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A imagem de Deus como existencial sobrenatural

1.3 A contradição humana: criaturidade e imagem de Deus

1.3.2 A imagem de Deus como existencial sobrenatural

Dentro do tema polêmico da tradição teológica, natural-sobrenatural, ou, na linguagem escolhida por González Faus, criaturidade e imagem de Deus, o teólogo Karl Rahner reagiu contra a explicação de uma determinada Escolástica, que só encontrava na experiência de criatura humana uma certa possibilidade de ser destinada a um fim divino98. A tese de Rahner, segundo a interpretação de González Faus, pode ser descrita da seguinte forma: se o ser humano foi agraciado com um destino divino, este destino não só o fará distinto no dia que o consiga, mas o faz distinto já agora, em sua experiência atual de si mesmo. Assim, este destino não é só reconhecido pela revelação divina, mas de alguma forma confusa e sem nome, pode ser experimentado já agora nas formas de vocação e necessidade.

95 Para uma leitura detalhada dos temas ver em: GONZÁLEZ FAUS, José Ignacio. Carne de Dios. Significado salvador de la Encarnación en la teología de san Ireneo. Barcelona: Herder, 1969, p. 25-91. GONZÁLEZ FAUS, La humanidad nueva, p. 447-448.

96 GONZÁLEZ FAUS, Proyecto de hermano, p. 143. “La imagen y semejanza no es un añadido ajeno a la creaturidad, sino una manera de ser de la creatura o una manera de vivir la creaturidad.”.

97 GONZÁLEZ FAUS, Proyecto de hermano, p. 142-143.

98 RAHNER, Karl. Sobre la relación entre naturaleza y gracia. In: RAHNER, Karl. Escritos de Teología I. 3.ed.

Madrid: Taurus Ediciones, 1967. p. 327-350.

Como esta vocação e necessidade pertencem à realidade histórica de todo ser humano, Rahner qualifica esta característica como existencial99. E a nominação de sobrenatural, advém do fato desta característica não pertencer à definição abstrata da natureza humana. Portanto, este destino humano pode ser nomeado como existencial sobrenatural. E ainda, Rahner concebe que o existencial sobrenatural, mesmo que experimentado de forma confusa e sem nome, não tem por que ser conhecido de forma reflexiva, e menos ainda como sobrenatural, antes de escutar o chamado concreto da Revelação e da Promessa na história humana. Pode-se dizer que o ser humano, ainda sem conhecer a Revelação divina, é conduzido por um impulso que careceria de sentido se não levasse à vida eterna, à intimidade com Deus e à divinização. Para González Faus, esta tese é fundamental para sua concepção de ser humano e da fraternidade.

O que o texto bíblico chama de Imagem de Deus ou ser constituído em Cristo, Rahner nomeia como existencial sobrenatural. Quando o ser humano foi criado à imagem divina, a autocomunicação de Deus lhe é necessária por responder a uma exigência íntima nele. No entanto, quando Deus cria o ser humano, não está obrigado a dar-lhe este dinamismo. Este é dado como um presente, um dom. Desta forma, garante-se a gratuidade do dom de Deus e a necessidade e o interesse do ser humano para com Deus, pois somente Ele é a plenitude deste dinamismo do ser humano. Portanto, pode-se chegar a uma possível definição da imagem de Deus, a saber:

O ser humano, além de ser uma criatura inteligente e livre, foi criado com um destino à mesma vida de Deus. Este destino já o marca na condição atual, transformando sua essência mais última e fazendo com que o mais íntimo do ser humano, aquilo para o que existe e através do qual existe, não seja da essência do ser humano. Este mais íntimo que não é a essência do ser humano e que brota dele a partir do fato de que foi criado como destinatário da comunicação de Deus, isso é a “imagem e semelhança divina100”.

Para González Faus, aceitar que o ser humano foi criado assim por Deus, leva a aceitar, com Rahner, que o ser humano, como criatura inteligente e livre, tem que ter uma consumação, carece de consumação imanente e sua única e verdadeira consumação imanente é a consumação

99 Este termo provém da analítica heideggeriana do existente humano. São características de todos os seres humanos que de fato existem. Neste sentido, são características existenciais (GONZÁLEZ FAUS, Proyecto de hermano, p. 145).

100 GONZÁLEZ FAUS, Proyecto de hermano, p. 148. “el hombre, además de ser una creatura inteligente y libre, ha sido creado con un destino a la misma vida de Dios. Ese destino le marca ya ahora, transformando su esencia más última y haciendo que lo más intimo del hombre, aquello para lo que existe y a través de lo cual existe, no sea de la esencia del hombre. Eso más íntimo que no es de la esencia del hombre y que brota de él a partir del hecho de que fue creado como destinatario de la comunicación de Dios, eso es la imagen y semejanza divina”.

transcendente. Aqui, consumação é entendida como o fim de um acontecer, não só no cessar de existir, mas que produz uma maturação, um resultado, algo definitivo, distinto do acontecer mesmo e onde este encontra seu sentido e justificação101.

As consequências do existencial sobrenatural a respeito do ser humano e de sua consumação seguem outras em relação ao universo criado e sua situação atual. González Faus as resume numa frase provocativa e fundamental para sua antropologia: “no mundo que conhecemos, todo o natural é de fato, sobrenatural102”. Por fim, se a imagem de Deus é esta espécie de semente divina, isso supõe que o ser humano precisa ser uma terra onde essa semente possa germinar. Isto supõe uma capacidade receptiva de plenitude no ser humano, enquanto criatura racional, amorosa e livre.

CONCLUSÃO

O percurso feito neste capítulo nos ajudou a perceber a complexidade da constituição do ser humano. A reflexão teológica de González Faus parte sempre da experiência concreta do ser humano e aprofunda os grandes temas desta grande realidade. Nosso objetivo foi apresentar a tensão ou contradição que o ser humano vivencia iluminando-a e aprofundando-a com a revelação bíblico-cristã.

Pode-se concluir que a contradição humana, em linguagem bíblica, ser criatura e ao mesmo tempo imagem de Deus ou constituído em Cristo, nos traz os seguintes ensinamentos:

a criaturidade do ser humano, a qual abrange todo seu ser, é um elemento comum a todos.

Portanto, há uma unidade de origem e valor do gênero humano. O ser humano é uma criatura, não no sentido de pronto e acabado, mas para o amadurecimento e o progresso. É uma criatura que recebe, como um dom, a proeminência na criação com o objetivo de cuidado e de responsabilidade.

A justaposição de Gn 1 e 2 nos mostra que, como criatura, o ser humano traz em si a tensão entre sua bondade e ser de barro, isto é, sua bondade e maldade são relativas. A criação do ser humano se entende por seu fim, a Aliança com Deus. Isto significa que de alguma forma o ser humano pode ser interlocutor de Deus. Portanto, a reflexão sobre a constituição do ser humano não se vê completa quando foca somente em sua criaturidade, ser finito e relativo

101 GONZÁLEZ FAUS, Proyecto de hermano, p. 145-149.

102 GONZÁLEZ FAUS, Proyecto de hermano, p. 148. “en el mundo que nosotros conocemos, todo lo natural es de hecho sobrenatural”.

convertendo-o em paixão inútil. O ser humano é mais que criatura, imagem de Deus, constituído em Cristo, à imagem do Deus invisível (Col 1,15).

O elemento imagem de Deus ou criado em Cristo significa, no ser humano, um dinamismo infinito que a antropologia teológica vê como sua meta à comunhão com Deus. Este dinamismo se apresenta como uma forma de ser e de viver a criaturidade. Ser constituído à imagem de Deus nos diz, do ponto de vista cristão, que o ser humano é visto no quadro do desígnio criador e salvador de Deus sobre ele. Este elemento é recebido como um verdadeiro dom do criador. Conclui-se ainda que embora tratamos dos temas da criaturidade e imagem de Deus ou criação em Cristo de forma separada por questões metodológicas, ambas formam no ser humano uma única realidade: a imagem de Deus é uma forma de ser de sua criaturidade.

2 O PECADO, DESUMANIZAÇÃO DO SER HUMANO: RUPTURA DO FILIAL E CORRUPÇÃO DO FRATERNO

A terra se perverteu diante de Deus e encheu-se de violência. Deus viu a terra: estava pervertida” (Gn 6,12).

Após apresentarmos a constituição do ser humano, um ser finito com possibilidades infinitas, ou na linguagem bíblica, criatura e imagem de Deus, criado em Cristo, focaremos nesta secção, na realidade do ser humano, marcada pelo pecado. Mostraremos que a crise da linguagem sobre o pecado, na sociedade contemporânea, pode ser consequência de uma das características chave da noção bíblica de pecado: o mascaramento. Nossa reflexão se desenvolverá em três momentos.

No primeiro momento, trataremos da realidade do pecado como contrária ou até mesmo consequência do dinamismo humano, visto como ser constituído à imagem de Deus ou em Cristo. Devido à diferença do ser humano consigo mesmo, ele se torna um ser lábil e instável.

Assim, mostraremos que a realidade do pecado não é somente fruto da contingência e da finitude humana. Falaremos da dimensão do mascaramento do pecado na consciência desde a perspectiva bíblica. A partir do desmascaramento paulino do pecado do judeu e do pagão, metáfora da pecaminosidade humana, segundo nosso autor, evidenciaremos que todo ser humano é pecador. Além da dimensão de ocultamento e culpabilidade do pecado, a experiência humana nos mostra outra dimensão, a qual trataremos em seguida: a debilidade humana.

No segundo momento, após apresentar a realidade do pecado, mostraremos como ele se estrutura na sociedade, pois as decisões do ser humano acontecem dentro de um contexto.

Iniciaremos com a noção de pecado no mundo segundo o Evangelho de João, a qual se assemelha muito ao que chamamos de pecado estrutural. Em seguida, para evidenciar o fato de o ser humano iniciar a convivência social e ao mesmo tempo ser condicionado por ela, trataremos do pecado estrutural segundo a nomenclatura clássica: pecado estrutural estruturante e estruturado.

Por fim, no terceiro momento, trataremos do pecado estruturado no interior do ser humano: o pecado original. Nosso objetivo não será explicar o início do pecado, mas dizer que o ser humano é pecador. Mostraremos que o pecado não nos vem da criaturidade, mas de nossa realidade histórica. E ainda, que a bondade e a misericórdia de Deus nos envolvem de forma anterior ao pecado. Neste tema, mostraremos que o ser humano necessita de salvação, e portanto, ele nos ligará ao tema da salvação de Jesus Cristo.