fotografias dele junto aos pioneiros e das FLAPA. Dado o alcance da revista que era publicada na África, América do Sul, Portugal e EUA e assinada por governos progressistas, o MPLA, contou com grande publicidade. Dentro do país, porém, a batalha para manter-se no governo persistiria com a UNITA, opondo-lhe resistência armada e instalando em Huíla um governo paralelo.
É dentro deste quadro de disputas conflagradas em uma guerra civil que foi elaborada a reestruturação do sistema de ensino em Angola, onde a frase que dá título ao capítulo era exibida na quarta capa dos manuais escolares elaborados nesse período, conclamando os estudantes a novamente se alinharem no front da educação.
Figura 5 - Quarta capa manual escolar História de Angola
Fonte: Acervo do Instituto Nacional de Investigação e Desenvolvimento da Educação (INIDE), 1976.
contribui neste estudo para dimensionar as suas inferências no campo da educação, encarada como um instrumento de controle social e obtenção de vantagens por parte daqueles que viveram à sombra desse grupo político.
Em um primeiro momento, de forma estratégica, Neto acolheu a proposta de “poder popular”, evitando fissuras em um momento delicado, em que precisava contar com uma sólida retaguarda urbana e de novos combatentes, como ocorreu, e se sobrepor às demais frentes de libertação. Às vésperas do Congresso de Lusaka, depois de ouvir de jovens delegados oriundos das cidades, as suas expectativas com relação ao marxismo, Neto teria dito idealizar um modelo próprio de socialismo para Angola342.
No pós-independência, a situação mudou de figura, o MPLA começou a operar para barrar ascensão do discurso de extrema-esquerda dentro do Movimento, censurando as suas ações e retirando-lhe as funções dentro do Estado. A Direção de Informação e Segurança de Angola (DISA), polícia política do novo governo, agiu com eficácia para investigar e prender os resistentes, empurrando os dissidentes para a clandestinidade.
A nova crise interna do MPLA teve como protagonista Nito Alves, guerrilheiro da lª RPM, local onde teve o primeiro contato com a literatura marxista-leninista por intermédio de seu superior hierárquico Jacob Caetano, o “Monstro Imortal”. Alves teve participação destacada no Congresso de Lusaka, combatendo duramente as facções opostas a Neto. A postura incisiva de Alves lhe garantiu galgar rapidamente cargos na estrutura do governo, até ser nomeado Ministro da Administração Interna, dando início ao processo de ruptura que lhe custou a vida.
Na qualidade de integrante do Conselho de Revolução, órgão responsável pelas leis, Nito Alves quis ver aprovada uma “Lei do Poder Popular” que conferisse às Comissões Populares de Bairro (CPBs) autonomia para fiscalizar a vida política e administrativa do Estado, funcionando de forma independente. Enquanto Agostinho Neto desejava restringi-las ao papel de mediadoras entre a sociedade e o Estado343, a fim, é claro, de regular as suas ações344.
As diferenças entre Nito Alves e Agostinho Neto apenas se aprofundaram, retomando à velha questão da linha política a ser adotada na jovem República que se afundava na corrupção e no compadrio forjado na militância, fazendo desse o principal critério para conseguir cargos em setores vitais da economia e do aparelho burocrático do Estado. Os
342 TALI, 2001b, p. 81.
343 MARQUES, 2010, p. 62.
344 Mabeko Tali (2001b, p. 203) afirmou que Nito Alves desejava fazer o mesmo, transformando às Comissões Populares de Bairro em ramificações do seu ministério, colocando órgãos públicos sob vigília dos órgãos populares, setores onde tinha livre trânsito e era muito respeitado.
antigos “assimilados” e uma elite formada por brancos e mestiços também foram contemplados com cargos estatais, fazendo deles uma porta de entrada para si e sua clientela345.
Nito Alves defendia a adoção em Angola de um modelo de revolução marxista- leninista radical, decisão atribuída a sua participação “no XXV Congresso do Partido Comunista da União Soviética”, realizado em março de 1976. De inclinação anteriormente maoísta, Alves passou a defender abertamente uma radicalização na condução nos rumos do governo angolano, tendo o modelo soviético como espelho, atribuindo as mazelas acima descritas a um antimarxismo encarnado na figura de Lúcio Lara que imprimia ao MPLA, segundo ele, um caráter centralizador e paternalista346.
A inserção de Nito Alves nos musseques e nos meios universitários, abarcando populações negras e brancas de diferentes estratos sociais e o alcance de seus discursos, gerou reações do Comitê-Central. Militantes oriundos de outras organizações políticas foram expulsos do MPLA347, Nito Alves foi destituído do cargo de ministro, sendo decretada a extinção do Ministério da Administração Interna. Os órgãos do poder popular foram asfixiados, submetidos ao controle direto do Movimento.
O dia 27 de maio irrompeu com a libertação de presos da cadeia de São Paulo, em Luanda e a breve tomada da Rádio Nacional por partidários de Nito Alves. As transmissões anunciaram o início de um novo processo revolucionário, de origem marxista-leninista, a prisão de corruptos e conclamou a população a se manifestar em frente ao Palácio do Governo, depois em frente à rádio. Apesar de populares terem atendido ao apelo, o controle da rádio foi reassumido pelo governo348.
Passados seis meses da brutal repressão contra Nito Alves e seus partidários; e dois anos após o silenciamento de Adolfo Maria e Maria do Céu Reis e demais integrantes da
“Revolta Ativa”, o MPLA mostrou-se pronto para implantar o socialismo à moda de Agostinho Neto.
A descoberta no dia seguinte à tentativa de golpe de Estado, dos corpos carbonizados de dirigentes do MPLA, desaparecidos na sequência das ações do 27 de maio, se sucederam sangrentas perseguições nos bairros periféricos da capital que não pouparam sequer os
345 HODGES, 2001, p. 67.
346 TALI, 2001b, p. 217.
347 A medida visava atingir militantes ligados ao PCP, ligados a Nito Alves, ativistas de outras organizações portuguesas foram poupados (MARQUES, 2012, p. 69).
348 MARQUES, 2012, p. 80-81
simples suspeitos de terem vínculos nitistas. Os líderes do golpe foram presos, torturados e fuzilados sem direito a julgamento349.
Em seu Primeiro Congresso, realizado em 10 de dezembro de 1977, data em que o Movimento hipoteticamente completaria dez anos, o MPLA se constituiu formalmente em um partido de orientação marxista-leninista, aproveitando para associar efemérides a mudanças no campo político-institucional. Seguindo essa linha, em seu vigésimo terceiro aniversário oficial, o MPLA presenteou a sociedade angolana com a instituição do partido único:
[...] como o órgão supremo da direção da sociedade do qual dependiam o Estado e a Assembleia Popular. Teoricamente, o Congresso do Partido, e não a sociedade civil, era o órgão de soberania, enquanto o Comitê Central e o Bureau Político constituíam órgãos executórios das decisões do Congresso e de vigilância do Estado. [...] O partido nomeava os ministros e os altos funcionários, além de controlar diretamente os órgãos criados pela Lei do Poder Popular. O Conselho de Ministros devia prestar contas de seu trabalho ao presidente do Partido e ao Comitê Central: o Estado era uma dependência do Partido (grifo da autora)350.
Em uma Angola vivendo sob o signo da independência e com o MPLA controlando o Estado com mão de ferro, em 1978, foram elaborados os “Princípios de Base para a Reformulação do Sistema de Educação e Ensino na República Popular de Angola” pelo Ministério da Educação, com Pepetela ocupando o cargo de Vice-Ministro da pasta, gerida por Antônio Jacinto.
Aqui, o filtro da pesquisa estreita-se na capitalidade do ensino promovido pelo MPLA, que, desde 1974, levara as suas estruturas para os centros urbanos, fixando-se em Luanda.
Não foi possível perseguir os destinos das “escolas da guerrilha”, mas a iminência da guerra civil às portas da independência provou que o ingresso no CIR se tornou ainda mais pragmático, com a formação político-ideológica deixada de lado351 , mas firmemente mantida nas disposições legais da Reforma do Ensino.