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A historicidade e a universalidade da Graça

4. ACOLHIDA DA GRAÇA DE DEUS: A JUSTIFICAÇÃO COMO

4.1 A iniciativa salvífica de Deus

4.1.4 A historicidade e a universalidade da Graça

González Faus, ao buscar uma antropologia unitária, não aceita o dualismo Graça e história. Para ele, a Graça nasce na história e tem forma histórica21. O dualismo é uma forma de esquecer que a história está banhada pela Graça. Neste sentido, González Faus entende a frase de Gustavo Gutiérrez: “não há duas histórias, uma profana e outra sagrada ‘justapostas’

17 GONZÁLEZ FAUS, Proyecto de hermano. p. 436-439.

18 GONZÁLEZ FAUS, José Ignacio. La Humanidad Nueva. p. 544. “a la vez, la afirmación del hombre a partir de Dios y la afirmación de Dios solo en el hombre”.

19 GONZÁLEZ FAUS, Proyecto de hermano. p. 435. “Sólo si el hombre es libre, se afirma a Dios, no quitándole la libertad. Y únicamente si el hombre es agraciado y receptor, se afirma de veras al hombre, no dejándole solo consigo”.

20 GONZÁLEZ FAUS, Proyecto de hermano. p. 440.

21 GONZÁLEZ FAUS, Proyecto de hermano. p. 441.

ou ‘estreitamente ligadas’, mas um só devir humano assumido irreversivelmente por Cristo, Senhor da história”22. De acordo com González Faus, para muitos dualismos ocidentais esta frase implica um reducionismo inaceitável, no entanto, esses dualismos só concebem um Dom de Deus como outros dons humanos: como um narcisismo daquele que doa que nunca permite que aquilo que foi doado seja do outro.

Interessante que a partir da intuição de G. Gutiérrez, entendemos melhor o caráter revolucionário da frase de Tereza de Lisieux e G. Bernanos: tudo é Graça. Isso ignifica que tudo está banhado pela Graça e, por isso, segue aberto sempre a uma esperança e a um novo começo23. Por isso, González Faus afirma em forma de tese, algo que nos acompanhará em toda a nossa reflexão deste capítulo:

a graça tem lugar em meio a este homem, este mundo e esta história infectada pelo pecado, não mudando-nos a uma espécie de oásis ou estufa, onde já não tenha vigência o escrito anteriormente sobre o pecado. O mundo, portanto, não se divide em pecado e graça, como se fossem duas geografias contradistintas e irreconciliáveis. Mas, cada ser humano, cada situação, é simultaneamente Graça que luta por nascer no pecado e pecado que luta por asfixiar a Graça24.

A concepção degradada de opinar sobre o “ter” e o “não ter” Graça, sem meio termo, vem exatamente do não pensar a Graça na história e nem como história. Ninguém está totalmente sem Graça, senão o condenado, porque ninguém está totalmente excluído do olhar benevolente de Deus. Mas, também, ninguém está totalmente “em Graça”, senão o salvo, porque ninguém tem sido plena docilidade e plena resposta ao amor de Deus. Portanto, a Graça não é sim ou não, mas história25. E, o primeiro efeito da ação renovadora de Deus no ser humano é o de crer na Graça, assim como Jesus, a quem a Plenitude da Graça, a condução pelo Espírito de Deus, e a experiência de sua Filiação única, o levaram a uma vida de fé no Dom do Pai26.

22 GUTIÉRREZ, Gustavo. Teología de la liberación: perspectivas. 7.ed. Salamanca: Sígueme, 1975. p. 199. “no hay dos historias, una profana y otra sagrada ‘yuxtapuestas’ o ‘estrechamente ligadas’, sino un solo devenir humano asumido irreversiblemente por Cristo, Señor de la historia”. Consoante González Faus, afirmar que não há mais que uma só história, significa dizer que não há para o ser humano mais que um só fim. Por isso, a história na qual o ser humano conclui esta criação inacabada e a história na qual o ser humano realiza e consuma sua semelhança com Deus não são histórias paralelas, desvinculadas, mas são, de algum modo, um único e mesmo processo (GONZÁLEZ FAUS, Proyecto de hermano. p. 127).

23 GONZÁLEZ FAUS, Proyecto de hermano. p. 447. Ladaria acrescenta que o olhar cristão pode descobrir que tudo é Graça porque, segundo Paulo, Deus coopera em tudo para o bem dos que o amam (Rm 8,28) (LADARIA, Teología de lo pecado original e de la gracia. p. 280).

24 GONZÁLEZ FAUS, Proyecto de hermano. p. 449. “la Gracia tiene lugar en medio de este hombre y este mundo y esta historia empecatada, no trasladandonos a una especie de oasis o invernadero, donde ya no tenga vigencia lo escrito anteriormente sobre el pecado. El mundo, por tanto, no se divide en pecado y Gracia, como si fueran dos geografías contradistintas e irreconciliables. Sino que cada hombre, cada situación, es a la vez Gracia que pugna por nacer en el pecado y pecado que pugna por asfixiar a la Gracia”.

25 GONZÁLEZ FAUS, Proyecto de hermano. p. 450.

26 GONZÁLEZ FAUS, Proyecto de hermano. p. 449.

Por fim, precisamos adicionar que Deus oferece sua Graça permanentemente a toda pessoa humana, inclusive às que estão fora da Igreja. O obstáculo genérico a esta tese é a mentalidade de direita que pensa que Deus seria mais Deus se se ocupasse menos com o humano. O desenrolar desta tese encontra-se com obstáculos na história da fé cristã: o problema da predestinação e da condenação dos infiéis. Vamos apenas fazer referência a estes temas uma vez que eles não estão dentro do objetivo principal de nossa pesquisa27.

Prescindindo-nos do panorama da história da questão da predestinação, vamos nos fixar no resultado da análise de nosso autor, a qual afirma que a Graça, o amor de Deus reconstrutor e transformador do ser humano, é oferecido a todos os homens e está tentando trabalhar os corações de todos, não somente os que formam a Igreja e nem somente os supostos predestinados, extraídos da massa de condenados28.

A não universalidade da Graça destrói a fraternidade e o projeto de Deus irmanador de todos os homens. Nesse sentido, segundo o teólogo catalão, negando a fraternidade, o homem estará, consequentemente, negando a Graça. Todos os erros em relação à teologia da Graça foram possíveis desde uma concepção da mesma, mais em termos físicos que pessoais, isto é, quando se perde do horizonte, a concepção da Graça como relação pessoal29.

Por isso, a necessidade de se reaproximar da linguagem neotestamentária, a qual não pretende buscar um estatuto ontológico de Deus, mas anunciar ao ser humano um amor incondicional e uma misericórdia fiel de Deus para com ele. Esta linguagem se apresenta, ao mesmo tempo, como salvação e liberdade. O Concílio Vaticano II deu grandes passos ao recuperar a mensagem bíblica, expressando a confiança no anúncio da vontade salvífica universal de Deus. Curiosamente, neste sentido, um dos textos bíblicos mais citados pelo Concílio Vaticano II causava tantas dificuldades a Agostinho: “Eis que é bom e aceitável diante

27 Para uma leitura da abordagem completa de nosso autor de pesquisa, vide: GONZÁLEZ FAUS, Proyecto de hermano. p. 453-483.

28 A concepção de pecado original de Agostinho, a qual citamos no capítulo segundo desta dissertação, sobretudo a sua sensibilidade pelo deterioro e a impotência humana, o levou a conceber a humanidade como uma massa de condenados. Destarte, a maldade humana é tal que não pode protestar nem exigir nada de Deus. Neste pensamento, resta ao ser humano apenas agradecer se algo de bom lhe acontece. Desta massa de condenados, Deus decide, por pura Graça, tirar alguns, sem fazer injustiça aos demais, posto que todos merecem só a condenação. Dado que o senhorio de Deus é imutável, estes escolhidos têm assegurada a salvação. Esta lógica leva a um fatalismo: por um lado, a angústia e o desespero de alguns, e por outro, o abandono de todo esforço ético. Não faltaram oposições a Agostinho. González Faus cita, por exemplo, os monges de Marselha, agrupados em torno de Cassiano, e mais tarde, São Vicente de Lerins. Mas estes, para evitar o predestinacionismo, acabaram caindo no chamado semipelagianismo que, por ora, podemos resumir com a seguinte frase: “se o ‘ser bom’ é obra de Deus e de sua ajuda, o ‘querer sê-lo’ não é obra de Deus, mas do ser humano” (GONZÁLEZ FAUS, Proyecto de hermano. p.

460). Neste sentido, se salvam os que querem se salvar. Contudo, Agostinho viu o perigo nesta forma de pensar:

a Graça se torna impotente e o ser humano teria motivos para ser soberbo (GONZÁLEZ FAUS, Proyecto de hermano. p. 455-456).

29 GONZÁLEZ FAUS, Proyecto de hermano. p. 479.

de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,3-4)30.

Por fim, concluamos esta secção com a célebre passagem da Constituição Pastoral Gaudium et Spes, a qual, segundo González Faus, recupera algo da Tradição que a teologia havia esquecido: a universalidade da Graça:

E isto [a associação ao Mistério Pascal e a conformação com a Imagem do Filho] não vale só para os cristãos, mas de todos os homens de boa vontade, em cujos corações a graça opera ocultamente. Com efeito, já que por todos morreu Cristo e que a vocação última de todos os homens é realmente uma só, a saber, a divina, devemos acreditar que Espírito Santo dá a todos a possibilidade de se associarem a este Mistério Pascal por um modo só de Deus conhecido (GS, n. 22).