1.2 O ser humano, imagem de Deus
1.2.4 Imagem de Deus e paraíso original
O que se chama de transcendental, horizonte último de toda consciência humana, no sentido rahneriano do termo, não aparece como uma distância que sempre se distancia, mas também como interlocutor que se aproxima. Isto parece supor uma contradição, posto que por definição, o horizonte não é alcançável, e o interlocutor implica alcance. Mas, o ser humano, em vez de resolver esta contradição, poderá vivê-la de modo prático, e assim irá tecendo uma relação com Deus numa dupla vivência: igualdade, como filho, e gratuidade, como agraciado.
Por sua “condição divina”, o ser humano terá o atrevimento que só Jesus teve, mas também ensinou este a ter: chamar Deus de Abba, não no sentido genérico de origem, fonte ou causa, mas, por assim dizer, de consanguinidade. Este chamar Deus de Pai, o ser humano o recebe sempre de forma agradecida, porque está além de suas capacidades criaturais, embora o constitua plenamente humano74.
O tema da imagem de Deus suscita duas questões na visão de Gonzalez Faus. A primeira, quando se fala da imagem de Deus em um contexto de pensamento que pressupõe ruptura ou deterioração dela no estado atual do ser humano. A realidade histórica atual nos leva a pensar que se esta humanidade reflete algo de Deus, não será mais que como um espelho quebrado que destroça a imagem que transmite. Surge a questão que trataremos na próxima secção: esta realidade da imagem de Deus desgastada, implica um estado prévio na história em que ela se manifestava em toda a sua nitidez? A segunda, que trataremos no tópico seguinte, nasce como desdobramento do que tratamos nos temas da criaturidade e do ser mais que criatura. Se o ser humano é criatura, a finitude é sua realidade, e não se vê por que tem que interessar-lhe esta adição do “divino”. Em outras palavras: o divino no ser humano, é humano ou não?
dimensão divina com mais harmonia que no presente. Um estado caracterizado como dons perdidos.
O ser humano em infinidades de vezes se reconhece como um paraíso perdido. A Bíblia ratifica essa forma de pensar não como verdade histórica, mas como verdade salvadora. O mal- entendido historicista sobre o paraíso original precisa ser superado. Esta interpretação se deu devido à perda da história do ser humano na teologia. A leitura fixista de Gênesis levou a pensar que Adão foi criado participando da natureza divina, em vez de ter sido criado com um germe ou vocacionado à filiação divina total. Para González Faus, o fato de na idade média, se perguntar se a Graça de Adão era a mesma de Cristo se torna revelador. Mostra uma forma de compreender o ser humano desvinculada de Cristo.
Curiosamente, segundo González Faus, santo Irineu lia a Bíblia de maneira diferente da visão historicista. Em vários momentos ele afirma que o primeiro homem era nepios75, isto é, infantil, imaturo (IRINEU, Contra as heresias, IV, 38,1). Mantendo o paralelismo entre o indivíduo e a espécie, logo formulou também que o gênero humano passou por um estado de infância e crescimento. Santo Irineu raciocinou assim por razões teológicas. Deus, em seu ser fecundo, não pode fazer que nada extra divino seja divino, pois a divindade só cabe onde há liberdade que a receba. Ele somente pode criar um ser livre, que na liberdade possa receber o dom da divinização. Desde este princípio teológico, de acordo com a interpretação de González Faus, Irineu lê a história humana como ato de recepção da divinização, a qual acontece como um verdadeiro processo de autocriação e não como algo pontual ou momentâneo (IRINEU, Contra as heresias, IV, 14,1; III, 22,3 e IV,38). Observa-se que enquanto a escolástica leu Gênesis como uma origem perdida, Irineu o leu como um caminho perdido76.
Consequentemente, em relação à santidade de Adão, a apresentação do paraíso como anterior ao pecado não significa que o ser humano viveu em um paraíso, mas que:
o amor de Deus e Sua oferta envolvem o ser humano e a história humana previamente a todo seu desenvolvimento; que a graça precede as nossas más decisões. E que o bem é mais original que o mal. Se o ser humano é pecador (como diremos), o será, portanto, frustrando “paraísos em marcha”, malogrando possibilidades dadas e desrespeitando uma vocação; não puramente como um mero transgressor positivista de algum código exterior a ele77.
75 Esse caráter infantil de Adão tem sempre para Irineu sua correspondência com o caráter débil ou “infantil” de todo ser humano (GONZÁLEZ FAUS, Proyecto de hermano, p. 110).
76 GONZÁLEZ FAUS, Proyecto de hermano, p. 112-114.
77 GONZÁLEZ FAUS, Proyecto de hermano, p. 114-115. “el amor de Dios y Su oferta envuelven al hombre y a la historia humana previamente a todo su desarrollo; que la gracia precede a nuestras decisiones malas; y que el bien es más original que el mal. Si el hombre es pecador (como diremos luego), lo será, por tanto, frustrando
“paraísos en marcha”, malogrando posibilidades dadas y desoyendo una vocación; no puramente como mero transgresor positivista de algún código exterior a él.”
O Magistério da Igreja tem se esforçado para mudar a explicação sobre o estado original de Adão. O Concilio de Trento (1545-1563), em seu decreto dobre o Pecado Original, mudou expressamente a afirmação de que Adão “creatus fuit” em santidade e justiça, por “constitutus fuerat” em santidade e justiça (DH 1515). Ao usar a palavra constituído no lugar de criado, se inclui um matriz que poderia traduzir por vocacionado, programado para a santidade e a justiça ao invés de acabado, concluído, que tende a sugerir a palavra criado78.
Então, se Adão tem a imagem e a semelhança de Deus como uma vocação, se impõe o argumento de que também os dons preternaturais precisam ser vistos como uma vocação.
Interpretação parecida percebemos na atitude dos profetas de Israel, que transpuseram para o futuro as condições paradisíacas e liam o Paraíso como Terra Prometida (Is 11,6-9; 45,17-26;
55,13; Os 2,20; Zc 9,10 e outros). Para o pensar histórico, a verdade original é mais a meta que a realidade histórica79.
Recuperando o que pretendeu dizer a escolástica, pela experiência humana, sabemos que tudo o que cabe nas palavras morte e falta de integração, ou finitude e culpa, tem para o ser humano não só o caráter de meta a alcançar, mas também de queda sofrida. Para expressar este outro elemento, Flick e Alszeghy afirmam que os dons preternaturais existiram nos primeiros seres humanos “virtualmente”, como a semente de um fruto80. Evitando o erro de cair no historicismo e ler Gênesis como uma crônica, esta abordagem tem a vantagem de conectar os dons preternaturais à história. Oferece-nos a noção de que a história poderia ter tomado outros caminhos e poderia ser muito diferente do que a vemos hoje. A história está nas mãos do ser humano, assim como a possibilidade de algumas retificações do caminho. Portanto, a ação e a responsabilidade do ser humano são evidenciadas nesta abordagem. Aí se encontra seu verdadeiro valor81.
78 Esta mesma leitura da mudança no Concílio de Trento se encontra na obra: LADARIA, Antropologia Teológica, 1983. p. 180.
79 GONZÁLEZ FAUS, Proyecto de hermano, p. 116-117.
80 FLICK, Maurizio; ALSZEGHY, Zoltan. Antropología Teológica. Salamanca: Sígueme, 1970. p. 269 apud GONZÁLEZ FAUS, Proyecto de hermano, 1987, p. 117.
81 GONZÁLEZ FAUS, Proyecto de hermano, p. 117.