5.3 Os sujeitos
5.3.2 O direito como meta
A modéstia, um dos princípios a serem prezados pelos pioneiros, também foi relacionada por esse professor à prática religiosa. Muito antes do MPLA, as Testemunhas de Jeová já tinham feito de Turezo Manuel da Costa, um “homem novo”, sua inserção social e experiências pessoais são percebidas pela ótica de seu grupo religioso. Ele não tinha nenhuma razão para se identificar com um governo que forçou a imigração de sua família, momento em que ocorreu o falecimento de sua irmã, e com o qual ele associou à demissão de seu pai, embora isso pudesse ter se dado por causa do longo afastamento do trabalho.
trabalhar serão integrados na produção, sendo, no entanto, encorajados a prosseguir os seus estudos simultaneamente361.
O aluno em descompasso com a idade “compatível” proposta no texto legal tinha antecipadamente o seu destino selado. O “encorajamento” ao qual a lei se refere deve ser examinado a partir dos objetivos do Ensino Médio, etapa na qual havia novos filtros, restringindo a escolha de determinadas carreiras e o acesso ao ensino superior.
O Ensino Médio foi dividido em quatro classes (9ª a 12ª) e visava preencher as lacunas profissionais existentes em Angola. Com este fim, segundo a legislação, foram criados diversos institutos técnicos abrangendo áreas variadas (mecânica, construções, mineração, saúde, gestão e administração, formação de professores, etc.), sendo atestada pela pesquisa a existência de Institutos Médios Normais de Educação (IMNE), onde os professores entrevistados estudaram.
Os institutos de nível médio362 ofereciam disciplinas gerais e específicas, relativas a cada ramo técnico, capacitando os alunos para o trabalho ou ingresso no Ensino Superior no único centro disponível, a Universidade de Angola, depois rebatizada “Agostinho Neto”363.
A formação técnica docente habilitava o professor para lecionar integralmente nas quatro primeiras classes (1ª a 4ª) do ensino de base e ministrar entre uma ou duas disciplinas para as quatro classes finais (5ª a 8ª), referentes aos conteúdos de sua especialização. No caso de história, o curso incluía também o estudo da geografia, fato revelado nos depoimentos.
Maria Helena Armando Kitembo nascida em 18/08/1963, em Porto Amboim, no Kwanza Sul, também leciona na escola Nzinga Mbandi. Neta de um soba, ela cresceu em uma família de vinte e dois irmãos, convivendo com a mãe e a outra esposa de seu pai. A família numerosa deveu-se aos filhos advindos tanto de enlaces paternos quanto maternos. Ela afirmou que a morte da mãe levou à desintegração familiar, motivando a sua migração para Luanda, onde passou a residir com o irmão mais velho e a cunhada.
Essa professora, cuja composição familiar desafiava o MPLA em sua condenação ao
“tribalismo”, deu maiores detalhes sobre a seleção de alunos para os cursos técnicos:
Após a independência [...] quando terminávamos o Ensino Básico nós tínhamos um formulário, dávamos a preencher aquilo e tínhamos que optar por três cursos para fazer o Ensino Médio. E a educação era obrigatória. Tínhamos dois de nossa preferência e obrigatoriamente temos que optar também... educação, né? E depois
361 PRINCÍPIOS DE BASE PARA A REFORMULAÇÃO DO SISTEMA DE EDUCAÇÃO E ENSINO NA R.P.A, 1978, p. 37.
362 O acesso de trabalhadores ao Ensino Médio dependia de um parecer de organismos partidários e sindicais da empresa, pautados nas qualidades demonstradas por eles no exercício de sua profissão (PRINCÍPIOS DE BASE PARA A REFORMULAÇÃO DO SISTEMA DE EDUCAÇÃO E ENSINO NA R.P.A,1978, p. 41).
363 ANDRÉ, 2014, p. 160.
daquilo também havia um encaminhamento...tínhamos que entregar [o formulário]
para o Ministério [da Educação], e o Ministério, depois, selecionava... sabia onde colocar cada estudante, eu até queria fazer direito, mas depois acabei... fui encaminhada para fazer educação364.
O curso de Direito figurou em primeiro lugar, entre as preferências profissionais dos depoentes, por razões que serão exploradas posteriormente. A determinação do MED em encaminhá-la para a docência deixou a depoente “um bocadito constrangida”, conforme afirmou. Ao término do curso, ela foi submetida a uma outra imposição legal protelada por ela o quanto pôde: “[...] Porque aquilo era assim, ao fazer o IMNE, obrigatoriamente você tinha que dar aula, mas eu até, não dava mesmo, só quando terminei é que não tinha saída então, fui trabalhar”365.
Findo o Ensino Médio, o acesso ao Ensino Superior estava vinculado ao desenvolvimento de atividades produtivas pelo estudante, obrigatoriamente realizado em locais fora dos institutos técnicos, responsáveis por determinar o tipo de trabalho e o número de horas que o estudante deveria cumprir. As escolas, em conjunto com organismos partidários, de gestão e sindicais da unidade produtiva, “devem fazer uma avaliação da dedicação ao trabalho, da qualidade de atuação política e produtiva do jovem, de modo que essa avaliação conte para os resultados finais dos estudos e possível continuação para o Ensino Superior”366.
De acordo com Maria Helena, após a conclusão do Ensino Médio, os estudantes eram enquadrados como trabalhadores e pelo que se depreende de seu relato, os entraves para inscrição no curso cobiçado somados a obrigatoriedade do trabalho acabavam por determinar de vez a carreira dos estudantes:
[...] havia muitas dificuldades, sobretudo fazer a inscrição depois esperar que fosse selecionada. Então, fiquei assim muito tempo e como depois do final do curso Médio nós éramos obrigados a dar aula, aqueles que fizeram o IMNE. Também comecei a trabalhar contra a minha vontade367.
O “Poder Popular” formulado pela legislação educacional era controlado por vários tentáculos que exigiam dos estudantes o seu enquadramento involuntário às regras estabelecidas pelo MPLA, uma vez que o Partido estava imiscuído em todas as organizações, regulando a progressão dos estudantes dentro do sistema de ensino.
364 KITEMBO, Maria Helena Armando. Entrevista concedida à Cláudia Maria Calmon Arruda. Escola Nzinga Mbandi, 22 mai. 2017.
365 KITEMBO, Maria Helena Armando. Entrevista concedida à Cláudia Maria Calmon Arruda. Escola Nzinga Mbandi, 22 mai. 2017.
366 PRINCÍPIOS DE BASE PARA A REFORMULAÇÃO DO SISTEMA DE ENSINO NA R.P.A., 1978, p. 40.
367 KITEMBO, Maria Helena Armando. Entrevista concedida a Cláudia Maria Calmon Arruda. Luanda, Escola Nzinga Mbandi, Luanda, 22 mai. 2017.
A Professora Celina Aiala revelou que após ter concluído o Ensino Médio enfrentou novas dificuldades, dessa vez para ingressar no curso superior de sua escolha:
Eu queria fazer Direito, mas não pude devido a condições políticas e outras coisas que não sei se posso falar. Então fiquei muito tempo sem estudar. Eu tinha de entrar para o partido para fazer o curso de Direito, tinha de ser do JMPLA. E eu também não queria, mas já era da OPA só que eu não queria continuar. Então quando fui ser professora eu entrei e fui fazer logo História. Fiquei a fazer História durante muito tempo, quase quatro anos e também foi difícil entrar na faculdade [...]368.
Esse depoimento é elucidativo do controle exercido pelo MPLA na continuidade da escolarização e no veto a determinados cursos por pessoas fora da sua rede de relações. O receio da Professora Celina Aiala em falar livremente mostra o Estado repressor gestado pelo Partido, mas também exibe a sua discordância em se moldar ao formato exigido por suas organizações de massa.
O curso de Direito também era objeto de desejo do professor Urbano Alfredo, igualmente docente na escola Nzinga Mbandi. Nascido em 10 de março de 1969, em Luanda, seu pai, como o de sua colega, Celina, trabalhava como estivador, primeiro na estrada de ferro de Luanda e depois no porto da mesma cidade. O trabalho intermitente, obrigava-o a constantes deslocamentos entre o município de Cacuaco, onde residia, e a capital, a fim de ganhar algum dinheiro. O pai faleceu quando o depoente tinha por volta de sete anos de idade, mesmo período em que foi obrigado a buscar refúgio nas matas com sua família, a fim de escapar dos conflitos ocasionados pela guerra. Nessa ocasião perdeu um tio, um irmão e um primo por motivos não declarados pelo depoente, embora tenha ressaltado ser frequente a ameça de animais selvagens. O professor relatou ter estado brevemente em uma escola “meio quebrada” na mata, mas a guerra interrompeu os estudos.