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O bloco histórico neoliberal e o Estado servidor

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 113-120)

2. O ESTADO NA SOCIEDADE CAPITALISTA CONTEMPORÂNEA

2.1 As funções do Estado capitalista e sua ampliação subordinada à lógica mercantil

2.1.4 O bloco histórico neoliberal e o Estado servidor

Ressaltamos que não pretendemos fazer um estudo aprofundado a respeito da ofensiva do capital para enfrentar a crise, na sua conjunção neoliberal. No entanto, realizaremos apenas

um recorte que auxilie em nossa principal discussão acerca do processo de intensificação da exploração da força de trabalho que se desdobra em expropriações também para o trabalhador da esfera pública, e que se relaciona diretamente ao alargamento das funções do Estado capitalista, e ao papel que este vem desempenhando neste processo.

Desta forma trazemos algumas análises de autores que já se dedicaram à temática e que nos aportaram contribuições importantes para a compreensão da totalidade do fenômeno estudado. Assim, enquanto conceituação teórica, referimo-nos nestas linhas ao neoliberalismo como doutrina político-econômica mais geral, pois enquanto forma concreta de modelo econômico neoliberal periférico, que se expressou num programa político e econômico especificamente no Brasil, deixaremos para abordar nas próximas seções.

Neste caminho, lembramos que o neoliberalismo foi formulado logo após a Segunda Guerra Mundial, por Hayek e Friedman, entre outros - a partir da crítica ao Estado de Bem- Estar Social e ao socialismo. Inaugurou, como lembra Perry Anderson (1995), uma atualização regressiva do liberalismo em um novo período histórico. Este ciclo que, no entanto, só se iniciou a partir da crise de 1970 e permaneceu até os dias de hoje, mesmo que por meio de diferentes formatos, como nos inventariou Dardot e Laval (2016), através de um ponto de vista histórico e antropológico em sua provocante obra “A nova razão do mundo”.

Estes autores, fundamentados em observações de Michel Foucault, analisaram o neoliberalismo não apenas na sua genealogia, como um “[...] retorno a Adam Smith ou como uma das manifestações de um capitalismo sempre alinhado a sua essência [...]” (LAVAL, 2016), mas principalmente como uma forma de governo, dentro da concepção de Foucault de governamentalidade (DARDOT; LAVAL, 2016. p. 18), aproximando vários nexos que se estabeleceram a partir daí.

Conseguimos mostrar com argumentos sólidos, que o neoliberalismo, não só é uma forma de governo, de acordo com a ideia defendida por Foucault, mas também uma forma de existência e subjetividade que os políticos neoliberais – na esfera do trabalho, da educação e da saúde – tinham o objetivo de pôr em funcionamento. Ou seja, o neoliberalismo transformou-se, por meio de tentativas e experimentações, em um projeto político e social que impõe uma lógica normativa global cujos pilares são as regras de concorrência e o modelo empresarial.” (LAVAL, 2016. p. 24).

Advogam que o neoliberalismo, responsável por uma nova racionalidade, traz em si um sistema normativo que ampliou sua influência no mundo inteiro e, em todos os sentidos,

“estendendo a lógica do capital a todas as relações sociais e a todas as esferas da vida”

(DARDOT; LAVAL, 2016, p. 7).

Apontam que essa racionalidade é perseguida, em busca de um consenso, cujo sentido é conter a crise e garantir equilíbrio para o capital através desta governabilidade que consiste em “[...] usar a crise como ponto crucial para acelerar o estabelecimento da lógica de mercado e as regras de concorrência [...]” (LAVAL, 2016. p. 25) para dentro do Estado. Conforme a qual a reestruturação deste se apresenta através de um programa de ajustes, que surge como resposta, na tentativa de aumentar a taxa de lucros, a expansão e a reprodução do capital, na busca do tal equilíbrio. No entanto, Marx (2006) já sinalizava que o modo de produção capitalista não tende ao equilíbrio, pois a lei tendencial da queda da taxa de lucros, é um componente justificador das crises estruturais do capitalismo, constante. Logo, entendemos que, como o modo de produção capitalista é um conjunto enorme de contradições, necessita do Estado como um elemento importante para gerir suas crises. Desta forma, o receituário neoliberal e suas propostas de reestruturação produtiva sobre o Estado, ganharam força e espaço como resposta capitalista para a crise, sem resolvê-la.

Virgínia Fontes (2010) para caracterizar o contexto das principais transformações ocorridas no último quartil da história, lembra que dos três conceitos mais utilizados nessa discussão - globalização69, neoliberalismo e mundialização70, o conceito de “mundialização do capital” é o mais adequado. Ela identifica na formulação de Chesnais (1996), principal autor crítico a introduzir essa noção, uma totalidade que consegue abarcar o duplo fenômeno da globalização e do neoliberalismo, através da expansão do capital financeiro associada à ideologia neoliberal. No entanto, apesar de conseguir resumir ideias tão importantes e que se complementam, o conceito desenvolvido por Chesnais, segundo a autora, acaba retirando a

69 Globalização é o conceito que já havia sido apontado (CHESNAIS, 1996 e 2005; FONTES, 2010), como o termo anglo-saxão que teve a expressão “nova ordem mundial” acoplada de imediato a sua definição, e que serviu para retratar de forma “higiênica” a concepção do “business schools”. Aponta o espaço internacionalizado da mobilidade fluida dos capitais, de forma positivada, através de um conteúdo ideológico neutro, apaziguador dos conflitos da luta de classes, e que de mãos dadas ao “fim da história” dissolveria “o conceito de

imperialismo” (FONTES, 2010. p. 154).

70 Chesnais (2007) “denomina esta etapa de mundialização do capital, como uma nova configuração do

capitalismo, caracterizada por assumir a forma rentista e um caráter fictício, desconectado da produção material da sociedade” (CHESNAIS, 2007. p. 21). Ele também destaca o predomínio da vulnerabilidade sistêmica da época neoliberal, que apesar da base material estar fixada a um regime financeirizado de acumulação, é responsável por uma dinâmica sucessiva de eclosão de bolhas especulativas cada vez mais violentas, e pela obliteração do papel preponderante do capital industrial, visto que, na verdade, este é o real suporte do capital financeiro. É a base para obtenção do mais-valor e da produção de mercadorias, e não o mercado financeiro. O autor demonstra também como que através da busca de melhores condições para a acumulação deste mais-valor, há um deslocamento das bases produtivas das economias centrais, estrategicamente, para países periféricos, onde a flexibilização e desregulamentação da força de trabalho é mais propícia por conta da exígua e tenra trajetória da organização de resistência dos trabalhadores.

centralidade dos conceitos de capitalismo e de imperialismo, que ainda cumprem papel central.

Essa crítica nos leva a uma pista importante, recolocando o percurso do imperialismo no pós-guerra, que levou o capital a modificações cruciais, quando, num novo patamar do processo de internacionalização do capital, passou a se associar às elites nacionais. Fenômeno que proporcionou aos Estados mais potentes dominados por oligarquias monopolistas, subjugar os Estados periféricos em prol de ganho próprio. Que, no entanto, como bem retratou Florestan Fernandes (2006), possibilitou que as classes dominantes destes Estados dependentes, fossem favoráveis à uma opressão realizada à sua nação, graças à possibilidade dessa exploração produzir benefícios a essas classes. Ou seja, as estratégias de enfrentamento do capital que se desenvolveram ao longo do século XX e sobretudo, acentuadamente, a partir da crise dos anos de 1970, conformou um contexto neoliberal de financeirização do capital mundializado, em colaboração com os sócios menores do capital nos Estados periféricos.

Estas foram organizadas a partir das novas funções do Estado capitalista nos territórios nacionais subordinados a uma hegemonia.

Dito isto, introduzimos o conceito de “estado servidor”, trazido nas análises de Gurgel (2014), que de acordo com nossa leitura se coaduna aos principais elementos que compõem o neoliberalismo, nesta “etapa superior do capitalismo” (LÊNIN, 2011. p. 31). Evidenciando como que o Estado, em nome do enfrentamento à crise, realiza o papel de “funcionário” do capital, dissipando as fronteiras entre o público e o privado. Oportunizando uma concentração sem precedentes de mecanismos de gestão empresarial, que aprofundam a mercantilização da vida através das privatizações, expropriações e tomadas de decisões por uma “plutocracia internacional concentrada nas finanças globais” (BRAGA, 2016. p. 14). Este contexto que vem se tornando predominante na última quadra histórica, e que veem pavimentando um caminho em direção ao gerenciamento do Estado pelo capital, com o envolvimento direto deste “com as empresas, a partir da crise de 2008 e se estendendo até nossos dias. Suas bases são anteriores à crise, mas seu aprofundamento é posterior” (GURGEL, 2014. p. 822).

Gurgel identifica ainda uma reconfiguração das características do Estado onde novas funções passarão a impactá-lo e se apresentarão em “três novas dimensões: a cessão e prospecção de negócios ao investimento privado, a constituição de associações mercantis contratualizadas em parcerias e o gerenciamento das crises e dos seus desdobramentos administrativos e financeiros.” (GURGEL, 2014. p. 824). Todas, compondo esse novo tipo de Estado, o “Estado servidor”, sempre disponível a servir ao grande capital, seja através de cessões, parcerias e/ou com o próprio gerenciamento das crises. Sempre no intuito de

assegurar as condições para, ao mesmo tempo, buscar saídas para as crises, abrir caminho para um novo ciclo de acumulação. O que Harvey (2009), caracterizou como a “[...]

necessidade de encontrar terrenos lucrativos para a absorção de capital excedente.”

(HARVEY, 2009, p. 10),

[...] condições que confirmam um novo caráter do Estado. Ele abandona o éthos público, cuidadosamente construído desde Rousseau, para quem interesses públicos e privados não devem coabitar, por uma concepção de parceria irrestrita. A partir de então, essas fronteiras do público e do privado se tornaram móveis, flexíveis e adaptativas. A expressão intervenção do Estado passou à figura do passado e o conceito de que Estado bom é Estado mínimo foi substituído pela convicção de que o Estado bom é o Estado servidor (GURGEL, 2014. p. 825, grifos nossos).

Gurgel observa também, que o Estado diante deste cenário de crise de superacumulação71, modifica algumas funções com o objetivo de socorrer o grande capital através das mais variadas ações, convertendo inclusive “valor público em mercadoria”.

Demonstra como, a partir da transformação de “toda a sociedade num gigantesco mercado”

(BRAVERMAN, 1977, p. 231), ocorre um reflexo nas relações desenvolvidas pelo Estado com o capital. Nas quais, deixa de assegurar “o circuito da acumulação pela via conhecida D- M-D’” (GURGEL, 2014. p. 819) e passa a preencher o espaço que se estabelecia, entre a capacidade de consumo do mercado (individual/empresarial) e o volume de bens produzidos, através de um novo circuito, garantindo um ciclo inédito de acumulação, onde o Estado passou a cessão72 do espaço público ao privado, refletindo assim a mercantilização crescente da vida social.

Trata-se agora de um novo circuito a ser garantido pelo Estado: M-D’-M’--D’’, quando o Estado disponibiliza a mercadoria em que os capitais acumulados podem investir para retomar o processo de acumulação. Agora há uma lacuna nova e preliminar que o Estado vai preencher: M. Para isso, não se distinguem valor público e valor privado – todo valor é potencialmente mercadoria (M). Há, ainda, uma acumulação anterior, os investimentos públicos que fundaram o negócio privatizado ou delegado. São, por exemplo, os investimentos em usinas hidrelétricas ou nos satélites de telecomunicação, ou nas pontes, ou nos altos-fornos da siderurgia. Esses investimentos foram realizados pelo Estado e transferidos ou

71 Situação identificada e conceituada por Arrighi (1996) diante do quadro, no qual o capital, em busca de maior acumulação, se afastava de investimentos na economia real, e investia em operações financeiras, nos bancos e na bolsa de valores. Movimento que favoreceu a circulação, de um elevado volume de capitais pelo mundo, a procura de taxas de remuneração mais lucrativas e de mercados mais desregulados.

72 “Em plano mundial, os dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) também são testemunha da importância das cessões de espaço e mercantilização das atividades do Estado. A produção (média anual) mundial de bens e serviços, que nos anos 1980, andava em torno de US$ 21 trilhões, saltou para a média anual de US$ 70 trilhões, em 2008, com um crescimento superior a 200% no período (LEIVA apud GURGEL, 2014.

p. 820).

cedidos em M, quando o negócio é passado para o capital privado. Este papel do Estado revelou-se decisivo para a saída da crise e para abertura de um novo ciclo de acumulação. São mercados importantes, populosos, de demanda cativa, como o fornecimento de eletricidade, os portos e aeroportos, produtos siderúrgicos, serviços de telefonia, minérios, transporte, bancos e outros do mesmo porte. A eles se têm acrescido as áreas de educação e saúde (GURGEL, 2014, p. 819).

Evidencia-se a relação licenciosa entre público e privado, onde a distinção entre estas esferas passa a se constituir de forma tênue e frágil, e onde o Estado se comporta “como um agente importante na viabilização de um processo de acumulação que agora começa com ele próprio. É o Estado que se encarrega de ceder seu valor transmudado em mercadoria (M) para abrir o ciclo de produção e reprodução do sistema” (GURGEL, 2014, p.820).

Essa virada consiste exatamente na redução ou supressão da fronteira entre as duas esferas. Assim como se pode falar em quase mercado, para se referir a atividades públicas conduzidas como se mercadoria fossem, pode-se falar em quase Estado para algumas atividades conduzidas pelo setor privado, com os privilégios do Estado: transportes públicos, energia, telefonia, pontes e estradas, portos e aeroportos, presídios e escolas, hospitais e museus (Idem).

Para administrar a crise, o Estado age como operador e procura pavimentar saídas que garantam o giro do novo ciclo de acumulação de capitais, através de uma extraordinária transferência patrimonial e não patrimonial, de atividades estatais rentáveis, pelos quais as atividades estratégicas e sociais, são transformadas em atividades lucrativas e em variados, atraentes e flexíveis negócios, com amplas fronteiras a serem exploradas.

Nesse sentido, Gurgel demonstra que dois tipos de caminhos foram pavimentados:

um deles mais conservador, que procura fazer com que “parte do capital superacumulado saia do mercado financeiro e retorne à economia real, produzindo novos bens ou bens com melhorias, que atrairão os consumidores” (GURGEL, 2014, p.819). E outro, mais arrojado, que conferiu a cessão de serviços e de ativos do Estado ao mercado, criando inúmeras possibilidades alternativas para que o volume de capital retido pudesse voltar a circular através de setores produtivos e de serviços públicos, tidos como estratégicos, tutelados em grande medida pelo Estado e que passaram para regulação e domínio do mercado. “[...]

genericamente chamada de privatização, tornou-se volumosa e facilitada pelo próprio Estado, que ofereceu suas empresas públicas e, a seguir, seus serviços, não raro a preços de aquisição relativamente baixos, em certos casos financiados pelo próprio Estado.” (Idem, grifo do autor).

Garante-se, assim, as bases, inclusive, para o aparecimento de uma relação mais imbricada entre estas duas esferas: a chamada parceria público-privada num sentido mais amplo.

[...] o que de fato passa a ocorrer é a potencialização do mercado com recursos públicos, em sociedades mercantis reunindo o público e o privado, o que dá às parcerias público-privado, em senso estrito, o caráter de uma metonímia. É a parte que representa o todo, reconhecendo-se um sentido capitalista pleno ao Estado e às atividades do Estado (GURGEL, 2014, p. 820).

Este processo gera um novo arranjo denominado de contratualização, que a princípio deriva do termo contrato, mas que na verdade é muito mais amplo que este significado, “definida por Pontier (1998, p. 7) como ‘a substituição das relações comandadas pela subordinação pelas relações fundadas na discussão e na troca’. Ele explica que o termo

‘contratualização’ provém do termo contrato, mas é muito mais abrangente do que este.”

(Idem, 821). E que expressa as mudanças referentes às concessões pretéritas das atuais.

Relaciona-se ao surgimento de uma “nova mentalidade, que está em expansão, onde o acordo aparece em substituição aos atos unilaterais de autoridade, trazendo a lume o que se tem chamado de Administração Pública consensual” (GROTTI apud GURGEL, 2014. p. 821), e talvez, logo, “já não caiba se referir à ‘administração pública consensual’, mas, simplesmente, à ‘administração consensual’, tamanha a indistinção entre o público e o privado.” (Idem).

Citando Medauar, em seu artigo com título muito sugestivo do que estamos discutindo, O direito administrativo em evolução, Grotti (2007, p. 4) explica que [...]

diversificaram-se os modos de prestação de serviços públicos, observando-se, nas últimas décadas, o surgimento de novos tipos de ajuste, decorrentes de consenso, acordo, cooperação, emergindo o termo parceria, “vinculado à contratualização, para abranger os diversos ajustes que expressam a colaboração entre entidades públicas ou entre entidades públicas e setor privado, ou, ainda, entre todas estas partes, envolvendo, assim, uma pluralidade de atores” (Idem).

Gurgel (2014), nos apresenta assim uma miríade de ações, que no intuito de efetivar o escoamento de capitais acumulados e a recuperação do ciclo do capital, modificaram o perfil do Estado. Que passou por concessões e privatizações que disponibilizam não só os direitos, mas, igualmente, a poupança pública presente nos investimentos que são a base dos serviços (GURGEL, 2014). A associação do capital público ao privado é a garantia dos negócios privados no espaço público, do “Estado servidor”, para servir ao capital. O Estado passa, assim, para além de suas funções repressivas e integradoras, por dentro da sua própria engrenagem política-administrativa, a administrar a crise estrutural do capital. Numa condição de apropriação das forças produtivas comandadas pela lógica do valor, da qual faz parte o

incremento do processo de acumulação, em compasso com os processos de supercapitalização (privatização e mercantilização dos serviços públicos), expropriações e pauperização absoluta e relativa de grande parcela da classe trabalhadora, através da punção do fundo público - situação que veremos de perto na próxima seção, e que acabará se expressando nas reformas adotadas a partir do governo Temer, dentre elas a REM, provocando modificações no trabalho docente.

2.2 Fundo público, políticas públicas e a relação de exploração da força de trabalho no

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