• Nenhum resultado encontrado

A língua em uso e em desenvolvimento

O objetivo deste capítulo foi apresentar a língua brasileira de sinais a um público que, pela primeira vez, faz contato com uma série de conceitos que cercam a Libras.

Torna-se relevante discutir que o movimento que levou a Libras para as salas de aula de faculdades e universidades teve início há muitos anos atrás e está em pleno desenvolvimento.

Como comentado anteriormente, o estudo linguístico da ASL, realizado por Stokoe em 1960, deu ensejo a pesquisas sobre as línguas de sinais de todo o mundo, além de fornecer subsídio científico para que os movimentos surdos de diversos países pudessem reivindicar respeito à sua língua e, posteriormente,

59 que ela fosse utilizada na educação de surdos, aceitando sua condição de su-

jeitos bilíngues membros de uma comunidade minoritária.

No Brasil, esses movimentos tiveram início na década de 1980 e contaram com a participação da comunidade surda e de estudiosos surdos e ouvintes preocupados com as dificuldades enfrentadas por esses cidadãos em diversas áreas da nossa sociedade.

Ao lado de um movimento mundial para melhorar a participação e o aces- so de todas as pessoas aos bens sociais, surge uma ampla legislação que gradu- almente faz com que as pessoas com deficiência, entre elas os surdos, tenham respaldo para suas exigências. Pode-se citar, como exemplo, a Lei de Acessibili- dade (Lei no 10.098, de 19 de dezembro de 2000), que determina a eliminação de barreiras físicas e de comunicação nos setores público e privado, garantindo, no caso das pessoas surdas, a presença do intérprete de Libras e a correção dife- renciada de provas e avaliações escritas por alunos ou candidatos surdos.

Dois anos após essa lei e após muita luta, é promulgada a Lei da Libras (Lei no 10.436, de 24 de abril de 2002), que reconhece:

como meio legal de comunicação e expressão a Língua Brasileirade Sinais - Libras [...] forma de comunicação e expressão, em que o sistema lingüístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constituem um sistema lingüístico de transmissão de idéias e fatos, oriundos de comunida- des de pessoas surdas do Brasil (BRASIL, 2010b).

Somente três anos depois a Lei 10.436 é regulamentada pelo Decreto no 5.626, de 22 de dezembro de 2005, e faz uma série de determinações em relação ao ensino da Libras em cursos de formação de pedagogos, fonoaudiólo- gos, de licenciatura, além de estabelecer a formação necessária ao professor e instrutor de Libras, ao intérprete de Libras, e estabelece prazos para que essas determinações entrem em vigor em nosso país.

Paralelamente a essas conquistas, pode-se observar uma política de educa- ção para todos, que incentiva a inclusão de alunos com necessidades educativas especiais na rede regular de ensino. Entre esses alunos, encontram-se crianças, jovens e adultos surdos que gradativamente entram ou retornam aos bancos escolares, agora amparados por uma legislação que visa a atender às suas necessidades específicas, como a presença de intérpretes em sala de aula e a educação bilíngue.

Toda essa movimentação provoca, em primeiro lugar, a exposição da Li- bras para uma parcela da população que antes a desconhecia, como gestores, professores, colegas ouvintes e pais.

60

Em segundo lugar, dá acesso aos alunos surdos a níveis de educação an- tes pensados como inalcansáveis. Esse acesso faz com que cada vez mais sur- dos possam frequentar o ensino superior. Sem dúvida, um importante impulso à continuidade dos surdos nos estudos é o direito de terem intérpretes em sala de aula, garantido pela recente legislação referente à acessibilidade de “pessoas portadoras de deficiência” e ao reconhecimento da Libras como meio legal de expressão e comunicação das comunidades surdas brasileiras.

Esse crescimento vem impondo novos desafios tanto para o profissional- intérprete de Libras, quanto para os surdos. O intérprete tem de se haver com conteúdos e dinâmicas acadêmicas até então desconhecidos (HARRISON &

NAKASATO, 2004) por ele, principalmente ao se lembrar de que grande parte dos intérpretes profissionais não cursou uma faculdade. Aos surdos, abre novas perspectivas de participação na sociedade, em funções que requerem mais do que atividades repetitivas, mais qualificadas, ao mesmo tempo em que terá de se preparar para poder responder a essa nova demanda.

Interessante poder observar esse processo de evolução da Libras no mo- mento atual da sociedade brasileira, no momento mesmo em que ele se proces- sa, no qual um número sem precedentes de adultos jovens surdos encontram, no trabalho com a própria língua de sinais, um caminho profissional, na condição de instrutor de Libras para ouvintes (professores e pais de surdos, profissionais da área da saúde ou pessoas interessadas em aprender a língua para se comu- nicar com amigos, namorados, colegas de trabalho, etc.) ou diretamente com surdos (crianças, jovens e adultos) em escolas ou projetos sociais variados.

Os contatos iniciais dos instrutores pioneiros no ensino da Libras com pro- fessores e demais profissionais ouvintes ligados à educação ou à saúde cau- saram um primeiro movimento de evolução da língua, pois, ao solicitarem ao instrutor alguns sinais para poderem trabalhar os conteúdos escolares ou con- ceitos importantes para as atividades desejadas, exigiram um refinamento (a amplitude do espectro semântico) até então desnecessário para as interações verbais entre surdos. Frente a esse primeiro desafio, os instrutores resolveram marcar encontros para trocarem experiências, esclarecerem dúvidas e, se fosse o caso, criarem sinais novos.

Um segundo impulso, causador de movimento perceptível de evolução da Libras, ocorreu (e ainda ocorre) a partir do desenvolvimento de uma atividade socialmente valorizada entre o grupo de surdos, o ensino de Libras, levando muitos desses jovens adultos a retomarem seus estudos, para melhor com- preenderem as implicações de seu trabalho para o desenvolvimento de seus alunos. A entrada no ensino médio (supletivos, programas de educação de jo- vens e adultos, etc.) e posteriormente nas universidades colocou um problema

61 a surdos e intérpretes de Libras: como realizar a interpretação de aulas e textos

acadêmicos, com conceitos e reflexões até então inacessíveis aos surdos e desconhecidos pelos intérpretes (a maioria dos quais sem formação de nível su- perior)? Novamente houve a necessidade de reuniões entre intérpretes, surdos, alguns professores e profissionais preocupados com tal situação, dispostos a dis- cutir esses conceitos, para que a comunidade surda pudesse criar sinais a serem partilhados entre surdos e intérpretes na vida universitária, alargando, sensivel- mente, o espectro semântico de parte da comunidade surda com acesso ao ensi- no superior (e daqueles com quem interagem) e dos intérpretes universitários.

Dessa forma, pode-se constatar que a Libras encontra-se em pleno uso e em constante desenvolvimento, como todas as línguas vivas, e que conhecê-la profundamente exige dedicação e estudos constantes.

Esperamos, com este capítulo, ter dado o primeiro passo para incentivar cada vez mais pessoas a entrarem nesse campo de conhecimento.

Referências

AMARAL, M. A.; COUTINHO, A.; MARTINS, M. R. D. Para uma Gramática da Língua Ges- tual Portuguesa. Lisboa: Editorial Caminho, 1994. (Série Linguística).

BRASIL. Lei no 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Poder Legislativo, Brasília, 20 dez. 2000. Disponível em: <http://www.planalto.gov.

br/ccivil_03/Leis/L10098.htm>. Acesso em: 31 jan. 2011a.

______. Lei no 10.436, de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a língua brasileira de si- nais – Libras, e dá outras providências. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Poder Legislativo, Brasília, 25 abr. 2002. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil/

leis/2002/L10436.htm>. Acesso em: 31 jan. 2011b.

______. Decreto no 5.626. Regulamenta a lei no 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a língua brasileira de sinais – Libras, e o art. 18 da lei no 10.098, de 19 de dezem- bro de 2000. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, 23 dez. 2005. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/

decreto/d5626.htm>. Acesso em: 31 jan. 2011c.

EMMOREY, K.; BELLUGI, U.; KLIMA, E. Organização neural da língua de sinais. In: MOURA, M. C.; LODI, A. C.; PEREIRA, M. C. C. (Eds.). Língua de Sinais e Educação do Surdo. São Paulo: Sociedade Brasileira de Neuropsicologia, 1993. (Série de Neuropsicologia, v. 3).

FERREIRA BRITO, L. Por uma gramática da Língua Brasileira de Sinais. Rio de Janeiro:

Tempo Brasileiro, 1995.

62

HARRISON, K. M. P.; NAKASATO, R. Q. Educação universitária: reflexões sobre uma in- clusão possível. In: LODI, A. C. B.; HARRISON, K. M. P.; CAMPOS, S. R. L. (Orgs.). Leitura e Escrita no Contexto da Diversidade. Porto Alegre: Mediação, 2004. p. 66-72.

McCLEARY, L. E.; VIOTTI, E. C. Transcrição de dados de uma língua sinalizada: um estu- do piloto de transcrição de narrativas na língua de sinais brasileira (LSB). In: SALES, H. M.

L. (Org.). Bilinguismo dos surdos: questões linguísticas e educacionais. Goiânia: Cânone Editorial, 2007. p. 73-96.

PEREIRA, M. C. C.; MOURA, M. C; LODI, A. C. O papel da representação ou imagem do interlocutor no uso da língua de sinais por indivíduos surdos. In: CICCONE, M. (Org.).

Comunicação Total: introdução, estratégias, a pessoa surda. 2. ed. Rio de Janeiro: Cultura Médica, 1996. p. 169-172.

QUADROS, R. M.; KARNOPP, L. B. Língua de sinais brasileira: estudos linguísticos. Porto Alegre: Artmed, 2004.

STOKOE Jr., W. C. Sign Language Structure: an outline of the visual communication systems of the American deaf. Studies in Linguistics: Occasional Papers, Buffalo, n. 8, 1960.

CAPÍTULO 4

Aspectos da gramática da língua brasileira de sinais