Em a Dimensão histórica da visita do Imperador a Feira de Santana (2004), de Godofredo Filho, o desenho do status geográfico para seduzir a realeza: Feira encontra-se capacitada para receber a visita imperial em 1850 “[...] assim consta nos documentos de nosso Arquivo Público do Estado e de cartórios de Cachoeira [...] a Vila irá receber a visita das Majestades Imperiais D. Pedro II e D. Thereza Christina” (FILHO, 2004, p. 12-13).
Godofredo Filho nos interroga [...] naqueles dias idos, nesta vila sertaneja, e que motivos houve, poderosos, para incluí-la no roteiro da viagem dos monarcas às visitas do norte? Faz- se necessário o presente para entendermos a importância comercial da cidade. Em Redes e centralidades em Feira de Santana(2014), Alessandra Araujo retoma o presente-passado para uma breve análise: “Feira é uma cidade que tem sua formação e expansão a partir do comércio. Tal atividade econômica lhe concedeu a posição de Empório do Sertão Baiano - título concedido em 1860” (ARAUJO, 2014, p. 40). Logo em 1873, foi reconhecida pelo governo Imperial como: “Cidade Comercial de Feira de Santana”. No século XIX, a cidade colhia os frutos da sua privilegiada localização geográfica. Observamos que o reconhecido título que sustenta o nome “Feira”, ou seja, o comércio, o que contribuiu para seu crescimento em 1870, no qual negocia mais um chamamento, o de “entreposto comercial”, sendo assim colocada como o posto mais importante do interior da Bahia. Retomamos Godofredo Filho (2004), no tempo da visita do Imperador:
[...] é uma vila de cerca de 4.000 habitantes, plana, com duas ruas principais paralelas, alguns becos, três praças não contando a de gado, três igrejas, casario baixo e agradável, alguns bons sobrados com passeios calçados porque ruas e praças não o eram. O comércio prospera: entre duas lojas, a de Isaac e Arão Saback desde 1834. (GODOFREDO FILHO, 2004, p. 15).
Segundo Godofredo Filho, o dinheiro não circulava em meados do século XIX, havia raras construções, faltavam prédios públicos e boa arquitetura, o dinheiro estava concentrado nas mãos dos poderosos do meio, corria assim em luxo, em festas, “fumos de saber” (2004, p.14). Seguindo a descrição dos dias, “[...] Os bacharéis da Vila formavam-se em Olinda e Recife,” (a exemplo de Sales Barbosa, Libânio de Moraes, Filinto Bastos, Onésimo de Araujo e outros) um ou outro se diplomava em Sorbone, e dizia-se de certo Humanistas”. Segue a visita:
Em Diário de viagem, citado em Dimensões Históricas da visita do Imperador (FILHO, 2004, p. 17-18), o Imperador viaja a cavalo pela estrada do planalto, descrito como
elegante, “aprumado” na montaria, usava sobrecasaca preta, calça de brim claro e chapéu de palha coberto de pano, as botas negras e altas eram de longe vistas. O Imperador comenta:
“[...] chegamos a uma imensa gameleira, cujo a sombra muito me agradou com o sol que queimava” (FILHO, 2004, p. 17-18). A imperatriz chegou num carro puxado por sete cavalos, acompanhada por cavalheiros da corte: Marques Lisboa, futuro Marquês de Tamandaré, Pedreira, futuro Visconde de Bom Retiro, Conselheiro Luís Pedreira do Couto Ferraz, amigo do Monarca. Segue o “Diário” do Imperador: “[...] hospedei-me em casa de Joaquim Pedreira” (FILHO, 2004, p.18). Assim descreve Godofredo Filho (2004), os cuidados com o Imperador: “[...] dormia em cama dorsel talhada em jacarandá, aos serviços de mesa às iguarias na região, ao requinte das ambrosias, dos bolos e dos vinhos raros, ofertados em baixelas de louça da Índia, e de talheres de prata e autênticos cristais da Boêmia” (FILHO, 2004, p. 19).
De acordo com Godofredo Filho (2004), tempo de uma fortuna pessoal, na década de 1870, atingiria cerca de três mil contos. O autor lembra do papel amarelado e de sua surpresa, em Cartório de Feira de Santana, uma hipoteca que, em 1860, o Capitão João Manoel de São Boaventura fez a Luiz José Pereira Borges de “[...] cinquenta escravos menores de vinte e cinco e maiores de dois anos, em segurança da quantia de 23:065$354 réis que o mesmo lhe garantiu ao Coronel Joaquim Pedreira de Cerqueira” (GODOFREDO FILHO, 2004, p. 19).
Observamos no texto de Godofredo Filho (2004), um período marcado pela desigualdade social, escravidão, desumanidade. O humano sendo negociado como mercadoria, o tempo de crueldade, perversidade, vivido pelos abolicionistas feirenses, Sales Barbosa, Libânio de Moraes, Onésimo de Araújo, Padre Ovídio Alves de São Boaventura, Cristovam Barreto, Remédios Monteiro e outros que desafiavam os coronéis escravocratas.
Pensarmos também nos muitos que faziam parte de suas famílias, os embates, conflitos, por vezes esbarrando em cenas de crueldade no seu cotidiano, sala, cozinha, quarto, quintal da casa grande à senzala.
Em 1871, anunciava pelo jornal O Comercial: “uvas moscatéis, queijos do último paquete, presunto em calda, vinho do porto e da figueira de primeira qualidade, presuntos de fiambre, vinho Bordeaux, e muitos outros gêneros” (FILHO, 2004, p. 19). No entanto foi a feira de gado, segundo Godofredo Filho (2004, p. 15), que marcou a excelência da cidade, o chamariz que trouxe a vida exótica “[...] E por dois dias a Imperial comitiva levantou a poeira das ruas”.
Enquanto o pequeno comércio da Vila era abastecido das melhores carnes e vinhos caros, noutro cenário, no poema aparece o cotidiano “invisível”. Em a “Morta de Fome”, do
livroCavatinas (1885),Sales Barbosa expõe a cena de tortura, a frieza do senhor ao castigá- la. Nos versos, denuncia a fome como punição, enquanto a reação desaparece e se contorce pela falta do alimento. O “eu” lírico se mostra indignado com o sofrimento da escrava, vê e desenha as marcas profundas da cultura escravista: um corpo abandonado, nos primeiros versos “em chaga convertido”, o mais cruel retrato da dor, “sentir fome”:
Morta de fome
Em fria solidão – um corpo no abandono Jazia esfarrapado, em chaga convertido De quando em vez bramia horrífico gemido Igual ao de um cão magríssimo sem dono Ó santos corações que nunca tendes sono Pra vigiar aonde acaso está caído Agradece o gesto de piedade, mãe e filho Aquele que possui o músculo abatido Da vida ao temporal de rígido abandono Fizeste bem de ir balsamar a pobre
Mãe que traz ao seio o seu penhor mais nobre De suas ambições – um filho pequenino!
Ela viera só, fugida... Por ter fome Há quatro dias que seu filho já não come, Porque assim o quis o seu senhor... Maldito.
(BARBOSA, 1885, p. 81-82)
Em “Morta de Fome”, Sales Barbosa relata o caso de uma escrava fugida, encontrada quase morta, com um filho pequeno, a quem o patrão havia determinado como castigo passar vários dias com fome. O poeta é envolvente, demonstra indignação, aproxima-se da escrava e a reconhece como digna cidadã afastada pelo olhar social.
EmNem tanto ao mar nem tanto à terra:agropecuária,escravidão e riqueza em Feira de Santana, 1850-1888 (2012), Cleber Freire relata as transformações socioeconômicas que ocorreram no Brasil em meados do século XIX, dentre elas:
A promulgação da lei de terras (1850), que tinha por objetivo disciplinar o acesso à terra; a lei Eusébio de Queiroz (1850), que oficializou a extinção do tráfico intercontinental de escravos; a crise na produção açucareira e a ascensão da produção cafeeira no cenário nacional; a crise da sociedade escravista em razão de vários fatores como resistência e fuga em massa de escravos das fazendas e a própria luta exercida em prol da sua liberdade por meio de movimentos por eles articulados;
o reforço no processo abolicionista que foi promovendo a extinção gradual do trabalho compulsório, com a promulgação da Lei Rio Branco (1871); mais conhecida pela Lei do Ventre Livre, dos Sexagenários (1885); e finalmente a Lei Aurea (1888). (FREIRE, 2012, p. 21)
Podemos ousar dizer em Feira de Santana (BA), oitocentista, que o movimento Romântico, inspirado nos moldes da França e da Alemanhã, se encaminhava em direção a
um instinto de conceber a ideia de comunidade e a uma forte disposição para o coletivismo.
Marcados pelos encontros em Grêmios, Filarmônicas: Vitória e 25 de Março; na Igreja dos Remédios, que servia de tribunal à época.
É Filinto Bastos quem afirma: Quantos conheciam a doce intimidade do Padre Ovídio com Dr. Monteiro, podem testemunhar os esforços deste, secundando e guiando os planos daquele, como almas irmãs e grandes amigos de todos os instantes. Foi médico solícito das meninas do Asilo. Na mesma época, precisamente em 1879, retornava também a Feira de Santana, de volta da Faculdade de Direito de Recife, onde exercera liderança no movimento de abolição e até erguei a sua voz na arena de liberdade que foi o Teatro Santa Izabel, e Jovem vate feirense das
“Cavatinas” – Francisco de Sales Barbosa (GALVÃO, 1987, p. 1).
A pesquisa segue impulsionada pela afetividade, mas, principalmente, pelo momento vivido, principalmente, pela oportunidade de preenchimento e resgate de uma memória social, visto que nos apresenta a memória feirense do século XIX esvaziada, rasurada, rasgada, desfigurada, esquecida. Contudo, por ser intensa, forte, presente, nos instigue e reserve o retorno às fontes que transbordam saberes raros.
O tempo contemporâneo reclama pelo Romântico, não pode mais esperar por Sales Barbosa, ele vive. Trazer Sales Barbosa e sua filosofia de reunir, agregar, e com ele o tempo, em que as necessidades humanas sofreram e sofrem duras penas, bem como, os temas filosóficos e costumes se vêm às vias de aterramento, apagamento, sob os escombros passados. Importante conceber o tempo do poeta de Feira de Santana, como sua história de vida, as circuntâncias do vivido, do imaginado, do expresso, do ideal que o elegeu Romântico.
O tempo arrastava o fim do Segundo Império, o momento de inquietação geral; o desabar da Monarquia, a questão religiosa, debatia-se e conspirava-se contra a velha ordem, os ideais republicanos avançavam e se fortaleciam.
Trouxemos alguns acontecimentos, circunstâncias sociais ocorridas pelo Brasil. A manifestção por um Ceará “livre” avançou para além dos vizinhos de Recife e estados mais próximos. Dez mil pessoas no Rio de Janeiro participaram de marchas, apresentações teatrais, e comícios. As regiões Norte e Nordeste comemoraram nas praças, festejaram as províncias Bahia e Paraíba. A notícia sobre o Ceará se espalhou pela França, Inglaterra e Estados Unidos, que compartilhavam interesses comuns de liberdade. As Escolas do Recife e do Ceará à frente de um conflito de longa data impulsionadas pelo modo de pensar cientificista, opondo-se às bases tradicionais, estimulando a atualização de defasadas formas de conduta, apresentando nessa ordem, os ideais de mudança.