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7 UM CONTO DE FADAS ÀS AVESSAS

Dizer que os bons são vencidos, não porque sejam bons, mas porque são fracos, isto requer coragem. Naturalmente, a verdade deve ser dita na luta contra a mentira e não cabe disfarçá-la em algo generalizado, sublime, sujeito a múltiplas interpretações. A inverdade é feita precisamente desse caráter genérico, sublime e ambíguo.

Bertolt Brecht (1967, p. 21)

existência condigna”. Esse aguadeiro, mesmo, é uma dessas almas, se não me engano.[...]

SEGUNDO DEUS –

Ele se engana. Quando o aguadeiro estava nos dando água, eu reparei uma coisa no copo dele, que serve de medida: aqui está o copo. Mostra o copo ao Primeiro Deus.

PRIMEIRO DEUS – O fundo é falso...

SEGUNDO DEUS – É um trapaceiro!

PRIMEIRO DEUS – Esse, então risca-se. [...]

(p. 62).

Wang, o vendedor de água de Setsuan, passa a esperá-los, tal qual Ló (Cf. Gênesis 19, 1), na entrada da cidade. Ao reconhecê-los, procura para eles pousada. Diante de muitas recusas, já pronto a abandonar sua missão, recorre à prostituta Chen Te, que, mesmo tendo que dispensar um freguês o qual lhe garantiria o dinheiro do aluguel, atende ao pedido do aguadeiro, abrigando, por uma noite, os Deuses celestiais – a hospitalidade é uma das mais importantes leis do mundo oriental; por sua hospitalidade aos deuses, Ló e sua família foram salvos da morte na destruição de Sodoma (Cf. Gênesis 19, 1-29). Então, em gratidão pela hospitalidade de Chen Te, os Deuses dão a ela dinheiro e pedem-lhe para que “antes de tudo, seja sempre boa” (p. 68).

Chen Te, com essa recompensa, abre uma pequena tabacaria e passa a ser explorada pelos parasitas, credores e miseráveis, a quem tenta estender a mão, a qual, conforme lamenta a protagonista aos deuses, no final da peça, estes miseráveis tentam arrancar de uma vez só:

CHEN TE: [...]

Quem procura ajudar a um desgraçado, Acaba se desgraçando também!

Quem é que pode resistir assim À tentação de ser também ruim, Se, para não morrer,

A carne alheia se tem de comer?

(p. 180, 181).

Assim, para poder sobreviver, Chen Te cria, metamorfoseia-se, trocando de roupa e usando uma máscara, no primo Chui Ta: um homem impiedoso que mantém os exploradores à distância da loja de sua prima.

Chen Te encontra um aviador desempregado, Yang Sun, no momento em que este tentava pôr um termo à sua vida. Impede, então, o suicídio do jovem e por ele se apaixona, ficando noivos. No entanto, o moço tem a intenção de abandoná-la assim que ela financie sua ida a Pequim, onde, por meio do suborno, será empregado do Correio Aéreo.

SUN – [...]

O gerente do hangar lá de Pequim, meu ex-colega da escola de aviação, está podendo me dar um emprego, se eu espichar nas mãos dele quinhentos dólares.

CHUI TA –

Essa quantia não é muito alta?

SUN –

Não. Ele tem de descobrir algum descuido no trabalho de outro aviador, que é chefe de família numerosa e que por isso é muito cuidadoso. O senhor compreende... Isso eu digo ao senhor em confiança, mas Chen Te não precisa saber.

CHUI TA –

É possível que não. Mais uma coisa: e esse gerente do hangar não vai vender também o emprego do senhor, no mês que vem?

(p. 115).

Após saber dos interesses do aviador, que os revelara a Chui Ta, e de sua intenção de abandoná-la, a protagonista, já em vias de perder sua loja, resolve negociar, por intermédio do primo, com o barbeiro, o qual nutria por ela grande admiração e desejo de esposá-la. Mas, nesse momento, Chen Te descobre-se grávida do aviador.

Para poupar o filho das malhas da miséria e da fome, Chui Ta inventa uma viagem para a prima e passa a conduzir os negócios com o barbeiro, que lhe dá um cheque em branco e coloca à sua disposição os seus galpões para que Chen Te possa abrigar os necessitados. Chui Ta, então, instala uma pequena fábrica de fumo nessas dependências – atrás de gradis, como em horríveis estrebarias, algumas famílias aparecem de cócoras, principalmente

mulheres e crianças [...] (p. 153) – e emprega, em condições subumanas, os miseráveis e parentes que viviam da caridade de Chen Te:

CHUI TA, encolhendo os ombros –

Pelo que eu sei da senhorita Chen Te, que precisou viajar, ela não tinha a intenção de deixar vocês na mão. Mas, daqui para o futuro, tudo se há de fazer em bases mais razoáveis. A distribuição de alimentos sem prestação de serviços será abolida: em vez disso, cada um terá de ganhar honestamente a própria subsistência. A senhorita Chen Te achou melhor dar emprego a todos vocês: os que estiverem dispostos a ir comigo aos galpões do senhor Chu Fu não terão nada a perder.

(p. 149, 150).

Em pouco tempo, Chui Ta é cognominado o rei do fumo de Setsuan, e Sun, por sua disposição em prosperar, ainda que às custas da exploração de seus companheiros, passa a ser seu capataz.

Diante do desaparecimento de Chen Te que, com a desculpa da viagem, fica meses ausente, Wang levanta a suspeita de o primo tê-la assassinado para ficar com os seus bens. Unindo-se ao povo e a Sun, a quem o aguadeiro revela a gravidez da moça, conseguem que Chui Ta seja preso e levado ao tribunal:

WANG –

Santíssimos, enfim apareceis! Coisas horríveis têm acontecido lá na tabacaria de Chen Te! Ela foi viajar, mais uma vez, já faz três meses!

O primo ficou com tudo na mão, até que hoje foi preso! Ele teria assassinado a moça, pelo que dizem, para ficar com a loja dela: mas nisso eu não acredito, porque num dos meus sonhos Chen Te me apareceu e me disse que estava presa pelo primo. Oh, meus santíssimos Deuses, vós precisais voltar lá depressa e ver se a encontrais!

PRIMEIRO DEUS –

É de espantar! Toda a nossa pesquisa fracassou. Nós encontramos pouquíssimas almas boas, e as que encontramos nunca tinham uma vida digna de um ser humano. Nós já tínhamos mesmo decidido depositar toda a nossa fé em Chen Te!

SEGUNDO DEUS –

Ah, se ela pudesse continuar a ser uma alma boa!

WANG –

Isso naturalmente ela ainda é, mas desapareceu!

PRIMEIRO DEUS – Então tudo está perdido...

(p. 171).

Após as lamentações de Wang e de seus pedidos de ajuda aos Deuses, esses se colocam como juízes de Chui Ta que, então, tirando a máscara, revela a eles sua identidade. Após verem que Chen Te está viva, os Deuses – tolos e inoperantes, como os qualifica Martin Essler (1979, p. 307) – sentem-se aliviados e resolvem partir. Ao expor o conflito em que se encontra, a jovem suplica aos Deuses celestiais que lhe dêem uma solução; como ser boa num mundo degenerado? De acusada, Chen te passa a acusar e expor as mazelas sociais. Os Deuses, então, negando que seus mandamentos são funestos e afirmando, cegamente, que está tudo em ordem, como consolo, admitem que ela continue a metamorfosear-se no primo uma vez por semana, pelo menos!, não, Basta uma vez por mês!” (p. 183) e partem numa nuvem cor-de-rosa, cantado:

OS TRÊS DEUSES cantam – Pena não ficarmos mais Do que um instante fugaz:

Muito visto e examinado, Perde o encanto o belo achado!

Vossos corpos lançam sombras No jato de luz dourada:

Deveis deixar-nos agora Retornar ao nosso Nada!

CHEN TE – Me ajudem!

[...]

(p. 183, 184).

Nesse momento, a história é interrompida, um personagem se dirige à platéia, no epílogo da peça, e lamenta por este final sem respostas; aconselha, então, o público a pensar, a dar “trato ao pensamento até descobrir-se um jeito pelo qual pudesse a gente ajudar uma alma boa a acabar decentemente...” (p.

185).