Em 1938, com o título Action Comics #1, o cânone dos super-heróis – o Superman – é criado pelas mãos de Jerry Siegel e Joe Shuster. Depois do sucesso do Homem de Aço (como também é chamado Superman) uma infi- nidade de outros super-heróis surge, marcando o princípio da chamada Era de Ouro dos quadrinhos e o início do gênero como conhecemos hoje.
Trazendo uma temática mais urbana, no início de 1939, o jovem cartunista Bob Kane, se inspira nos filmes de gângsteres, nas tiras do Fantasma (1936), nos esboços do Ornitóptero33 de Leonardo Da Vinci, nas revistas pulps34 do Sombra, nos filmes A Marca do Zorro (1920) e na estética expressionista The Bat (1926) para criar um novo personagem. Surge então, um novo super-he-
33 Um célebre o projeto de Leonardo da Vinci, elaborado no século XV, que consistia em um equipamento feito com asas acopladas aos braços, que obtém tanto a sustentação quanto a propulsão por intermédio do movimento alternativo de suas asas, semelhantemente ao que ocorre em aves, morcegos e insetos voadores.
34 Pulp ou ainda pulp fiction ou revista pulp são nomes dados, de forma pejorativa, as revistas feitas com papel de baixa qualidade (a “polpa”) a partir do início dos anos de 1900. Eram revistas que traziam histórias de qualidade menor ou absur- das, muitas vezes de cunho erótico, de terror e ficção científica. Mais tarde os Pulps deram lugar aos comics com seus su- per-heróis.
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rói – The Bat-Man. Na indústria cultural, pode-se afirmar que nada se cria, pois tudo está carregado de referências.
Mais tarde, adotando a grafia sem o hífen, o Batman (também chamado d’o Homem Morcego ou d’o Cavaleiro das Trevas), juntamente com os de- mais super-heróis que surgiram ao logo dos anos seguintes, tornou-se um bem da cultura de massa. Protagonista das narrativas ficcionais, dos folhe- tins fabulísticos, analisados por Humberto Eco em seu livro o Super-Homem de Massa - retórica e ideologia no romance popular ([1978] 1991), que dis- corre sobre o arquétipo do herói das narrativas ficcionais como símbolo da cultura de massa, oriunda da indústria cultural.
O Super-homem do folhetim tem consciência de que o rico prevarica con- tra o pobre, e que o poder se fundamenta na fraude; mas não é um profeta da luta social, como Marx, e consequentemente não repara essas injustiças subvertendo a ordem da sociedade. Simplesmente sobrepõe sua justiça à comum, aniquila os maus, recompensa os bons, restabelece à harmonia perdida. Nesse sentido o romance popular democrático não é revolucio- nário, é caritativo, consola seus leitores com a imagem de uma justiça fa- bulística; mas apesar disso põe a nu problemas e, se não oferece soluções aceitáveis, delineia análises realistas. (ECO, 1991, p. 111).
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Os heróis dos quadrinhos, assim como todos os heróis, fazem o que es- tão fazendo porque precisam fazê-lo, porque acreditam estar fazendo o cer- to, não por seus próprios motivos e emoções.
Comumente, o herói dos quadrinhos terá superpoderes para enfrentar supervilões e, por mais difícil que seja a batalha, o herói continuará sacrifi- cando-se em nome de um grupo de pessoas, da cidade onde vive, do país ou em alguns casos, do mundo. Ao relacionar o monomito do herói propos- to por Joseph Campbell ([1949]1997) com os estilos de narrativa clássica do cinema ou das histórias em quadrinhos encontramos grande afinidade. Os três estágios desta jornada – partida, iniciação e retorno – são quase a base de roteiros. Campbell ([1949]1997, p. 18) define um conceito sobre o pro- tagonista da narrativa heroica como: “Um herói vindo do mundo cotidiano se aventura numa região de prodígios sobrenaturais; ali encontra fabulosas forças e obtém uma vitória decisiva; o herói retorna de sua misteriosa aven- tura com o poder de trazer benefícios aos seus semelhantes”.
Segundo Campbell (1990, p. 138), “a façanha convencional do herói co- meça com alguém a quem foi usurpada alguma coisa”. Esse ato de heroís- mo, para Campbell (1990, p.141), é “o objetivo moral é o de salvar um povo, ou uma pessoa, ou defender uma ideia. O herói se sacrifica por algo, aí está a moralidade da coisa”. Todos os heróis precisam passar por um ciclo de
“morte” e renascimento por meio do sacrifício, físico ou espiritual, a fim de
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alcançar um objetivo. Os heróis em suas origens “morrem” como seres co- muns em determinada passagem de sua história para retornar como super- -humanos. Ao recriar o mito do cowboy, o Batman se enquadra no novo tipo de herói - o yankee, pioneiro urbano que habita agora o ambiente capitalis- ta moderno. Bruce Wayne, seu alter ego, reflete o arquétipo de modelo so- cial - um “playboy” bilionário, dono de um império de negócios econômicos, modelo de homem bem-sucedido que dedica seu tempo livre a combater os criminosos e malfeitores.
Figura 04: Capa da revista com a primeira aparição do Batman em maio de 1939.
Ao ver seus pais serem assassinados, ter seu mundo destruído, deixa de ser o menino que era para se transformar em um vigilante que busca a
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justiça na metrópole fictícia de Gotham City. O menino que fica órfão aos oito anos de idade cresce e, anos mais tarde, torna-se o símbolo de prospe- ridade financeira, cidadão modelo de honestidade e bondade reconhecido por todos, drama social que contrasta com a imagem do vigilante vingativo Batman. A construção do próprio Batman, pelo Bruce Wayne, é um exemplo de valorização de aspectos como trabalho duro, coragem, determinação, es- forço, treinamento e inteligência. Uma reconfiguração do mito do self-ma- de man35. Para Campbell (1990, p. 137) “Mesmo nos romances populares, o protagonista é um herói ou uma heroína que descobriu ou realizou alguma coisa além do nível normal de realizações ou de experiência. O herói é al- guém que deu a própria vida por algo maior que ele mesmo”.
As histórias em quadrinhos, em suas narrativas da época, procuravam a valorização do caráter e de um arquétipo característico: o homem caucasia- no, que era o herói das tramas, criado à sua imagem e semelhança daqueles a quem se destinavam as histórias. Ao enfatizar os traços de uma persona- lidade trabalhada, treinada, moldada dos heróis, proporciona para um uni- verso quase infinito de pessoas a se identificarem com tais valores simbóli- cos, passando a apreender e procurar espelhar suas próprias características individuais ao padrão do herói.
35 Expressão que numa tradução grosseira, significa algo como: faça a si próprio. Derivada dos escritos do Benjamin
Franklin, um dos fundadores dos Estados Unidos da América, que entre tantos atributos literários e inventivos, foi conside- rado o Pai do Empreendedorismo. É um termo vinculado a meritocracia.
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