CAPÍTULO 3 COMITÊ PARA DEMOCRATIZAÇÃO DA INFORMÁTICA: A
3.2 A Constituição do CDI
3.2.2 As Escolas de Informática e Cidadania (EICs)
e por sua capacidade de articulação, Baggio vai sendo cada vez mais fortalecido com um representante de toda a complexa rede sociotécnica da Rede CDI. Vai sendo, cada vez mais, fortalecido como porta-voz (LATOUR, 2000, p. 116-122) de todos os atores articulados em torno da proposição de inclusão digital do CDI. Cada vez mais fica difícil distinguir Rodrigo Baggio de sua representação da Rede CDI. Estas premiações atribuem ainda mais “reputação” e “credibilidade” à articulação em torno da proposição da Rede CDI. Quando alguém discordar do discurso de Rodrigo Baggio relativo à inclusão digital terá que discordar de uma multidão de atores humanos e não-humanos mobilizados pela Rede CDI. Para discordar desta proposição é preciso ter uma rede de prática de inclusão digital igual ou maior que a do CDI, assim como para discordar de um fato científico é preciso ter um contra-laboratório igual ou mais bem equipado do que o que possibilitou a constituição do fato científico em questão. “Fica óbvio então que argumentar é caro” (LATOUR, 2000, p. 116).
Uma outra importante articulação deu-se com a Fundação Getúlio Vargas e as diversas empresas que ofereceram apoio à criação do Mapa da Exclusão Digital, em 2003. Esse estudo pioneiro deu visibilidade nacional ao problema da Exclusão Digital:
Através de uma iniciativa realizada pelo CDI, em parceria com a FGV, pela primeira vez o mapa da exclusão digital aponta uma fotografia do cenário brasileiro [...] se políticas públicas agirem focando médios e grandes centros urbanos, jovens em situação de risco social, moradores de periferias e favelas e afro-descendentes, a gente consegue alavancar uma grande transformação dessa realidade (BAGGIO, 2003a).
Com este importante estudo e aliado, a FGV, assim como pela concessão do título de Doutor Honoris Causa em Ciências Humanas pela DePaul University, a rede sociotécnica do CDI começa a se associar às redes acadêmicas e de produção científica.
Isto pode aumentar ainda mais a “reputação” e “credibilidade” de sua proposição de inclusão digital, pois a “Ciência” é a mais poderosa rede sociotécnica contemporânea (LATOUR, 2000).
“produto” principal. As EICs são espaços de ensino criados pelo CDI em associação com parceiros locais, auto-geridos e auto-sustentáveis, tendo como público-alvo jovens moradores de comunidades de baixo poder aquisitivo (VENTURA, DARBILLY, 2004, p. 11; BAGGIO, 2000a). Em julho de 1994, Baggio, ao fazer uma avaliação do impacto da campanha Informática para Todos em algumas favelas do Rio, percebeu que se houvesse uma metodologia de ensino e aprendizagem adequada, “as pessoas da comunidade poderiam se apropriar melhor da tecnologia” (BAGGIO, 2003a). Segundo ele, “não adiantava só doar. Faltava o processo educativo para criar uma cultura. Daí que surgiu em 1995, na Favela Santa Marta, em Botafogo, no Rio de Janeiro, a primeira Escola de Informática e Cidadania" (BAGGIO, 2002b). A constituição do CDI é uma seqüência de sucessões concepção-adoção.
A primeira EIC foi constituída numa parceria entre a JovemLink BBS, voluntários da Campanha Informática para Todos, o Centro Cultural Padre Veloso (Colégio Santo Inácio), o Instituto C&A (que doou os cinco computadores) e a ONG Grupo ECO, que já atuava naquela comunidade e abrigou o projeto (JACOBI, 2002, p.
166; VENTURA, DARBILLY, 2004, p. 11-12). Com a grande repercussão da inauguração da primeira EIC, houve uma expressiva adesão de voluntários à iniciativa o que permitiu a abertura de dez novas EICs em um ano de projeto (JACOBI, 2001).
Em sua maioria, são ensinados nas EICs o uso do sistema operacional Windows e os aplicativos básicos da empresa Microsoft, Word, Excel, Access e, em algumas das EICs há o acesso à Internet, bem como, o acesso a técnicas de manutenção de microcomputadores. Cada EIC possui uma sala com cinco computadores, com dez alunos por turma, que recebem três horas de aula semanais (BAGGIO, 2000b). A dinâmica para a implantação de uma nova EIC é assim resumida por Rodrigo Baggio:
Em primeiro lugar, procuramos uma liderança comunitária que seja respeitada por todos, tenha credibilidade e idoneidade. Essa escolha representa 95% do sucesso da EIC. Em três meses, fazemos a capacitação inicial dos futuros educadores. É um curso básico sobre informática, sobre a pedagogia que será usada nas aulas e sobre a condução de projetos comunitários. É o suficiente para iniciar uma turma. Essa formação continua com cursos de capacitação e de atualização oferecidos pelos CDIs regionais.
No início, nós procurávamos as comunidades. Hoje, muitas nos procuram.
Vamos até lá, avaliamos e aprovamos ou não a abertura da escola. Olhamos as condições físicas e identificamos os líderes comunitários e as pessoas que podem se tornar educadores (BAGGIO, 2002c).
normalmente, o CDI doa os computadores e os softwares, muitas vezes vindos de parceiros como IBM e Microsoft, além de repassar toda sua metodologia. Já a entidade parceira que está formando a EIC providencia o local, a infra-estrutura das instalações e a equipe que vai gerir a escola, além de buscar patrocínios na própria comunidade (VENTURA, DARBILLY, 2004, p. 13).
Rodrigo Baggio destaca as responsabilidades de cada parceiro na constituição de uma EIC:
Doamos os computadores, os softwares - muitas vezes vindos de parceiros como IBM e Microsoft, ajudamos na coleta de pessoas da comunidade que ajudem a treinar e a gerir o centro, capacitamos e monitoramos os educadores e criamos redes de troca de informações, com seminários e workshops para manter todas as iniciativas integradas. Já a associação de moradores ou entidade parceira providencia o local, a infra-estrutura das instalações e a equipe que vai gerir a escola. Da mensalidade simbólica cobrada, que pode variar de R$ 5 a R$ 10, se tira o dinheiro para fazer a manutenção do espaço e para pagar voluntários e integrantes. Os alunos que não têm condições de pagar a quantia, trocam as aulas por uma participação ativa no centro (EIC), o que transforma a escola em capacitadora de jovens (BAGGIO, 2002a).
Cada uma das EICs mobiliza e articula atores humanos e não-humanos, formando uma rede sociotécnica com vínculos, em sua maior parte, de âmbito comunitário e municipal. Outro ponto que deve ser destacado é que a proposição de inclusão digital do CDI tem foco na capacitação tecnológica, mobilizando os softwares proprietários da Microsoft para tal fim. Sua proposição também opta pelo princípio da auto-sustentabilidade das Escolas de Informática e Cidadania e, portanto, define o seu público de alunos, seus adotantes. Mesmo permitindo que alunos que não tenham condições financeiras participem do projeto, é previsível que eles, em média, não sejam o maior número de usuários, visto que tal possibilidade inviabilizaria a manutenção da EIC como auto-sustentável. O conjunto de opções definidas na rede de concepção das EICs implica uma série de conseqüências de inclusão e exclusão de atores, bem como no ordenamento dos vínculos, na fase de sua adoção.
Em 2002, segundo Rodrigo Baggio, apenas um terço das EICs estavam conectadas à Internet. Conectar todas elas à Internet é um dos maiores desafios para o CDI. Ele relata que a dificuldade para atingir essa meta está na escassez de infra- estrutura de telecomunicações no Brasil, em especial nas localidades onde estão implantadas as EICs:
Esse é um grande desafio que o CDI tem pela frente. Como grande parte das escolas está localizada em favelas, há locais em que não existem linhas telefônicas disponíveis para o acesso. Há comunidades ribeirinhas na região amazônica que estão recebendo agora o primeiro telefone público. E outra dificuldade é que, no Brasil, somente 350 municípios oferecem provimento de internet. Nos outros, é preciso fazer uma ligação interurbana para se conectar. Nesse caso, os custos se elevam muito (BAGGIO, 2002c).
De acordo com Baggio, em 2002, das 403 escolas de informática, apenas 140 estão ligadas à Internet. “Na maior parte das EICs a linha telefônica é usada para as operações da escola. Os custos das conexões alternativas, como tecnologia via rádio e cabo, ainda são inviáveis para o projeto, a menos que se conte com parceiros nesta área”
(BAGGIO, 2002a). Em 2005, segundo ele, apenas 34% das EICs estavam conectadas em banda larga à Internet (BAGGIO, 2005). Apesar de ser considerada importante, nos primeiros ciclos de concepção-adoção da Rede CDI, a Internet não era um ator mobilizado, portanto o CDI pôde expandir seus vínculos para diferentes comunidades periféricas no Rio de Janeiro, assim como para outros estados e países, onde a única rede tecnológica disponível era a rede elétrica, necessária para o funcionamento dos computadores (o sistema de co-geração de energia elétrica, por meio de geradores ou outra tecnologia, está sendo considerado como parte do sistema de abastecimento de energia).