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O ARRENDATÁRIO CALLAS –

Eu teria isenção do arrendamento por dois anos se ficasse no lugar dele. E me disseram que um latifundiário jamais seria enforcado!

O VICE-REI –

Eu temo, amigo, que não lhe mentiram!

Tragam aquele que ele substituiu!

O inspetor sai.

IBERIN para Callas – O quê? Por uns pesinhos

Você se entrega à forca, vagabundo?

O ARRENDATÁRIO CALLAS –

Não, por dois anos de arrendamento.

(p. 139, 140).

Os latifundiários ricos, ao pensarem que Isabella de Guzman, uma txixe, mas que “pertence à nata deste país”, entregara-se ao comandante para salvar seu irmão e ainda por cima fora violentada pelos soldados, ficam horrorizados e exigem punição dos culpados. Contudo ao saberem da troca de papéis, que Nana é quem fora ao encontro do comandante, em lugar de Isabella, poupando-a da humilhação, da agressão física e moral – “Caem na gargalhada”, afinal Nana é uma mulher do povo:

OS LATIFUNDIÁRIOS RICOS – [...]

Que piada! Você conseguiu Iberin!

Essa é a corja que você exaltou.

Aí a honra só existe nos trapos”

E veja o que ele faz de toda a honra!

Por alguns pesos ela vai e entrega Seu corpo txuxe, que seja pelo agressor!

Diga que foi a filha do camponês.

Foi só a filha do camponês. Mas Aos seu aliados, que foi só uma txixe!

Ao pai entregue mais uma vez Sua filha! É ela, arrendatário!

Você não vai acreditar!

(p. 141).

A comicidade presente na construção dessa cena é obtida por uma engenharia metateatral precisa na demonstração da teatralidade do real: são artifícios a revelarem artifícios.

O VICE-REI – Agora basta!

Sim, ela é sua filha e assim é que está Certo. Mas as cabeças são redondas – Trazem de Guzman. Sua irmã está a seu lado.

E agora só vêm os verdadeiros txixes.

Por que, de Guzman, o libertarei?

Porque o seu arrendatário deseja Tão pouco que você seja enforcado Que prefere fazê-lo em seu lugar.

Além disso também vou libertá-lo Porque a filha do camponês prefere Se entregar a vê-lo enforcado, por Você ser tão querido, eu o absolvo.

(p. 141, 142).

Brecht utiliza os recursos do discurso opressor, sua sutil ironia, sua astúcia e engenhosidade, sua hipocrisia implícita, radicalizando-os na encenação de suas disparidades, apanhando-os, dessa forma, na raiz de seu raciocínio. A comicidade da cena em que esse raciocínio se formula demonstra sua total falta de sustentação, pois toda essa situação está calcada em equívocos: os fatos, os impasses, o discurso que os engendra e o que os interpreta nascem de equívocos e se encerram em equívocos; a única pretensão do arrendatário é livrar-se do pagamento do aluguel, “dois anos de isenção de arrendamento. Talvez por isso eu me enforque” (p. 133); sua alienação, como já discutimos, não permite que reivindique ou discuta aquilo que conferiria condições dignas de vida e de trabalho para ele e para sua família, ainda porque não conhece outras possibilidades e assim não as reconhece como tais. Dessa forma, Brecht revela o jogo e ao mesmo tempo o perigo desse jogo tão bem articulado:

O VICE –REI – [...]

Também o camponês deve ser solto

Para pagar o arrendamento. Para Callas – Callas Meu querido! Não vá dar mau exemplo!

E ainda há mais para pagar, amigo.

A repressão aos ladrões de cavalos Quem irá pagar, se não for você?

Soltem o camponês e o Senhor!

A mesma sentença para os dois! Livres!

Vida para os dois! [...]

[...]

O ARRENDATÁRIO CALLAS –

E como fica a isenção do arrendamento, nada?

O VICE –REI – Não, amigo!

Um contrato desses é imoral e não tem valor.

[...]

O INSPETOR –

Vossa excelência queirais desculpar, mas os arrendatários da Foice condenados à morte aguardam a execução. Agora é para soltá-los também?

[...]

O VICE –REI –

Esta foi a decisão do Iberin.

Devem ser enforcados, nãoé isso?

E leve a sopa ao meu querido Callas!

(p. 142).

Ao final, o verdadeiro inimigo não está mais entre o povo de Jahoo como se fez pensar, mas sim no exterior, são os cabeças quadradas e, agora, para derrotá-los, cabeças redondas e pontudas deverão se unir.

O VICE-REI –

Arrendatário, quase me esqueci Eu sei que você é pobre. Escute:

Eu voltei, mas não de mãos abanando Trouxe comigo algo para você.

Seu chapéu está furado, tome o meu!

E você não tem capa, tome a minha!

Coloca seu capacete na cabeça dele e veste-o com sua capa de soldado.

Que diz disso? Claro que hoje e amanhã Ainda prefiro vê-lo na sua terra.

Eu chamo se precisar de você

E pode ser logo. – Iberin, o senhor deu O primeiro passo, mas é preciso mais.

O império que ergueram nessas semanas Murchará se não for logo ampliado.

Pois não sabem, no sul além mar Habita nosso inimigo mortal

Cujos súditos têm cabeças quadradas E que aqui ainda são desconhecidos.

Percebo que transmiti-lo à sua calaçaria Será agora sua tarefa, senhor Iberin.

Pois agora se aproxima uma guerra De uma violência nunca vista e todo Homem saudável será necessário.

Bem amigos, vamos comer agora!

A mesa do juiz, onde julgamos Tanta gente, serve para comermos.

Camponês, espere que eu mando a sopa.

O ARRENDATÁRIO CALLAS para Nana – Você ouviu que eles querem fazer uma guerra?

Trazem a mesa já posta. O Vice-Rei, Missena, Isabella e os Latifundiários ricos dirigem-se a ela.

O VICE-REI distribui a sopa com uma concha grande – Primeiro o camponês, não é Iberin?

Temos que alimentá-lo: é um soldado.

Dois pratos. Quer mais? Estamos com fome.

[...]

O Hua traz a sopa para Callas e sua filha (p. 144).