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Pode-se dizer que A Voz do Brasil tem buscado, por meio da implemen- tação desses recursos, atender aos anseios de ouvintes/telespectadores por um acesso mais amplo à notícia. Mas é possível afirmar que, pela utilização dessas ferramentas, o programa pode ser classificado como uma produção transmidiática? Buscaremos a resposta para essa questão nos próximos tó- picos deste artigo.
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cia se refere a uma situação em que múltiplos sistemas de mídia coexistem e na qual o conteúdo passa por eles fluidamente. Jenkins traz os conceitos de convergência alternativa, quando há o fluxo informal de conteúdos de mídia entre os consumidores, que deles se apropriam e os modificam para novamente compartilhá-los; convergência corporativa, quando há um fluxo comercialmente direcionado de conteúdos de mídia; convergência cultural, que se caracteriza pela mudança na lógica pela qual a cultura opera, com ên- fase no fluxo de conteúdos pelas mídias; e convergência tecnológica, que é a combinação de funções dentro do mesmo aparelho tecnológico (JENKINS, 2009).
A convergência, como podemos ver, é tanto um processo corporativo, de cima para baixo, quanto um processo de consumidor, de baixo para cima.
A convergência corporativa coexiste com a convergência alternativa. Em- presas de mídia estão aprendendo a acelerar o fluxo de conteúdo de mí- dia pelos canais de distribuição para aumentar as oportunidades de lucros, ampliar mercados e consolidar seus compromissos com o público. Con- sumidores estão aprendendo a utilizar diferentes tecnologias para ter um controle mais completo sobre o fluxo da mídia e para interagir com outros consumidores. (JENKINS, 2009, p. 46).
Um processo em que um único conteúdo é replicado em diferentes mí- dias pode ser uma das aplicações do conceito de convergência. Por exemplo:
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A Voz do Brasil é transmitida por meio do rádio, mas a mesma transmissão pode ser acompanhada pela Internet, em web rádios ou em vídeo no site do programa. O público escolhe a forma que considerar mais prática para acompanhar o noticiário.
Em Cultura da Conexão, Jenkins, Greem e Ford (2014, p. 23) reforçam a necessidade de propagação das mídias, uma vez que, “se algo não se pro- paga, está morto”. Mas, para que o conteúdo esteja mais suscetível à pro- pagação, ele precisa ter algumas características: estar disponível quando e onde o público quiser; ser portátil; ser facilmente reutilizável em uma série de maneiras; ser relevante para os diversos públicos; e ser parte de um flu- xo constante de material. Todas as principais mídias vêm sendo influencia- das pela Internet como uma forma de adaptação às transformações que ela trouxe aos meios de comunicação, e aplicar esse conhecimento às formas de comunicação atuais faz com que a empresa ou instituição construa uma relação efetiva com o seu público-alvo. A busca por interatividade e infor- mação faz com que um produto ou serviço torne-se importante para esse usuário, desde que traga o conteúdo que ele considera relevante e da forma mais apropriada.
Já a narrativa transmídia é, segundo Denis Porto e Jesús Flores (2012), uma linguagem que tem como característica uma estrutura narrativa que traz uma história compartilhada em fragmentos, utilizando múltiplas plataformas. São
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conteúdos distintos que circulam em vários meios e estão conectados. Uma notícia contada a partir de diversas histórias (independentes), em distintos meios (e linguagens), que, em conjunto, oferecem uma nova história passí- vel de comentários e circulação por redes sociais e em dispositivos móveis.
El Periodismo transmedia viene a ser una forma de lenguaje periodístico que contempla, al mismo tiempo, distintos medios, com varios lenguajes y narrativas a partir de numerosos medios y para uma infinidad de usuarios.
Por tanto, son adoptados recursos audiovisuales, de comunicación móvil y de interactividad en la difusión del contenido, incluso a partir de la blogos- fera y de las redes sociales, lo que amplia de forma considerable la circula- ción del contenido. (FLORES E PORTO, 2012, p. 85).
A narrativa transmídia amplia a informação, pois se caracteriza por um conjunto de mídias que, juntas, contam uma determinada história, que pode não ter seu sentido completo se o público acessar apenas algumas de suas partes. Como cada uma das mídias possui características próprias, elas con- tribuirão de forma específica para o desenvolvimento do enredo.
Diferentemente de um conteúdo transmídia, um conteúdo crossmedia (termo que teve origem na década de 1990, traduzido como crossmídia no Brasil) tem como característica a distribuição dos serviços, produtos e expe- riências por meio das diversas mídias e plataformas de comunicação para
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atingir o público, mas sem que a mensagem sofra qualquer alteração de um meio para o outro30. Como, por exemplo, o fato de A Voz do Brasil ser trans- mitida simultaneamente por rádio e pela Internet, em áudio e vídeo, porém, sem qualquer alteração em seu formato ou apresentação. A transmissão em vídeo conta com o recurso da imagem, mas não há qualquer diferença na forma de abordagem ao ouvinte/ telespectador do programa. O mesmo se dá com a utilização do Twitter pelo informativo. A rede social não é utilizada de forma a proporcionar uma experiência diferente ao internauta com rela- ção ao programa. Sua utilização se restringe à reprodução de manchetes e chamada para o início do radiojornal, sem que haja qualquer interação com os seguidores por meio de replies (respostas e interações entre usuários no microblog). Chegando a essa linha de raciocínio, podemos, enfim, vislum- brar uma resposta para a questão anteriormente formulada.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A trajetória d’A Voz do Brasil conta com uma história de longos perío- dos de sua utilização como ferramenta de persuasão durante a ditadura no
30 Midiatismo. Vamos entender a diferença entre Crossmedia e Transmídia. Disponível em: <http://www.midiatismo.com.
br/o-marketing-digital/vamos-entender-a-diferenca-entre -crossmedia-e -transmidia-cirandablogs>. Acesso em 23 out.
2015.
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Brasil e diversas reformulações nos últimos anos no intuito de reverter a ne- gatividade de sua imagem. Apesar de sua obrigatoriedade gerar discussões sobre sua efetiva necessidade ainda nos dias atuais, A Voz do Brasil nunca deixou de ser um dos principais produtos da comunicação institucional do Palácio do Planalto. Apenas após a reformulação do projeto radiojornalísti- co, com o fim do regime ditatorial (PEROSA, 1995), é que se deu a percepção da necessidade de abertura da informação pelos entes públicos, e foi aí que se passou a rever o formato do programa.
As mudanças implementadas pela direção do informativo nos últimos anos, tendo em vista o crescimento do uso das redes sociais online no país e o surgimento de novas possibilidades de propagação da informação com o avanço da Internet, tiveram como objetivo a inserção do programa no con- texto atual de convergência midiática e da otimização dos processos de in- teração entre produtores de conteúdo e o público. No entanto, neste breve estudo, pudemos observar que essas ferramentas são exploradas ainda de forma rasa pelo programa. A simples disposição de informações em meios de comunicação diferentes (transmissão em vídeo pela Internet e replicação de notícias de órgãos do governo no Twitter) não é sinônimo de grandes novidades que possam tornar o programa de fato mais atrativo.
Os ares de inovação trazidos pela direção d’A Voz do Brasil se limitaram à reprodução do mesmo conteúdo em espaços diferentes de comunicação
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(crossmídia), em detrimento de uma efetiva construção de conteúdos que se integrassem e que levassem em consideração a peculiaridade de cada meio (transmídia). Sendo assim, pode-se afirmar que o jornalismo praticado pelo programa, embora propagado em mais de um suporte comunicacional (convergente), não pode ser classificado como transmidiático.
É importante salientar que as transformações sofridas pelo programa fo- ram positivas e objetivaram proporcionar um maior acesso do público aos seus conteúdos. No entanto, faz-se preciso atentar para o fato de que a de- manda do ouvinte-internauta mudou significativamente nos últimos anos e exigiu que aqueles que trabalham em rádio abrissem espaço para mudanças também mais significativas. Como afirma Milton Jung (2007, p. 69), “a Inter- net abduziu os veículos impressos, tomou o rádio e começa a consumir a te- levisão. Na convergência as mídias não desaparecem, somam-se e impõem desafios ao jornalista”.
Além de receber a informação, esse novo público quer participar da cons- trução dessa informação e quer ter disponíveis conteúdos interessantes e diversificados. Essa é uma reflexão que se faz necessária não só para a EBC e os produtores d’A Voz do Brasil, mas para todos os que fazem a comu- nicação pública e que se habituaram ao emprego de padrões engessados, que não acompanham a velocidade com a qual novas possibilidades surgem diariamente. Afinal, para se conquistar espaços e vender qualquer coisa nos
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dias de hoje – sejam produtos, notícias ou ideias –, a palavra-chave é criati- vidade.
REFERÊNCIAS
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CORDEIRO, Paula. Rádio e Internet: novas perspectivas para um velho meio, 2012.
Disponível em: <http://www.bocc.ubi.pt/pag/cordeiro-paula-radio-internet-novas- -perspectivas.pdf> Acesso em: 14 out. 2014.
FLORES, Jesús; PORTO, Denis. Periodismo Transmedia. Madrid: Fragua, 2012. JENKINS, Henry. Cultura da convergência. 2. ed. São Paulo: Aleph, 2009.
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KUNSCH, Margarida Maria Krohling. Planejamento de Relações Públicas na Comuni- cação integrada. São Paulo: Summus, 2003.
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MCLEISH, Robert. Produção de rádio: um guia abrangente de produção radiofônica.
São Paulo: Summus, 2001.
PEROSA, Lilian Maria F. de Lima. A Hora do Clique: Análise do Programa de Rádio
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RECUERO, Raquel. Rede Sociais na internet. Porto Alegre: Sulina, 2009.
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