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A Trindade no pensamento de Moltmann

SEÇÃO 2 PNEUMATOLOGIA HERMENÊUTICA EM JÜRGEN MOLTMANN

2.3 A Trindade e o Espírito

2.3.3 A Trindade no pensamento de Moltmann

102 A síntese proposta por Peterson pode ser uma boa transição para abordarmos a questão trinitária no pensamento de Moltmann:

O monoteísmo, como problema político, surgiu da elaboração helenista da fé judaica em Deus. O conceito da monarquia divina, enquanto se amalgamou com o princípio monárquico da filosofia grega, cobrou para o judaísmo a função de slogan político-teológico. A Igreja, ao se expandir através do império romano, assume esse propagandístico conceito político-teológico, que choca depois com uma concepção pagã da teologia política, segundo o qual o monarca divino reina, mas há de governar os deuses nacionais. Os cristãos, para poderem se opor a essa teologia pagã cortada à medida do império romano, responderam que os deuses nacionais não podem governar porque o império romano significa a liquidação do pluralismo nacional.

Neste sentido se explicou logo a Pax Augusta como cumprimento das profecias escatológicas do Antigo Testamento. Claro que a doutrina da monarquia divina houve tropeçar com o dogma trinitário, e a interpretação da Pax Augusta com a escatologia cristã35.

Ora, se a doutrina da Trindade é segundo Peterson, o lugar onde o monoteísmo tropeça, por que razão ainda há, em comunidades cristãs, o fechamento e a dominação no lugar da liberdade? Por que a compreensão de Deus como dominador ainda prevalece em nossas comunidades ao invés de um conceito trinitário de Deus? Como pensar a Trindade e, consequentemente, o Espírito Santo em meio a esse mundo dominado pelas forças opressoras do capital e do poder político-financeiro que ocupou o lugar dos imperadores antigos? Como afirma Moltmann,

se a fé cristã em Deus não quiser perecer na miséria do monoteísmo, então não podemos continuar simplesmente classificando como “monoteísta” a unidade do Deus uno e trino, mas devemos defini-la melhor em vista da liberdade dos homens, da paz dos povos e da presença do Espírito em todas as coisas da natureza36.

103 doutrina da unidade da substância divina, ou a ideia da doutrina da única soberania divina38. Em suas palavras:

O Pai, o Filho e o Espírito, por sua personalidade, de forma alguma apenas se diferenciam um do outro, mas igualmente são um entre si e dentro de si, uma vez que personalidade e sociabilidade constituem dois aspectos da mesma coisa. O conceito de pessoa já deve, portanto, encerrar o conceito de união, como vice-versa, o conceito de união divina encerra o conceito das três pessoas. O conceito da unidade de Deus, assim, em termos trinitários, não pode apoiar-se na homogeneidade de uma única substancia divina, nem na aseidade do sujeito absoluto, e muito menos em uma das três pessoas da Trindade: Ele deve ser procurado na pericorese das pessoas divinas. 39

Moltmann, a fim de fundamentar seu ponto de vista, considera com muito mais sentido partir da história bíblica para discutir as três pessoas divinas do que, a partir do conceito filosófico de uma unidade absoluta para discutir os testemunhos bíblicos40.

Para ele, a unidade entre Pai, Filho e Espírito deve ser entendida como unidade comunicativa e aberta, convidativa e integradora. Dessa forma, essa unidade não deve ser pensada de maneira violenta, mas de maneira libertadora e inclusiva41. Essa unidade se apresenta também como uma questão escatológica da consumação da história trinitária de Deus que é a história da salvação por meio de Jesus Cristo.

Uma vez que, na história de Jesus Cristo, de acordo com o relato dos Evangelhos, evidencia-se o caráter trinitário da ação de Deus, é a partir daí, olhando de frente para trás que podemos deduzir o fundamento transcendente da Trindade. É a partir da história de Jesus Cristo que podemos perceber a história do Deus uno e trino e, dessa forma, é impossível um pensamento trinitário que não passe pela cruz de Cristo42.

38 Sobre a experiência do Espírito como comunhão, ver também MOLTMANN, O Espírito da Vida:

uma pneumatologia integral, p. 207-249.

39Ibid. p. 161.

40 MOLTMANN, Trindade e Reino de Deus: uma contribuição para a teologia, p 160.

41 Cf. MOLTMANN, O Espírito da Vida: uma pneumatologia integral, p. 207.

42 É importante ressaltar que no pensamento moltmanniano, a separação entre Trindade imanente e Trindade econômica permanecem, contudo estão em estreita ligação, não podendo ser pensadas de forma desassociadas. Nesse sentido, aceita o axioma de Karl Rahner de que “A Trindade econômica é a Trindade imanente e vice-versa”: “os enunciados sobre a Trindade imanente não podem estar em contradição com os enunciados sobre a Trindade econômica. Os enunciados sobre a Trindade econômica devem corresponder aos enunciados doxológicos sobre a Trindade imanente”. cf.

MOLTMANN, Trindade e Reino de Deus: uma contribuição para a teologia, p 164-169; Esse tema também se encontra em MOLTMANN, O Deus crucificado, 428p. Ver também MOLTMANN, A unidade convidativa do Deus uno e Trino, p. 60 em que Moltmann afirma a questão da diferença entre Pai, Filho e Espírito ao dizer que “Pai, Filho e Espírito são sujeitos distintos, com

104 A doutrina da Trindade cristã, quer dizer ligada à história de Cristo, define uma Trindade aberta desde o princípio: a Trindade do amor que envia e que busca. Trindade (que significa tri-unidade) expressa a Deus em sua doação ao mundo, isto é, que o Deus trino é o Deus aberto: aos homens, ao mundo e ao tempo43.

Com isso, para nosso teólogo, a cruz de Cristo nos faz repensar a própria questão da Trindade, de maneira que falar a respeito do Pai, do Filho e do Espírito só faz sentido, no se considerarmos esse ponto.

Acerca do Pai, no pensamento moltmanniano, pode-se ter duas visões: tanto a do Pai Todo-Poderoso, criador do céu e da Terra, quanto como Pai de Jesus Cristo. Se considerarmos a primeira alternativa, claramente caímos em uma visão de Deus como o Senhor que deve ser temido e honrado, sendo, portanto, a autoridade maior de todo o Universo. Nessa forma de ver, está clara a visão patriarcal e monoteísta do mundo, uma vez que, se ele é o Pai supremo, todas as outras autoridades recebem o poder dele.

Moltmann pontua que em uma sociedade patriarcal, como a que vivemos, é claro o predomínio do papel do homem. É ele que tem a autoridade, é ele que é o dono da esposa e dos filhos, é o homem que faz o que quer, cabendo às mulheres serem subservientes e aguardar deles seu sustento. Isso, claramente segue para o meio político ainda em nossos dias, onde quem governa deve ser amoroso com os de dentro e forte e viril com os de fora, a fim de garantir a paz e a ordem44. Claramente, uma vez considerado dessa forma, Deus não se assemelharia àquele revelado na cruz de Cristo, antes, refletiria a visão monoteísta da qual falamos pouco acima.

Se pensarmos trinitariamente, então veremos que Deus é Pai enquanto Pai de seu Filho unigênito. É a relação com Jesus e a relação de Jesus com Deus que define a paternidade de Deus e é em relação a Deus que respondemos acerca de quem é o Filho. Dessa forma, no pensamento moltmanniano, entender o Pai em chave trinitária e consequentemente cristã pressupõe abandonar uma visão patriarcal de mundo.

Moltmann também propõe pensar a diferenciação entre criação e geração para pensar o papel do Pai de Jesus Cristo. Se Deus fosse somente o criador do mundo, isso em nada traria

vontade e inteligência, que conversam entre si em oração e resposta, que estão voltados um

para o outro no amor e que são “um” apenas quando juntos”.

43 MOLTMANN, Pensamientos sobre la história trinitária de Dios, p. 151.

44 Remetemos aqui ao artigo de O Pai Maternal: o patripassianismo trinitário vencerá o patriarcalismo teológico?, p. 60-66. Ver também MOLTMANN, Nella storia del Dio trinitário, p 25-48.

105 para si o título de pai, afinal, posso criar uma cadeira e isso não me fará ser o pai, em sentido estrito, da cadeira. Da mesma forma, se o Criador de todas as coisas é chamado pai não é devido ao que fez, mas sim devido à criação realizada enquanto pai do Filho, ou seja, o Pai cria o mundo através do Filho, na força do Espírito. A criação se mostra, então, como obra da Trindade e não somente de um soberano criador.

Da mesma forma, a fé cristã diz que o Filho é gerado pelo Pai ou nascido do Pai45. Ora, se o Pai é aquele que gera o seu Filho e o faz nascer, claramente aqui temos um aspecto feminino de Deus. Deus é um pai materno. Aqui, falando de forma metafórica, o Pai é bigenérico e transgenérico. “Ele é o pai materno do seu filho unigênito, e ao mesmo tempo a mãe paterna de seu filho unigerado46”.

Com isso, no pensamento moltmanniano, o Pai se mostra como princípio não gerado e de onde provém o Filho e o Espírito, ou seja, a origem eterna da Trindade. Dessa forma, o Pai é determinado por si mesmo e o Filho e o Espírito são determinados pelo Pai e caracterizados pela relação que estabelece com o Pai.

Não é difícil percebemos a estreita relação que Moltmann tem com a teologia Oriental acerca da Trindade. No pensamento Oriental, todas as pessoas da Trindade são iguais em dignidade e substancia, diversificando-se pelas relações que estabelecem entre si.

Segundo Evdokimov, “para o Oriente, as relações entre as pessoas da Trindade não são de oposição nem de separação, mas de diversidade, de reciprocidade, de revelação recíproca e de comunhão no Pai” 47. Assim, os atributos da natureza comum, tais como sabedoria, amor, verdade pertencem a todos, sem nenhuma distinção. Já a Pessoa, na relação única, é evocada em relação ao Pai. Intratrinitariamente ocorre uma “monarquia do Pai” que determina somente a constituição intratrinitária e nada tem a ver com uma ideia de monarquia suprema do universo em perspectivas monoteístas.

Acerca do Espírito, Moltmann coloca somente três observações, a saber, que ele não é sem origem como o Pai o é, que ele não é gerado como o Filho e que sua procedência do Pai é uma relação singular, em um momento que determina somente a ele. Assim, o Espírito se define mais de maneira negativa que positiva.

45 Claramente aqui Moltmann não coloca nascido e criado como sinônimos. O nascimento do Filho não quer dizer que ele foi feito criatura de Deus, o que implicaria na heresia de Ário.

46 MOLTMANN, Trindade e Reino de Deus: uma contribuição para a teologia, p.173; Ver também MOLTMANN, Nella storia del Dio trinitário, p.49-58.

47 EVDOKIMOV, O Espírito Santo na tradição ortodoxa, p. 38

106 A antiga ideia de Agostinho e que também seguiu em tempos medievais do Espírito como vinculum amoris, segundo Moltmann não ajuda muito, uma vez que a relação intratrinitária do Espírito apareceria somente na relação mútua entre o Pai e o Filho. Assim, prefere ver a conexão do Espírito na Trindade a partir do entendimento do Filho como Palavra (logos). O Pai pronuncia sua palavra, no sopro do seu Espírito. “Não há em Deus palavra sem Espírito nem Espírito sem Palavra48.”

As pessoas na Trindade se relacionam. No entanto, segundo Moltmann, elas não devem ser definidas unicamente pelo seu relacionamento interno com uma natureza comum, uma vez que isso acarretaria em não se ter três pessoas. Uma vez que ser pessoa é estar em relação, é necessária a individualidade de cada pessoa para que possa haver, de fato, uma relação que não seja de maneira somente intrassubjetivista.

Baseando no pensamento de Ricardo de São Vitor de que ser-pessoa não significa somente subsistir, ou subsistir-em-relação, mas existir, sendo existência considerado como

“um existir a partir de um outro49”, Moltmann propõe que se entenda relação como sendo o fato de que cada pessoa divina exista pelas outras e nas outras. Assim, em virtude do amor que reina entre elas, cada uma existe totalmente no outro.

Mais tarde, segundo Moltmann, Hegel aprofunda o pensamento de Ricardo, mostrando que a essência da pessoa está no dedicar-se a outro e assim se encontrar no outro, sendo nessa abertura ao outro que a pessoa se descobre a si mesma.

É a partir do conceito de pessoa e de relação que Moltmann define um terceiro conceito que se verifica no seio da Trindade. Esse conceito é o da

história de Deus, e, nesse sentido, falamos da paixão de Deus pelo seu outro, da autolimitação de Deus, do sofrimento de Deus, bem como da alegria de Deus e da sua eterna beatitude na glorificação final. Somente a partir do momento em que pudermos pensar de maneira integrada as pessoas, as relações e as alterações das relações, é que a ideia da Trindade perde a sua conotação estática e paralisante. Só então é que se pode encarar a possibilidade não só da vida eterna, mas também de uma presença viva do Deus uno e trino50.

Mantendo-se o caráter relacional e histórico da Trindade, então ela não somente vive em relação uma com as outras, mas também subsistem na comum natureza divina. A isso

48 MOLTMANN, Trindade e Reino de Deus: uma contribuição para a teologia, p.177

49 Para aprofundamento, ver SÃO VITOR, La Trinité, 526 p.

50 MOLTMANN, Trindade e Reino de Deus: uma contribuição para a teologia, p.181.

107 chamamos perichoresis. Com esse termo tem-se o intuito de exprimir um “eterno processo vital de permuta de energias51”. Ou seja, o Pai existe no Filho, que existe no Pai e os dois existem no Espírito, de maneira que vivem tão íntimos entre si que são um só, sendo distintos pelas suas propriedades pessoais.

Essa ideia une a Trindade e a unidade sem reduzir uma na outra e assim, acontece a unidade na Trindade. Moltmann chama a atenção para o que denomina de o processo da manifestação mútua das pessoas mediante suas relações na glória divina. Com esse conceito tem o intuito de mostrar que “as pessoas trinitárias levam-se mutuamente e conjuntamente ao esplendor, pela glória que lhes é inerente52”.

Essa doutrina da manifestação corresponde, segundo Moltmann, doxologicamente à glorificação do Espírito na experiência da salvação.

O Espírito Santo leva eternamente o Filho ao esplendor no Pai e glorifica o Pai no Filho. Ele é a luz eterna, na qual o Pai reconhece o Filho, e o Filho o Pai. No Espírito Santo, a vida eterna divina chega à consciência de si mesma e nela se espelha a sua forma perfeita. No Espírito Santo, a vida divina torna- se consciente da sua eterna beleza. Pelo Espírito Santo, a eterna vida divina passa a ser festa santa da Trindade 53.

Essas coabitações múltiplas que vêm a partir do conceito de perichoresis é a base para aquilo que Moltmann define como doutrina social da Trindade. Assim, “todas as relações análogas a Deus espelham essas coabitações originais recíprocas e a mútua compenetração da perichoresis trinitária: Deus no mundo e o mundo em Deus54”.

Em Moltmann, a criação e a história do mundo devem ser pensadas dentro da história trinitária de Deus que visa o reino da nova criação de todas as coisas. Nesse sentido, a criação se mostra como abertura para o futuro e, consequentemente, um sistema aberto55.

51Ibid., p.182. Ver também. MOLTMANN, Deus na criação, p.36-37. Ver também MOLTMANN, O Espírito da Vida: uma pneumatologia integral, p. 215 em que Moltmann também aborda a questão das energias criadoras de vida como o Espírito divino. Sobre essa temática, abordaremos na seção três de nosso trabalho.

52Ibid., p. 183.

53Ibid., p. 183. Ver também MOLTMANN, Jürgen. Pensamientos sobre la história trinitária de Dios, p.

153. Essa mesma ideia pode ser percebida no conceito de “figura eucarística da Trindade”, em que “na oração, na adoração, na ação de graças, no louvor, na glorificação de Deus, toda a atividade e a iniciativa procede do Espírito. Ele quem glorifica ao Filho e, no Filho e com Ele, ao Pai”. Cf.

MOLTMANN, La fuerza reconciliadora de la Trinidad, p. 230..

54 MOLTMANN, Deus na criação: doutrina ecológica da criação, p.37.

55 O conceito de sistema aberto no pensamento de Moltmann é desenvolvido em seu livro Deus na criação que citamos acima. O sistema aberto é definido por Moltmann como aquilo que é aberto para

108 Moltmann também pensa a relação de comunhão trinitária com relação às pessoas, e não somente no seio da Trindade. Para ele, pensar na experiência de comunhão do Espírito Santo implica em pensar como esse mesmo Deus Espírito entra em relação de mutualidade e reciprocidade com essas pessoas, de maneira que elas atuem sobre ele e ele atue sobre elas.

Assim, a comunhão é pensada como própria essência do Espírito56e, dessa forma Ele “não é uma energia procedendo do Pai o do Filho; é um sujeito de cuja atividade o Filho e o Pai recebem sua glória e sua união, bem como sua glorificação através de toda criação, em seu mundo como sua morada eterna57”.

Como bem aponta Grenz, o resultado disso “é uma pneumatologia trinitária que dá total lugar ao Espírito como uma pessoa divina co-igual ao Pai e ao Filho58”.

No pensamento moltmanniano, a experiência de comunhão é experiência de vida e a ausência total de relações é morte total, de maneira que pensar o Espírito como comunhão é a mesma coisa de pensá-lo como o Espírito vivificante59.

Assim, não podemos pensar que comunhão quer dizer redução a um denominador comum, mas é preciso pensar em seu conceito de variedade na unidade. Para nosso teólogo, essa comunhão do Espírito é experimentada como amor e liberdade, uma vez que

sem liberdade o amor oprime a variedade do individual, sem amor a liberdade destrói o que é comum e o que une. Por isso, comunhão que serve à vida só pode ser entendida no sentido de que ela integra e cria unidade na variedade e de que ao mesmo tempo diferencia e inaugura a variedade na unidade. A unidade entre esta unidade e esta variedade está situada no ritmo dos tempos da vida. Chamamos isto de comunhão trinitária do Espírito 60.

Da mesma forma, também experimentamos a comunhão do Espírito em nossa experiência social que fazemos com os outros e também na nossa relação com a natureza.

Pensar a experiência do Espírito somente nas categorias da experiência individual, segundo nosso teólogo foi um infeliz unilateralismo que ocorreu tanto na Reforma como no

as possibilidades de seu futuro. Nesse sentido, a humanidade, sua história, a criação e o próprio

cosmos é um sistema aberto. A relação entre o Espírito e esse sistema aberto será abordado na seção 3 de nosso trabalho.

56 MOLTMANN, O Espírito da Vida: uma pneumatologia integral, p. 208. Ver também

57 MOLTMANN, The Trinity and the kingdom of God, p. 126

58 GRENZ, Redescovering the Triune God: the Trinity in Contemporary Theology, p. 81.

59 MOLTMANN, O Espírito da Vida: uma pneumatologia integral, p. 208-209. Sobre a questão do Espírito vivificante que no pensamento de Moltmann está relacionado ao conceito do Espírito Regenerador, abordaremos no segundo capítulo dessa seção.

60Ibid., p. 209.

109 pensamento de Agostinho61. Ao mesmo tempo, no pensamento moltmanniano, a individualidade não pode ser deixada de lado, uma vez que ela tem um papel importantíssimo para a definição do ser pessoa e enriquecimento da vida por meio do colocar-se em relação com o outro.

Unificação e renúncia à individualidade em favor de uma unidade mais elevada não são meta da vida, mas sim o começo da rigidez e da morte. A dissolução da pessoa num sentimento comunitário oceânico e cósmico constitui um empobrecimento e não um enriquecimento da vida 62.

Não seria esse um convite para repensarmos nossos métodos de evangelização em que se busca, constantemente, uma uniformização da fé? Estaríamos nós, de alguma forma, pré- moldando a ação do Espírito ao pensar que somente no cristianismo poderíamos experimentar realmente a presença de Deus?

Ao mesmo tempo, não estaria aqui uma boa lente para se pensar o diálogo inter- religioso na atualidade? Afinal, se o Espírito tem como essência a comunhão e é próprio Dele dar a vida, então ali onde a vida é afirmada e onde as relações geradores e mantenedoras da vida em todas as suas formas são fomentadas, não poderíamos dizer que ali age o Espírito de Deus? Não seria isso um critério de discernimento acerca da ação do Espírito nas outras religiões que ainda não foi trabalhado pelos teólogos que entraram por essa via?