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Educação, surdez, língua e linguagem

Um tema bastante discutido atualmente é a inclusão de alunos com de- ficiências na rede regular de ensino. No entanto, para que esta inclusão seja efetiva, devemos nos ater às especificidades de cada aluno, respeitar sua iden- tidade (história e cultura), e construir ações para sua permanência na escola.

Ignorar estes aspectos traz a possibilidade de atraso no processo de ensino- aprendizagem, ou até mesmo ocasionar um quadro de fracasso escolar.

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O debate da inclusão circula na questão de que o aluno com deficiência precisa de toda uma organização escolar (proposta pedagógica, acessibilida- de, adequação curricular, práticas educativas) que satisfaçam as suas neces- sidades e cumpra com o objetivo educativo, e não seja apenas uma inclusão de presença física dessa criança no espaço escolar. Portanto, a adoção de apenas uma forma de trabalho na escola, limita diversas outras possibilidades e contribuições para atender a diversidade, trazendo uma visão reducionista, que pode acarretar em prejuízos para alunos com processos de aprendizado diferenciados.

Na escola, o aluno surdo alcança um nível de desempenho escolar satis- fatório no momento em que há preocupação com o resgate de toda sua histo- ricidade; com o entendimento sobre a diversidade linguística e uma educação escolar diferenciada que valorize suas capacidades e potencialidades; além de uma compreensão sobre as forma de organização social das comunidades sur- das e a importância da Libras no processo educativo e em demais instâncias cotidianas. Acrescenta-se ainda a importância da disposição de recursos, se- jam humanos, materiais, metodológicos, entre outros, que são importantes para oferecer um ensino de qualidade no espaço escolar.

A questão da diferença linguística, a identidade e cultura surda, e de como apreendem o mundo ao seu redor, são assuntos relevantes na educação dos surdos. Considerando que a aquisição da linguagem acontece de forma gradu- al, já que se constitui como um sistema simbólico básico e essencial para o de- senvolvimento humano; a educação depende fundamentalmente da linguagem para promover a construção de conhecimentos acadêmicos. Assim, para o iní- cio desta discussão, mostra-se necessário destacar os conceitos de linguagem e língua, e tecer algumas considerações sobre a Libras.

Vygotsky (1998) aponta a utilização de signos e instrumentos na consti- tuição do sujeito, já que estes possuem funções de mediadores, ferramentas auxiliares da atividade humana. Os signos são instrumentos psicológicos do ser humano, isto é, auxiliam nos processos psicológicos em diversas situações, pois são orientados internamente – o processo contínuo de construção das significações nasce de suas experiências externas que se internalizam e cons- tituem o indivíduo. É nas ações, nas interações sociais, e na linguagem que o homem mergulha nesta rede de significações e representações simbólicas, transformando-se e desenvolvendo-se ao longo de toda a sua vida.

Ainda segundo Vygotsky (1993), pensamento e linguagem são fenômenos que se desenvolvem segundo trajetórias diferentes e independentes. Afirma que as crianças, antes de dominarem a linguagem, possuem capacidade de resol- ver problemas práticos, utilizam instrumentos como meios para alcançar algo,

121 indicando uma fase pré-verbal na qual há predomínio da inteligência prática.

Ainda nesta fase, ela manifesta uma comunicação difusa e demonstrações de alívio emocional por meio do choro, do riso e balbucio, correspondendo à fase pré- intelectual da linguagem. É em um determinado momento de seu desenvolvimento que estas duas trajetórias (pensamento e linguagem) se cruzam, e o pensamento torna-se verbal e a linguagem racional, mediados pelo sistema simbólico da lingua- gem. Esse processo é consolidado por meio das relações sociais, da ação coletiva, do planejar, do trabalho, das interações com os demais, transformando, assim, a criança num ser sócio-histórico, que parte das funções mais elementares para as mais sofisticadas e complexas, chamadas de funções psicológicas superiores.

Bakhtin (1986), estudioso das questões da língua e da linguagem, também apóia-se em uma perspectiva histórico-cultural, afirmando que é a partir do meio ideológico e social que se forma a consciência individual. Nessa concepção, a palavra ocupa um lugar fundamental na constituição dessa consciência, exer- cendo a função de signo. O dialogismo é chave central de seus estudos, mos- trando uma visão ampla sobre todos os processos que envolvem a linguagem, e associando-a à complexidade da vida humana. Para ele, toda enunciação é um diálogo e, portanto, o enunciado não é algo isolado, e sim um elo de uma cadeia infinita, em um processo de comunicação ininterrupto.

A língua brasileira de sinais – Libras – é uma língua viso-gestual utilizada naturalmente em comunidades surdas brasileiras, e que permite a seus usuá- rios expressar sentimentos, ideias, ações, e qualquer conceito e/ou significado para estabelecer uma interação com as demais pessoas.

Segundo Gesser (2009), a língua de sinais possui todas as características linguísticas de qualquer língua humana natural. Como as demais línguas orais, ela não é universal, e ao longo do extenso território brasileiro, a mesma apre- senta variações linguísticas que advêm das características regionais, sociais e culturais do lugar. É uma língua autônoma, dotada de uma gramática específica estruturada nos níveis “fonológico” (estuda os movimentos e as configurações dos elementos envolvidos no momento que se faz um sinal), morfológico, sintá- tico e semântico.

A importância da Libras para os surdos efetua-se ao considerarmos que todas as esferas da atividade humana, por mais variadas que sejam, es- tão sempre relacionadas com a utilização da língua. A utilização da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, que emanam dos integrantes duma ou doutra esfera da atividade humana (BAKHTIN, 1997, p.279).

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Dando também à fala/linguagem um papel fundamental na apropriação e na construção de conceitos.

Assim sendo, concluímos que a fala/linguagem tem papel fundamental na apropriação e na construção de conceitos para os surdos.