CAPÍTULO 3 COMITÊ PARA DEMOCRATIZAÇÃO DA INFORMÁTICA: A
3.2 A Constituição do CDI
3.2.1 Mobilizando e Articulando Aliados para a Constituição o CDI
Baggio é muito enfático em sua crença de que
qualquer macro-transformação da nossa realidade dependerá de uma sinergia forte entre sociedade civil, setor empresarial e poder público. Estimulamos e incentivamos este tipo de articulação. Estamos sempre abertos para parcerias que sejam, é claro, éticas, e que sirvam para a construção de uma sociedade mais justa. Fugimos de parcerias eleitoreiras, por exemplo (BAGGIO, 2000b).
A jornalista Tatiana Csordas destaca a capacidade de Baggio em agregar e articular novos parceiros ao projeto. “Com voz gentil, Rodrigo Baggio consegue mobilizar empresas como Microsoft, atrair a atenção mundial, conquistar a adesão de líderes internacionais como Enrique Iglesias, do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), e ensinar informática a um menino de rua” (CSORDAS, 2001, p. 4).
De acordo com Baggio, para enfrentar o desafio da exclusão digital, o CDI defende que é preciso criar uma sinergia a partir da mobilização e articulação dos “vários setores que compõem a sociedade, governo, empresariado e terceiro setor” (BAGGIO, 2001a, p. 8).
Segundo ele, o CDI possui uma diversidade de parceiros e articula diversos projetos nacionais e internacionais.
No início, tivemos quatro apoios muito importantes: da United Methodist Church, que fez um dos primeiros aportes financeiros; da Ashoka, uma associação internacional que apóia financeiramente empreendedores internacionais, durante três anos, e atua em 35 países; da Fundação da Infância e Adolescência (FIA); e do Centro de Apoio a Movimentos Populares (Campo). Antes disso, nos dois primeiros anos, outras organizações também deram apoio, porém, sem recursos financeiros. O Betinho (Herbert de Souza que foi presidente e um dos fundadores do IBASE) foi um dos primeiros a nos apoiar (BAGGIO, 2003a).
O apoio da Ashoka foi fundamental para a constituição e o crescimento do CDI, destaca Pedro Jacobi, visto que por meio de
sua ligação com uma rede global de executivos, mentores e consultores, bem
organizacionais e estabelecem vínculos entre empresas e empreendedores sociais, permitiu institucionalizar o CDI, ampliar suas fronteiras e definir articulações estratégicas, assim como reforçar sua credibilidade e legitimidade (JACOBI, 2002, p. 167-168).
Outro importante parceiro é o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) que apóia, assim como a Microsoft e a Fundação Starmedia, o projeto CDI Américas. O CDI Américas visa “espalhar” a iniciativa do CDI para os países da América Latina, América Central e Caribe (CSORDA, 2001). De acordo com Fabian Koss, coordenador do programa Juventude, do BID, “além de levar a tecnologia para as populações carentes, queremos capacitar os jovens para que contribuam com o desenvolvimento desses países” (Fabian Koss in CSORDA, 2001). A rede do CDI vai ampliando suas fronteiras, aumentando a extensão de seus vínculos. Com a mobilização de um número cada vez maior de atores, formado por redes sociotécnicas de âmbito nacional e multinacional, a proposição inicial do CDI de combater a exclusão digital nas favelas do Rio de Janeiro vai sendo traduzida para a proposição combater a exclusão digital nas comunidades pobres dos países da América Latina, América Central e Caribe. Esta nova tradução reestrutura os vínculos de toda a Rede CDI, bem como as redes sociotécnicas de cada um de seus atores.
Os recursos para o funcionamento do CDI vêm, principalmente, de doações financeiras, em sua maioria do setor privado, de fundações internacionais de apoio ao empreendedorismo, como Askoka, Skoll Foundation, do qual Rodrigo é fellow, assim como de trabalho voluntário. Segundo Baggio, “temos dezenas de empresas de todos os portes que doam computadores para o CDI constantemente. Também indivíduos doam computadores. E estamos constantemente recebendo doações para expandir nossos projetos” (BAGGIO, 2000b). No início, a maior parte do apoio financeiro vinha do exterior. (BAGGIO, 2003a). Uma importante parceira internacional é a Microsoft.
Depois de uma palestra em Seatle, nos Estados Unidos, onde estava presente o pai de Bill Gates, a empresa fez um aporte de US$ 4,5 milhões em softwares e mais US$ 500 mil em dinheiro (CSORDAS, 2001).
Quando um novo ator é arregimentado para fazer parte de uma rede sociotécnica, todo o seu conjunto de vínculos, a sua rede sociotécnica é mobilizada e passa a fazer parte da rede. Assim como a entrada da Ashoka fez com que a rede do CDI se associasse a uma rede internacional de empresas, com a entrada oficial da Microsoft
na rede do CDI, por meio de um considerável aporte financeiro em liberação de licenças de uso de software para os computadores das EICs, a indústria de software proprietário e toda a rede de proteção da propriedade intelectual passou a fazer parte da articulação de inclusão digital proposta pela Rede CDI.
A fim de continuar agregando novos parceiros e manter os já articulados, há uma grande preocupação do CDI em manter uma boa reputação e credibilidade junto aos seus investidores sociais (denominação dada pelo CDI às instituições que o apóiam) (VENTURA e DARBILLY, 2004, p. 16). De acordo com Ventura e Darbilly, na visão de Rodrigo Baggio, na
relação ONG-empresa os dois lados ganham muito, pois, hoje, as empresas necessitam ter um diferencial, e percebem que o marketing social amplia a visão que o consumidor tem do produto e da empresa (...) é como se as ONGs
‘terceirizassem’ a área social das empresas (VENTURA, DARBILLY, 2004, p. 16).
Devido a sua institucionalização, bem como por sua reputação e credibilidade, já começa a haver o movimento inverso das empresas procurando o CDI para a ele associarem sua marca (VENTURA e DARBILLY, 2004, p. 17-18). Uma outra intenção da aproximação das empresas de informática com o CDI é a possibilidade do aumento do número de pessoas acessando a Internet (VENTURA, DARBILLY, 2004, p. 16).
Destacam-se outras instituições internacionais e multinacionais privadas que apóiam o CDI: Xerox, Fundação Avina, Fundação W. K. Kellogg e Dell Foundation (CSORDAS, 2001). O poder público também é parceiro do CDI em uma diversidade de iniciativas, mas o primeiro aporte de recursos públicos federais se deu apenas no ano de 2000.
Também foi a primeira vez em que o CDI recebeu recursos para comprar computadores novos. O BNDES doou “R$ 945 mil para reforma e equipagem da nossa nova sede, avaliação de impacto, material de comunicação, compra de 200 computadores para montagem de 40 novas Escolas de Informática e Cidadania” (BAGGIO, 2000b). Além disso, destaca Baggio,
[...] existem amizades e admirações recíprocas com outras instâncias do governo, como o Comunidade Solidária. Temos parceria com o governo do Estado do Rio, com a Fundação para a Infância e a Adolescência (FIA) e com o Hospital Pinel, da Secretaria Municipal de Saúde. Estas são as parcerias que mantemos com o poder público (referência ano 2000) (BAGGIO, 2000b).
Porém, ele é bastante enfático ao afirmar que vê “uma certa dificuldade do poder público em reconhecer um modelo externo. Alguns governantes preferem reinventar a roda do que apoiar projetos que já existem e estão dando certo” (BAGGIO, 2000b). De acordo com Ventura e Leonardo Darbilly, as parcerias do CDI podem ser divididas em dois níveis. O primeiro nível são as parcerias para financiar as ações do CDI Matriz, geralmente grandes instituições nacionais e internacionais. O outro nível é o apoio recebido para a manutenção e gestão dos CDI Regionais e as EICs. O apoio desses últimos é, geralmente, local. No caso das EICs, por exemplo, é fundamental o apoio de entidades no entorno do local onde será implantada a EIC (VENTURA, DARBILLY, 2004, p. 16). Segundo Baggio, o desafio para a implantação de uma EIC “é selecionar bem a organização comunitária e parceira do CDI. A capacidade empreendedora dessas organizações é um fator-chave para o sucesso das Escolas de Informática e Cidadania”
(BAGGIO, 2003a). Ainda de acordo com Baggio, “fechamos parcerias com governos estaduais e municipais, organizações comunitárias, associações de moradores ou entidades privadas que conhecem a fundo as carências de um local. Então, doamos equipamentos e voluntários” (BAGGIO, 2002a).
A mobilização de atores com redes sociotécnicas de grande abrangência espaço- temporal, quer dizer, de grande extensão, por exemplo, com abrangência multinacional, e com uma longa trajetória de formação no tempo, com anos de existência, cria um importante efeito de rede: a “reputação” e a “credibilidade”. Este efeito será tão mais efetivo quanto melhor for a articulação dos atores humanos e não-humanos da rede na consecução de sua proposição. A “marca” CDI é um efeito de rede que “atrai” novos atores para participar da Rede CDI, pois estes têm interesse em ter suas redes sociotécnicas, representadas por suas “marcas”, associadas a uma “marca” com
“reputação” e “credibilidade”. A “marca” de um ator, que tenha tais atributos, é importante estar associada à rede do CDI, pois, dessa maneira, aumenta a “reputação” e
“credibilidade” da Rede CDI para atrair novos atores com as mesmas condições. Isto vale tanto para as relações do CDI Matriz, com atores que mobilizam redes com vínculos de abrangência nacional e internacional, como para os CDIs Regionais e as EICs que se articulam com atores com vínculos de menor extensão, geralmente no âmbito de um estado, município ou de uma comunidade. Isto não significa uma diferença qualitativa dos vínculos do CDI Matriz com seus aliados, mas diferenças
quantitativas e de extensão. Por isso, não há uma diferença de nível, local e global, mas uma diferença de extensão e de número de relacionamentos. As distinções local e global devem ser consideradas, também, como um efeito de rede. Segundo Bruno Latour, os modernos “tomaram o tamanho ou a conexão como se fossem diferenças de nível [...] as palavras local e global possibilitam pontos de vista sobre redes que não são, por natureza, nem locais nem globais, mas que são mais ou menos longas e mais ou menos conectadas” (LATOUR, 1994, p. 118 e 120). De acordo com John Law, a distinção de escala, pequeno ou grande, assim como de nível, micro e macro, são para a teoria Ator-Rede efeitos relacionais e, portanto, devem ser narrados simetricamente, pois têm uma mesma lógica relacional (LAW, 2007).
É importante destacar os prêmios internacionais que Rodrigo Baggio vem recebendo pelo trabalho realizado pelo CDI, o que dá maior visibilidade ao projeto, bem como dá maior credibilidade à iniciativa. De acordo com a jornalista Tatiana Csordas,
“Baggio já foi destacado pela Time e pela CNN como um dos líderes do milênio”
(CSORDAS, 2001). De acordo com a jornalista Elis Monteiro “aos 31 anos, foi considerado pela ONU, pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento e pelo Banco Mundial como um dos cinqüenta futuros líderes da humanidade (BAGGIO, 2000b).
Como relata Baggio,
a CNN em espanhol me considerou um dos vinte líderes da internet na América Latina. Fui o único líder que não tem empresa. Nos últimos dois meses recebi uma série de prêmios (referência dezembro de 2000). A LatinTrade, uma das revistas de negócios mais importantes da América Latina, me premiou como empreendedor humanitário do ano. A CNN Internacional selecionou seis heróis locais do planeta e eles me consideraram um desses seis heróis. O World Economic Forum nos selecionou este ano como um dos 100 líderes globais do amanhã (BAGGIO, 2000b).
Porém, de acordo com Baggio, o prêmio que mais o emocionou foi o de Doutor Honoris Causa em Ciências Humanas concedido pela maior Universidade Católica dos Estados Unidos, a DePaul University, em junho de 2003. Segundo ele, “foi muito emocionante, porque veio da comunidade acadêmica. Normalmente, as universidades brasileiras estão distantes da realidade social, tanto que nossa maior articulação sempre foi com o setor social, o setor privado e as fundações” (BAGGIO, 2003a). Vale ressaltar que Rodrigo Baggio não concluiu seu curso de Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (BAGGIO, 2003a). Com tais reconhecimentos internacionais,
e por sua capacidade de articulação, Baggio vai sendo cada vez mais fortalecido com um representante de toda a complexa rede sociotécnica da Rede CDI. Vai sendo, cada vez mais, fortalecido como porta-voz (LATOUR, 2000, p. 116-122) de todos os atores articulados em torno da proposição de inclusão digital do CDI. Cada vez mais fica difícil distinguir Rodrigo Baggio de sua representação da Rede CDI. Estas premiações atribuem ainda mais “reputação” e “credibilidade” à articulação em torno da proposição da Rede CDI. Quando alguém discordar do discurso de Rodrigo Baggio relativo à inclusão digital terá que discordar de uma multidão de atores humanos e não-humanos mobilizados pela Rede CDI. Para discordar desta proposição é preciso ter uma rede de prática de inclusão digital igual ou maior que a do CDI, assim como para discordar de um fato científico é preciso ter um contra-laboratório igual ou mais bem equipado do que o que possibilitou a constituição do fato científico em questão. “Fica óbvio então que argumentar é caro” (LATOUR, 2000, p. 116).
Uma outra importante articulação deu-se com a Fundação Getúlio Vargas e as diversas empresas que ofereceram apoio à criação do Mapa da Exclusão Digital, em 2003. Esse estudo pioneiro deu visibilidade nacional ao problema da Exclusão Digital:
Através de uma iniciativa realizada pelo CDI, em parceria com a FGV, pela primeira vez o mapa da exclusão digital aponta uma fotografia do cenário brasileiro [...] se políticas públicas agirem focando médios e grandes centros urbanos, jovens em situação de risco social, moradores de periferias e favelas e afro-descendentes, a gente consegue alavancar uma grande transformação dessa realidade (BAGGIO, 2003a).
Com este importante estudo e aliado, a FGV, assim como pela concessão do título de Doutor Honoris Causa em Ciências Humanas pela DePaul University, a rede sociotécnica do CDI começa a se associar às redes acadêmicas e de produção científica.
Isto pode aumentar ainda mais a “reputação” e “credibilidade” de sua proposição de inclusão digital, pois a “Ciência” é a mais poderosa rede sociotécnica contemporânea (LATOUR, 2000).