O ciclo de vida dos produtos, na perspectiva da PNRS, é compreendido como uma “série de etapas que envolvem o desenvolvimento do produto, a obtenção de matérias primas e insumos, o processo produtivo, o consumo e a disposição final” (BRASIL, 2010).
Encerra-se “quando dele resultar um resíduo sólido não passível de tratamento ou recuperação, sendo a única possibilidade restante a disposição final ambientalmente adequada” (MILARÉ, 2011, p. 895).
Com base nisso, a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, princípio basilar da PNRS, pode ser definida como o
conjunto de atribuições individualizadas e encadeadas dos fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes, dos consumidores e dos titulares dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo dos resíduos sólidos, para minimizar o volume de resíduos sólidos e rejeitos gerados, bem como para reduzir os impactos causados à saúde humana e à
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qualidade ambiental decorrentes do ciclo de vida dos produtos (BRASIL, 2010).
É instituída pelo art. 30 da Lei 12.305/10, e possui diversos objetivos, dentre os quais se destaca a compatibilização de interesses dos agentes econômicos e sociais e dos processos de gestão ambiental e mercadológica, com os de gestão ambiental; a promoção do aproveitamento de resíduos sólidos; a redução da geração de resíduos, da poluição e dos danos ambientais; o incentivo ao consumo, produção e desenvolvimento de mercado de produtos oriundos de materiais reciclados e recicláveis; e o estímulo às boas práticas de responsabilidade socioambiental (BRASIL, 2010).
Observa-se, assim, que a PNRS estabelece uma cadeia de responsabilidades, a qual abrange todos os agentes envolvidos no ciclo de vida do produto, mas “não retira a individualização de cada ação ou omissão da pessoa física ou jurídica, de direito público ou de direito privado” (MACHADO, 2013, p. 625).
Ademais, a política elenca entre seus instrumentos [art. 8º, III] ferramentas relacionadas à implementação da responsabilidade compartilhada, tais como os acordos setoriais, a coleta seletiva e os sistemas de logística reversa.
Acordo setorial é todo aquele “ato de natureza contratual firmado entre o poder público e fabricantes, importadores, distribuidores ou comerciantes, tendo em vista a implantação da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida do produto”
(BRASIL, 2010). Na perspectiva de Sirvinskas (2012, p. 435), tais acordos constituem um ponto de extrema relevância da lei e possibilitarão o estabelecimento e operacionalização da logística reversa.
Já a logística reversa é caracterizada “por um conjunto de ações, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos, ou outra destinação final ambientalmente adequada” (BRASIL, 2010). Constitui, assim, um “procedimento que enseja a aplicação da responsabilidade ‘pós-consumo’” (MACHADO, 2013, p. 652).
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Nos termos do art. 33 da PNRS, o sistema de logística reversa deve ser estruturado e implementado obrigatoriamente pelos fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes12 de:
I - agrotóxicos, seus resíduos e embalagens, assim como outros produtos cuja embalagem, após o uso, constitua resíduo perigoso, observadas as regras de gerenciamento de resíduos perigosos previstas em lei ou regulamento, em normas estabelecidas pelos órgãos do Sisnama, do SNVS e do Suasa, ou em normas técnicas; II - pilhas e baterias; III - pneus; IV - óleos lubrificantes, seus resíduos e embalagens; V - lâmpadas fluorescentes, de vapor de sódio e mercúrio e de luz mista; VI - produtos eletroeletrônicos e seus componentes.
Tais sujeitos13, com o intuito de garantir a implementação do sistema, poderão estabelecer procedimentos de compra de produtos ou embalagens utilizadas, disponibilizar postos de coleta de resíduos reutilizáveis e recicláveis, e agir em parceria com cooperativas (BRASIL, 2010).
Ainda no que diz respeito aos instrumentos da responsabilidade compartilhada, é possível mencionar a coleta seletiva, a qual pode ser definida como a “coleta de resíduos sólidos previamente segregados conforme sua constituição ou composição” (BRASIL, 2010).
Possibilita a redução dos custos dos processos voltados ao reaproveitamento de resíduos sólidos, bem como o aumento do seu valor agregado, devendo integrar os Planos de Resíduos Sólidos, com ênfase aos Municipais (MILARÉ, 2011, p. 877).
Ressalta-se que, de acordo com o art. 35 da Lei 12.305/10, sempre que o plano municipal de gestão integrada de resíduos sólidos estabelecer o sistema de coleta seletiva, ou no caso do art. 33, os consumidores deverão acondicionar de
12 É preciso mencionar que a responsabilidade dos fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes abrange: I - investimento no desenvolvimento, na fabricação e na colocação no mercado de produtos: a) que sejam aptos, após o uso pelo consumidor, à reutilização, à reciclagem ou a outra forma de destinação ambientalmente adequada; b) cuja fabricação e uso gerem a menor quantidade de resíduos sólidos possível; II - divulgação de informações relativas às formas de evitar, reciclar e eliminar os resíduos sólidos associados a seus respectivos produtos; III - recolhimento dos produtos e dos resíduos remanescentes após o uso, assim como sua subsequente destinação final ambientalmente adequada, no caso de produtos objeto de sistema de logística reversa na forma do art. 33; IV - compromisso de, quando firmados acordos ou termos de compromisso com o Município, participar das ações previstas no plano municipal de gestão integrada de resíduos sólidos, no caso de produtos ainda não inclusos no sistema de logística reversa (BRASIL, 2010).
13 Nos termos do §3º, do art. 33: “[...] cabe aos fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes dos produtos a que se referem os incisos II, III, V e VI ou dos produtos e embalagens a que se referem os incisos I e IV do caput” (BRASIL, 2010).
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maneira adequada e diferenciada os resíduos sólidos gerados, bem como disponibilizá-los para a coleta ou devolução (BRASIL, 2010).
Por meio da coleta seletiva é possível dar destinação final adequada aos resíduos sólidos, possibilitando não só a reciclagem, mas também eventual reutilização, recuperação e aproveitamento energético, ou até mesmo a sua destinação para a compostagem. Além disso, permite a identificação dos resíduos sólidos não passíveis de tratamento e recuperação por processos tecnológicos disponíveis e economicamente viáveis, e bem assim, a disposição final desses rejeitos em aterros (MILARÉ, 2011, p. 877).
Destaca-se, por fim, que compete ao titular dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo de resíduos sólidos, a adoção de procedimentos para o reaproveitamento de resíduos; o estabelecimento de sistema de coleta seletiva; a disposição final ambientalmente adequada aos resíduos e rejeitos provenientes de suas atividades; entre outros (BRASIL, 2010).
6 Breves reflexões sobre os princípios basilares da PNRS: potencialidades
A problemática envolvendo os resíduos sólidos é complexa e intricada, envolvendo as mais diversas esferas da sociedade. Assim, é possível afirmar que
A Política Nacional de Resíduos Sólidos tem uma abrangência extraordinária. Com efeito, suas diferentes faces na visão holística do meio ambiente (sanitária, social, econômica, técnica, cultural e política) fazem dela uma política nacional verdadeiramente transdisciplinar como, na realidade, é o meio ambiente (MACHADO, 2011, p. 900).
Na maneira como foi estruturada, apresenta muitas potencialidades para solucionar os desafios e entraves no âmbito dos resíduos no Brasil. Em seu bojo, traz um arcabouço instrumental de planos de resíduos sólidos, de sistemas de informações e de pesquisa que, se forem efetivamente aplicados e desenvolvidos, constituirão ferramentas importantes para a gestão e gerenciamento dos resíduos.
Outrossim, seus princípios basilares apresentam-se como elementos norteadores fundamentais para a consecução de seus objetivos e diretrizes, seja na elaboração e efetivação dos planos, soluções e projetos; seja na atuação conjunta do Poder Público, setor empresarial e coletividade. Dentre eles, destacam-se a visão sistêmica, a cooperação e a responsabilidade compartilhada, princípios
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interrelacionados e complementares, que devem atuar como balizadores da implementação da PNRS.
A visão sistêmica consolida uma perspectiva holística no âmbito da política e proporciona um novo enfoque multidisciplinar na gestão dos resíduos, que deve também alcançar as medidas de gerenciamento e a ação dos atores sociais.
Ao considerar as variáveis tecnológica, social, cultural, econômica e ecológica, proporciona a construção e o fomento de soluções para os resíduos sólidos dotadas de características globais, aptas a promover a redução das desigualdades sociais, a melhoria na qualidade de vida e o aprofundamento da pesquisa, ao passo em que resolvem a questão à qual se destinam.
Igualmente, cumpre destacar que os novos parâmetros da responsabilidade compartilhada aliados às mais diversas modalidades de cooperação entre o Poder Público, setor empresarial e sociedade civil em geral, representam o caminho para a efetivação de medidas promotoras da qualidade ambiental e mitigadoras dos danos e riscos ao meio ambiente.
Assevera-se, por fim, que os dispositivos da PNRS, repensados, estruturados e implementados a partir de seus princípios basilares, por meio de um enfoque integrativo e holístico, constituem a chave para a concretização das potencialidades da PNRS.
7 Considerações Finais
Com base no exposto, é possível asseverar que a questão dos resíduos sólidos constitui um dos grandes problemas ambientais enfrentados pela sociedade pós-moderna, que atinge o meio ambiente urbano, natural e cultural. Dessa maneira, integra os problemas ambientais de segunda geração e deve ser analisada sob a perspectiva do Estado de Direito Ambiental e seus objetivos.
Nesse sentido, a Política Nacional dos Resíduos Sólidos, instituída pela Lei nº 12.305/10, representa uma resposta às necessidades emergentes da sociedade em meio à crise ambiental, marcada pela conjuntura das questões ambientais complexas, de caráter intergeracional e transfronteiriço.
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Sistematiza, assim, um conjunto de diretrizes, objetivos, instrumentos e princípios voltados à gestão e ao gerenciamento de resíduos sólidos. Nessa perspectiva, destacam-se os princípios da visão sistêmica, da cooperação e da responsabilidade compartilhada, como balizadores das ações, projetos, políticas e acordos desenvolvidos no seu âmbito.
Por derradeiro, constata-se que a PNRS apresenta uma série de potencialidades, no que tange à busca de soluções para os resíduos sólidos e de uma proteção mais integral do meio ambiente. Para concretizá-las, portanto, torna- se necessária a adoção de uma visão holística e integrativa para a consecução dos seus objetivos, bem como dos desígnios do Estado de Direito Ambiental.
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SIRVINSKAS, Luís Paulo. Manual de Direito Ambiental. 10. Ed. São Paulo: Saraiva, 2012.
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3 Ensaio sobre os desafios da
integração das políticas de recursos hídricos e de resíduos sólidos
Thaís Dalla Corte1 Flávia França Dinnebier2
1 Introdução
A Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída pela Lei nº. 12.305/2010, possui estrita relação com o gerenciamento de recursos hídricos. Contudo, para que haja uma integração efetiva entre a disposição dos recursos sólidos e a qualidade das águas, diversos são os desafios que necessitam ser enfrentados em sua implementação. Deve-se levar em consideração que, durante anos, o solo vem sendo contaminado, entre outros fatores, pelo descarte irregular de materiais, bem como pela gestão administrativa ineficaz de lixões e de aterros sanitários/controlados – o que degrada, consequentemente, as reservas hídricas (tanto as superficiais, quanto as subterrâneas).
Muitos são os problemas sociais e ambientais que decorrem da destinação e da disposição final inadequada de resíduos, principalmente do esgoto (residencial e,
1 Advogada. Mestranda em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC/SC), sendo bolsista Capes Membro do Grupo de Pesquisa em Direito Ambiental da Universidade Federal de Santa Catarina (GPDA/UFSC). Especialista em Direito Público com ênfase em Direito Constitucional pela Escola Superior Verbo Jurídico (ESVJ/RS). Concluiu o curso regular da Escola Superior da Magistratura Federal (ESMAFE/RS). E-mail:
2 Advogada. Mestranda em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC/SC), sendo bolsista Capes. Membro do Grupo de Pesquisa em Direito Ambiental da Universidade Federal de Santa Catarina (GPDA/UFSC). Técnica em Gestão Ambiental pelo Instituto Federal Santa Catarina (IFSC/SC). E-mail:
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em destaque, o industrial)3. No Brasil, em razão da carência de infraestrutura, bem como pela não universalização de serviços públicos básicos, cada vez mais, as águas têm sido poluídas, o que contribui para a redução de sua disponibilidade em razão da sua má qualidade. Ou seja, há uma interferência em seu padrão de potabilidade decorrentes de condutas (comissivas ou omissivas) de agentes externos, as quais poderiam ter sido prevenidas/precavidas se houvesse uma percepção sistêmica da realidade pela sociedade e pelos gestores, a partir, por exemplo, de uma maior consciência ambiental, de vontade política e de investimentos públicos.
Ademais, maiores custos e encargos, em efeito sequencial, decorrem da falta de compatibilização entre as políticas de resíduo sólidos e hídrica, como são os casos de tratamento de saúde pela ingestão de água e/ou alimentos contaminados, os quais, em razão da grande vulnerabilidade econômica-social da população, acabam sendo custeados pelo governo (e, em consequência, por toda a população).
Também, falta fiscalização pelo poder público, pois de nada adiantam a disposição formal de leis e de aportes financeiros em prol de políticas integrativas entre os resíduos sólidos e as águas, se não houver controle das atividades realizadas no solo. Nesse sentido, importa ressaltar que a situação do descarte dos resíduos sólidos e do acesso a sistemas de saneamento básico é muito mais precária na zona rural do que na urbana.
Além do que, as políticas públicas e as regulamentações sobre o resíduos sólidos são bastante recentes – como é o caso da responsabilidade compartilhada dos geradores e do poder público pelo ciclo de vida dos produtos, a qual possui influência, ainda que indireta, na gestão das águas – encontrando-se em vias de implementação. Ainda, há outras leis, como o Estatuto da Cidade (Lei nº. 10.257/01), a Política Nacional do Meio Ambiente (Lei nº. 6.938/81), a de saneamento básico (Lei n°. 11.445/07), entre outras, as quais, apesar de não tratarem especificamente de resíduos sólidos e de recursos hídricos, possuem confluências no seu trato e no seu planejamento estratégico, assim como diversas resoluções do CONAMA
3 Convém destacar que as atividades que mais poluem e prejudicam os corpos de água, mormente os subterrâneos, estão sob a jurisdição dos municípios. Durante a Rio + 20, Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (CNUDS), a Agência Nacional das Águas apresentou dados sobre a qualidade dos recursos hídricos urbanos brasileiros, sendo constatado que “47% dos 135 pontos de águas em áreas urbanas monitorados em 2010 apresentaram índice de qualidade péssimo ou ruim”, sendo o resultado “[...] um reflexo da alta taxa de urbanização, combinada com baixos níveis de coleta e tratamento de esgoto”. (TERRA, 2012).
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(Conselho Nacional do Meio Ambiente) e da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas).
Diante do exposto, esta pesquisa, no ramo das Ciências Jurídicas e Sociais, insere-se nas áreas do Direito Constitucional, do Direito Ambiental, do Direito Administrativo e do Direito das Águas (ou Direito Hídrico)4. No mesmo sentido, convém destacar que o presente estudo adota uma visão ecológica5 e interdisciplinar sobre a integração das políticas de águas e de resíduos sólidos, pois articula elementos do Direito e de outras ciências como, por exemplo, a biologia, a sociologia – entre outros – com o escopo de que, além e por intermédio delas, se obtenha uma melhor compreensão do assunto. Também, visando à apreensão profunda do tema em voga, em relação ao método de abordagem, adota-se o indutivo, partindo-se de um levantamento particular para se chegar a conclusões gerais. Assim, objetiva-se analisar os desafios de gestão conjunta dos recursos hídricos e dos resíduos sólidos.
Para tanto, a fim de avaliar a atual situação dos recursos hídricos e sua correlação com os resíduos sólidos, com destaque para as questões referentes ao saneamento básico, analisa-se um panorama geral das águas, bem como a crise hídrica.
2 Panorama da água: Aspectos socioambientais, a crise hídrica e os resíduos sólidos
A água é um dos recursos naturais mais abundantes da Terra, o que lhe faz ser reconhecida como Planeta Azul (ou Planeta Água). Caracteriza-se por ser um bem renovável, porém em escassez. A data e a forma pela qual a mesma surgiu no mundo são controvertidas; contudo, estima-se que, desde o seu surgimento até os
4 Ainda que o entendimento não seja unânime, este estudo filia-se ao reconhecimento do Direito das Águas como um ramo autônomo da ciência jurídica, já que o mesmo cumpre requisitos científico, normativo e didático.
No mesmo sentido, Commetti, Vendramini, Guerra (2008, p. 45-68), D’Isep (2010, p. 71-76), entre outros.
5 A visão ecológica, por conceber o ser humano inserido no meio ambiente como, apenas, um fio da teia da vida, aprofunda e difere-se do paradigma holístico, já que “[...] reconhece a interdependência fundamental de todos os fenômenos, e o fato de que, enquanto indivíduos e sociedades, estamos todos encaixados nos processos cíclicos da natureza (e, em última análise, somos dependentes desses processos)”. (CAPRA, 2012, p.
25).
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dias atuais, sua quantidade é estável. Assim, o volume aproximado de água encontrado na Terra é de, em média, 1.386.000.000 km³. Entretanto, essa disponibilidade não é suficiente para atender toda a população, sendo que, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), mais de um bilhão de pessoas6, hodiernamente, não tem acesso à água potável. Além de possuir uma distribuição irregular em seu território, a maior quantidade de recursos hídricos7, apesar da ampla classificação de seus tipos8, é salgada (97,5%). Logo, são água doce apenas os outros 2,5% restantes, sendo a sua maior extensão subterrânea9. (GUMARÃES, 2007, p. 16-18).
A despeito da pouca quantidade, múltiplos são os usos econômicos e sociais dos recursos hídricos doces. Eles dividem-se, de forma geral, em agrícolas, industriais e domésticos. A maior parte da água doce retirada dos mananciais no mundo, aproximadamente 70%, é destinada exclusivamente à agricultura. Assim, somente 20% dos recursos hídricos doce são utilizados pelo setor industrial e 10%
são para uso doméstico. Contudo, esse valor é uma média mundial. Portanto, os percentuais podem variar. Por exemplo, na América do Sul 68,2% das águas são destinadas à agricultura, 12,6% são utilizadas pelas indústrias e 19,2% são consumidas domesticamente. Já, na Europa tais proporções não se confirmam, sendo o maior uso das águas no setor industrial, com 52,6%. Dessa maneira,
6 Durante a Rio + 20, Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (CNUDS), os recursos hídricos foram um dos assuntos de destaque, revelando-se que, apesar de uma parcela significativa da população mundial não ter, ainda, acesso à água, um dos ‘Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) foi alcançado: “entre 1990 e 2010, mais de dois bilhões de pessoas obtiveram acesso a fontes de água potável, tais como abastecimento por tubulações e poços protegidos”. A Organização das Nações Unidas (ONU) define o acesso à água como disponibilidade de fonte de água capaz de fornecer vinte litros ao dia do líquido, numa distância não superior a mil metros, para cada pessoa. No evento frisou-se também que, em razão do aumento da demanda, há menos água no planeta disponível para consumo. (ONU, 2013a).
7 Este trabalho não distingue as terminologias água e recurso hídrico. Portanto, ambos são considerados sinônimos, uma vez que os legisladores constituinte e infraconstitucional não adotaram nomenclatura uniforme em seus textos. Também segue esse posicionamento Silva (2008, p. 219) e outros autores.
8 Apesar das águas doces e salgadas ganharem destaque na abordagem acadêmica, a classificação científica dos seus tipos é mais ampla, abrangendo as seguintes categorias: potável, salobra, doce, salgada, contaminada, destilada, mineral e poluída. Ressalta-se que um mesmo corpo hídrico pode se enquadrar em mais de uma das classes referidas ou, ainda, alterá-la (dependendo da condição a que estiver exposta). (FREITAS, 2008, p. 17).
9 Conforme Guimarães (2007, p. 16): “Do total de volume de água doce, somente 0,3% estão em rios e lagos, ou seja, é de fácil acesso para a população. A água subterrânea corresponde a 29,9% do volume de água doce. O restante da água doce está em locais de difícil acesso, principalmente nas calotas polares e geleiras (68,9%) e, ainda, em solos gelados, umidade do solo, pântanos, entre outros (0,9%). Portanto, 98,7% correspondem à parcela de água doce subterrânea, e apenas 0,9% corresponde ao volume de água doce superficial (rios e lagos), diretamente disponível para o consumo humano”.