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O IMPÉRIO DO TERROR OU O TERROR DO IMPÉRIO

Os grandes crimes só são possíveis porque são inacreditáveis.

Trapaça banal, simples mentiras, extorsões descaradas, estas são coisas que pegam muita gente desprevenida. Os espíritos mais sutis se recusam a acreditar em trapaça tão primitiva e, quando ficam desconfiados, procuram em demasia, contando com crimes meticulosamente planejados e de complexidade exemplar.

Indignados, recusam-se a “confundir” estadistas com ladrões de cavalos, generais com especuladores da bolsa de valores, e assim se mostram totalmente incapazes de entender roubos de cavalo e mercado especulativo.

Bertolt Brecht (2005, p. 196)

Em Quanto custa o ferro, temos a materialização, por meio da alegoria, do processo de anexação de territórios que comporão o espaço vital necessário para viabilizar os planos de domínio alemão. Temos também a sátira da forma leviana e ao mesmo tempo audaciosa com que Hitler fazia e desfazia seus pactos de paz, de colaboração ou de não-agressão. Concomitantemente é revelada a hipocrisia da política não-intervencionista que acabou por contribuir com a construção de uma história de terror e massacre de milhares de seres humanos em nome da “irmandade” ariana: “Foi logo me chamando pelo primeiro nome e me explicou que éramos parentes.” (p. 212). Brecht expõe as motivações econômicas dissimuladas em um discurso pacifista, de não intervenção, de países como a Polônia, Suécia, Hungria e Dinamarca, cuja atitude possibilitou a ascensão do hitlerismo.

SVENDSON –

Dansen, é você? Olha, aquele sujeito novo esteve aqui. – Ah, ele também esteve aí... Ele fez compras comigo. – Ah, com você também... Enquanto ele pagar, para mim está bom. É claro que para você também está bom que chega enquanto ele pagar.

Escurece (p. 216).

O cinismo da situação, o dissimular dos reais interesses que movem o Cliente tomam forma e se expõem na maneira sorrateira e totalmente calculada com que aborda suas vítimas; estas são pegas de surpresa, sem condição

qualquer de resistência. O cliente, então, prega-lhes o discurso da boa vizinhança, defende a idéia de haver prováveis laços consangüíneos entre eles, e da necessidade de promover-lhes proteção. Na primeira cena da peça, o Vendedor de Tabaco (Áustria) conta a Svendson (Suécia) o fato de ter sido abordado por um estranho (Hitler), o qual lhe causara forte impressão e medo:

VENDEDOR DE TABACO –

[...] O homem me tratou como um velho amigo. Foi logo me chamando pelo primeiro nome e me explicou que éramos parentes.

Até hoje eu nunca soube, eu falei. O quê, você não sabe disso, foi o que ele disse, e me olhou como se eu fosse uma moeda falsa. E então ele me explicou tintim por tintim como é o nosso parentesco, e quanto mais ele falava mais a gente virava parente.

SVENDSON –

E isso é tão grave assim?

VENDEDOR DE TABACO –

Não, mas ele me disse que me faria uma visita em breve.

SVENDSON –

O senhor diz isso como se tivesse sido uma ameaça?

VENDEDOR DE TABACO –

Sabe, as palavras eram bem comuns, ele disse ter o defeito de possuir um senso de família muito forte. Se ele descobre que alguém, de alguma forma, é parente, não consegue mais viver sem essa pessoa.

SVENDSON –

Mas essas palavras não são feias.

VENDEDOR DE TABACO –

Não, mas ele berrava tanto quando falava.

SVENDSON –

E isso o deixou assustado?

VENDEDOR DE TABACO – Para dizer a verdade, muito.

SVENDSON –

O senhor está tremendo. No corpo todo.

[...]

VENDEDOR DE TABACO –

Eu também estranhei que, antes de me deixar ir, ele tenha sugerido um pacto: nunca falaria nada contra mim e eu nunca falaria nada contra ele.

SVENDSON –

Mas isso soa mesmo muito honesto. Isso é reciprocidade absoluta.

[...]

VENDEDOR DE TABACO –

Talvez eu devesse ter algum tipo de arma.

SVENDSON –

Claro. Isso não faz a ninguém.

VENDEDOR DE TABACO –

Infelizmente armas custam dinheiro.

(p. 212, 213).

O terror, desencadeado por tal abordagem, assume uma proporção ao longo da peça que fugirá a qualquer controle, culminando em manobras e artimanhas do Cliente deliberadas sem o menor constrangimento:

CLIENTE devagar –

Tendo em vista o fato de que somos um pouco parentes, quero lhe fazer uma sugestão.

SVENDSON –

Não que eu soubesse, meu caro...

CLIENTE –

Se o senhor ainda não sabe, tudo bem. Eu quero sugerir que passemos para um novo procedimento, um procedimento de troca:

mercadoria contra mercadoria. Tenho certeza que o senhor fuma charutos. Pois bem, aqui estão os charutos. Tira uma caixa de charutos grandes do casaco. Posso fazer um precinho bem barato para o senhor, já que não me custaram nada. Eu herdei de um parente. E eu não fumo.

SVENDSON –

O senhor não fuma. O senhor não come. O senhor não fuma. E isso aí são austrillos.

CLIENTE –

Dez centavos cada. São dez coroas pela caixa com cem. Entre primos, eu deixo por oito, quer dizer, pelo ferro. Concorda?

[...]

SVENDSON –

Eu não posso me dar ao luxo. Se eu pudesse comprar alguma coisa, compraria sapatos.

(p. 219)

O calendário do depósito de ferro indica 19??

Svendson circula por ali, fumando um austrillo e calçando os sapatos da senhora Tcheca.

(p. 226).

A Áustria (Vendedor de Tabaco), então, é o primeiro Estado europeu a cair nas mãos do Führer (Cliente), tornando-se uma província do Reich alemão, sob o olhar aterrorizado, porém ambíguo, dos seus vizinhos:

VENDEDORA DE SAPATOS –

Um vendedor de tabaco, um tal de Austríaco, foi assaltado em plena rua. Assassinado e roubado.

SVENDSON –

Não diga! Mas isso é terrível.

VENDEDORA DE SAPATOS –

Não se fala em outra coisa na redondeza. Agora eles querem organizar uma polícia. Todos devem fazer parte. O senhor também, seu Svendson.

SVENDSON desagradavelmente tocado –

Eu? Mas isso é totalmente impossível. Eu não dou para policial, dona Tcheca, de jeito nenhum. Eu sou pacífico demais. E o meu depósito nem me dá tempo para isso. Eu quero vender o meu ferro em paz e pronto.

(p. 217).

Depois da Áustria, é a vez da Tchecoslováquia (Vendedora de Sapatos).

Hitler (Cliente) tem a seu favor os governos italiano e húngaro. Contra estão a França (Senhora) e o Reino Unido (Senhor), ligados à Tchecoslováquia por um pacto de assistência mútua.

SENHOR –

Ontem à noite a nossa vizinha, a senhora Tcheca, foi assassinada, foi assaltada e roubada por um homem fortemente armado, aquele tal fulano lá.

SVENDSON –

O quê? A dona Tcheca assassinada? Como pode acontecer isso?

[...]

SENHOR –

Trata-se agora de juntar todos os vizinhos numa união que possa cuidar para que isso não volte a acontecer. Aproveitamos para perguntar também se o senhor não quer se filiar a uma união para a manutenção da ordem como essa e incluir seu nome na lista dos organizadores. Entrega-lhe uma lista.

SVENDSON recebe-a hesitante, inquieto –

Bom, mas eu sou apenas uma pequena loja de ferro. Eu não posso me meter na briga das firmas grandes. Meu ingresso numa união dessas poderia irritar alguns dos meus clientes.

SENHORA –

Ora, o senhor só quer vender o seu ferro, tanto faz para quem?

SVENDSON –

De maneira nenhuma! Como a senhora pode dizer uma coisa dessas!

Eu acho que tenho consciência tanto quanto a senhora. Eu só não sou um sujeito de briga, entende? Não estou nem pensando no meu negócio. Vamos conversar mais cordialmente. Para o senhor – O senhor fuma?

SENHOR observa os charutos – Austrillos!

SENHORA –

Eu seria grata aos senhores se não fumassem.

(p. 221).

A Rutenia e a Hungria anexarão parte de território tchecoslovaco, e esse jogo de interesses dos países vizinhos é precisamente explicitado na peça:

O calendário do depósito de ferro indica o ano de 1939 [...]

SVENDSON telefona, apreciando um austrillo –

É você, Dansen? O que você me diz dos últimos acontecimentos? É, eu também digo o mesmo. Não falo nada. – Hã – Hã, você também não chama a atenção? É, eu também não. – Sei, você também ainda vende para ele? É, eu também ainda vendo. – Sei, você também não está assustado? É, eu também não.

Escurece [...]

(p. 220).

O calendário do depósito de ferro indica 19??

Svendson circula por ali, fumando um austrillo e calçando os sapatos da senhora Tcheca. De repente, estrondo de canhões. Svendson, muito inquieto, tenta, em vão, telefonar. Não há mais linha, liga o rádio. Não há mais transmissão. Olha pela janela. Clarão.

[...]

(p. 226).