CAPÍTULO 7 A REALIDADE MÚLTIPLA DA INCLUSÃO DIGITAL
7.1 A Realidade Múltipla
Em seu artigo Ontological politics. A word and some questions, Annemarie Mol
mostra que, apesar de se admitir que a realidade não é totalmente imutável, é corrente a idéia de uma prática científica responsável por desvelar ou revelar os elementos constituintes da realidade (MOL, 1999, p. 75). Tal abordagem pressupõe uma realidade dada a priori, um ponto de partida. Mesmo sendo possível que a tecnologia e a política dominem, modifiquem e controlem a realidade, sua modelagem é uma questão em aberto que se dá em algum momento no futuro (MOL, 1999, p. 75). De acordo com a autora, o termo política ontológica, criado por John Law, sugere “uma ligação entre o real, as condições de possibilidade com que vivemos, e o político”2. Segundo Mol, a realidade não precede a prática de interação com ela, mas é por essa prática modelada (MOL, 1999, p. 75). O real interfere no político, assim como o político interfere no real (MOL, 1999, p. 74). Nos últimos anos, a teoria Ator-Rede, assim como outras teorias correlatas, romperam o paradigma modernista da divisão Natureza (Realidade) e Sociedade (Político), problematizando o caráter determinado e estável da realidade, em sua dimensão ontológica, e estabelecendo “que a realidade é localizada histórica, cultural e materialmente” (MOL, 1999, p. 75). A realidade é fabricada nos laboratórios (Ciência e Tecnologia) e os objetos por eles produzidos transportam novas realidades e ontologias (MOL, 1999, p. 75). Segundo ela, “se a realidade é feita, se é localizada histórica, cultural e materialmente, também é múltipla” (MOL, 1999, p. 75).
De acordo com Annemarie Mol, a “ontologia política é influenciada pelo perspectivismo ou pelo construtivismo, mas não decorre diretamente deles, nem coexiste pacificamente com eles. O seu termo de referência é um pouco diferente: performance (encenação/representação)” (MOL, 1999, p. 75). Na abordagem do perspectivismo, há diferentes pontos de vistas ou diferentes olhares sobre algo, oriundo de diferentes especialidades e saberes, mas pressupondo a existência essencial deste algo singular observado. “Isto quer dizer que vêem as coisas de formas distintas, e representam o que vêem de maneiras diversas [...] o perspectivismo afastou-se de uma versão monopolista da verdade. Mas não multiplicou a realidade. Multiplicou os olhos de quem a vê”
(MOL, 1999, p. 76). Apesar de a realidade ser vista de maneira plural, não é vista de maneira múltipla. Outra forma de pluralismo, segundo a autora, é o das histórias de construção (construtivismo):
2 Tradução de Gonçalo Praça e extraída de NUNES, João Arriscado e ROQUE, Ricardo (Orgs.), 2007, Objetos impuros. Experiências em estudos sociais das ciências. Porto: Edições Afrontamento. No
Estas histórias mostram como foi criada uma versão específica da verdade, o que estava a seu favor, o que estava contra, e como outras alternativas plausíveis foram desacreditadas [...] as histórias construtivistas sugerem então que podiam ter sido possíveis 'construções da realidade' alternativas (MOL, 1999, p. 76).
Tal abordagem é uma pluralidade projetada no passado, pois vários caminhos seriam possíveis, mas não foram percorridos. No entanto, a abordagem de uma realidade múltipla não se confunde com o perspectivismo nem com o construtivismo, mas se baseia na idéia de encenação/representação e intervenção:
Estas sugerem uma realidade que é feita e encenada/representada (enacted), e não tanto observada. Em lugar de ser vista por uma diversidade de olhos, mantendo-se intocada no centro, a realidade é manipulada por meio de vários instrumentos, no curso de uma série de diferentes práticas (MOL, 1999, p.
77).
Os instrumentos da prática científica não revelam os atributos do objeto, mas o encena/representa. A realidade de um objeto assume várias formas, havendo “diferentes versões, diferentes performances (encenações/representações), diferentes realidades que coexistem no presente” (MOL, 1999, p. 77). O objeto, nessa perspectiva, não apresenta diferentes atributos ou aspectos, mas uma diversidade de versões, “versões que os instrumentos ajudam a performar (encenar/representar)” (MOL, 1999, p. 77). Os objetos não são os mesmos, mas suas diferentes versões se relacionam. Os objetos são múltiplos.
Em seu livro The body multiple: ontology in medical practice, Annemarie Mol mostra como a “medicina encena/representa (enacts) os objetos sob sua competência e tratamento” (MOL, 2002, p. vii). Ela faz um extenso estudo de investigação sobre a encenação/representação da arteriosclerose nos membros inferiores em diferentes locais e por diferentes profissionais de um hospital na Holanda. Segundo a autora, ao “focar a encenação/representação em vez do conhecimento tem um importante efeito: o que nós imaginamos ser um único objeto pode parecer ser mais do que um” (MOL, 2002, p. vii).
De acordo com Mol, “na prática o corpo e suas doenças são mais do que um, mas isso não significa que eles são fragmentados em muitos seres” (MOL, 2002, p. viii).
Segundo ela,
se as práticas são trazidas para o primeiro plano não há mais um objeto único e passivo no meio, esperando para ser visto a partir de um ponto de vista de
uma aparentemente infindável série de perspectivas. Em vez disso, objetos vem em seus seres – e desaparecem – com as práticas em que eles são manipulados. E uma vez que o objeto de manipulação tende a diferir de uma prática para outra, a realidade se multiplica (MOL, 2002, p. 5).
Na abordagem do perspectivismo, segundo Mol, há diferentes interpretações sobre um determinado objeto, porém o objeto é considerado como algo único. O que há é uma multiplicação dos observadores. A partir de tal abordagem, no caso da medicina, tanto a fala do médico quanto a do paciente são consideradas interpretações de uma doença que continua única, igualando o médico e o paciente ao considerar que os dois interpretam o mundo em que vivem (MOL, 2002, p. 10). Além disso, no perspectivismo, há uma grande divisão entre eles, médico e paciente, pois expressam suas visões a partir de diferentes pontos de vista (MOL, 2002, p. 20):
No mundo dos significados, ninguém está em contato com a realidade das doenças, todo mundo 'meramente' as interpreta. Há diferentes interpretações ao redor, e a 'doença' – para sempre desconhecida – está em algum lugar para ser encontrada. A doença desaparece atrás das interpretações. No mundo dos significados solitários, as palavras estão relacionadas aos lugares de onde elas são faladas (...) isto multiplica os observadores – porém deixa o objeto observado sozinho (MOL, 2002, p. 11-12).
De acordo com Annemarie Mol, a abordagem da realidade múltipla é um terceiro passo dado pelas ciências sociais no estudo da medicina:
O primeiro passo das ciências sociais no campo da medicina foi delinear a doença como um importante objeto a ser adicionado a materialidade das doenças. O segundo passo foi dar ênfase ao que era falado pelos médicos sobre a 'doença', o que é parte do domínio dos significados, alguma coisa relativa à perspectiva específica da fala de uma pessoa. E aqui está o terceiro passo. Ele consiste em trazer para o primeiro plano as práticas, materialidades, eventos. Se nós tomamos esse passo, a 'doença' torna-se uma parte do que é feito na prática (MOL, 2002, p. 12-13).
Segundo Mol, a metáfora da construção não é adequada para descrever os objetos quando estão sendo feitos. Ela prefere a metáfora da performance teatral, da encenação/representação, pois apesar de alguns inconvenientes, como a idéia de ter uma “vida real” por detrás da encenação, a metáfora da encenação/representação destaca a importância tanto das pessoas quanto das coisas, assim como a necessidade de execução de um determinado script para que a doença seja feita. Além disso, quando a ação é realizada em outro local e em outro momento, o script é encenado de maneira
diversa. Em uma peça teatral, tão importantes quanto o que os atores executam, são os cenários e todos os demais elementos necessários para a boa encenação/representação, como o palco, a iluminação, o figurino, as equipes dos bastidores etc. Diferentemente da metáfora da construção, que dá enfoque a alguém que constrói, na metáfora teatral a ação de encenar/representar é posta em primeiro plano, deixando vagos os responsáveis pela ação. “É possível dizer que na prática os objetos são encenados/representados. Isto sugere que atividades são realizadas – mas deixa os atores vagos. Ela também sugere que na ação, e somente então e lá, alguma coisa é – está sendo encenada/representada”
(MOL, 2002, p. 32-33). Portanto, um etnográfico/praxiográfico ao investigar doenças nunca as isola das práticas em que elas estão sendo feitas, estão sendo encenadas/representadas. Se o objeto que está sendo feito não for removido das práticas que o sustentam, em que está sendo constituído, a realidade se multiplica (MOL, 2002, p. 6). “A 'doença' sobre a qual os etnográficos falam nunca está sozinha. Ela não se mantém por si mesma. Ela depende de tudo e de todos que estão ativos enquanto ela está sendo praticada. A doença está sendo feita” (MOL, 2002, p. 31-32). Quando os pacientes relatam suas histórias nas entrevistas dos ambulatórios médicos, eles não apenas falam de significados, de suas perspectivas das doenças, mas de eventos que eles estão vivenciando, com toda a materialidade do dia-a-dia de suas vidas (MOL, 2002, p.
15). “Quando o médico e o paciente agem juntos em um ambulatório, eles, em conjunto, dão forma a uma realidade da perna dolorida do paciente” (MOL, 2002, p. 27). Então, a questão motriz deixa de ser “como encontrar a verdade?” para ser “como os objetos são manipulados na prática?”. A partir deste deslocamento, a filosofia do conhecimento adquire uma etnografia interessada em práticas de conhecimento e uma nova série de questões emerge. Mol afirma que a metáfora teatral ajuda em sua empreitada de “deslocar de uma investigação epistemológica para uma investigação praxográfica de uma realidade” (MOL, 2002, p. 32). Segundo ela, “encenar/representar a realidade envolve manipulações” (MOL, 2002, p. 89). Para a autora, “há uma certa economia em isolar objetos de suas práticas nas quais eles estão sendo encenados.
Quando as inter-relações de suas encenações são agrupadas, o corpo torna-se estabilizado como uma entidade independente” (MOL, 2002, p. 36).
A arteriosclerose nos membros inferiores encenada/representada no ambulatório do hospital é performada pela interação médico/paciente, por meio de uma entrevista,
como “dor na perna enquanto caminha”, em dificuldades nas atividades diárias do paciente, etc. Em seguida, ela é encenada/representada por alguns testes físicos feitos pelo médico no paciente, na forma de diferenças de pulsação nas artérias, em locais distintos das pernas do paciente, na coloração da pele de partes da perna, etc. Já no laboratório de patologia do hospital, a arteriosclerose nos membros inferiores é encenada/representada por lâminas de vidro, com finos pedaços de membros amputados de pacientes, e que, por meio de um microscópio, é possível a visualização das paredes engrossadas das artérias destes membros, destacados por diferentes cores de reagentes químicos. Annemarie Mol estende seus exemplos para outros locais, como a sala de cirurgia, a sala de hematologia, onde diferentes versões da arteriosclerose são encenadas/representadas. Em cada um destes locais, apesar de se usar o mesmo termo, a arteriosclerose, articula-se como um conjunto bem distinto de elementos humanos e não-humanos, assim como um conjunto bem distinto de eventos para a encenação/representação da doença.
Apesar de os objetos diferirem de uma prática para outra, há relações entre essas práticas. “Assim, longe de necessariamente cair em fragmentos, múltiplos objetos tendem a estar de algum modo muito unidos” (MOL, 2002, p. 5). De acordo com a autora,
este é um dos grandes milagres da vida do hospital: há diferentes arteriosclerose no hospital, mas apesar de suas diferenças, elas são conectadas. A arteriosclerose encenada é mais do que uma - porém menos do que muitas. O corpo múltiplo não é fragmentado. Mesmo se ele é múltiplo, ele também está muito unido (MOL, 2002, p. 55).
Segundo Mol, os objetos que são feitos possuem identidades locais e é necessário um grande esforço para a coordenação de suas diferentes versões. “Os objetos manipulados na prática não são os mesmos de um lugar para outro: então como fazer a coordenação entre tais procedimentos de objetos?” (MOL, 2002, p. 5). Ela ilustra o processo de coordenação por meio do esforço de compatibilização dos resultados de duas técnicas de exames para diagnóstico da arteriosclerose, o duplex e a angiografia:
O duplex e a angiografia apresentam diferentes dados. Uma imagem angiográfica mostra o lúmen da veia e o duplex fala sobre velocidade do sangue. Os objetos destas duas técnicas são diferentes. Então, como pode o
comparar a espessura do lúmen de uma veia com a velocidade do sangue? A fim de coordenar seus resultados, o duplex e a angiografia são feitos comparáveis (MOL, 2002, p. 75).
Quando os resultados das duas técnicas são coordenados (traduzidos), eles passam a representar um único objeto. Com a multiplicação de trabalhos sendo produzidos com o intuito de traduzir um resultado de uma técnica para outra, começa a haver uma estabilização e as regras de tradução começam a ser usadas no hospital (MOL, 2002, p. 80). Segundo a autora, “quando diferentes testes dão resultados distintos, não é obrigatório descartar um deles. É possível compreender os objetos de duas técnicas diferentes como sendo na verdade objetos diferentes” (MOL, 2002, p. 66).
O objeto encenado possui diferentes versões, porém não é um objeto fragmentado. O objeto não é, ele é feito. De acordo com MOL (2002),
se nós não presumirmos a 'doença' como sendo um objeto universal escondido sob a pele do corpo, mas fazer o deslocamento praxiográfico para estudar corpos e doenças enquanto eles estão sendo encenados/representados nas práticas diárias do hospital, multiplicações seguem. Na prática, uma doença, a arteriosclerose, não continua sendo uma. Seguindo enquanto está sendo encenada/representada, a arteriosclerose se multiplica – para a prática são muitas. Mas a ontologia que vem com a equalização do que é com o que é feito não é um tipo de pluralismo. A variedade de objetos encenados/representados não implica em sua fragmentação. Embora a arteriosclerose no hospital vem em diferentes versões, estas estão de algum modo muito unidas (MOL, 2002, p. 84).
A arteriosclerose é múltipla pois, para diferentes áreas da medicina e do hospital, ela é encenada/representada de maneira diversa (MOL, 2002, p. 55).
Isto, então, é o que eu gostaria que o termo múltiplo transmitisse: que há variações, mas não pluralismo. No hospital o corpo (singular) é múltiplo (muitos). O delineamento em conjunto de uma diversidade de objetos que vão com um único nome envolve vários modos de coordenação [...] As várias arterioscleroses encenadas no hospital Z são muitas vezes coordenadas e juntamente formam uma única doença que de algum modo estão muito unidas (MOL, 2002, pp. 84 e 87).
Porém, Annemarie Mol faz um importante questionamento: “onde origina a ação quando a arteriosclerose é encenada?” (MOL, 2002, p. 143). De acordo com a autora,
muitas entidades estão envolvidas: bisturis, questões, telefones, formulários, arquivos, fotografias, tesouras, técnicos, etc. Mas nenhum deles possui uma individualidade sólida: depois de um pouco mais de investigação, todavia, outras traduções podem ser feitas e as alianças e rupturas podem mudar de acordo com as situações empíricas ou, mais precisamente, de acordo com o
que está no enquadramento (CALLON, 1998) que é empiricamente adotado na situação e o que está dele transbordando, como o cirurgião, parece ser múltiplo. O cirurgião que encena a arteriosclerose como 'dor na caminhada' pode ter a mesma face, voz e nome do cirurgião que 'raspa uma espessa membrana interna de uma artéria'. Mas eles se diferenciam. Enquanto o primeiro é um conversador, o segundo é um cortador. Uma única pessoa pode ser capaz de se deslocar de um repertório (fala) para outro (corte). Os repertórios, por sua vez, com toda a materialidade que eles envolvem, são capazes de deslocar a identidade local encenada do cirurgião. Uma vez que nós iniciamos revelar a ontologia-prática não há mais variáveis estáveis (MOL, 2002, p. 143).
Apesar de sua identidade estar diretamente relacionada à materialidade e ao local onde são encenadas, as versões dos objetos que são feitos não são totalmente dependentes umas das outras, porém interferem umas nas outras. “Não há uma completa dependência: o cirurgião pode falar sobre uma 'estenose' ou pode, enquanto corta, expressar a esperança de que a dor do paciente vai cessar. Mas há, mesmo assim, cruciais interferências entre uma encenação e a outra” (MOL, 2002, p. 143).
Annemarie Mol apresenta a metáfora da distribuição para mostrar como diferentes versões de um objeto podem coexistir sem colidir: “A metáfora é espacial: ela me permite dizer como diferenças não são necessariamente reduzidas à singularidade se diferentes 'lugares' são mantidos separados” (MOL, 2002, p. 88). Muitas vezes não há controvérsia entre diferentes encenações de um objeto, não porque haja consenso sobre o objeto, mas porque não há sobreposição de suas práticas (MOL, 2002, p. 112). As possíveis divergências entre as versões das encenações de um objeto vão para segundo plano quando tais encenações ocorrem em lugares distintos. “A distribuição separa o que poderia de outra maneira ser conflituoso” (MOL, 2002, p. 115). Como mostra a autora,
o termo (arteriosclerose) é um mecanismo de coordenação operando em conjunto com as várias distribuições. Ele interliga as fronteiras entre os lugares sobre as quais a doença é distribuída. Ele, por meio disso, ajuda a evitar que a distribuição torne-se a pluralização da doença em objetos separados e não relacionados. A distribuição, em vez disso, coloca em separado o que, em outro lugar, um pouco mais a frente, ou um pouco depois, será novamente interligado. Ela multiplica o corpo e suas doenças – que permanecem unidos mesmo assim (MOL, 2002, p. 117).