A Abertura
2. A propensão a consumir
A segunda seção do capítulo 3 nos dá nossa primeira introdução à ―propensão a consumir‖. Esta é a proposição de que:
―A psicologia da comunidade é tal que, quando a renda real é aumentada, o consumo agregado aumenta, mas não tanto quanto a renda‖ (p. 27)
Haverá muito tempo, mais tarde, para a análise completa dessa curiosa proposição, sobre a qual houve tanto atraso, mas uma ou duas observações podem ser feitas aqui. Ao falar da ―psicologia‖ da comunidade e ao usar o termo levemente desdenhoso ―propensão‖, Keynes consegue insinuar
marshalliana ou pigoviana. Ele raramente quer dizer a teoria moderna do valor subjetivo, cuja existência ele mais frequentemente prefere ignorar. Menos ainda, ele considera a divergência real de teorias entre economistas. É para ser considerado original que ele tenta agrupar todas as outras visões além da sua, sob o epíteto comum de "clássico" ou "ortodoxo"? Seria tedioso, no entanto, chamar a sua atenção cada vez que usasse erroneamente algum termo. Tentarei economizar o tempo do leitor aceitando alguns dos seus termos, depois de preencher a advertência necessária na sua primeira aparição, de modo prosseguir com a análise.
a noção de que a maneira como as pessoas gastam sua renda é essencialmente irracional.
Também será notado que sua proposição é vaga e aberta a várias interpretações diferentes. Se a comunidade, à medida que fica mais rica, gasta a mesma proporção de sua renda no consumo, então é claro que o consumo não aumentará na mesma quantidade absoluta que a renda; mas a diferença será presumivelmente compensada por um aumento proporcional no investimento. Se a comunidade, à medida que fica mais rica, gasta uma proporção menor de sua renda em consumo, é claro que deve gastar uma proporção maior em investimento.
Keynes, porém, nunca nos diz inequivocamente qual, ou o que, ele quer dizer. Ao tirar conclusões sobre sua ―lei psicológica‖, ele continua declarando:
―Assim, para justificar qualquer quantidade de emprego, deve haver uma quantidade de investimento suficiente para absorver o excesso da produção total além do que a comunidade escolhe consumir quando o emprego está em tal nível‖ (p. 27)
Aqui está uma banalidade introduzida disfarçada de grande descoberta. Naturalmente, se dividirmos todos os gastos sob um equilíbrio de pleno emprego em dois tipos, gastos com ―consumo‖ e
―investimento‖, deve haver gastos suficientes com
―investimento‖ para compensar a diferença entre gastos com ―consumo‖ e gastos totais, se quisermos ter pleno emprego. Mas essa descoberta prodigiosa poderia ser aplicada não apenas ao ―investimento‖, mas a qualquer coisa. Se dividirmos a quantia de gasto necessária para o pleno emprego em tudo, exceto cerveja, mais os gastos com cerveja, o emprego pleno dependerá da quantia gasta em
cerveja. Ou, colocando-o na mesma fraseologia keynesiana citada acima: ―Para justificar qualquer quantidade de emprego, deve haver uma quantidade de cerveja consumida suficiente para absorver o excesso da produção total além do que a comunidade escolhe gastar em todo o resto, exceto cerveja, quando o emprego está no nível especificado.‖ E você também pode colocar tudo isso em um impressionante conjunto de equações matemáticas.
(Posso antecipar uma discussão posterior aqui, apontando que a diferença entre "consumo" e
―investimento‖ é pelo menos até certo ponto arbitrária, e nem um pouco clara como Keynes às vezes faz parecer. É a compra de uma casa uma despesa de consumo ou um investimento? Se você a compra como moradia é considerada um bem de consumo; mas se você a compra para alugar para outra pessoa, é um investimento, o que também se aplica a um automóvel ou um cortador de grama Os bens de ―consumo‖ e de ―investimento‖ não são necessariamente diferentes tipos de bens: eles mudam de natureza com seu estado de utilização, em que mãos estão ou com os objetivos mutáveis de seus proprietários.)
Tendo feito sua grande divisão entre bens de
―consumo‖ e ―investimento‖, Keynes passa a construir sobre ela toda a economia keynesiana. Ele resume isso no parágrafo seguinte (p. 28) e em uma série de oito proposições na próxima página. Essas duas páginas podem ser chamadas de coração da economia keynesiana. Como já afirmei, as proposições serão analisadas detalhadamente nas páginas seguintes; mas como este é nosso primeiro
contato com elas, podemos fazer algumas observações preliminares.
―Dada a propensão a consumir [ele começa] e a taxa de novos investimentos, haverá apenas um nível de emprego consistente com o equilíbrio‖ (p. 28)
A oração coordenada nesta frase seria completamente verdadeira, especialmente sem as orações subordinadas. Há apenas um nível de emprego consistente com o pleno equilíbrio, e esse é o pleno emprego. Isso é verdadeiro por definição.
Se houver desemprego, deve haver desequilíbrio em algum lugar. Quando Keynes escreve:
―A demanda efetiva associada ao pleno emprego é um caso especial que só se verifica quando a propensão a consumir e o incentivo para investir se encontram associados entre si numa determinada forma‖ (p. 28)
Ele está recorrendo à mistificação indesculpável ou ele está escrevendo disparates. Com o equilíbrio, há sempre pleno emprego.
É claro que poderíamos escrever a frase anterior de Keynes assim: ―O emprego pleno é um caso especial, realizado apenas quando há um equilíbrio total, que por sua vez só é realizado quando o consumo e o investimento, juntos são o suficiente para proporcionar o pleno emprego‖. Isso seria verdade, mas tudo seria verdade pela própria definição de nossos termos. Apenas colocaríamos a declaração dessa forma como uma piada, como se alguém dissesse: ―Uma semana é um caso especial,
realizado apenas quando contém apenas sete dias, nem mais, nem menos, em sucessão.‖
O equilíbrio, em suma, existe apenas quando as condições para o mesmo existem. Uma dessas condições é o pleno emprego. E o emprego pleno sempre existe quando existe equilíbrio.
Quando Keynes fala, portanto, como ele faz aqui e em outros lugares, de ―equilíbrio‖ com subemprego, ele está falando algo sem sentido. Isso é uma contradição de princípio, como falar de um caos ordenado ou de um círculo triangular. Quando Keynes fala, em resumo, de um ―equilíbrio‖ com o desemprego, ele não está falando de posição de equilíbrio alguma, mas de algo completamente diferente. Ele está falando de uma situação congelada, um desequilíbrio congelado, uma situação em que algum preço, taxa de juros ou salário, ou muitos preços, taxas de juros, e salários, são impedidos, por contrato, resistência sindical ou intervenção do governo, de se ajustar a um nível de equilíbrio.
Esse uso obviamente indevido de termos é uma das falácias centrais de todo o sistema keynesiano.
Quando esse mau uso é reconhecido, todo o seu sistema entra em colapso.4
Tudo isso é para não dizer – pois Keynes às vezes gosta de fingir que os economistas neoclássicos
4 Sr. William Beveridge, escrevendo em 1931, definiu a posição ―clássica‖ da forma como era claramente entendida antes de Keynes fazer sua ofuscação:
―Demanda e oferta no longo prazo são ajustados e produção é direcionada pelo movimento dos preços; se o que era para ser flexível no sistema econômico é feito rígido, então vem o desequilíbrio e uma tensão. Não é o que está acontecendo com trabalho e preços na Grã Bretanha hoje – uma rigidez nos salários em desacordo com as condições econômicas , levando para um desequilíbrio incurável?‖ Tariffs:
The Case Examinated (Londres: Longmans, 1931), p. 240.
realmente dizem – que desemprego ou desequilíbrio é impossível, ou mesmo emprego pleno, ou equilíbrio total é o estado normal das coisas. Por outro lado, os melhores economistas neoclássicos sempre reconheceram que é o emprego pleno absoluto ou o perfeito equilíbrio nunca são reais, assim como a perfeição em qualquer condição humana.
O conceito de ―equilíbrio‖ é primariamente uma ferramenta de pensamento metodológica do economista. Não é porque o equilíbrio perfeito nunca se torna realidade, que ele pode ser descartado como uma ferramenta intelectual inútil.
Um engenheiro fala de um motor sem atrito ou com uma eficiência de 100%, percebendo muito bem que nenhum motor é sem atrito e nenhuma máquina é 100% eficiente. Mas ele precisa desses conceitos como referências, padrões, ferramentas de pensamento. Um matemático lida conceitualmente com pontos sem dimensões e linhas sem espessura, embora os pontos e linhas em seu livro didático tenha dimensões e espessura ou não possam ser vistos. O matemático considera altamente valioso e até indispensável usar conceitos de números
―irracionais‖ e ―imaginários‖ – como a raiz quadrada de menos um – cuja realidade ou racionalidade ele pode achar embaraçoso explicar.
O economista também encontra dificuldades lógicas quando tenta pensar no conceito de equilíbrio perfeito. Mas tais dificuldades são encontradas com quase todos os principais conceitos da economia:
―concorrência perfeita‖, ―pleno emprego‖,
―economia estacionária‖, ―curvas de oferta‖,
―curvas de demanda‖, etc. Não é meu objetivo aqui discutir os méritos de qualquer conceito em
particular. Mas a maioria do que acabamos de mencionar são ferramentas intelectuais de pensamentos úteis e necessárias. O conceito de equilíbrio é indispensável, tanto para a teoria
"estática" quanto para a teoria "dinâmica". O erro ocorre quando o ―equilíbrio‖ é considerado um fator existente, ou ridicularizado simplesmente porque não é existente. O real é uma tendência sempre presente para o equilíbrio. O equilíbrio tende a ser cada vez mais aproximado e rápido na proporção em que a concorrência, os preços e os salários são fluidos e livres.
O erro de Keynes está no uso da palavra equilíbrio em dois sentidos bastante diferentes, um dos quais é totalmente inválido. Essa é a confusão do
―equilíbrio‖ com uma situação que, por um motivo ou outro, está simplesmente congelada, como o desemprego em massa prolongado devido a um desajuste prolongado entre os preços de diferentes mercadorias, ou entre salários individuais, ou na maioria das vezes entre preços e salários. Todas as proposições e deduções de Keynes nas páginas 28- 31 são o resultado de um equívoco ou distorção da teoria neoclássica.
Portanto não precisamos tentar aqui desvendar os erros em detalhes. Mas um comentário geral deve ser feito. Keynes falou como se nenhum economista clássico tivesse ouvido falar em pânico, depressão ou desemprego. É claro que as suposições de equilíbrio estático ou as de uma ―economia estacionária‖ não são, por si só, suficientes para lidar com os ciclos econômicos. Mas são pré- condições metodológicas necessárias para a compreensão dos ciclos econômicos. A menos que
entendamos suposições ―estáticas‖, não podemos entender suposições ―dinâmicas‖.