SEÇÃO 2 PNEUMATOLOGIA HERMENÊUTICA EM JÜRGEN MOLTMANN
2.5 O Espírito como arras da promessa
2.5.1 A questão da revelação
Moltmann nos mostra que no Antigo Testamento a revelação de Deus sempre se dá no modo de promessa e não na forma de epifania como acontecia nas religiões das comunidades vizinhas à comunidade de Israel137. É a forma como interpretamos a revelação de Deus que determina a visão que temos a respeito desse tema: ao nos perguntarmos a respeito do onde e quando ocorre a revelação de Deus na história, estamos em uma perspectiva grega, da presença do eterno na história, enquanto que, se perguntarmos a respeito do onde e quando o Deus da promessa revela sua fidelidade e, nela, a si mesmo, perguntamos a respeito do futuro da promessa. Moltmann, claramente, segue pela segunda via o que quer dizer compreender a revelação de Deus em seu caráter escatológico e não epifânico.
A acusação de Moltmann a Barth e Bultmann se dá no fato de que, segundo ele, os dois compreenderam erroneamente o conceito de revelação138. Barth e sua ideia da autorrevelação de Deus transformam o “para onde” e o “de onde” na mesma coisa, ou seja, o fim da revelação é igual à sua origem. Se Deus não revela outra coisa senão a si mesmo, então o fim e a finalidade da revelação se identificam com ele mesmo. Revelação e éschaton aqui se revelam no mesmo ponto, ou seja, em Deus mesmo e, com isso, a revelação não tem uma
136 MOLTMANN, Teologia da Esperança, p.58.
137 Ibid., p. 62. Ver também GRENZ, Stanley J. Redescovering the Triune God: the Trinity in Contemporary Theology. Fortpress. Minneapolis: 2004, p. 73-88.
138 Para o que se segue, cf. MOLTMANN, Teologia da Esperança, p. 65-94
133 promessa e nenhum futuro novo, mas é a presença do eterno no humano, ou a entrada do humano em si mesmo. A escatologia se torna transcendental e a revelação se torna apocalipse da subjetividade transcendente de Deus ou do ser humano. Para Moltmann, uma escatologia assim tem caráter meramente kantiano139.
No caso de Bultmann, é a questão existencial que vem à tona quando falamos sobre a revelação de Deus. Deus se revela não mais em sua ação no mundo, mas em sua ação no próprio homem. O pensamento de Bultmann é fortemente influenciado pelo pensamento heideggeriano, cuja ontologia tem o intuito de resgatar a pergunta pelo ser. Heidegger definirá como Dasein a esse ente que pergunta pelo ser e se define como o “ente que sou cada vez eu mesmo” 140. O modo de ser do Dasein é um estar-no-mundo e o humano é um ser de angústia e cuidado, uma vez que “no cuidado está contido o ser do Dasein” 141.
Bultmann, ao analisar a compreensão cristã do ser, começa pela definição do que vem a ser o mundo, a contraposição entre mundo e “este mundo”, sendo o primeiro a obra criadora de Deus e “este mundo” tendo satanás como seu senhor. Dessa forma, “este mundo” no Novo Testamento é o “mundo da transitoriedade e da morte”142, sendo esta decorrência do pecado de Adão. Define, assim, o que vem a ser a carne no contexto bíblico. O termo carne no pensamento bultmanniano é a esfera do visível, do tangível, do disponível e do mensurável sendo por isso mesmo transitório. Dessa forma, o viver na carne sobre o qual Paulo fala em suas cartas nada mais é do que o viver a partir do disponível e do visível. Em sua análise do pensamento paulino, Bultmann observará que este via o humano como um ser preocupado acerca de seu futuro, com o intuito de obter algum tipo de segurança. O viver preocupado do humano, porém, segundo Bultmann, não é próprio de sua natureza, sendo antes um viver inautêntico.
Como, porém, seria possível uma vida autêntica no pensamento bultmanniano? Com o que vimos até agora, podemos inferir facilmente que o viver autêntico seria uma simples contraposição do viver inautêntico, ou seja, um viver “a partir do que é invisível e
139 Em seu livro Crítica da razão pura, Kant causa uma revolução na maneira de pensar da metafísica.
Ao considerar e ponderar sobre as questões não demonstráveis por meio da razão tem como intuito ir contra o pensamento do período anterior que tentava justificar ideias como alma, mundo e Deus. O conhecimento é de fenômenos, o que torna a questão da metafísica totalmente dispensável para a explicação acerca do mundo. Também em seu Tratado sobre as últimas coisas expõe sua ideia de essas
“últimas coisas” não devem ser pensadas, uma vez que não é possível justifica-las racionalmente.
Assim, seguindo na mesma linha de sua primeira crítica, o que importa é o viver ético. Para maior aprofundamento, ver KANT, Immanuel. Crítica da razão pura, 2007.
140 HEIDEGGER, Ser y Tiempo, p.62.
141 Ibid., p. 229.
142 BULTMANN, Desmitologização, p. 21
134 indisponível, renunciando a toda a segurança autocriada”143. Esse viver é o que, segundo Bultmann, pode ser considerado um viver segundo o Espírito e uma vida vivida na fé.
Fé que no pensamento bultmanniano é o abrir-se para o futuro, em uma entrega radical a Deus, esperando tudo Dele e nada de si, desprendendo de tudo aquilo que é disponível, ou seja, uma desmundanização, uma vida em liberdade. Essa desmundanização não deve ser entendida como movimento de ascese, antes como um distanciamento, um viver no mundo assumindo a postura do “como se não”. Isso não implica que o crente, aquele que vive pela fé tenha recebido uma nova natureza, ou que a mesma, preexistente, tenha sido libertada uma vez que
o que ele é na fé não é algo dado ou factual, um estado do qual estivesse seguro, de modo que a consequência seria um libertisimo; ou um estado o qual ele devesse temerosamente proteger, de modo que a consequência seria a ascese. A vida na fé não é estado algum, que pudesse ser descrito pelo indicativo. Antes, ao indicativo se acrescenta imediatamente o imperativo, isto é, a decisão da fé não é algo assumido de uma vez por todas, mas sim algo que deve se comprovar sempre nas situações concretas, sendo assumida de novo 144.
No pensamento bultmanianno, liberdade representa uma liberdade para a obediência e o crer nada mais é que um ter sido apreendido estando sempre em um estar a caminho entre o
“ainda não” e o “mesmo assim já”.
Para Bultmann, há uma concordância de que tanto o Novo Testamento e a filosofia acreditam que o ser humano só pode ser e tornar-se aquilo que já é. Assim, o homem e a mulher só podem desenvolver um existir espiritual pelo fato de ser um espírito. No Novo Testamento, a ordem de Paulo para que os crentes sejam santos só é possível porque os mesmos já foram santificados. Portanto, o ser humano só pode conduzir uma vida autêntica porque essa já lhe foi atribuída e uma vez que já está nela. Ao contrário da filosofia, o Novo Testamento verá a queda do homem como algo em que ele está e não pode fugir. Essa queda somente poderá ser revertida através do assumir a cruz de Cristo.
143 Ibid., p. 23
144Ibid., p.24
135 Crer na cruz de Cristo não significa mirar para um processo mítico, que transcorreu fora de nós e de nosso mundo, um vento objetivamente observável, que Deus nos imputa como acontecido em nosso favor. Ao contrário, crer na cruz significa assumir a cruz de Cristo como a própria, significa deixar-se crucificar com Cristo 145.
Cruz e ressurreição no pensamento bultmanniano representam uma unidade. Dessa forma, a participação, tanto na cruz quanto na ressurreição, se dá na vida concreta, na liberdade, na luta contra o pecado e no despojar as obras das trevas.
De toda sua análise, percebe-se que “a palavra da proclamação se nos confronta como palavra de Deus, diante da qual não podemos fazer perguntas de legitimação, mas que apenas pergunta a nós se queremos crer nela ou não”.146 Assim, a fé pascal não se preocupa com uma questão histórico-factual, antes, que o ressurreto venha ao encontro do homem e da mulher na palavra pregada e somente nela, sendo a palavra de Deus a sóbria proclamação da pessoa de Jesus de Nazaré em sua significação salvífica, fato somente aceito pelo ser humano através da fé.
O pensamento bultmanniano deixa claro que a revelação de Deus ao homem nada mais é do que fazê-lo ser aquilo que ele já é. Uma pergunta que poderíamos fazer a Bultmann seria a respeito da esperança cristã: uma vez que a revelação de Deus se dá somente no próprio indivíduo e sempre um seu caráter existencial, onde estaria o fim de todas as coisas e a nova criação anunciada no Novo Testamento? Haveria aqui alguma diferença entre Deus criador e mundo criado?
Moltmann considera que, para Bultmann, a revelação de Deus é um entrar-em si, o que se dá na autocompreensão do ser humano e manifesta o verdadeiro ser do homem e, dessa forma, se manifesta a natureza de Deus. Revelação é o evento da pregação da fé e o evento da proclamação da fé. É na fé que se manifesta o objeto da fé e a revelação é esse acontecer no seu ato de interpelar e apelar ao sujeito. Como o ponto capital da revelação é a questionabilidade da existência humana, a revelação produz a compreensão de si mesmo por parte do sujeito e se torna a presença do éschaton. O ser no instante da pregação é o ser próprio do ser humano. Como ser, em sentido próprio, é a restituição da originalidade do ser humano, em sua essência de criatura e seu fim, então é escatologia. No instante da revelação criação e salvação se coincidem147.
145 BULTMANN, Rudolf. Desmitologização. São Leopoldo: Sinodal, 1999, p. 40.
146Ibid., p. 45.
147 MOLTMANN, Teologia da Esperança, p.92-93.
136 Em contraposição às visões de Bultmann e Barth a respeito da revelação de Deus, bem como à visão de Pannenberg148 acerca de uma teologia da história, Moltmann se propõe a tratar a escatologia cristã pela categoria da promessa. Grenz sumariza bem ao dizer que:
Para Moltmann, então, revelação não é uma incursão sobrenatural dentro da história a partir de uma realidade divina “do alto”. Ao contrário, é uma Palavra de promessa sobre uma totalmente nova realidade no futuro que, apesar de não inerente no presente, pode mesmo assim ser antecipada no aqui e agora. Ao invés da revelação surgindo fora da história, a história é o predicado da revelação, e nesse sentido, a Palavra cria história149.