeu o desenvolvimento da economia como um ramo especial reconhecido do conhecimento. Sempre que o negócio era ruim, o comerciante médio tinha duas explicações à mão: o mal era causado pela escassez de dinheiro e pela superprodução geral. Adam Smith, numa famosa passagem de ―A Riqueza das Nações‖5 refutou o primeiro desses mitos. Say se dedicou a uma refutação do segundo.
Para uma apresentação moderna da Lei Say, recorro à B. M. Anderson:
―A questão teórica central envolvida no problema do ajuste da economia e do pleno emprego no período pós-guerra é a questão entre a teoria do equilíbrio e a teoria do poder de compra.
Aqueles que defendem vastas despesas governamentais e o financiamento do déficit no pós-guerra como o único meio de conseguir o pleno emprego separam acentuadamente a produção e o poder de compra. O poder de compra deve ser mantido acima da produção se a mesma
4 Op. cit., pp.64-65.
5 Vol. I, livro IV, capítulo I, (Edwin Canon edition, 1904), p. 404ff.
aumentar, na opinião deles. Se o poder de compra cair, a produção fará o mesmo.
A visão predominante entre os economistas, por outro lado, tem sido a de que o poder de compra cresce alheia a produção. Os grandes países produtores são os grandes países consumidores. O mundo do século XX consome muito mais do que o mundo do século XVIII porque produz muito mais. A oferta de trigo dá origem à procura de automóveis, sedas, sapatos, artigos de algodão e outras coisas que o produtor de trigo deseja. A oferta de sapatos dá origem à procura de trigo, de sedas, de automóveis e de outras coisas que o produtor de sapatos quer. A oferta e a procura no agregado não são, portanto, meramente iguais, mas são idênticas, uma vez que cada mercadoria pode ser encarada como oferta do seu próprio tipo ou como procura de outras coisas. Mas esta doutrina está sujeita à grande qualificação de que as proporções devem ser certas; que deve haver equilíbrio.‖6
A ―refutação‖ de Keynes à Lei de Say consiste em simplesmente ignorar esta qualificação.
Ele toma como seu primeiro alvo uma passagem de John Stuart Mill:
―O que constitui os meios de pagamento de mercadorias são simplesmente mercadorias.
Os meios de cada pessoa de pagar pela produção de outras pessoas consistem
6 Economics and the Public Welfare, p. 390.
naqueles que ele mesmo possui. Todos os vendedores são inevitavelmente, e pelo significado da palavra, compradores. Se fosse possível duplicar subitamente o poder produtivo do país, teríamos que duplicar a oferta de produtos de base em todos os mercados; mas deveríamos, com o mesmo golpe, duplicar o poder de compra. Todos trariam uma dupla demanda e oferta; todos poderiam comprar duas vezes mais, porque cada um teria duas vezes mais para oferecer em troca.‖7
Por si só, esta passagem de Mill, como B. M.
Anderson8 apontou, não apresenta o essencial da versão moderna da Lei de Say:
―Se dobrarmos o poder produtivo do país não devemos dobrar a oferta de mercadorias em todos os mercados, e se o fizermos, não devemos limpar os mercados da dupla oferta em cada mercado. Se duplicássemos a oferta no mercado do sal, por exemplo, teríamos um terrível excesso de sal. Os grandes aumentos virão onde a demanda é mais elástica. Devemos alterar radicalmente as proporções em que fabricamos mercadorias.‖
Mas, como diz Anderson, é injusto para Mill tirar esta breve passagem de seu contexto e apresentá-la como se fosse o coração da Lei de Say. Se Keynes tivesse citado apenas as três frases imediatamente a seguir, ele nos teria introduzido à concepção de balanço, proporção e equilíbrio que é o coração da
7 Principles of Political Economy, livro III, capítulo xiv. sessão 2.
8 Op. cit., p. 392.
doutrina – uma concepção que Keynes não considera em sua Teoria Geral.
As próximas passagens de Mill, imediatamente após a passagem arrancada de seu contexto, citada acima, são as seguintes:
―É provável, de fato, que agora haveria apenas coisas supérfluas. Embora a comunidade queira duplicar voluntariamente o seu consumo agregado, ela pode já ter tanto quanto deseja de algumas mercadorias e pode preferir fazer mais que duplicar o seu consumo de outras ou exercer o seu poder de compra acrescido sobre alguma coisa nova. Se assim for, a oferta se adaptará em conformidade e os valores das coisas continuarão a estar em conformidade com seus custos de produção.‖
A doutrina de que a oferta cria sua própria demanda, ou seja, baseia-se na suposição de que existe um equilíbrio adequado entre os diferentes tipos de produção e entre os preços dos diferentes produtos e serviços e, naturalmente, pressupõe relações adequadas entre preços e custos e entre preços e taxas salariais. Assume a existência de concorrência e de mercados livres e fluidos pelos quais essas proporções, relações de preços e outros equilíbrios serão gerados.
Nenhum economista importante, que eu saiba, jamais fez a suposição absurda (da qual Keynes acusa implicitamente toda a escola clássica) de que, graças a lei de Say, as depressões e o desemprego eram impossíveis e que tudo o que fosse produzido encontraria automaticamente um mercado pronto a
um preço lucrativo. A Lei de Say, ao contrário das afirmações dos keynesianos, não era a pedra angular sobre a qual se baseava o grande edifício das doutrinas positivas dos economistas clássicos. Era apenas uma refutação de uma crença absurda que prevalecia antes de sua formulação.
Para retomar a citação de Mill:
―De qualquer forma, é um absurdo absoluto que todas as coisas caiam em valor e que todos os produtores sejam, em consequência, insuficientemente remunerados. Se os valores permanecem os mesmos, o que acontece com os preços é irrelevante, pois a remuneração dos produtores não depende de quanto dinheiro, mas de quantos artigos consumíveis eles obtêm por seus bens. Além disso, o dinheiro é uma mercadoria; e se todas as mercadorias são supostamente dobradas em quantidade, devemos supor que o dinheiro também seja dobrado, e então os preços não cairiam mais que os valores.‖
Em suma, a Lei de Say era apenas a negação da possibilidade de uma superprodução geral de todos os bens e serviços.
Se você apresentasse aos economistas clássicos ―o caso keynesiano‖ – perguntado a eles, em outras palavras, o que eles pensavam que aconteceria no caso de uma queda de preço das mercadorias, se as taxas salariais do dinheiro, como resultado do monopólio sindical protegido e segurado por lei, permanecessem rígidas ou em alta – eles responderiam que mercados suficientes não poderiam ser encontrados para bens produzidos a custos de produção tão injustificados
economicamente e que o desemprego grande e prolongado surgiria. Certamente, é isto que qualquer teórico de valor subjetivo moderno responderia.