4. UMA AGENDA DE CONTRARREFORMAS: A REGRESSÃO DOS DIREITOS172
4.3 A ofensiva do capital se materializando em leis
montagem de um governo de coalizão, com a intenção de aprovar as medidas necessárias que interessassem a estes setores, quaisquer que fossem os custos para os de baixo.
[...] o novo regime em pouco tempo conseguiu a aprovação de projetos exemplares de política neoliberal, alterando a constituição econômica do país de uma tacada só.
Um mês após o afastamento provisório de Dilma, uma lei que congelava gastos sociais por vinte anos – sem aumento além da taxa de inflação – seguiu para a avaliação do congresso. Uma vez aprovada com maioria de dois terços, foi a vez da legislação trabalhista do país parar no lixo: o limite legal da jornada de trabalho passou de dez para doze horas, o intervalo de almoço pôde ser reduzido de uma hora para trinta minutos, a proteção dos funcionários – tanto para o regime de tempo integral como para meio período – diminuiu, e as contribuições sindicais obrigatórias foram abolidas, entre várias outras desregulamentações do mercado de trabalho. As novas regras deram sinal verde à terceirização de atividades-fim e a contratos de trabalho intermitente. Seguiu-se a isso a proposta para uma reforma radical das aposentadorias, que elevava contribuições e a idade mínima, à fim de cortar custos de previdência social determinados constitucionalmente (ANDERSON, 2020, p. 140).
de privatização127 e reformas que além de congelar “gastos primários do orçamento público brasileiro, no mesmo passo em que se libera a apropriação do fundo público pelo capital portador de juros e pelos especuladores” (BEHRING, 2021, p.192-193) promoveram o desmonte dos direitos dos(as) trabalhadores(as), com a reforma trabalhista, a lei de terceirização, o congelamento dos gastos com a EC n° 55, a REM e a proposta de reforma da previdência, que foi deliberada apenas no governo de seu sucessor.
Nos subitens abaixo procuraremos apresentar as principais medidas que em nossa avaliação estarão impactando diretamente o trabalho docente das escolas públicas estaduais:
A apresentação da Medida Provisória (MP) n° 746/2016 que deu base a Lei n°13.415/2017, a Emenda Constitucional (EC) nº 95, a Lei nº13.429/2017 (BRASIL, 2017b), a Lei nº13.467/2017 e a Proposta de Emenda Constitucional 287/2016, de 5 de dezembro de 2016 (BRASIL, 2016b).
Optamos em relacionar estas medidas, não apenas por provocarem impacto no trabalho docente, mas também por revelarem circunstancialmente uma intencionalidade própria. Evidenciada numa cronologia de ações políticas que ocasionaram o desmonte progressivo e acelerado não apenas da educação pública, mas, dos direitos sociais e trabalhistas. O que promoveu um monumental desiquilíbrio na contradição entre capital e trabalho, favorecendo a completa subsunção do trabalho ao capital.
O orçamento de Ciência e Tecnologia sofreu em 2018 um corte de R$ 477 milhões, e para 2019, foi anunciado em agosto um corte de 35%, e passou a contar com um orçamento de R$ 3,75 bilhões, cerca de 33% do que era cinco anos antes, cerca de R$ 10 bilhões. Além desses cortes, deve-se atentar ao fato de que o Ministério de Ciência e Tecnologia havia sido fundido ao Ministério de Comunicação, o que torna os cortes realizados ainda mais significativos. Em 2017, os investimentos do governo em Educação sofreram um corte de R$ 4,3 bilhões, cerca de 12%. Em 2018, com a greve dos caminhoneiros em função do preço do diesel, o governo baixou preço do diesel em R$ 0,46. Para compensar esse subsídio de R$ 9,6 bilhões, o governo efetuou cortes em diversas pastas, como os orçamentos da Saúde e Educação, R$ 135 milhões e R$ 55,1 milhões respectivamente. Em quatro anos, o investimento em educação caiu 56%, de R$ 11,3 bilhões em 2014 para R$ 4,9 bilhões em 2018. O orçamento caiu e teve redução de 11,7%, R$ 117,3 bilhões em 2014, R$ 103,5 bilhões em 2018” Informação disponível em: < https://www.eumed.net/rev/caribe/2019/07/teoria-noam-chomsky.html >. Acesso em: 10 de abr. de 2020.
127 A privatização foi um dos pilares do governo Temer que abriu a economia do país para o capital privado e estrangeiro. Através do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) o governo organizou uma agenda de privatizações e de concessões. Chegando a entregar em estágio avançado 25 de seus 91 projetos de privatizações e de venda de concessões, ao seu sucessor. Fizeram parte deste projeto o setor energético, de saneamento, de infraestrutura nacional. No energético se destacou a indicação para a privatização do Sistema Eletrobrás, maior empresa latino-americana de energia elétrica e a décima sexta maior do mundo, bem como também a entrega de onze lotes de instalações de transmissões de energia, e outras hidrelétricas como a de Jaguará (MG). Além de outras empresas importantes como a Casa da Moeda, a Loteria Instantânea LOTEX e a Gestão de Rede de Comunicações do Comando da Aeronáutica (COMAER). No setor petrolífero o PPI garantiu duas rodadas de leilões de áreas do pré-sal, além da realização de cinco rodadas de cessões de direito exploratório sobre minérios.
Foram ações que configuraram além do desmonte, um profundo processo de desnacionalização das empresas estratégicas para o país. Informação disponível em: < https://diplomatique.org.br/a-privatizacao-em-marcha- forcada-nos-governos-temer-e-bolsonaro/ >. Acesso em: 10 de abr. de 2020.
Destacamos que nosso objetivo não é uma análise normativa, ainda que necessária na busca para entender o movimento do real. Iremos além da classificação e da catalogação de projetos de lei, medidas provisórias, decretos e portarias. Nossa intenção de fato é delinear uma relação particular que atravessa todas as reformas tomadas a partir da posse de Michel Temer. Medidas que promoveram de forma mais intensa a flexibilização das relações de trabalho no geral e especificamente no caso do trabalho docente das escolas públicas estaduais do ensino médio. Nosso intuito é revelar as conexões com as grandes orientações das políticas governamentais para captarmos a dinâmica interna do concreto, desvelando a essência contida na aparência. Isto é, demonstrando que a REM está inserida num contexto de ajuste fiscal e traz desdobramentos para o professor(a), ainda mais intensificado com a aprovação das outras medidas.
Antes de analisarmos cada uma delas, destacamos que há uma hierarquia na apresentação cronológica destas reformas, que denota a correlação de forças, consubstanciada pelo acordo pelo alto, constituído pelas frações burguesas que operaram o golpe. Desta forma, não por acaso, antes de completar um mês da posse de Temer, em 22 de setembro de 2016, o governo apresentou a MP n° 746, que, em seis meses, materializou-se na aprovação da Lei n°13.415 em 16 de fevereiro de 2017, reformando o ensino médio. Evidência da unidade entre duas importantes frações burguesas que compuseram o bloco no poder deste período, os neoliberais e os conservadores de acordo com a caracterização de Apple (2002), ou ainda como descreveu o professor Lamosa (2020), como uma unidade entre duas frentes, a social-liberal e a ultraconservadora.
[...] a frente social-liberal (LAMOSA, 2017) e a frente liberal ultraconservadora (COLOMBO, 2018). Estas duas frentes articulam organizações distintas da classe dominante e elaboram estratégias e ações que, por caminhos diferentes, buscam definir as políticas educacionais e redefinir o papel das escolas brasileiras de acordo com os interesses das frações de classe que compõem ambas as frentes (LAMOSA, 2020, p. 12).
A segunda iniciativa da “marcha da insensatez” foi o encaminhamento dado para aprovação de mudanças contidas na Proposta de Emenda Constitucional 287 de 5 de dezembro de 2016, que propunha alterar os artigos 37, 40, 109, 149, 167, 195, 201 e 203 da Constituição, referentes à seguridade social. No entanto, dado o grau de ataques referentes à aposentadoria dos(as) trabalhadores(as), o seu encaminhamento acabou desencadeando
intensas mobilizações de rua128convocadas pelas centrais sindicais, que conseguiram postergar sua aprovação. Destacamos que mesmo com uma vigorosa campanha que defendia em toda imprensa a urgência das medidas para evitar o déficit previdenciário, a medida não foi aprovada no governo Temer. Contudo, em linhas gerais a proposta se manteve e conseguiu ser aprovada no governo de Bolsonaro.
Em relação a celeridade dos prazos de tramitação das medidas referentes ao Novo Regime Fiscal, contidos na Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 241/2016, apresentada em 16 de junho 2016 e promulgada como Emenda Constitucional (EC) nº 95, em um período de 6 meses, fica evidente, também, a consonância129 entre executivo e legislativo. Onde ambos os poderes, em sintonia, aprovaram em tempo recorde um ajuste draconiano para o próximo período de 20 anos, estabelecendo um teto limitador para as despesas primárias130.
Quanto ao prazo exíguo de tramitação da lei de terceirização e da reforma trabalhista, refletiu o mesmo padrão que levou a aprovação da Lei n° 13.415 e da EC nº 95. Evidenciando a aliança entre as frações burguesas que haviam deflagrado o golpe de 2016, sustentavam o governo de Michel Temer131 e suas reformas.
128 Informação disponível em: < https://exame.com/brasil/ao-vivo-as-greves-e-protestos-desta-sexta-30-de- junho>. Acesso em: 28 de abr. de 2019.
129 Esse meio de campo foi arbitrado por um grupo de políticos tradicionais que tiveram a seu favor anos de legislatura e habilidades para utilizar as normas a favor de seus interesses. No legislativo tivemos na presidência da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB/RJ) e Rodrigo Maia (DEM/RJ), e no Executivo, tivemos a atuação dos ministros de Temer que completavam a coordenação da coalizão: “Henrique Eduardo Alves
(PMDB/RN), que foi deputado federal com 11 (onze) mandatos consecutivos, permanecendo na Câmara de 1971 até 2015, preso desde junho de 2017. Além dele, Geddel Vieira Lima (PMDB/BA), Ministro da Secretaria de Governo da Presidência da República, foi deputado federal de 1991 a 2007 (5 mandatos consecutivos), preso em julho de 2017. Eliseu Padilha (PMDB/RS), Ministro-Chefe da Casa Civil, foi deputado federal de 1995 a 2015.
Moreira Franco (PMDB/RJ), Ministro-Chefe da Secretaria Geral da Presidência, foi deputado federal de 1977 a 1982, de 1995 a 2007, governador do Rio de Janeiro (1987 a 1991), e é sogro do atual presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM/RJ). Romero Jucá (PMDB/RR), com três mandatos de senador deixou o ministério por conta de denúncias de corrupção para assumir a liderança do governo no Senado e foi um dos principais articuladores da reforma trabalhista, bem como, um dos autores da terceirização, Sandro Mabel (PMDB/GO), deputado federal de 1995 a 2001, Assessor Especial de Michel Temer que pediu demissão por conta de denúncias de corrupção em maio de 2017” (BENEDETTO, 2017, p. 565-566).
130 Corresponde ao conjunto de gastos da União que possibilita a oferta de serviços públicos à sociedade, deduzidas as despesas financeiras. De acordo com a definição elaborada pela Escola Nacional de Administração pública, as despesas primárias são aquelas referente aos “gastos realizados pelo governo para prover bens e serviços públicos à população, tais como saúde, educação, construção de rodovias, além de gastos necessários para a manutenção da estrutura do Estado (manutenção da máquina pública).” (ENAP, 2017)
Disponível em: < https://repositorio.enap.gov.br › bitstream › Modu...>. Acesso em: 03 de ag. de 2018.
131 Seu governo foi marcado por escândalos de corrupção, com grande parcela de seus membros sendo investigados pela polícia federal, inclusive o próprio presidente. Alguns episódios ganharam destaque, como a prisão do ministro do turismo Henrique Alves por ser acusado de receber R$ 10,2 milhões de propina da Odebrecht e a OAS; ou a de Rocha Loures, ex-assessor de Temer, preso em flagrante após receber uma mala contendo R$ 500 mil de propina da JBS; ou ainda o caso do ex-ministro Geddel Vieira Lima ligado ao
apartamento onde foram encontrados R$ 51 milhões em espécie. Além da própria acusação ao presidente Temer
O Governo Temer não foi eleito e, portanto, não teve um programa apresentado e debatido de forma democrática, mas o seu projeto está claramente enunciado no manifesto de outubro de 2015. Um programa que talvez dificilmente seria sufragado pelo povo, mas que está sendo cumprido religiosamente por um Congresso participante da nova coalisão. A aprovação de uma reforma trabalhista tão ampla e em tão pouco tempo mostra tanto a força e a eficiência do Governo Temer em manter disciplinado o Congresso utilizando todos os meios tradicionais da política brasileira (de liberação de emendas à distribuição de cargos), quanto a relação de identidade entre o Congresso e um governo quase parlamentar. O Governo Temer é a tomada do Poder Executivo pelo Poder Legislativo e nasceu de um processo de impeachment cuja peça central foi o presidente da Câmara dos Deputados (preso desde outubro de 2016); o próprio Temer foi duas vezes presidente da Câmara dos Deputados, e todos os principais ministros por ele escolhidos têm a característica de serem políticos exímios conhecedores do funcionamento do Congresso (BENEDETTO, 2017, p. 565, grifos nossos).
4.3.1 E o golpe chega à educação: da emissão da MP a sanção da Lei
Nesta subseção apresentamos o estudo referente ao processo que decorreu da edição da MP n° 746/2016132 à aprovação da Lei n°13.415/2017, composto em duas dimensões: uma ampliada e a outra restrita.
Iniciaremos pela análise ampliada das mudanças a serviço de ações hegemônicas.
Perspectiva expressa a partir da utilização do conceito de Estado integral em Gramsci (2000b), segundo o qual, o tensionamento entre sociedade política e sociedade civil se configurou efetivamente na hegemonia de determinadas frações burguesas da classe dominante, que assumiu a condição de classe dirigente neste processo e passou a exercer seu domínio.
Lamosa (2020), de acordo com os estudos produzidos pelo grupo de pesquisa Laboratório de Investigação em Estado, Poder e Educação (LIEPE), demonstrou como esse processo se consubstanciou na aliança entre frações da burguesia brasileira. Configurando-se numa hegemonia que expressou a unidade do capital agrupado numa espécie de partido orgânico da classe dominante, que se consolidou na formação de duas frentes de ação na educação
de chefiar o “quadrilhão” do PMDB, grupo acusado de desviar cerca de R$ 587 milhões do governo. Assim, o governo Temer terminou extremamente impopular, com apenas 5% da população considerando o seu governo bom ou ótimo e 74% considerando ruim ou péssimo.
132 Autores indicados para análise mais profunda da MP n° 746/2016: (STEIMBACH, 2019), (KASEKER;
SANSON, 2017), (LIMA; MACIEL, 2018), (SIMÕES, 2016) e (BODIÃO, 2018).