Fora leão insone, aquele ingente obreiro.
Do maior ideal que agora a pátria tem!
Ele, que estremecia este Brasil inteiro, Pôde novo Moysés, fazer brotar o Bem.
Feira de Sant’anna.
(BARBOSA, 1885, p. 25).
No poema, Sales Barbosa tece elogios a Luiz Gama, “insone”, (leão que não dorme, que não descansa nunca) um retrato de admiração, respeito, gratidão, e força por ele ter sentido as marcas da escravidão, pois, cedo, Gama é arrancado dos braços de sua mãe e, em seguida é vendido por seu pai. A perversidade nas ações de um tempo revelada na força da poesia combativa. O poeta feirense ao expor a dor da escravidão, suplica também às mães que saiam de seu conforto, de sua condição. Assim dedica o poema de Cavatinas – “Pelos cativos” a Filinto Bastos, seu amigo e Juiz:
[...] Ó mães, Lírios de afeto, o perolas de amor!
Ide ver a tristeza ao fundo da senzala!
Ide ver a alegria a desbotar-se em flor Do filho que tem e sede e frio (oh dor!) Condenado a viver na podridão da Vala.
(BARBOSA, 1885, p. 17-19)
Retomamos Fonseca (1887) para marcar as fases do abolicionismo na Bahia, e que as ações mais intensas ocorreram por volta de 1880. Abolicionista atuante, o Cônego Emílio Freire Lopes Lobo, nascido em Santo Amaro em janeiro de 1842, trabalhou na causa de forma decisiva no ano de 1885, ano da publicação do livroCavatinas. No estudo da obra notamos o aparecimento de padres citados em situações diversas na obra do poeta feirense, tendo como exemplo Padre Ovídio São Boaventura: as relações entre o sujeito e seu tempo, no caso, o auge da campanha abolicionista na Bahia e no Brasil, a importância do clero, ou religião para a sociedade da época, até os dias de hoje, o que se revela uma importante pesquisa.
Nos versos amorosos, buscaram-se as pistas de um amor para Sales Barbosa. Em sua poesia, as partes de um todo que nos aproximam do amor Romântico.
utiliza as figuras: “brilho sideral”; “satélite ao redor do sol” (FIGURA 7). Na primeira estrofe, distancia-se do objeto amado pelo brilho, pelos anos luz. Segue-o:
Já era teu, e muito! Inteiramente, quando O brilho sideral de teu amor divino
Não refletia em mim, que resplandeço amando Satélite ao redor do sol do meu destino.
(BARBOSA, 1885, p. 15-16)
O amor divino, na divindade, confessa-se o Romântico inacessível quando utiliza o sagrado: luz, sol, satélite. Sales Barbosa experimenta vestir-se de outras formas, ousa, assim confessa sua sensibilidade, buscando transcender, ultrapassar: decifra-me, quem sou eu, o que sinto. Há uma correspondência entre as imagens que parecem dialogar, pois seguem uma lógica. O poeta anseia por revelar o objeto, nesse caso, as imagens, assim convoca as figuras da realidade para ocultar, deveras, uma “musa” carnal:
Já era todo teu; meu cérebro fervia N’um desespero cru por te supor alheio Á luz da adoração, minha alma se exauria;
Á luz que o peito altivo agora me esbraseia.
(BARBOSA, 1885, p. 15-16)
Marcas do desejo erótico “todo teu”, “fervia”, o consumado, entregue, antecipa o momento. O deseja quente borbulha no caldeirão da razão. Presente a evasão romântica, a fuga pelo sentido, de consumir-se no fogo: “um desespero cru”, na natureza, a ideia de fera, natureza em pele, pelo, por julgar não percebido, notado, pois apenas supõe. “À luz da adoração”; “a alma” é sugada; o “peito” em brasa, consumido pelas chamas, “esbraseia”. A razão; na imagem do “cérebro”; o “cru”; o estranho, na figura do “alheio”; a “alma”; o
“peito”, as imagens ardem, tomadas pelo fogo, em chamas:
Mas hoje que me deste a desejada esperança De ser meu porvir a plácida bonança, De ser da minha vida o perfumado CÉU Suplico-te, sustenta eterna, na lembrança, A confissão que aqui eu faço-te, criança:
Ou fujo deste mundo ou hei de ser só teu!
Boa Viagem, Bahia.
(BARBOSA, 1885, p. 15-16)
No último verso: “Ou fujo deste mundo ou hei de ser só teu”. Ou vivo este amor ou morro. Na “chave de ouro”, a síntese. O que move Sales Barbosa em direção à realidade ou ilusão? Ora afasta-se, ora se envolve, saber sair de si e retornar, como se buscasse uma resposta para os conflitos íntimos. Daí uma consciência vibrante, que reage movido pela provocação. A abstração lhe vem como forma de acalmar a alma diante da realidade crua que o arrasta: o sofrimento por amor e a morte.
Figura 9– Em destaque: página do livro Cavatinas, contendo os primeiros versos de “Confissão”, dedicado ao jornalista Aloisio de Carvalho
Fonte: Biblioteca Pública do Estado da Bahia- Salvador, Bairro dos Barris.
Figura 10–Coletânea de poetas baianos,de Aloisio de Carvalho Filho (1951). Em destaque, “Teus pés”, de Sales Barbosa
Fonte: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
Aloísio de Carvalho Filho, em 1951, no Rio de Janeiro, publicouColetânea de poetas baianos(FIGURA 10), nele, “Teus pés”, de Sales Barbosa, entre outros, os poetas: Libânio de Moraes, Cristovam Barreto, Jacinta Passos, Álvares de Azevedo, Mucio Teixeira, Castro Alves, Amélia Rodrigues, Eurico Alves Boavetura. Neste trabalho, abordamos alguns aspectos sobre os pés, presentes na poesia lírico-amorosa: “Teus pés”, de Sales Barbosa (1862-1888), do livroCavatinas(1885), e a obraAdormecida, Castro Alves (1847- 1871), da mesma geração.
Damos ênfase a este membro humano, feminino: os pés. Para tanto, utilizamos a obra literária: A Pata da gazela, do escritor brasileiro José de Alencar, nela, as imagens e temas que dialogam para dar vida a um romance nascido a partir da simples perda de uma botina, visto que o poeta do sertão, no poema, não recorre em nenhum momento ao sapato, sugere os pés nus, descalços: “Oh! Quanta barbaridade”, “Pôr no chão uns pés assim!”: talvez, os visse desta forma com mais frequência. Seguem “nus”, “Teus pés” (1885), de Sales Barbosa:
Meigos pés pequeninos, delicados Como um duplo lilaz – se os beija flores Vos descobrissem entre as outras flores, Que seria de vós, pés adorados!
(BARBOSA, 1885, p. 37-39)
No tempo de Sales Barbosa, o fetiche tornou-se modelo de amor burguês, a exaltação de uma parte de um todo para reafirmar o amor Romântico. EmA Pata da gazela (1870), de José de Alencar, no trecho seguinte, o calçado será cuidadosamente avaliado: “[...]. Examinou novamente a obra prima, voltou-a de todos os lados, apalpou docemente o salto e o bico, dobrou a orla da haste, sondou o interior da concha, que servia de regaço ao feiticeiro pezinho” (ALENCAR, 1991, p. 13).
O autor atribuiu aos pés o dom do encanto, de atrair, de enfeitiçar. Por meio do objeto, a arte de imaginá-los, sonhar com eles, sem, no entanto, alcançá-los. Na primeira estrofe do poema “Teus pés”, nos primeiros versos parecem mostrar-se, exibir-se: “Meigos pés pequeninos, delicados”, na imagem: “Vos descobrissem entre as outras flores. Natureza:
“flores” e pés se confundem na estrofe. “Que seria de vós, pés adorados!”
Esses teus pés valem mais, Mais que um cofre cheio de oiro, Que de heróis a palma, o loiro, Esses teus pés valem mais.
(BARBOSA, 1885, p. 37-39)
O valor, nos “pés”, preciosidade, dignos de louvor e adoração dos mitos da Grécia,
Se acaso passam na rua A multidão toda grita:
– Jesus!...Que coisa bonita! – Se acaso passam na rua..
(BARBOSA, 1885, p. 37-39)
A rua, como lugar de encontro, de pés que movem, removem ideais, o Eu lírico, se aproxima, há um compartilhar de emoções, mas o “acaso” afasta o momento do encontro.
Se me casasse contigo, Crê, – por dote só queria Esses teus pés... Que alegria, Se me casasse contigo!
(BARBOSA, 1885, p. 37-39)
Os pés são sagrados, os desejos inacessíveis, o “se” reforça a ilusão, a subjetividade,
Oh! Quanta barbaridade Pôr no chão uns pés assim!
Ou coloca-os n’um jardim, Ou, flor, no meu coração;
De bom grado eu guardaria
No peito esta tentação.
O para talvez se os visse Mandaria em procissão Levar teus pés pequeninos Ao som de festivos hinos Desde Roma até Milão.
(BARBOSA, 1885, p. 37-39)
Imagens tocadas pela religiosidade: locais sagrados “Jesus”, “altar”, “procissão”;
“céu”, “Roma”, “Milão”, “tentação”.
Se exigissem que eu dissesse Qual dos dois prêmios queria, – Ir p’ra o céu – ou ter um dia, Um dia só! Esses pés,
Acredita que eu diria:
(Mas, perdôa, por quem és!) (BARBOSA, 1885, p. 37-39)
Ao mesmo tempo em que evoca a religiosidade, os valores espirituais, abandona-os pelos pés no chão. Sugere deixar os devaneios de lado: “Fique o céu p’ra os sonhadores” para tocar, tomar os pés, ainda assim segue romantizando, idealizando, idolatrando a parte de um todo.
Fique o céu p’ra os sonhadores, Para os bardos menestréis, – Quero este val de dores Sendo o dono de teus pés!
Santo Amaro.
(BARBOSA, 1885, p. 37-39).
O poema “Teus pés”, de Sales Barbosa, avançou, foi publicado entre outros de poetas baianos, no Rio de Janeiro, na Coletânea de Aloísio de Carvalho Filho. Disponível nos acervos da Memória da Biblioteca Nacional.
Figura 11– Em destaque: página do livroCavatinas, contendo os primeiros versos de “Raridades”, dedicado ao amigo, o jornalista Aloisio de Carvalho
Fonte:Biblioteca Pública do Estado da Bahia- Salvador, Bairro dos Barris.
Partes de um todo, o toque das mãos “enluvadas”. Imaginar o poeta Sales Barbosa, em Feira de Santana, sob o sol ou mesmo a chuva, de tempos do ser-tão Romântico, tocando nas mãos de seda, de cetim, ou até mesmo as crespas de gorgorão. Se até as mãos eram cobertas, como não imaginá-las. Nas pistas da etimologia da palavra Fidalgo, de sua aglutinação, “Filho (a) – de – algo”, toda a beleza e nobreza das mãos fidalgas recai sobre o inacessível corpo, a dona das mãos.
Será possível que esteja Perfeitamente enganado...
Mas, esse par De mãos fidalgas, tão belas, Se não é um par de estrelas
- É de Rubis, lapidado!
(BARBOSA, 1885, p. 31-34)
Nas estrelas o distanciamento Romântico, no “Rubi”, a rainha das gemas, no vermelho a paixão pelas partes eleitas. A idealização por conta das luvas: “magoadas”, “se as encontro enluvada”. Na tarde, a natureza representada pela “bonina” em comparação com as mãos, tornam-se “franzinas”.
Eu nutro um grande receio Quando as encontro enluvadas;
Suponho que elas magoadas Fiquem assim por franzinas, Como da tarde as boninas E as rosas das madrugadas.
São para hóstias aquelas Pétalas finas, cheirosas...
Mais do que a seda mimosas, Fantasias alvas, nuas, Pôde-se bem d’elas duas Fazer essência de rosas...
Mãos assim raras, tão raras Que ao vê-las logo se sente Vertigens dão mal á gente Olhai-as todos instantes:
É fitar sóis fascinantes, Lindos sóis, mas sem poente...
A posse d’essas mãozinhas Considero a grande sorte De quem dando aos males corte Vê-se feliz, triunfante;
Elas são fino brilhante Das ricas minas do norte.
Aquelas mãos são tiranas...
Fazem ciúmes às violetas;
Às asas das borboletas, Alvas da cor do luar.
Ao vê-las põem-se a dançar Os próprios sóis e planetas.
Queria que me explicassem, Os modernos pensadores, Como se formam primores Assim, assim de abismar!
Onde iguais outros achar, Dizei-nos, sábios, doutores!?
Será possível que esteja Perfeitamente enganado...
Mas, esse par encantado De mãos fidalgas, tão belas, Se não é um par de estrelas, É de rubis, lapidado! Bahia.
(BARBOSA, p. 31-34).