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Um quilombo de matripotência

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 102-115)

A comunidade quilombola do Campinho da Independência situa-se no município de Paraty, região sul do Estado do Rio de Janeiro, distante da capital fluminense aproximadamente 250 quilômetros. Ocupa uma área de 287 hectares dentro da mata atlântica, a 20 quilômetros da região central do município, com 150 famílias e uma população de 550 pessoas, organizadas em 14 núcleos familiares.

Cada núcleo familiar é definido a partir do casal mais velho, que mantém em seu entorno as moradias de filhos e netos (FERRAZ, 2014).

Ronaldo, quilombola e meu interlocutor, atual presidente da AMOQC, destaca:

No quilombo nós já temos a sétima geração, seria a geração dos meus netos que ainda não tenho, mas já tem pessoas da minha geração no quilombo do Campinho que são avós. Bom, tem a Vó Tunica por exemplo foi mãe da Maria Teodoria, que foi mãe do Gabriel que é pai da Vilma que é a minha mãe ou seja, eu sou a quinta geração a partir da Vó Tunica e todos nós aqui descendemos de uma das três ou das três, dependendo do cruzamento da árvore genealógica. Pode ser que a gente seja alguém que nós seja descendente direto de uma, das duas outras três (RONALDO, 2021)

Aquele quilombola ainda relata que a história do quilombo Campinho é uma história matriarcal. Na segunda metade do século XIX, com a queda da economia, as fazendas quebraram, sendo um fenômeno nacional. Vários quilombos do Brasil têm o surgimento parecido; ou seja, em alguns casos, as terras foram doadas documentalmente; em outros casos, a terra foi doada “de boca” (o quilombo Campinho, por exemplo); e em outros casos, a terra nem foi doada, mas sim, abandonada, e os quilombolas permaneceram.

É, e aí assim o nosso povo viveu aqui. Uma cultura de migração dentro do próprio território, onde ninguém dizia: “Esse pedaço é meu, esse pedaço é seu, era tudo de todo mundo”. As pessoas usavam o território pra plantar, caçar, trabalhar de uma maneira geral, extrativismo, ritos, rituais, moradia, enfim não era terra isolada, como as pessoas falam: “Ah, quilombo, terra isolada”, não era. O povo aqui sempre estabeleceu relação com os Caiçaras, relação com a cidade, relação intercâmbio cultural, comercial, de trabalho [...] (RONALDO, 2021).

Nas antigas fazendas de desembarques clandestinos do tráfico negreiro transatlântico, na última década antes da abolição, ao longo da costa litorânea do Estado do Rio de Janeiro, formaram-se as comunidades rurais negras de Santa Rita de Bracuy (Angra dos Reis), Rasa (Armação dos Búzios), Caveira (São Pedro D’Aldeia), Marambaia (Mangaratiba) e Campinho da Independência (Paraty). Quatis e São José da Serra, fora da faixa litorânea, complementam a lista de regiões na referida Unidade da Federação – UF, que, com a decadência e o abandono da cultura do café, tornaram-se áreas de subsistência para as populações atualmente consideradas remanescentes de quilombo (LIMA, 2009; FIABANI, 2008).

De acordo com a ACQUILERJ, o Estado do Rio de Janeiro possui 52 comunidades quilombolas, sendo 48 certificadas pela Fundação Cultural Palmares –

FCP. Entretanto, têm-se apenas três territórios integralmente titulados, ou seja, certificados pela referida Fundação e reconhecidos pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA, nos termos do art. 68, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias – ADCT, e do Decreto n. 4.887, de 20 de novembro de 2003, que regulamenta todo o processo de identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas pelos remanescentes quilombolas (BRASIL, 2003a).

Figura 1 – Comunidades quilombolas no Estado do Rio de Janeiro – ano 2021.

Fonte: Adaptado de Brasil (2021a) e Rio de Janeiro (Estado) (2021).

Para fins do Decreto n. 4.887/2003 e do consequente reconhecimento da identidade dos remanescentes das comunidades quilombolas, seu art. 2º considera os grupos étnico-raciais segundo critérios de autoatribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas e com presunção de ancestralidade negra relacionada à resistência à opressão historicamente sofrida. O

§ 3º do mesmo artigo considera, para a medição e demarcação das terras, os critérios de territorialidade indicados pelos remanescentes das comunidades dos quilombos, sendo facultado à comunidade interessada apresentar as peças técnicas para a instrução procedimental.

A certificação da FCP de per si já outorga àquelas comunidades o direito ao acesso às políticas sociais. Criada em 1988, a FCP está vinculada ao Ministério da Cultura, tendo como premissa o fomento de projetos voltados para a preservação da cultura negra e o apoio à difusão da Lei n. 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que tornou obrigatório o ensino da História da África e Afro-Brasileira nas escolas (BRASIL, 2003b).

Em relação às especificidades locais, a comunidade de remanescentes de quilombola do Campinho da Independência teve sua história a partir de três mulheres escravizadas que lograram a liberdade antes mesmo da abolição em 1888.

Elas se estabeleceram onde existia uma antiga fazenda conhecida como Fazenda da Independência, abandonada no final do século XIX, devido à crise econômica gerada pela alteração da rota comercial na região de Paraty e doada de boca, como relatou o presidente da AMOQC (LIMA, 2009).

O quilombo do Campinho da Independência encontra-se na encruzilhada étnico/racial/cultural de Caiçaras – povos originários e população urbana paratiense, entre o mar e as montanhas da Área de Proteção Ambiental – APA do Cairuçu30. Historicamente se relacionaram com estes grupos populacionais em função do que produziam no território – harmonia que foi quebrada com a construção da Rodovia Rio-Santos na década de 1970.

Uma aproximação junto ao universo imaginário de um grupo como este se revela essencial para o profissional que se dispõe a entender os desafios enfrentados pela comunidade. Para tanto, além do convívio diário, busquei narrativas míticas locais.

30 APA Cairuçu é uma unidade de conservação de uso sustentável que abrange parte do município de Paraty/RJ. Seu território possui uma porção continental e 63 ilhas, totalizando 34.690 ha.

Nesse viés, a seguir, tem-se o “Mito de Origem” da comunidade quilombola do Campinho da Independência, que consta no laudo antropológico elaborado por Neusa Gusmão em 1995, que serviu de referência para a titulação daquelas terras.

MITO DE ORIGEM

“Aqui ficava assim: Pedras Azuis, Scarneiro(?) e Independência. E aqui chamava Sertão da Independência, porque a sede era ali no Zé Amancio, era ali a Fazenda Independência”.

Vovó Atonica (Tonica) trabalhava na Fazenda Independência na época da escravidão. Ela, sua irmã Marcelina e sua prima Luiza.

Elas (Antonica e Luiza) eram primas. Quer dizer que elas vieram de um grupo junto. Elas vieram todas no cativeiro, mas socar no pilão, ser acorrentada, não... Ali na Pedra Mandacaru... Mandacarú, uma pedra grande que até hoje existe, ela (vovó Antonica) viu muitas desgraças ali.

Da estrada Rio-Santos não se vê, mas era onde a gente brincava de roda...

Chama assim porque tinha muito mandacaru, que se bate como cana e tira água.

Tinha a Fazenda com seu grupo, entendeu? Guiti com seu grupo. Rio dos Meros com o seu. Independência com o seu grupo.

Minha avó (bisavó) Antonica contava todos os castigos. Me marcou muito...

que deixou a pedra quente (Pedra Mandacaru) e queimaram uma criancinha para castigar a mãe e o pai. Porque a mãe negra, que não era o povo dela (Antonica), tinha que amamentar a criança branca e a senhora a pegou amamentando primeiro seu filho para depois amamentar o branco. Aí, deu aquele castigo. A criança morreu queimadinha naquela pedra. Eu tinha uma revolta! Mas ela (Vovó Antonica) dizia: “ Comigo não, eu era só pentear”.

Porque ela dizia “o meu país não consentia que negros de lá fossem escravos”.

Vovó Antonica contava que ela veio de uma ilha pequenina, ilha Filipina (?) e quando ela chegou aqui, aos negros de lá não foi permitido que fosse escravo.

A Vovó Tonica pegou a escravidão, mas ela não foi escrava. Ela não foi escrava porque não era africana. Olha, ela era assim: tinha olhos puxados, cabelos negros, lisos. Não era mulata não, mas tinha cabelo fino e liso. Vem de uma mistura...

Ela assistiu toda desgraça da escravidão. Mas ela nunca comeu em gamela, nunca dormiu no chão e não morou na senzala. Morava na casa grande. Quer ver o que ela fazia, que a Vovó Antonica contou?

Eles chegaram aqui, fazia algodão. Algodão, não! Fio, linha numa roda.

Fiava numa roda e depois fazia crochê. As batas das madames, vestia e peteava.

Essa era Vovó Tonica. Vovó Tonica e Vovó Luzia são mais importante.

Famosa é Vovó Antonica (Tonica), irmã de Marcelina e não tinha irmão homem não.

Marcelina, chamada Tia Marcelina, era parteira e cortou o umbigo de todos.

Sua filha Joaquina, nascida no ventre-livre, tomava conta das crianças da Fazenda e contava que era mocinha quando viu “cantar a liberdade”.

Vovó Antonica chegou aqui de navio, muito pequena. No navio havia uma negra chamada Adelaide. Um dia dormiu no colo dela e quando amanheceu tinha morrido e foi jogada ao mar.

Ela achava que foi de navio, não se lembrava bem, mas sabia que não era negra da África. Ela veio muito pequena com os pais...

Não era pretinha, que esta raça, este bolo que veio com minha avó (bisavó) misturou com outros negros aqui, entendeu? O cabelo carapinha que hoje temos, veio dos homens que elas tiveram...

Eles deveriam ser bem negros... porque foram tingindo tudo... Deveriam ser aquele sangue forte.

Eles é que eram cativos.

Vovó Antonica, minha bisavó, viveu mais que a filha e a neta. Morreu em 1932, na Revolução com 132 anos. Velhinha, velhinha, capinando, capinando com enxada de cabo curto. Vovó Tonica era uma pessoa esclarecida, uma pessoa que contava história...

Vovó Luiza, morreu depois, muito depois... Vovó Tonica era esclarecida...

Ela dizia que o rio era Garapitanga, não é que correu-se os anos e agora o rio, não é chamado de Carapitanga? Então ela entendia. O papagaio, aquela serra lá, ela chamava de Papagaio e é Papagaio. Ela tinha saber!

Ela chamava Fourquilha e é Fourquilha!

O início do Campinho, não tinha nada, era só mato. A fazenda quando terminou a escravidão, ficou de pai para filho, filho para pai e o último que ficou deu liberdade para eles (escravos) trabalharem e aí que foi dividido (as terras). Deu pedaço para Marcelina, Vovó Antonica, que atingiu quase toda (a fazenda) e a Vovó Camila, que não era Camila ainda, era Vovó Luiza (mãe de Camila). Elas ficaram donas. Mas eles deram (a terra) assim de boca.

A época eu não sei. Disseram, “Olha nós vamos embora tal, os velhos troncos foram morrendo e vocês ficam aí”. Vovó Antonica sempre dizia,

“...criam seus filhos, seus netos e bisnetos. Isto é de vocês”. Não deu papel porque naquele tempo não tinha.

A Fazenda foi distribuída entre três (mulheres) e daí-pra-cá é que somos nós. Nós temos a ver com a fazenda Independência, situada na Pedra Mandacarú31

Tal narrativa valoriza o local e os laços de família, bem como identifica a relação entre os indivíduos, o trabalho e o espaço. Toda saga familiar se dá pelo ponto de vista das mulheres, destacando o matriarcado, os trabalhos manuais e um papel fundamental na área de saúde: a parteira (“Marcelina, chamada Tia Marcelina, era parteira e cortou o umbigo de todos”) – referência de saberes importantes para se pensar o cuidado.

Não é recente a constatação da importância das parteiras para os serviços públicos de saúde e sua utilização. Sob as premissas colonialistas, higienistas e eugenistas, entre as décadas de 1940 e 1960, os sanitaristas do então Serviço Especial de Saúde Pública – SESP implantaram o programa de “treinamento e controle de parteiras curiosas” nas comunidades rurais brasileiras. Para aqueles agentes do Estado brasileiro, era uma oportunidade de impor aos referidos segmentos populacionais rigorosos padrões higiênicos de cuidados no parto e, sobretudo, fazer uso da influência das parteiras nas comunidades, a fim de popularizar as ações de saneamento. Segundo Silva e Ferreira (2011), a imposição

31 Transcrição do mito de origem, em quadro colado na parede da casa de artesanato. Versão ofertada por Paulina a Neusa Gusmão para a produção do laudo antropológico em 1995.

da Medicina sanitária da época reproduzia práticas coloniais europeias via estratégias de apropriações do “outro”.

Como exercícios de violência simbólica, tais práticas visavam comprovar a superioridade de uma cultura em relação à outra e, assim, dominar os grupos sociais tidos como inferiores, incorporando alguns dos seus hábitos sociais e conceitos, porém conferindo-lhes novos usos e significados. [...]

configura-se na ideia de que se faziam necessários ganhar a confiança da parteira e conhecer seu sistema de crenças, suas práticas e sua clientela, capacitá-la para atuar conforme métodos e princípios da medicina sanitária e, posteriormente, apropriar-se de seu ofício e seu espaço de atuação modificando-o segundo outros padrões culturais. Naquele contexto, as curiosas [parteiras e rezadeiras] eram vistas como um grupo social que estorvava o caminho das ações sanitárias (SILVA; FERREIRA, 2011, p.

111).

De fato, as bases do sistema de saúde já reconheciam a necessidade de articulação do cuidado biomédico nos diferentes contextos de comunidades tradicionais.

3.4 “Não somos seu quarto de despejo”

Antes da construção da estrada Rio-Santos havia a predominância de populações caiçaras, quilombolas e indígenas, inclusive boa parte dos poucos moradores do Centro Histórico, menos de 500 nos primeiros anos do século XX, eram pescadores (SILVA, 2020, p. 34).

Até a segunda metade do século XX, Paraty permaneceu com uma população eminente rural – em torno de 15 mil habitantes. Após a construção da Rodovia Rio- Santos e a redescoberta da cidade colonial, a harmonia ali existente desapareceu.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE concernente ao período 1970-2010 apontam naquele município um crescimento superior à média nacional. Enquanto a urbanização no Brasil cresceu pouco menos de 30% (de 56%

para 84,4%), no mesmo período, Paraty apresentou um crescimento urbano de quase 50% (de 26,2% para 73,8%) – urbanização que se deu sob outra trajetória, pois, em grande parte do território nacional, a movimentação populacional se deu das áreas rurais para as cidades, ao passo que na cidade em comento, a população foi transferida das áreas litorâneas (por vezes, comunidades caiçaras, quilombolas ou povos originários) para aglomerados urbanos sem planejamento (SILVA, 2020).

Segundo a estimativa do IBGE para 2020, Paraty conta com uma população de 43.680 pessoas, em uma área territorial de 924.296 quilômetros quadrados, perfazendo uma densidade populacional de 40,57 habitantes/quilômetro quadrado.

Em relação ao Índice de Desenvolvimento Humano – IDH, aquele município apresentou o viés municipal – M de 0,693 (2010), considerado como médio desenvolvimento pelo referido Instituto (IBGE, 2021c)32.

Atualmente, alguns espaços em Paraty ainda se constituem como territórios de resistência à empreitada urbanística/especulativa – o quilombo do Campinho da Independência, por exemplo, entre outras comunidades tradicionais –, dispersos na extensão territorial do município. E ainda, tem-se alguma desigualdade estrutural marcante entre as áreas/os bairros dentro do próprio município que se agudizaram com o tempo e em meio ao crescimento desordenado (SILVA, 2020).

Santos A. B. (2019), piauiense, mestre de ofícios, lavrador e relator de saberes dos mais velhos, de seu lugar de fala como intelectual quilombola, traz uma nova perspectiva para pensar os modelos de desenvolvimento adotados nos diferentes territórios brasileiros: a contracolonização, referindo-se ao processo de resistência e enfrentamento de povos, raças e etnias no mesmo espaço físico geográfico ao colonialismo.

A contracolonização quilombola se configura como uma via de resistência física e simbólica das comunidades quilombolas e dos povos pindorâmicos33 ao permanente conflito decorrente do capitalismo especulativo.

No que diz respeito à atividade econômica da comunidade quilombola, após a titulação da terra e a imposição das regras de preservação com a criação das unidades de conservação ambiental, as famílias tiveram que abandonar a caça e o extrativismo, voltando-se para a agricultura agroflorestal (mandioca, cana de açúcar, feijão, arroz e milho), o artesanato e o turismo de base comunitária.

De acordo com relato de d. Adilsa, uma das responsáveis por uma das casas de artesanato da comunidade do Campinho da Independência, bem ao lado da UBS, tem-se ali uma casa de artesanato coletiva e mais quatro casas de artesanato familiares. Devido à pandemia da COVID-19, elas têm vendido muito pouco, pois, o

32 O IDH-M é uma medida composta de indicadores de três dimensões do desenvolvimento humano: longevidade, educação e renda, medindo a qualidade de vida da população.

33“Povos pindorâmicos”: termo utilizado por Santos (2019) para denominar os povos originários do território, de acordo com o que eles próprios descreviam ser suas terras. Tem-se aí um exercício de descolonização da escrita, em contraposição ao termo generalizante “indígenas”, dado pelo colonizador.

turismo na comunidade e as visitações foram suspensas em março de 2020, também prejudicando grande parte daqueles que trabalham em pousadas, casas e condomínios de luxo da região, como forma de complementar a renda familiar.

Um dos condomínios que mais empregam moradores da região é o condomínio de luxo Laranjeiras, construído a partir da instalação da Rodovia Rio- Santos na década de 1970, devido ao processo de especulação imobiliária da região. São muitos os comentários da população local acerca da luxuosidade e extravagância do condomínio (IMÓVEIS LARANJEIRAS, 2021)34.

Trabalhadores quilombolas, caiçaras locais e, recentemente, migrantes de outras regiões, compreendem um total de: 172 profissionais nos serviços de manutenção e hotelaria; 60 profissionais na área de segurança e acima de 415 profissionais nos cuidados com as casas (IMÓVEIS LARANJEIRAS, 2021).

Em uma das conversas com representantes da AMOQC, quando de meus primeiros contatos, foi possível observar que aquele condomínio, apesar de ser uma importante fonte de renda para algumas famílias, é também uma dependência econômica da comunidade em relação ao empregador – o que parece não contribuir com o desenvolvimento político e cultural da comunidade. Eles ainda destacam que, em tempos anteriores, tal dependência econômica era bem maior, com grande parte de jovens e adultos trabalhando diretamente nas casas do Laranjeiras. Sobre a questão, Ronaldo, atual presidente da AMOQC, também revelou ter trabalhado no condomínio entre seus 16 e 23 anos de idade, expressando alívio de não depender mais da oportunidade ali ofertada.

Desde sua construção até os dias de hoje, a expansão das divisas do condomínio de luxo Laranjeiras é ponto de litígio com as comunidades tradicionais do entorno (SILVA, 2020). A falta de fiscalização das divisas do condomínio em relação às comunidades tradicionais foi bastante enfatizada nos relatos das lideranças quilombolas. Nas palavras de d. Adilsa: “Se não fosse a criação da associação e a titulação das terras quilombolas, hoje isso tudo aqui seria do condomínio”. Os entrevistados reforçam a crítica de que a relação daquele condomínio com as comunidades da região é “tensa” – que se expressa pelo fato de

34 Têm-se ali 292 lotes residenciais, variando entre 1000 e 3900 metros quadrados, divididos em 20 quadras e duas glebas, um centro social, um centro médico, quatro quadras de tênis, um campo de golf, uma marina com mais de 10.000 metros quadrados, um heliporto com 12 spots de estacionamento, um sistema de captação de água, tratamento de esgoto e coleta seletiva de lixo com reciclagem e cinco praias particulares (IMÓVEIS LARANJEIRAS, 2021).

a construção do condomínio representar a expropriação da comunidade caiçara que existia na mesma área, bem como o fechamento para o público em geral de cinco praias na região (atualmente, praias privativas do condomínio)35.

Tal questão novamente remete à perspectiva da contracoloniazação do intelectual quilombola Nêgo Bispo, sobre os modos de resistência quilombolas:

[...] eu sou é contra colonialista. Bota barreira, daqui você não passa.

Acabou para você, você perdeu garoto, tchau! Essa é a onda! Se nós destruíssemos o colonialismo, muitas coisas vão no mesmo pacote. Porque o colonialismo é mono, nós somos poli. O colonialismo é linear vertical, nós somos circulares. Nós somos outra onda, nós somos na roda. O colonialismo tem limite, nós temos fronteira. E cuidado com as fronteiras, porque as fronteiras são espaços de negociação. O partido (político) é uma fronteira muito larga (de negociação) (JORNALISTAS LIVRES, 2017, n. p.).

Aqui, aquele autor destaca a importância de se estabelecer fronteiras de negociação e rever os limites impostos pelo colonialismo, à luz da contracolonização quilombola – um modo físico e simbólico de resistência.

Por um lado, se algumas lideranças quilombolas apontam certa dependência econômica em relação ao condomínio de luxo Laranjeiras, além da expropriação de áreas antes destinadas às culturas tradicionais e do empobrecimento geral das populações que vivem da pesca e do plantio na região, por outro lado, os processos de suas resistências se fortalecem nas suas “fronteiras” (SANTOS, A. B., 2019), ou seja, na construção de diálogos-negociações com o “condomínio”. Assim, não resta apenas a relação de trabalho que reproduz a subalternidade daqueles grupos populacionais enfraquecidos cultural e socialmente frente às comunidades no entorno. Tem-se a possibilidade de persistirem no reencontro de seus saberes-

35 Algo ilegal, uma vez que os condomínios fechados se submetem à Lei do Parcelamento do Solo Urbano, conforme dispõe o art. 8 da Lei n. 4.591, de 16 de dezembro de 1964, in verbis: “Art. 8º Quando, em terreno onde não houver edificação, o proprietário, o promitente comprador, o cessionário dêste ou o promitente cessionário sôbre êle desejar erigir mais de uma edificação, observar-se-á também o seguinte: a) em relação às unidades autônomas que se constituírem em casas térreas ou assobradadas, será discriminada a parte do terreno ocupada pela edificação e também aquela eventualmente reservada como de utilização exclusiva dessas casas, como jardim e quintal, bem assim a fração ideal do todo do terreno e de partes comuns, que corresponderá às unidades; b) em relação às unidades autônomas que constituírem edifícios de dois ou mais pavimentos, será discriminada a parte do terreno ocupada pela edificação, aquela que eventualmente fôr reservada como de utilização exclusiva, correspondente às unidades do edifício, e ainda a fração ideal do todo do terreno e de partes comuns, que corresponderá a cada uma das unidades; c) serão discriminadas as partes do total do terreno que poderão ser utilizadas em comum pelos titulares de direito sôbre os vários tipos de unidades autônomas; d) serão discriminadas as áreas que se constituírem em passagem comum para as vias públicas ou para as unidades entre si” (BRASIL, 1964, n. p.).

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 102-115)