O problema é o seguinte, nós não tínhamos um vocabulário que desse conta pra explicar esse conteúdo. Então o problema era na linguagem que tava faltando, que tava curta. (A3)
O domínio de uma língua comum e uma boa aquisição de linguagem são fundamentais para a efetividade da comunicação, e consequentemente para a internalização dos conceitos que são passados ao longo de uma disciplina (OLIVEIRA, 2005) . No entanto, os relatos dos entrevistados confirmam as afirmações de Lorenzetti (2009), pois foi exatamente a falta de conhecimento de língua que se mostrou como maior obstáculo, muitas vezes, não ultrapas- sado, impedindo a explanação dos conteúdos apresentados pelos discentes pesquisados. Essa falta foi colocada como dificuldade em vários momentos pela professora entrevistada ao se referir à qualidade de explicação dos grupos –Mas pode melhorar, com a Libras pode melhorar a explicação. Não ficou clara
161 essa explicação, faltou língua de sinais nesse grupo; ao alcance dos objetivos
da disciplina – Falta muita Libras ainda; e à falta de preparo dos discentes para lecionarem para alunos surdos – (...) ainda não dá, porque falta muita Libras ainda, precisa aprender mais.
O mesmo fato também pode ser notado pelos próprios discentes, como apontado na colocação de um deles: Faltou sinal pra todo mundo (A3). Mas o mesmo acrescenta que, até aqueles que possuíam um vocabulário em Libras mais amplo, sofreram com a falta de fluência: Acho que foi na hora de falar, tava travando. Ninguém conseguiu fazer fluir, todo mundo foi dando ‘pause’. Não foi uma conversa. Fato este também discutido pela professora: Pedi pra ele tentar explicar. Deu problema ali, a Libras não conseguiu fluir ali.
Assim, alguns alunos apontam que não encontraram outra opção a não ser utilizar mímica ou soletração:
Mímica ou, o que a gente não achou, a gente soletrou. (...) usava aquelas mímicas universais. A gente sabe que mímica não é Libras, mas quando a gente não sabia o que fazer... (A8)
Essa falta de opção se confronta com o disposto por Gesser (2009), que afirma que mímica não é sinal e que a soletração só deve ser feita para nomes próprios ou palavras sem sinal em Libras. Mas, de acordo com os alunos, eles não encontraram nos dicionários vários sinais específicos das Ciências Biológi- cas, o que tornou o uso da datilologia necessário:
Principalmente termos que nem ‘Cadeia Alimentar’, que não tem um sinal, não tem como você demonstrar isso completamente. (A2)
E os sinais que a gente aprendeu não eram ligados a Biologia. (A4)
A afirmação dos alunos é corroborada se retomarmos os exemplos de palavras, retirados do material de ciências da Proposta Curricular do Estado de São Paulo (2008a, 2008b, 2008c e 2008d), que não possuem sinais específicos em Libras:3 bactéria, fotossíntese, célula, embrião, óvulo e neurônio.
Claro que os pontos colocados sofrem influência direta do interesse dos alunos em buscar mais informações sobre a Libras, pois há sempre a possibi- lidade de uma explicação do conceito ainda que não se tenha um sinal especí- fico para nomear aquele conceito, como ressaltado pela professora: Antes da apresentação poderiam ter vindo pedir ajuda, (...). Mas a maioria não teve isso.
Mas ficou evidente a preocupação dos alunos com a falta de sinais em relação
3 Verbetes não presentes nos dicionários de Libras disponíveis.
162
à explicação do conteúdo: A gente procurou pegar os sinais mais fáceis, evitar os termos técnicos. Mas ficou mais complicado pra conseguir explicar ali na hora (A9).
Mesmo os grupos que tiveram poucos problemas com a falta de sinais, apontam que a explicação dos conteúdos foi prejudicada, também, pela diferen- ça estrutural da Libras: No nosso seminário, por exemplo, tinha sinais pra todos os termos, só que o que faltava era conectar esses termos. Faltava, assim...
um verbo (A4). E essa falta de conhecimento da estrutura da Libras não ficou somente na percepção dos alunos, a própria professora pôde observar essa ocorrência: Teve problema na hora da língua de sinais, sim. A estrutura não es- tava de acordo com a língua de sinais. Eu entendi, mas algumas pessoas não conseguiriam entender.
Contudo, uma vez identificado o problema com a falta de sinais e com a es- trutura da Libras, os alunos logo apontaram que tudo não passa de uma questão de prática: Acho que tem que ter prática pra você se tornar ágil (A3). E o mesmo é ressaltado pela professora surda: É importante ter contato com os surdos, prin- cipalmente. Tem que ter contato com os surdos pra aprender mais a Libras.
Também em relação à estrutura, é importante ressaltar que a língua de si- nais faz uso extensivo de marcadores não manuais, as expressões faciais, com mais importância que nas línguas orais, e isso é reconhecido pelos alunos:
Pra gente que fala é uma coisa. Pro surdo, como ele tem que usar os sinais, desenvolve muito mais a expressão. A gente não tem que fazer expressão quando ta falando. (...) Então ela (Professora surda) falava: faltou um pouco de expressão na hora de fazer o sinal, tem que ter mais expressão. (A4) Porém os mesmos relatam que essa necessidade de expressão, seja fa- cial ou corporal, os movimentos dos braços e mãos, se tornaram uma dificulda- de nas apresentações quando se tratava de alunos mais tímidos, o que pode ter prejudicado a representação correta do sinal, levando a um não entendimento do que se estava tentando explicar.
Outro questionamento levantado pela docente foi a duração das apresen- tações: Não teve explicação, só copiou o que tava sendo exposto, e rápido e acabou. Um minuto.
Se considerarmos que o tempo estipulado para apresentação de cada gru- po consistia em 15 minutos, era esperado que todos os vídeos somassem um total de 135 minutos, aproximadamente, ou duas horas e 15 minutos. No entanto, os mesmos só somaram um total de 45 minutos, ou seja, 1/3 do tempo total dispo- nibilizado. Na busca por respostas a esse ocorrido nos deparamos principalmente
163 com o medo de se aprofundar nos conteúdos e não ter disponível um léxico
suficiente para as explicações.
[...] acho que a explicação ficou muito superficial; Eu acho que foi um pouco simples; No geral, eu acho que todo mundo ficou numa explicação bem superficial. (A7)
O discente A7 completa que, por essa razão, seu grupo adotou como cri- tério, para a escolha do tema, a fase educacional para a qual seria a apresen- tação – não poderia ser para o Ensino Médio – e a familiaridade com o mesmo, que deveria ser comum ao cotidiano tanto de surdos ou de ouvintes.
Desse modo, é possível notar, pela fala de alguns alunos, uma decepção em relação ao que esperavam do curso: Esperava que fosse mais fácil. Que a gente fosse aprender mais Libras (A6). Contudo, pode-se averiguar que os dis- centes se tornaram conscientes das dificuldades da língua, reconhecendo que, apesar da complexidade, sua importância é real, até mesmo porque a fluência na língua não seria possível, mesmo com um número maior de créditos na disci- plina, por exemplo. A fluência em uma língua só é alcançada pela aprendizagem e vivência efetiva nesta língua.
Verifica-se, aqui, que as dificuldades encontradas no aprendizado da Libras não é diferente de qualquer aprendizado de língua estrangeira, como o inglês, como bem colocado pelo discente A4: É a mesma coisa quando a gente faz um curso de inglês e alguém te pede pra fazer um seminário de biologia. Quando não se tem um conhecimento avançado da língua, seja ela oral ou visual, é inevitável deparar-se com obstáculos, como falta de vocabulário ou confusões de significado e contexto. Contudo, não é possível negar que se obteve sucesso na criação de um espaço de vivência e angústias que deixassem claros todos esses obstáculos, possibilitando uma reflexão e um afastamento dos futuros profes- sores quanto à banalização dessas questões, mostrando a complexidade da tarefa da inclusão social.